A crise será longa - Digital Balde Branco

CRÔNICA

Paulo do Carmo Martins 

Chefe-geral da Embrapa Gado de Leite

 Está ruim para o pro­du­tor, para a indús­tria e para o con­su­mi­dor. Há duas saí­das para esta cri­se: espe­rar o aumen­to da ofer­ta de grãos; espe­rar o cres­ci­men­to da eco­no­mia. Nenhu­ma das duas saí­das pare­ce próxima”

A crise será longa

Há anos em que temos pro­ble­mas de deman­da, em outros, de ofer­ta. Já tive­mos exces­so de deman­da, que é quan­do fal­ta lei­te, cujo recor­de foi atin­gi­do em 1996. Tudo come­çou com o Pla­no Real. A deman­da vinha cres­cen­do con­ti­nu­a­men­te des­de 1994, quan­do foi cri­a­do o Pla­no, que aumen­tou o poder de com­pra das famí­li­as, prin­ci­pal­men­te de bai­xa ren­da, com a que­da subs­tan­ci­al da infla­ção. Isso levou o Bra­sil a fazer uma impor­ta­ção em pata­ma­res nun­ca vis­tos, de US$ 600 milhões, em valo­res daque­le ano. 

Tam­bém, há momen­tos em que ocor­re o con­trá­rio. A escas­sez de deman­da é quan­do sobra lei­te, que ocor­re em geral quan­do o poder aqui­si­ti­vo da popu­la­ção está bai­xo. Isso se asse­me­lha ao qua­dro de exces­so de ofer­ta, que ocor­re quan­do há uma exces­si­va quan­ti­da­de de impor­ta­ção. Tam­bém ocor­re situ­a­ções em que há escas­sez de ofer­ta, que é quan­do ocor­re algum pro­ces­so de frus­tra­ção de pro­du­ção, e o mais fre­quen­te é ocor­rer carên­cia de chu­vas ou uma que­da abrup­ta de tem­pe­ra­tu­ra, capaz de pre­ju­di­car as pastagens.

No ano de 2020 ocor­reu um fenô­me­no pre­vis­to em ter­mos de pre­ços inter­na­ci­o­nais. De janei­ro a abril os pre­ços do lei­te em pó, medi­do pelo lei­lão GDT, caí­ram cer­ca de US$ 600,00, ou cer­ca de 20%. Por­tan­to, em pou­co tem­po des­pen­ca­ram, na medi­da em que o mun­do toma­va conhe­ci­men­to do que era a Covid-19. No res­tan­te do ano os pre­ços pati­na­ram. O que se viu no mun­do foi uma que­da subs­tan­ci­al de con­su­mo, moti­va­da pela escas­sez de deman­da no seg­men­to de food ser­vi­ce, ou ins­ti­tu­ci­o­nal. A subs­tan­ci­al que­da da deman­da vin­da de hotéis e res­tau­ran­tes der­ru­bou absur­da­men­te os preços. 

Já no Bra­sil ocor­reu o con­trá­rio. Tive­mos uma leve que­da do pre­ço ao pro­du­tor entre abril e maio, mas os pre­ços dis­pa­ra­ram ao lon­go do ano, a par­tir daí. Aqui tam­bém hou­ve que­da do mer­ca­do de food ser­vi­ce, mas hou­ve uma com­pen­sa­ção ime­di­a­ta do con­su­mo em resi­dên­ci­as. Duas expli­ca­ções para esse fenô­me­no: a ren­da dis­tri­buí­da para os sem-ren­da, ou coro­na­vou­cher, e o cha­ma­do con­su­mo indul­gen­te. As pes­so­as resol­ve­ram com­pen­sar a soli­dão do perío­do em que fica­ram em casa, con­su­min­do doce de lei­te, quei­jos e outras delí­ci­as lácteas.

Em outu­bro eu pre­vi que tería­mos um ano difí­cil. O moti­vo é que eu per­ce­bia uma ten­dên­cia de cres­ci­men­to nos pre­ços, moti­va­da pela ele­va­ção dos cus­tos. Naque­le mês deu para per­ce­ber que as mar­gens do pro­du­tor iri­am ficar cada vez mais estrei­tas. Mas o fato é que fecha­mos o ano de 2020 com balan­ço favo­rá­vel para pro­du­to­res e indús­tria. E para con­su­mi­do­res tam­bém. Ape­sar de pre­ços recor­des para quei­jo, por exem­plo, não hou­ve mui­ta recla­ma­ção de quem paga a con­ta da cadeia pro­du­ti­va, os consumidores.

Já nes­te ano, em ter­mos de mer­ca­do inter­na­ci­o­nal, os pre­ços que vinham pati­nan­do em tor­no de US$ 3.100,00 até dezem­bro, pas­sa­ram de US$ 4.200,00 em ape­nas 90 dias e mudou de pata­mar. No mer­ca­do bra­si­lei­ro tam­bém hou­ve uma mudan­ça de pata­mar, mas ain­da em setem­bro do ano pas­sa­do, com os pre­ços osci­lan­do entre R$ 2,10 a R$ 2,20 o litro. Com o iní­cio do ano, hou­ve uma que­da para uma fai­xa que ficou de R$ 1,90 a R$ 2,10, rom­pen­do essa bar­rei­ra a par­tir de junho, com viés de alta de preços.

Por­tan­to, se os pre­ços estão alto lá fora, isso é bom para quem pro­duz lei­te, pois há um deses­tí­mu­lo natu­ral à impor­ta­ção. Ain­da mais quan­do vive­mos uma situ­a­ção de Dólar valo­ri­za­do fren­te ao Real. Mas por que os pro­du­to­res estão recla­man­do? Ora, por­que não se vive com os pre­ços do lei­te, mas com as mar­gens que ele dei­xa, ou seja, vive-se com a dife­ren­ça entre pre­ços e cus­tos. E essas mar­gens estão mui­to aper­ta­das. De acor­do com o ICPLei­te, pro­du­zir lei­te ficou 16,0% mais caro. Em 12 meses, os cus­tos subi­ram 39,5%.

Por­tan­to, a pres­são sobre o pro­du­tor está vin­do de fora do setor. Vem do mer­ca­do de soja e milho. E o moti­vo é, essen­ci­al­men­te, a Chi­na. Eles con­vi­ve­ram com um gra­ve pro­ble­ma no seu reba­nho de suí­nos. Tive­ram que eli­mi­nar boa par­te do plan­tel do país e resol­ve­ram mudar de padrão tec­no­ló­gi­co. De pro­du­ção casei­ra, com bai­xa bios­se­gu­ri­da­de, deci­di­ram pro­du­zir de modo pro­fis­si­o­nal. Algo como fize­mos na déca­da de 1970 no Bra­sil. Isso aumen­tou o con­su­mo des­ses grãos, num momen­to em que os esto­ques mun­di­ais esta­vam mui­to baixos. 

Se não está bom para o pro­du­tor, tam­bém não está para a indús­tria. Afi­nal, estão com­pran­do maté­ria-pri­ma a um pre­ço qua­se 40% aci­ma do que com­pra­vam nes­ta épo­ca no ano pas­sa­do. Isso não seria pro­ble­ma se fos­se pos­sí­vel repas­sar para os con­su­mi­do­res essa ele­va­ção de cus­tos, como acon­te­ceu em 2020. Na medi­da em que fica­va mais caro o lei­te ao pro­du­tor, a indús­tria nego­ci­a­va novos pre­ços com o vare­jo. Mas, com a que­da do poder aqui­si­ti­vo, o repas­se não está acon­te­cen­do na mes­ma proporção. 

Está ruim para o pro­du­tor, para a indús­tria e para o con­su­mi­dor. Há duas saí­das para esta cri­se. É pre­ci­so espe­rar o aumen­to da ofer­ta de grãos, vin­da dos EUA e Bra­sil. Outro cami­nho é espe­rar o cres­ci­men­to da eco­no­mia, uma que­da da infla­ção e a melho­ria do poder aqui­si­ti­vo do con­su­mi­dor. Nenhu­ma das duas saí­das pare­ce próxima.

Rolar para cima