Aditivos alimentares: Um ajuste técnico refinado na dieta - Digital Balde Branco
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O uso criterioso, sob orientação técnica, traz diversos benefícios aos animais leiteiros

ADITIVOS ALIMENTARES

ADITIVOS

Um ajuste técnico refinado na dieta

A gama de recursos disponíveis é variada e exige bons critérios em sua escolha e uso para os bovinos leiteiros 

Luiz H. Pitombo

Uti­li­za­dos em dife­ren­tes situ­a­ções, os adi­ti­vos ali­men­ta­res nor­mal­men­te não entra­ri­am na ração como ingre­di­en­te, mas são empre­ga­dos para poten­ci­a­li­zar a qua­li­da­de da die­ta, visan­do melho­rar o desem­pe­nho do ani­mal de manei­ra efi­ci­en­te e segu­ra.

Eles podem atu­ar no balan­ço ener­gé­ti­co, na repro­du­ção, na saú­de dos cas­cos, na fun­ção rumi­nal, no con­tro­le da hipo­cal­ce­mia e na fun­ção imu­ne. Den­tre outros, tam­bém podem alte­rar a com­po­si­ção do lei­te, a tem­pe­ra­tu­ra cor­po­ral e até o aro­ma de quei­jos, a exem­plo do que fazem os fran­ce­ses. Cada adi­ti­vo tem suas fun­ções mais espe­cí­fi­cas e, a depen­der da neces­si­da­de e do valor, podem ser inclu­sos em die­ta de dife­ren­tes cate­go­ri­as ani­mais como recria, pré e pós-par­to e vacas em lac­ta­ção.

“Os adi­ti­vos devem ser enca­ra­dos como um inves­ti­men­to que vou uti­li­zar, com­pro­va­da sua efi­cá­cia, para se ter retor­no em lei­te, saú­de ani­mal, repro­du­ção ou outros, e, se não se paga­rem, não uso”, reco­men­da o médi­co vete­ri­ná­rio Mar­cos Neves Perei­ra, pes­qui­sa­dor e pro­fes­sor da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Lavras (Ufla), em Minas Gerais. Por exem­plo, no caso da meti­o­ni­na para aumen­tar a pro­teí­na do lei­te, é pre­ci­so ter um prê­mio ade­qua­do do lati­cí­nio para com­pen­sar. Assim, não exis­te uma con­ta úni­ca para todos.

Perei­ra ava­lia que, no geral, as fazen­das têm uti­li­za­do cor­re­ta­men­te os adi­ti­vos e, com bas­tan­te frequên­cia, o bicar­bo­na­to de sódio como tam­po­nan­te para evi­tar a que­da do pH do rúmen. Ele acre­di­ta que as mai­o­res falhas ocor­rem no seu uso quan­do a pro­pri­e­da­de não está com uma die­ta e mane­jo ade­qua­dos e com pro­ble­mas, pois os adi­ti­vos devem ser empre­ga­dos para ajus­tes finos. Outra falha fre­quen­te que apon­ta é errar na dose, tan­to para mais quan­to para menos.

Ele indi­ca ain­da que é pre­ci­so con­si­de­rar as pos­si­bi­li­da­des de res­pos­ta alta ou bai­xa, o que depen­de da vaca, da die­ta, se se está no verão ou no inver­no e se são ani­mais de alta ou bai­xa pro­du­ção. Caso não fun­ci­o­ne numa pro­pri­e­da­de, não quer dizer que nou­tro cená­rio não seja efe­ti­vo. Os adi­ti­vos, como escla­re­ce, não pos­su­em efei­to acu­mu­la­ti­vo, ou seja, usar vári­os deles ima­gi­nan­do que se cada um puxa um litro de lei­te a mais ao se usa­rem vári­os deles o volu­me sal­ta­rá para 20 litros.

Marcos Neves Pereira: “Há muitos produtos no mercado. É preciso o produtor definir suas prioridades, escolher a marca, o fornecedor e saber se o produto é bom, com pesquisas e testes no Brasil, que comprovem seus resultados”

“Exis­tem mui­tos pro­du­tos no mer­ca­do e é pre­ci­so defi­nir pri­o­ri­da­des e esco­lher a mar­ca, o for­ne­ce­dor, se o pro­du­to é bom e tem pes­qui­sas e tes­tes no Bra­sil, com­pro­van­do seus resul­ta­dos”, enfa­ti­za. Ele expli­ca que em fazen­das comer­ci­ais não é pos­sí­vel se faze­rem tes­tes para isso, embo­ra reco­nhe­ça que algu­mas o façam, isso por­que é pre­ci­so se ter méto­do e gru­pos-con­tro­le. Com o supor­te téc­ni­co da empre­sa infor­man­do quan­to cus­ta, quan­to será usa­do e a res­pos­ta espe­ra­da, o pro­du­tor e o con­sul­tor da fazen­da toma­rão a deci­são e acom­pa­nha­rão os resul­ta­dos.

Dife­ren­te­men­te da pro­du­ção de lei­te, que é pal­pá­vel, Perei­ra obser­va que nem tudo é fácil de men­su­rar, como impac­tos na saú­de ani­mal, e mui­tos dos efei­tos dos adi­ti­vos são sutis e não sur­gem de um dia para outro, daí a neces­si­da­de de pes­qui­sas e tes­tes da indús­tria evi­den­ci­an­do seu poten­ci­al. No caso de uso da leve­du­ra para puxar o lei­te, lem­bra que é pos­sí­vel se cal­cu­lar que se o gas­to for de R$ 0,50 vaca/dia e o ganho de um litro a mais, sen­do ven­di­do por R$ 2,00, será qua­tro vezes o valor do inves­ti­men­to, “o que é bom demais”, reco­nhe­ce.

Os pro­bió­ti­cos, den­tre eles as leve­du­ras, são mui­to uti­li­za­dos, pois seu cus­to animal/dia é bai­xo, não têm res­tri­ções de mer­ca­do e podem ser uti­li­za­dos em dife­ren­tes situ­a­ções, como esti­mu­lar a pro­du­ção de lei­te, e tam­bém atu­am para redu­zir a aci­do­se e o estres­se calórico.

Lon­ge­vi­da­de – Os adi­ti­vos, como apon­ta o pro­fes­sor da Ufla, estão dis­po­ní­veis e podem ser uti­li­za­dos em qual­quer situ­a­ção, des­de que seja com­pro­va­do, em tes­tes, que são segu­ros aos ani­mais, aos seres huma­nos, ao meio ambi­en­te e que tra­rão ganhos.

Como um pro­ble­ma sério do setor lei­tei­ro é a bai­xa lon­ge­vi­da­de das vacas, ele suge­re que um impor­tan­te uso dos adi­ti­vos seria para redu­zir o des­car­te dos ani­mais, indi­can­do que as prin­ci­pais cau­sas são repro­du­ção, mas­ti­te (imu­ni­da­de) e pro­ble­mas de cas­co. Pro­du­tos que melho­rem isso mere­cem aten­ção, tor­nan­do as vacas mais sau­dá­veis e fér­teis.

Exis­tem adi­ti­vos uti­li­za­dos para cate­go­ri­as e fases espe­cí­fi­cas da vida do ani­mal, pois não se terá uma res­pos­ta que cubra o inves­ti­men­to ao se for­ne­cer para todos os ani­mais. Como exem­plo, Perei­ra cita a coli­na, dire­ci­o­na­da para o meta­bo­lis­mo hepá­ti­co de vacas no pré-par­to e recém-pari­das. Mas uma limi­ta­ção prá­ti­ca que pode ocor­rer em seu for­ne­ci­men­to é que, como a mai­o­ria das fazen­das bra­si­lei­ras é peque­na, e mes­mo as gran­des não pos­su­em tan­tos ani­mais, fica difí­cil se for­ma­rem lotes homo­gê­ne­os em núme­ro jus­ti­fi­que a alte­ra­ção da roti­na de for­ne­ci­men­to da ração.

Mar­cos Perei­ra comen­ta que exis­te mui­ta pes­qui­sa sen­do fei­ta e divul­ga­da no Jour­nal of Dairy Sci­en­ce, o mais impor­tan­te veí­cu­lo de arti­gos aca­dê­mi­cos do setor, e afir­ma que aguar­da com expec­ta­ti­va as novas infor­ma­ções que podem sur­gir sobre ami­noá­ci­dos, em agos­to, com a nova publi­ca­ção de refe­rên­cia nor­te-ame­ri­ca­na NRC (Nati­o­nal Rese­ar­ch Coun­cil).

Seguin­do a ten­dên­cia mun­di­al do mer­ca­do con­su­mi­dor por pro­du­tos natu­rais, ele acre­di­ta que esta seja a área na qual os inves­ti­men­tos em pes­qui­sas e pro­du­tos devam cres­cer mais, citan­do em par­ti­cu­lar os pre­bió­ti­cos e os pro­bió­ti­cos.

Ele con­ta que um cam­po no qual têm sur­gi­do novas infor­ma­ções se refe­re aos dife­ren­tes meca­nis­mos de ação de um mes­mo adi­ti­vo. Um dos casos são os óle­os essen­ci­ais, pro­du­tos natu­rais que antes eram des­ti­na­dos a atu­ar no rúmen con­tra aci­do­se, mas que hoje se sabe que atu­am tam­bém na dila­ta­ção dos brôn­qui­os do pul­mão, assim como na melho­ria da efi­ci­ên­cia ali­men­tar das vacas.

Lísia B. Correa: “Estrategicamente usa-se o aditivo quando o manejo da fazenda já está redondo, a dieta adequada e o animal em conforto, aí ele entra para resolver situações pontuais e não o problema todo da fazenda”

Algu­mas dúvi­das – “O adi­ti­vo é uti­li­za­do quan­do o mane­jo da fazen­da já está redon­do, a die­ta ade­qua­da e o ani­mal em con­for­to, aí ele entra para resol­ver situ­a­ções pon­tu­ais e não o pro­ble­ma todo da fazen­da”, refor­ça a zoo­tec­nis­ta Lísia Ber­to­nha Cor­rea, nutri­ci­o­nis­ta de bovi­nos lei­tei­ros na Agro­ce­res Mul­ti­mix.

Atu­an­do a cam­po, ela rela­ta algu­mas dúvi­das que pro­du­to­res têm demons­tra­do em rela­ção a cer­tos adi­ti­vos, como os tam­po­nan­tes, para evi­tar a aci­do­se do rúmen. Como exis­tem vári­os deles com ação dife­ren­te, por exem­plo, de manei­ra mais rápi­da ou len­ta e apli­ca­dos em quan­ti­da­des dife­ren­tes, a ques­tão é qual deles uti­li­zar. “Daí a impor­tân­cia da pre­sen­ça de um téc­ni­co”, indi­ca a nutri­ci­o­nis­ta.

Outra situ­a­ção diz res­pei­to à bio­ti­na, que geral­men­te é asso­ci­a­da à pro­du­ção de que­ra­ti­na para os cas­cos, mas que pro­du­to­res des­co­nhe­cem que tam­bém está envol­vi­da no balan­ço ener­gé­ti­co da vaca, aju­dan­do a puxar o lei­te. Tam­bém apon­ta que pode­ri­am ser mais conhe­ci­dos os bene­fí­ci­os da leve­du­ra viva Sac­cha­romy­ces cere­vi­si­ae, que, além de melho­rar a absor­ção do ami­do do milho con­ti­do na ração, aju­da a con­tro­lar a aci­dez rumi­nal.

Igual­men­te gera dúvi­das entre os pro­du­to­res o uso dos óle­os essen­ci­ais, que têm sido indi­ca­dos, por exem­plo, em subs­ti­tui­ção à monen­si­na para pro­du­to­res que que­rem se apro­xi­mar daque­le con­su­mi­dor da linha natu­ral. Ambos pos­su­em efei­to simi­lar, melho­ran­do a fer­men­ta­ção rumi­nal, mas a monen­si­na foi proi­bi­da na Euro­pa por receio de resí­du­os no lei­te e exis­te pos­si­bi­li­da­de de que essa res­tri­ção tam­bém ocor­ra no Bra­sil. Os óle­os entram em mai­or quan­ti­da­de na ração e são de um valor um pou­co mais ele­va­do e ain­da não são mui­to utilizados.

Um uso importante dos aditivos seria reduzir o descarte de animais, ou seja, ter animais longevos (Vacas do Sítio Sta. Luzia, de Luís e Mariângela Roma, em Batatais-SP)

Embo­ra os adi­ti­vos pos­sam ser adqui­ri­dos iso­la­da­men­te, Lísia suge­re que o sejam jun­ta­men­te com o núcleo mine­ral, pois, como são adi­ci­o­na­dos em quan­ti­da­des redu­zi­das, pode-se não con­se­guir uma mis­tu­ra bem homo­gê­nea se forem bati­dos na propriedade.

A nutri­ci­o­nis­ta ava­lia que são bem pou­cas as reser­vas na apli­ca­ção dos adi­ti­vos, indi­can­do em par­ti­cu­lar o uso cri­te­ri­o­so do bicar­bo­na­to de sódio na die­ta de vacas pré-par­to, já que o sódio em exces­so acar­re­ta ede­ma de úbe­re, e, no res­tan­te, são ques­tões que envol­vem mais o valor gas­to e o retor­no obtido.

Como tudo na lac­ta­ção é impor­tan­te e se veem os resul­ta­dos em pro­du­ção de lei­te, apon­ta que é aí onde são fei­tos os mai­o­res inves­ti­men­tos e nas vacas de mai­or produção. 

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