AFAGO reduz o estresse nos animais e aumenta indiretamente a produção de leite - Digital Balde Branco
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BEM-ESTAR ANIMAL

AFAGO

reduz o estresse nos animais e aumenta indiretamente a produção de leite

Pesquisa mostra que a estimulação tátil em bovinos leiteiros eleva a produção em função da diminuição do leite residual, além de outros benefícios 

Erick Henrique

Antes de des­ta­car os bene­fí­ci­os que a prá­ti­ca do afa­go traz tan­to para o pro­du­tor de lei­te como para os ani­mais, a pes­qui­sa­do­ra Leni­ra El Faro Zadra, do Ins­ti­tu­to de Zoo­tec­nia (IZ/Apta), da Secre­ta­ria de Agri­cul­tu­ra e Abas­te­ci­men­to do Esta­do de São Pau­lo, obser­va que a pro­du­ção de lei­te decor­re de vári­os fato­res gené­ti­cos, nutri­ci­o­nais, de mane­jo, de cli­ma. E ela faz ques­tão de escla­re­cer que o afa­go, por si só, não aumen­ta a pro­du­ção de lei­te, mas dimi­nui o estresse. 

“Com o estres­se cau­sa­do ao ani­mal, seja duran­te o tra­je­to até a sala da orde­nha, pelo baru­lho exces­si­vo, pela pre­sen­ça de estra­nhos no local, seja mes­mo por maus-tra­tos duran­te o mane­jo, ocor­re a libe­ra­ção de hormô­ni­os que vão cau­sar a con­tra­ção da mus­cu­la­tu­ra lisa e a vaso­cons­tri­ção na região dos dutos mamá­ri­os. Isso impe­de que a oci­to­ci­na che­gue até as célu­las mio­e­pi­te­li­ais da glân­du­la, o que dimi­nui libe­ra­ção de lei­te”, obser­va Leni­ra, assi­na­lan­do que o estres­se faz com que o ani­mal pro­du­za menos oci­to­ci­na e a eje­ção do lei­te seja pre­ju­di­ca­da. “Ou seja, se dimi­nuir­mos o estres­se, indi­re­ta­men­te aumen­ta­re­mos a pro­du­ção de lei­te. E no nos­so estu­do isso foi com­pro­va­do com a dimi­nui­ção do lei­te resi­du­al”, diz. 

Lenira El Faro Zadra: No caso das vacas em lactação, os resultados, cujo manejo foi realizado na sala de ordenha, foram mais perceptíveis, não apenas na evolução do comportamento dos animais, mas também em relação à facilidade de fazer o afago por parte dos ordenhadores 

A ori­gem da pes­qui­sa – Leni­ra con­ta que a ideia da pes­qui­sa sur­giu de uma visi­ta à Fazen­da San­ta Luzia, loca­li­za­da em Pas­sos (MG), do pro­du­tor Mau­rí­cio Sil­vei­ra Coe­lho. Essa fazen­da havia ado­ta­do o mane­jo do “afa­go” ou esti­mu­la­ção tátil em bezer­ros e em novi­lhas antes do par­to. Ani­mais Giro­lan­dos são rea­ti­vos e de difí­cil adap­ta­ção na sala de orde­nha. Aque­las F1 (com­po­si­ção 50% Gir Lei­tei­ro), além de um com­por­ta­men­to mais rea­ti­vo se mal mane­ja­das, neces­si­tam de bezer­ro ao pé na sala de orde­nha. Cha­mou a aten­ção da pes­qui­sa­do­ra o exce­len­te tra­ba­lho de bem-estar rea­li­za­do naque­la pro­pri­e­da­de, fru­to dos resul­ta­dos do gru­po de pes­qui­sa do prof. Mateus Paranhos. 

“Até então (2017/2018), eu rea­li­za­ra pes­qui­sas pura­men­te na área de gené­ti­ca e melho­ra­men­to ani­mal, tan­to de tau­ri­nos quan­to de zebuí­nos lei­tei­ros. Mas sem­pre me inte­res­sou apro­fun­dar conhe­ci­men­tos para algu­mas par­ti­cu­la­ri­da­des no com­por­ta­men­to dos zebuí­nos e seus cru­za­dos, por exem­plo, a neces­si­da­de que os zebuí­nos têm da pre­sen­ça do bezer­ro na sala de orde­nha para a eje­ção do lei­te. Tal­vez a ori­gem dos zebuí­nos, de regiões mais inós­pi­tas e desa­fi­a­do­ras, tenha dire­ci­o­na­do a vaca para pro­du­zir só em situ­a­ções de neces­si­da­de”, comen­ta a espe­ci­a­lis­ta do IZ-Apta. 

Segun­do ela, uma das prin­ci­pais moti­va­ções para a rea­li­za­ção des­sa pes­qui­sa sur­giu des­se ques­ti­o­na­men­to da eje­ção do lei­te e do lei­te resi­du­al. “O lei­te resi­du­al é aque­le lei­te que fica reti­do no úbe­re após a orde­nha, sen­do um fator pre­dis­po­nen­te para a ocor­rên­cia de mas­ti­te. A ques­tão é que pre­ci­sa­mos conhe­cer melhor a fisi­o­lo­gia da lac­ta­ção e o com­por­ta­men­to das vacas zebuí­nas na sala de orde­nha e duran­te a lac­ta­ção”, nota, levan­tan­do algu­mas ques­tões como: será que todas as vacas zebuí­nas secam a lac­ta­ção se o bezer­ro for reti­ra­do da sala de orde­nha? Por quê? Exis­te algu­ma dife­ren­ça entre os ani­mais na popu­la­ção zebuí­na quan­to à eje­ção do lei­te? Quais pes­qui­sas ain­da ser fei­tas para res­pon­der a tais questionamentos?

De acor­do com a pes­qui­sa­do­ra, sabe-se que hoje mui­tos sis­te­mas de pro­du­ção com reba­nhos zebuí­nos têm ado­ta­do a apli­ca­ção de oci­to­ci­na exó­ge­na para faci­li­tar a des­ci­da do lei­te na orde­nha sem o bezer­ro. “E aí tam­bém caí­mos na ques­tão do bem-estar, pois em cada orde­nha a vaca vai rece­ber uma inje­ção e há ain­da o ris­co da dis­se­mi­na­ção de doen­ças se for usa­da a mes­ma agulha.”

 

Os resul­ta­dos para a pro­du­ção lei­tei­ra – Par­cei­ra da pes­qui­sa­do­ra do IZ nes­ta emprei­ta­da, a con­sul­to­ra téc­ni­ca de bovi­nos e equi­nos da Zoe­tis, Aska Uji­ta, infor­ma que os resul­ta­dos que elas encon­tra­ram foi que no gru­po afa­ga­do hou­ve um aumen­to indi­re­to na pro­du­ção de lei­te, em fun­ção da dimi­nui­ção do lei­te resi­du­al. A média da pro­du­ção de lei­te diá­ria até os 60 dias de lac­ta­ção foi de 10,33 kg de lei­te no gru­po con­tro­le, con­tra 12,76 kg de lei­te no gru­po afa­ga­do. O lei­te resi­du­al foi de 16% no gru­po con­tro­le e de 8,5% no gru­po afagado. 

Aska nota que ocor­re­ram outros resul­ta­dos mui­to impor­tan­tes em rela­ção às dosa­gens de cor­ti­sol e de oci­to­ci­na no lei­te das vacas. A dosa­gem de cor­ti­sol foi sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te mai­or (24,10 ng/ml) nas vacas con­tro­le do que nas vacas afa­ga­das (6,23 ng/ml). “O cor­ti­sol é o prin­ci­pal indi­ca­dor bio­ló­gi­co do estres­se, sen­do conhe­ci­do como hormô­nio do estres­se. Em gran­des con­cen­tra­ções cir­cu­lan­tes, pode pre­ju­di­car o desem­pe­nho do ani­mal de vári­as manei­ras”, alerta. 

Ani­mais em estres­se podem apre­sen­tar menor desem­pe­nho, redu­ção no con­su­mo de ração, menor cres­ci­men­to e depo­si­ção de gor­du­ra, quan­do com­pa­ra­dos aos ani­mais cal­mos, con­for­me apon­ta Llon­ch et al., 2016. Aska diz ain­da exis­ti­rem estu­dos que rela­ta­ram que o tem­pe­ra­men­to nega­ti­vo asso­ci­a­do a altas con­cen­tra­ções de cor­ti­sol, além de atra­sar a puber­da­de, afe­ta nega­ti­va­men­te o desem­pe­nho repro­du­ti­vo em vacas, redu­zin­do a efi­ci­ên­cia repro­du­ti­va e taxa de des­ma­me (Coo­ke et al., 2016).

“No nos­so estu­do, a con­cen­tra­ção de oci­to­ci­na foi sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te mai­or no gru­po que rece­beu o afa­go (27,54 pg/ml) do que no gru­po que não rece­beu (19,39 pg/ml). Isso pode expli­car a menor quan­ti­da­de de lei­te resi­du­al no gru­po das vacas que foram afa­ga­das. A oci­to­ci­na é conhe­ci­da como o hormô­nio res­pon­sá­vel pela eje­ção do lei­te”, diz Aska Ujita.

Aska Ujita: No grupo afagado houve um aumento indireto na produção de leite, em função da diminuição do leite residual. A média da produção de leite diária até os 60 dias de lactação foi de 10,33 kg de leite no grupo controle, contra 12,76 kg de leite no grupo afagado

A impor­tân­cia do cari­nho no pré-par­to – “Rea­li­za­mos tam­bém dois expe­ri­men­tos, no pré-par­to dos ani­mais. Esse foi um pro­je­to de pes­qui­sa amplo, finan­ci­a­do pela Fapesp (Fun­da­ção de Ampa­ro à Pes­qui­sa do Esta­do de São Pau­lo), em par­ce­ria entre pes­qui­sa­do­res do Ins­ti­tu­to de Zoo­tec­nia, FZEA-USP e Epa­mig-Ube­ra­ba. Não envol­via ape­nas o mane­jo do afa­go, mas tam­bém empre­ga­mos téc­ni­cas de pre­ci­são para detec­ção do estro e do par­to em vacas Gir Lei­tei­ro”, res­sal­ta Lenira.

Ela expli­ca que o pré-par­to é uma fase impor­tan­te, pois ante­ce­de o perío­do de lac­ta­ção, quan­do o ani­mal terá con­ta­to mui­to pró­xi­mo e diá­rio com os orde­nha­do­res. É um momen­to da vida do ani­mal em que está sujei­to ao mane­jo diá­rio na orde­nha, com uma mudan­ça mui­to gran­de de ambi­en­te. Será desa­fi­a­do quan­to à sua capa­ci­da­de de pro­du­ção, quan­to à sua resis­tên­cia às doen­ças, como a mas­ti­te, por exemplo.

“No pri­mei­ro expe­ri­men­to, pes­qui­sa­mos cer­ca de 40 fême­as da raça Gir Lei­tei­ro, entre pri­mí­pa­ras e mul­tí­pa­ras, divi­di­das em dois tra­ta­men­tos (as que rece­be­ram afa­go e as que não rece­be­ram). Ape­nas as vacas do tra­ta­men­to afa­go foram sub­me­ti­das à esti­mu­la­ção tátil por 5 minu­tos, sen­do este ini­ci­a­do apro­xi­ma­da­men­te 40 dias antes da data pre­vis­ta do par­to. O afa­go foi rea­li­za­do por 20 dias con­se­cu­ti­vos e, após esse perío­do, os ani­mais pas­sa­ram a rece­ber afa­go duas vezes por sema­na até esta­rem pró­xi­mos ao par­to”, relata.

No segun­do expe­ri­men­to, até pen­san­do em faci­li­tar o mane­jo e a acei­ta­ção por par­te dos pro­du­to­res, as pes­qui­sa­do­ras rea­li­za­ram o afa­go ape­nas na sala de orde­nha. Foram usa­das ape­nas novi­lhas pre­nhas, ini­ci­an­do-se esse mane­jo 40 dias antes da data pre­vis­ta de par­to, duran­te 14 dias. Sua apli­ca­ção foi divi­di­da em três fases, com dura­ção de 5 dias, 5 dias e 4 dias, res­pec­ti­va­men­te, de acor­do com o esque­ma do qua­dro abaixo.

Esquema do processo do treinamento no período pré-parto das novilhas Gir Leiteiro em sala de ordenha, com duração de 14 dias

 

• DIA 1 ao 5 (Fase 1): Pas­sa­gem dos ani­mais pela sala de orde­nha (simu­lan­do o tra­je­to do mane­jo de orde­nha). O por­tão de saí­da da sala de orde­nha esta­rá fecha­do para a entra­da dos ani­mais. Em segui­da, o por­tão de entra­da será fecha­do e, após um minu­to de per­ma­nên­cia, a saí­da dos ani­mais será liberada.

• DIA 6 ao 10 (Fase 2): Na sala de orde­nha, enquan­to ocor­rem os pro­ce­di­men­tos des­cri­tos na fase 1 do trei­na­men­to (per­ma­nên­cia dos ani­mais na sala de orde­nha), os ani­mais serão esco­va­dos com vas­sou­ra de pêlo de nái­lon por 2 min/animal, pri­o­ri­zan­do prin­ci­pal­men­te os mem­bros pos­te­ri­o­res, por serem locais cons­tan­te­men­te mani­pu­la­dos em uma ordenha.

• DIA 11 ao 14 (Fase 3): Na sala de orde­nha, além dos pro­ce­di­men­tos des­cri­tos na fase 2 do trei­na­men­to, os ani­mais serão habi­tu­a­dos ao mane­jo do pré­dip­ping (assep­sia dos tetos por imer­são em pro­du­to antis­sép­ti­co e seca­gem) e da amar­ra­ção das per­nas tra­sei­ras com cor­da (peia).

“Os ani­mais foram esco­va­dos com um esco­vão, por todo o cor­po (cabe­ça, pes­co­ço, tron­co, úbe­re, mem­bros ante­ri­o­res e mem­bros pos­te­ri­o­res), mas prin­ci­pal­men­te na região do úbe­re e mem­bros pos­te­ri­o­res, pois são as regiões em que ocor­re mai­or con­ta­to na orde­nha”, expli­ca Aska Ujita. 

Segun­do a con­sul­to­ra téc­ni­ca, elas cons­ta­ta­ram, no pri­mei­ro expe­ri­men­to, que as pri­mí­pa­ras res­pon­de­ram melhor ao mane­jo do afa­go do que as mul­tí­pa­ras, pois estas já vinham de uma memó­ria de mane­jos ante­ri­o­res (às vezes tru­cu­len­tos) na sala de orde­nha. Esse reba­nho, em espe­ci­al, tinha um his­tó­ri­co de vacas que eram mui­to rea­ti­vas na orde­nha, devi­do a uma rela­ção homem-ani­mal mui­to ruim.

“O apren­di­za­do veio para todos da equi­pe, incluin­do os orde­nha­do­res, que tive­ram de apren­der mui­tas coi­sas sobre o com­por­ta­men­to dos zebuí­nos. Per­ce­be­mos que, para aque­le gru­po que rece­beu o afa­go, hou­ve melho­ria do com­por­ta­men­to dos ani­mais na sala de orde­nha, após o parto.”

Por sua vez, Leni­ra apon­ta tam­bém que os resul­ta­dos do segun­do expe­ri­men­to, cujo mane­jo foi rea­li­za­do na sala de orde­nha, foram mais per­cep­tí­veis, não ape­nas na evo­lu­ção do com­por­ta­men­to dos ani­mais, mas tam­bém em rela­ção à faci­li­da­de de fazer o afa­go por par­te dos orde­nha­do­res e com a faci­li­da­de geral do mane­jo diá­rio dos animais. 

“A inte­ra­ção huma­no-ani­mal é um fator de gran­de impor­tân­cia quan­do tra­ta­mos de ani­mais de pro­du­ção, pois uma inte­ra­ção nega­ti­va afe­ta o com­por­ta­men­to dese­já­vel, tor­nan­do o ani­mal agi­ta­do e/ou arre­dio, inter­vin­do prin­ci­pal­men­te no mane­jo, segu­ran­ça e bem-estar, além de in­fluenciar as carac­te­rís­ti­cas de pro­du­ção e qualida­de do pro­du­to”, apon­ta ela, obser­van­do uma ques­tão pri­mor­di­al: a pres­são para mudan­ças no tra­to com os ani­mais vem qua­se sem­pre por par­te do mer­ca­do con­su­mi­dor, não só no lei­te, mas em todas as áre­as. “Hoje, há con­su­mi­do­res que ques­ti­o­nam os sis­te­mas de cri­a­ção de aves, suí­nos, bovi­nos (cor­te e lei­te) e outros animais.”

Aplicação da técnica em pequenas, médias e grandes fazendas

 
Leni­ra expli­ca que cada pro­pri­e­da­de pode­ria ade­quar essa prá­ti­ca de mane­jo de acor­do com as suas con­di­ções. “Na Fazen­da San­ta Luzia, já cita­da, o mane­jo era fei­to em um gal­pão espe­cí­fi­co, onde as novi­lhas rece­bi­am o mane­jo no pré-par­to. Não era rea­li­za­do na sala de orde­nha ou no cur­ral de mane­jo como em nos­so estu­do. A pro­pri­e­da­de tinha um fun­ci­o­ná­rio que apli­ca­va esse mane­jo nas novi­lhas, pois o núme­ro de ani­mais é grande.”

Numa oca­sião, ela expe­ri­men­tou fazer esse mane­jo na linha de orde­nha e não no fos­so e cons­ta­tou que as vacas acei­ta­ram super­bem o afa­go, melhor ain­da do que no fosso. 

“O que deve ficar cla­ro é que cada pro­du­tor deve encon­trar a melhor manei­ra de ade­quar esse mane­jo de acor­do com suas con­di­ções e enten­der que pou­co pre­ci­sa ser fei­to para con­se­guir ofe­re­cer uma vida melhor aos ani­mais: pou­cos dias, pou­cos minutos/dia e pou­co inves­ti­men­to. Os pro­du­to­res devem refle­tir tam­bém sobre a per­cep­ção da soci­e­da­de, quan­to a con­su­mir um pro­du­to que foi pro­du­zi­do em con­di­ções mais dig­nas para os animais.”