As boas coisas que a natureza faz - Digital Balde Branco

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Pedro Braga Arcuri 

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

“Pela importância crescente da preservação do ambiente e pela crescente organização da cadeia produtiva do leite, o futuro para o pagamento de serviços ambientais está se aproximando”

As boas coisas que a natureza faz

Pagar por ser­vi­ços ambi­en­tais é uma for­ma de incen­ti­var pro­du­to­res rurais a mane­ja­rem suas pro­pri­e­da­des para ofe­re­cer à soci­e­da­de algum tipo de ser­vi­ço eco­ló­gi­co. Dito des­sa for­ma, não me pare­ce tão fácil de entender. 

Ser­vi­ços ambi­en­tais são “as boas coi­sas que a natu­re­za faz”. Des­de 2005 são 24 ser­vi­ços ambi­en­tais espe­cí­fi­cos, com indi­ca­ções sobre como quan­ti­fi­cá-los, dis­cri­mi­na­dos num rela­tó­rio ela­bo­ra­do por mui­tos cien­tis­tas, por enco­men­da da Orga­ni­za­ção das Nações Unidas. 

For­ne­ce­do­res de ser­vi­ços ambi­en­tais podem ser pro­du­to­res de lei­te mane­jan­do suas pro­pri­e­da­des, pen­san­do no futu­ro. Os ser­vi­ços ambi­en­tais podem pare­cer óbvi­os: man­ter a quan­ti­da­de e a qua­li­da­de da água que bro­ta de uma mina ou nas­cen­te, evi­tar a ero­são de qual­quer tipo, man­ter as áre­as e con­di­ções para a repro­du­ção da pas­sa­ri­nha­da e outros bichos que abun­da­vam no tem­po dos nos­sos avós. 

O ser­vi­ço ambi­en­tal que está “na moda”, atu­al­men­te, é o seques­tro de car­bo­no. Seques­trar car­bo­no é ter pas­to com mui­to capim, é fazer com­pos­to com o ester­co de cur­ral e plan­tar árvo­res. Se for na bei­ra do rio ou do ribei­rão, soman­do ser­vi­ços que aca­bo de des­cre­ver, melhor ain­da. Na outra pon­ta, os con­su­mi­do­res dos ser­vi­ços ambi­en­tais são todos os cida­dãos, espe­ci­al­men­te a gran­de mai­o­ria dos bra­si­lei­ros, os mora­do­res de cida­des que vão se bene­fi­ci­ar de belas pai­sa­gens, com fau­na e flo­ra nati­vas, ar mais puro e menos car­bo­no no ar (por­que terá sido seques­tra­do e trans­for­ma­do em árvo­res e pas­ta­gens bem manejadas).

Como dis­se, isso tudo pare­ce ser óbvio. Mas uma pro­pri­e­da­de ser paga por isso é novi­da­de. Para fun­ci­o­nar, pre­ci­sa­mos ter tudo bem defi­ni­do em leis e nor­mas. Uma ques­tão fun­da­men­tal é: como con­tar os ser­vi­ços? Um óti­mo come­ço é Cadas­tro Ambi­en­tal Rural, que vai aju­dar cada vez mais os pro­pri­e­tá­ri­os rurais. Núme­ro de árvo­res plan­ta­das? Núme­ro de nas­cen­tes na pro­pri­e­da­de? Tudo tem de ser contabilizado. 

Por isso, vamos ouvir falar, cada vez mais fre­quen­te­men­te, de méto­dos ou fer­ra­men­tas para ava­li­ar os ser­vi­ços ambi­en­tais. Um deles, a aná­li­se do ciclo de vida dos pro­du­tos; outro, uma cal­cu­la­do­ra para esti­mar a “pega­da de car­bo­no” de um tipo de ali­men­to; outro, obser­va­ções da quan­ti­da­de e das espé­ci­es de ani­mais sel­va­gens pre­sen­tes. Na Holan­da, os pro­du­to­res rurais podem rece­ber pelo núme­ro de cego­nhas (aque­las que a len­da diz que entre­gam bebês!) que fazem ninhos na propriedade. 

O paga­men­to pode ser na for­ma de isen­ção de impos­tos, ofer­ta de assis­tên­cia téc­ni­ca e, cla­ro, dinhei­ro. Em 2014, cien­tis­tas esti­ma­ram que o valor dos ser­vi­ços ambi­en­tais do pla­ne­ta atin­gia a impres­si­o­nan­te soma de US$ 125 tri­lhões a US$ 145 tri­lhões por ano. Se o Bra­sil cri­ar suas nor­mas e for ao encon­tro da comu­ni­da­de inter­na­ci­o­nal a esse res­pei­to, os pro­du­to­res, no futu­ro, pode­rão rece­ber por ser­vi­ços pres­ta­dos pelas suas reser­vas legais, áre­as de pre­ser­va­ção per­ma­nen­te, etc. Afi­nal, a Embra­pa mos­trou que pre­ser­va­mos mais de 60% des­sas áre­as do País.

A exem­plo de uma cres­cen­te lis­ta de paí­ses, o Bra­sil come­ça a cri­ar e ope­rar ins­tru­men­tos legais que via­bi­li­zam sis­te­mas de paga­men­tos por ser­vi­ços ambi­en­tais. É fun­da­men­tal uma pers­pec­ti­va mais ampla, levan­do em con­ta as con­di­ções tro­pi­cais de pro­du­ção, e as múl­ti­plas fun­ções das fazen­das lei­tei­ras nos bio­mas brasileiros. 

Pela impor­tân­cia cres­cen­te da pre­ser­va­ção do ambi­en­te e pela cres­cen­te orga­ni­za­ção da cadeia pro­du­ti­va do lei­te, o futu­ro para o paga­men­to de ser­vi­ços ambi­en­tais está se apro­xi­man­do. As orga­ni­za­ções dos pro­du­to­res, as indús­tri­as inte­res­sa­das em agre­gar valor aos seus pro­du­tos e tam­bém a soci­e­da­de, que se bene­fi­cia dos ser­vi­ços ambi­en­tais, devem insis­tir na regu­la­men­ta­ção de tais serviços.

Agra­de­ço a todos os que acom­pa­nha­ram esta colu­na em 2021 e dese­jo a todos feli­ci­da­des e suces­so nos seus empre­en­di­men­tos, tudo com mui­ta saú­de e paz em 2022.