Assistência técnica encoraja produtores a evoluírem em Mato Grosso - Digital Balde Branco
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Programa AGeT ensina aos pequenos produtores o manejo correto do rebanho e a gestão eficiente da propriedade

FOMENTO

Assistência técnica encoraja 

produtores a evoluírem em Mato Grosso

Ações de fomento da pecuária leiteira desenvolvidas pelo Senar-MT têm ajudado o pequeno pecuarista a sonhar alto e a conquistar melhores resultados de produtividade 

Erick Henrique

A pecuá­ria lei­tei­ra em Mato Gros­so tem sofri­do com o mes­mo pro­ble­ma que afe­ta outras regiões do País: a cada ano, mui­tos pro­du­to­res, prin­ci­pal­men­te os peque­nos pecu­a­ris­tas que não sou­be­ram se rein­ven­tar e bus­car novas idei­as, aca­bam dei­xan­do a ati­vi­da­de em razão dos bai­xos resul­ta­dos que tor­nam inviá­vel sua per­ma­nên­cia na atividade. 

Para fazer fren­te a essa situ­a­ção e ofe­re­cer aos pro­du­to­res de lei­te mato-gros­sen­ses a chan­ce de sobre­vi­ver e ain­da poder cres­cer no lei­te, há a ini­ci­a­ti­va do Ser­vi­ço Naci­o­nal de Apren­di­za­gem Rural de Mato Gros­so (Senar-MT): a Assis­tên­cia Téc­ni­ca e Geren­ci­al (ATeG). Ela con­sis­te num mode­lo de pres­ta­ção de ser­vi­ços con­ti­nu­a­da, fun­da­men­ta­da em cin­co pas­sos: diag­nós­ti­co pro­du­ti­vo indi­vi­du­a­li­za­do; pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co; ade­qua­ção tec­no­ló­gi­ca; capa­ci­ta­ção pro­fis­si­o­nal e ava­li­a­ção sis­te­má­ti­ca de resultados.

“Enten­de­mos que pro­du­tor de lei­te bem assis­ti­do tenha mais pos­si­bi­li­da­de de se man­ter no cam­po. É uma ati­vi­da­de mui­to lucra­ti­va quan­do é fei­ta com pro­fis­si­o­na­lis­mo e assis­tên­cia téc­ni­ca espe­ci­a­li­za­da. Isso con­tri­bui para que o pecu­a­ris­ta faça o mane­jo, uti­li­ze as téc­ni­cas e prá­ti­cas cor­re­tas e, assim, per­ma­ne­ça na ati­vi­da­de. Uma vez que a fazen­da come­ça a dar resul­ta­do e a aumen­tar, con­si­de­ra­vel­men­te, a sua efi­ci­ên­cia, pro­du­zin­do mais lei­te, com dinhei­ro no bol­so, o pro­du­tor con­ser­va a famí­lia e as futu­ras gera­ções no cam­po”, ava­lia Fran­cis­co Ola­vo Pugli­e­si de Cas­tro, popu­lar­men­te conhe­ci­do como Chi­co da Pau­li­ceia, supe­rin­ten­den­te do Senar-MT. 

Segun­do ele, a ins­ti­tui­ção ofer­ta mais de dez trei­na­men­tos espe­cí­fi­cos para a cadeia pro­du­ti­va da bovi­no­cul­tu­ra de lei­te. Den­tre estes, o Mane­jo de Gado Lei­tei­ro em qua­tro módu­los: con­teú­do bási­co; mane­jo nutri­ci­o­nal; mane­jo sani­tá­rio; con­tro­le zoo­téc­ni­co e repro­du­ti­vo. “Nos­so obje­ti­vo, aqui no Senar-MT, é fomen­tar a ATeG de modo geral, prin­ci­pal­men­te na cadeia pro­du­ti­va do lei­te. Toda soli­ci­ta­ção de ATeG de lei­te que che­gar ao Senar-MT será aten­di­da con­for­me os míni­mos requisitos.”

Chi­co da Pau­li­ceia res­sal­ta tam­bém que o setor da pro­du­ção de lei­te rece­be uma aten­ção espe­ci­al da ins­ti­tui­ção. Ape­sar de não ser o que mais con­tri­bui com a ins­ti­tui­ção, é o que mais rece­be da enti­da­de, por uma ques­tão soci­al. “Isso sig­ni­fi­ca que a pecuá­ria lei­tei­ra tem à dis­po­si­ção mais cur­sos e assis­tên­cia téc­ni­ca, pois enten­de­mos que o peque­no pro­du­tor pre­ci­sa ter apoio irres­tri­to para poder per­ma­ne­cer na ati­vi­da­de com lucro.”

Francisco Olavo Pugliesi: “Com a fazenda administrada com mais eficiência, produzindo mais e com rentabilidade, o produtor conserva a família e as futuras gerações no campo”

Por sua vez, o coor­de­na­dor da Assis­tên­cia Téc­ni­ca e Geren­ci­al (ATeG), Arman­do Ure­nha, apon­ta tam­bém uma ini­ci­a­ti­va bas­tan­te inte­res­san­te fei­ta pela ins­ti­tui­ção, cha­ma­da Senar Tec 200, Senar Tec 500 e Senar Tec 1.000, na qual as pro­pri­e­da­des que pro­du­zem abai­xo de 200 litros de lei­te por dia entram em um check list, que tra­ça seu per­fil (diag­nós­ti­co) e a ATeG jun­to com o pro­du­tor esta­be­le­ce um pla­no de ações e o ori­en­ta para que sua pro­pri­e­da­de, cum­prin­do os requi­si­tos esta­be­le­ci­dos, atin­ja a meta pro­du­ção de 200 litros de lei­te por dia. “Essa pro­pri­e­da­de tem até dois anos para se ade­quar e imple­men­tar as mudan­ças reco­men­da­das no pla­ne­ja­men­to. Se ela atin­gir as metas antes, pas­sa para uma pró­xi­ma fase. São dois anos por­que o Senar- MT não tem como ficar por três, qua­tro, cin­co anos aten­den­do a mes­ma fazen­da se ela não sair daque­le pata­mar ini­ci­al. Ou seja, a pala­vra que exis­te na assis­tên­cia téc­ni­ca é desen­vol­vi­men­to, então as pro­pri­e­da­des que não se desen­vol­vem não têm por que con­ti­nu­ar no pro­gra­ma”, pon­tua Urenha.

Para ele, cabe aos res­pon­sá­veis pela assis­tên­cia téc­ni­ca des­co­brir o moti­vo de essas fazen­das não esta­rem se desen­vol­ven­do. E aí vem a ação de um téc­ni­co de cam­po, para auxi­li­ar esse pro­du­tor a colo­car as reco­men­da­ções téc­ni­cas em prá­ti­ca. “Já esta­mos mon­tan­do esse cami­nho, ou seja, ele tem esse check list de entra­da para se ade­quar, e se aten­dê-lo e atin­gir os 200 litros de leite/dia, está pre­pa­ra­do para che­gar aos 500 litros/dia. Daí a gen­te con­se­gue aten­der esse pro­du­tor por mais três anos. Cum­prin­do o check list de 500 litros/leite/dia, ele con­ti­nua para o pata­mar de pro­du­zir até 1.000 litros de lei­te por dia”, expli­ca Ure­nha, acres­cen­tan­do que se esse pro­du­tor esti­ver satis­fei­to com 180, 220 litros de leite/dia, fica por con­ta dele, “por­que nós cum­pri­mos nos­so papel, con­se­gui­mos aten­dê-lo e fazer com que che­gas­se aon­de que­ria”, diz o coor­de­na­dor da ATeG.

Armando Urenha: “Na primeira fase, o objetivo é o produtor atingir os 200 litros de leite/dia; daí vem a próxima meta, de chegar aos 500 litros e, depois, aos 1.000 litros”

Os gargalos da pecuária leiteira em MT

 

É sabi­do que a cadeia pro­du­ti­va do lei­te de Mato Gros­so tem um lon­go cami­nho a per­cor­rer para alcan­çar os gran­des players do setor (MG, RS, PR, SC e GO), vis­to que o Esta­do vem cain­do de posi­ção no ran­king naci­o­nal de pro­du­ção. Atu­al­men­te figu­ra na 10ª posi­ção entre os mai­o­res pro­du­to­res de lei­te, de acor­do com o Ins­ti­tu­to Bra­si­lei­ro de Geo­gra­fia e Esta­tís­ti­ca (IBGE). Segun­do o levan­ta­men­to, as vacas do Esta­do pro­du­zem, em média, 1.637 litros por ano por cabe­ça, volu­me 35% menor que a média nacional.

Den­tre as cau­sas des­sa situ­a­ção, na ava­li­a­ção do coor­de­na­dor da ATeG, está o gar­ga­lo da bai­xa qua­li­fi­ca­ção e dis­po­ni­bi­li­da­de de mão de obra, cuja alta rota­ti­vi­da­de traz mui­tos pro­ble­mas à pro­pri­e­da­de lei­tei­ra. Some-se a este fato o agra­van­te da tam­bém bai­xa qua­li­fi­ca­ção de mui­tos pro­du­to­res, que come­çam a desen­vol­ver um tra­ba­lho para melho­rar sua ati­vi­da­de, mas não dão con­ti­nui­da­de ou por­que não con­se­guem, não se ade­quam ou por­que não estão real­men­te pre­pa­ra­dos para fazer mudan­ças téc­ni­cas para evo­luir na pro­du­ção leiteira.

O produtor Lenildo Lopes buscou assistência técnica e agora comemora o aumento da produtividade do rebanho

Segun­do Ure­nha, a bai­xa esco­la­ri­da­de e conhe­ci­men­tos dos pecu­a­ris­tas cri­am difi­cul­da­des para que absor­vam uma nova meto­do­lo­gia total­men­te dife­ren­ci­a­da daqui­lo que eles têm até o momen­to, já que a ATeG é um pro­gra­ma novo que exi­ge a supe­ra­ção de cer­tas prá­ti­cas ina­de­qua­das e até mes­mo ati­tu­des para evo­luir em efi­ci­ên­cia, pro­du­ti­vi­da­de e qua­li­da­de do lei­te na pro­pri­e­da­de. Isso aca­ba difi­cul­tan­do o tra­ba­lho dos téc­ni­cos. Acres­ce-se a isso a fal­ta de padro­ni­za­ção dos aten­di­men­tos, que é um dos gran­des pro­ble­mas enfren­ta­dos tam­bém. Mui­tas pro­pri­e­da­des estão fora do per­fil da gran­de mai­o­ria das pro­pri­e­da­des lei­tei­ras e, se fos­sem em outros Esta­dos, nem seri­am con­si­de­ra­dos pro­du­to­res de leite.

“A bai­xa qua­li­da­de do lei­te é total­men­te des­mo­ti­va­do­ra, mas são coi­sas que a gen­te tem como supe­rar. A logís­ti­ca dos pro­du­to­res, a entre­ga em tan­ques cole­ti­vos, etc. Ou seja, temos mui­tas situ­a­ções difí­ceis, porém todas são cor­ri­gí­veis, não há nenhum gar­ga­lo que não pos­sa­mos solu­ci­o­nar. O úni­co impac­to que foge do nos­so alcan­ce é o valor da remu­ne­ra­ção que o pro­du­tor rece­be pelo lei­te, assim como o valor que o pro­du­tor paga pelos insu­mos, que aumen­ta­ram de 600% até 800% do últi­mo ano para cá. Então, o pro­du­tor aca­ba se con­fun­din­do na hora de fazer as con­tas e é aí que entra o papel da ATeG, para auxi­liá-lo na men­su­ra­ção des­ses cus­tos”, diz o coor­de­na­dor do programa.

DECIDIR, APRENDER E PROSPERAR

 

O casal de pro­du­to­res Lenil­do Lopes Feli­zar­do e Vil­ma Ribei­ro Sério Lopes, de Iti­qui­ra (MT), esta­va pres­tes a dei­xar a pro­du­ção lei­tei­ra devi­do às inú­me­ras difi­cul­da­des que esta­va enfren­tan­do, até a épo­ca que entrou no pro­gra­ma do Senar-MT. De acor­do com a pro­du­to­ra, seu mari­do entrou na ati­vi­da­de lei­tei­ra fir­man­do uma soci­e­da­de que não teve mui­to suces­so, e, para não se des­fa­zer daqui­lo que já tinha con­quis­ta­do, o casal deci­diu rom­per com a parceria.

“No iní­cio, a gen­te tira­va cer­ca de 170 litros de leite/dia, de 14 vacas. A ideia era tirar lei­te e dei­xar uma boa par­te do reba­nho des­can­san­do. Não pesá­va­mos o lei­te nem dáva­mos o tra­to cor­re­to aos ani­mais”, lem­bra Vil­ma Lopes. Ela recor­da tam­bém que no Sítio Sonho Meu era “boca livre” para todos os ani­mais. Nes­sa épo­ca, eles pos­suíam uma peque­na reser­va de dinhei­ro, que, com o tem­po, foi secan­do, e logo sur­gi­ram as dificuldades.

“Bus­can­do encon­trar um cami­nho melhor para a ati­vi­da­de, a gen­te come­çou a visi­tar os pro­du­to­res vizi­nhos, a escu­tar pes­so­as que já fazi­am par­te do Senar/ATeG, até que fomos indi­ca­dos a um téc­ni­co, o Leo­nar­do Alves de Frei­tas, que fez uma visi­ta à nos­sa pro­pri­e­da­de e nos con­vi­dou a fazer par­te do pro­gra­ma. Foi aí que toda a his­tó­ria mudou de rumo. Naque­le momen­to a pro­du­ção de lei­te era pou­ca, mas em con­tra­par­ti­da os cus­tos eram mai­o­res ainda.”

Vilma (com seu filho Davi): Graças à orientação da ATeG do Senar-MT, incrementamos a produção e nossa próxima meta é chegar aos 1.000 litros de leite/dia

Ela rela­ta que logo no come­ço ocor­reu uma revo­lu­ção na fazen­da. Antes de a ATeG entrar em cena, a orde­nha era rea­li­za­da manu­al­men­te, debai­xo de sol e chu­va, tan­to que nem conhe­ci­am o poten­ci­al dos ani­mais. A par­tir de então, ela e o mari­do come­ça­ram a men­su­rar a pro­du­ção de lei­te, a ade­quar o tra­to dos ani­mais, sepa­ran­do o reba­nho em lotes. Ou seja, cada lote come­çou a rece­ber ali­men­to de acor­do com a pro­du­ção. E aí tudo foi se modi­fi­can­do e, tem­pos depois, come­ça­ram a usar a inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al e hoje fazem IATF e têm a con­fir­ma­ção da situ­a­ção repro­du­ti­va das vacas com o ultrassom.

Além dis­so, o téc­ni­co da ATeG os ori­en­tou a divi­di­rem a pas­ta­gem em pique­tes para tra­ba­lha­rem no sis­te­ma de pas­te­jo rota­ci­o­na­do. Tam­bém reco­men­dou a uti­li­za­rem a cul­ti­var BRS Capi­a­çu para a pro­du­ção de sila­gem, dada a velo­ci­da­de de cres­ci­men­to, alta pro­du­ção e bom valor nutri­ti­vo. “Depois, com a ori­en­ta­ção dos téc­ni­cos do Senar/MT, cons­truí­mos o bar­ra­cão e ins­ta­la­mos uma peque­na sala de orde­nha para faci­li­tar o ser­vi­ço. Tudo isso com recur­sos do lei­te, nada de finan­ci­a­men­to, e con­se­gui­mos tam­bém a ins­ta­la­ção de nos­so tan­que res­fri­a­men­to”, des­ta­ca a pro­du­to­ra do Sítio Sonho Meu.

Ela con­ta que, des­de a pri­mei­ra visi­ta do téc­ni­co Leo­nar­do Frei­tas, foi esta­be­le­ci­da uma meta para a pro­pri­e­da­de atin­gir os 500 litros/leite/dia em um ano, com a mes­ma quan­ti­da­de de ani­mais, 28 vacas em lac­ta­ção, só que em ape­nas dez meses o obje­ti­vo foi alcan­ça­do e supe­ra­do, com a mar­ca de pro­du­ção de 640 litros/dia.

“Ain­da temos mui­to ser­vi­ço pela fren­te. Nos­sa fazen­da é peque­na, somen­te 20 hec­ta­res que ain­da estão sen­do pre­pa­ra­dos para supor­tar o nos­so reba­nho. Hoje, gas­ta­mos mui­to com arren­da­men­to e com insu­mos para ali­men­ta­ção. Devi­do a essas difi­cul­da­des, tive­mos que bai­xar um pou­co a pro­du­ção de lei­te, pois esta­va sain­do mui­to cara. Porém, man­te­mos nos­sa meta: atin­gir os 1.000 litros/leite/dia; con­se­guir pro­du­zir o pró­prio ali­men­to nes­ses 20 hec­ta­res, e melho­rar a gené­ti­ca do reba­nho”, pla­ne­ja Vil­ma Lopes.

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