Biosseguridade na pecuária leiteira - Digital Balde Branco
revista-balde-branco-biosseguridade-01-ed688

É preciso que o produtor tenha em mente que os aspectos relacionados à saúde animal e à saúde humana sempre remetem à saúde única

PREVENÇÃO

Biosseguridade

na pecuária leiteira

Trata-se de um conjunto de normas e procedimentos que visam prevenir a introdução e reduzir a circulação de agentes infecciosos em um sistema de produção 

Bruno Marinho Mendonça Guimarães*

Por defi­ni­ção, o ter­mo bios­se­gu­ri­da­de é conhe­ci­do como um con­jun­to de nor­mas e pro­ce­di­men­tos que visam pre­ve­nir a intro­du­ção e redu­zir a cir­cu­la­ção de agen­tes infec­ci­o­sos em um sis­te­ma de pro­du­ção. Tais medi­das garan­tem não somen­te a saú­de ani­mal, mas tam­bém a saú­de públi­ca como um todo, uma vez que ambas as áre­as são inter­de­pen­den­tes, indis­so­ciá­veis e fazem par­te de um mes­mo ecos­sis­te­ma sani­tá­rio, que é a saú­de única.

A títu­lo de conhe­ci­men­to, bios­se­gu­ri­da­de e bios­se­gu­ran­ça são ter­mos seme­lhan­tes, mas não sinô­ni­mos, sen­do geral­men­te empre­ga­dos de for­ma ina­de­qua­da. A bios­se­gu­ri­da­de refe­re-se à saú­de ani­mal, enquan­to a bios­se­gu­ran­ça, por sua vez, reme­te à saú­de huma­na. Por mais que haja essas dife­ren­ças, o que real­men­te impor­ta, no fim, é o obje­ti­vo úni­co e igua­li­tá­rio de ambos os ter­mos, que é o de garan­tir o equi­lí­brio sau­dá­vel da tría­de epi­de­mi­o­ló­gi­ca ambi­en­te, agen­te e hospedeiro.

Imple­men­tar e asse­gu­rar pro­ces­sos com bios­se­gu­ri­da­de é um pon­to fun­da­men­tal na pecuá­ria lei­tei­ra. Afi­nal, qual­quer vari­a­ção capaz de deses­ta­bi­li­zar a tría­de epi­de­mi­o­ló­gi­ca pos­sui gran­de poten­ci­al para com­pro­me­ter o desem­pe­nho dos ani­mais e, como con­sequên­cia, os resul­ta­dos finan­cei­ros e econô­mi­cos da propriedade.

Biosseguridade desde as fases iniciais de vida das bezerras

Por se tra­tar de uma área impor­tan­te que envol­ve ris­cos bio­ló­gi­cos, a bios­se­gu­ri­da­de deve ser abor­da­da com cui­da­do e aten­ção, des­de as fases ini­ci­ais de vida dos animais.

Um exem­plo clás­si­co é o de lim­pe­za, desin­fec­ção e vazio sani­tá­rio das ins­ta­la­ções das bezer­ras em alei­ta­men­to. A cada vez que uma bezer­ra é des­ma­ma­da ou dei­xa o alei­ta­men­to por moti­vos que não o des­ma­me, o reco­men­da­do é que o local onde essa bezer­ra esta­va pas­se por um pro­ces­so rigo­ro­so de lim­pe­za e desin­fec­ção, fican­do sem rece­ber novos ani­mais duran­te um deter­mi­na­do perío­do, cum­prin­do o vazio sanitário.

Recomenda-se limpeza, desinfecção e vazio sanitário das instalações das bezerras em aleitamento. Na foto, bezerreiro tropical

Outro exem­plo bas­tan­te pre­sen­te na roti­na das fazen­das lei­tei­ras é o de limi­tar o aces­so de pes­so­as exter­nas ao setor das bezer­ras. Caso não haja esse con­tro­le, mai­or é o ris­co de as pes­so­as leva­rem agen­tes pato­gê­ni­cos exter­nos aos ani­mais jovens, poden­do dese­qui­li­brar a saú­de e desen­vol­ver sur­tos de doen­ças e dis­túr­bi­os, como diar­reia, por exemplo.

O ide­al é que somen­te as pes­so­as e os cola­bo­ra­do­res que lidam roti­nei­ra­men­te com as bezer­ras tenham con­ta­to com elas. No entan­to, não bas­ta ape­nas limi­tar o aces­so ao setor. Outras medi­das mais rigo­ro­sas podem e devem ser apli­ca­das, como é o caso da lim­pe­za, higi­e­ne e desin­fec­ção das botas dos cola­bo­ra­do­res, por serem poten­ci­ais mei­os de vei­cu­la­ção de micror­ga­nis­mos de outros seto­res da fazenda.

Realização de exame de tuberculose

CONTROLE DO REBANHO E DA ENTRADA DE ANIMAIS EXTERNOS À FAZENDA


Vári­as são as pro­pri­e­da­des que optam pela estra­té­gia de com­pra de ani­mais para aumen­tar e evo­luir o reba­nho. Entre­tan­to, um pon­to que nem todas essas fazen­das que optam por essa estra­té­gia é cum­pri­do é a pes­qui­sa e a iden­ti­fi­ca­ção de ani­mais por­ta­do­res de agen­tes pato­gê­ni­cos espe­cí­fi­cos, cau­sa­do­res de doen­ças extre­ma­men­te rele­van­tes, como é o caso de bru­ce­lo­se, tuber­cu­lo­se, tri­pa­nos­so­mo­se e mas­ti­te por Staphy­lo­coc­cus aureus, por exemplo.

Bru­ce­lo­se e tuber­cu­lo­se são impor­tan­tes zoo­no­ses que pos­su­em um regu­la­men­to fede­ral de con­tro­le e erra­di­ca­ção, conhe­ci­do como Pro­gra­ma Naci­o­nal de Con­tro­le e Erra­di­ca­ção da Bru­ce­lo­se e da Tuber­cu­lo­se Ani­mal (PNCEBT). Todos os ani­mais já pre­sen­tes no reba­nho da fazen­da devem ser moni­to­ra­dos para as duas zoo­no­ses com uma frequên­cia míni­ma de uma vez ao ano. Além dis­so, todos os ani­mais adqui­ri­dos de fora da pro­pri­e­da­de tam­bém devem ser moni­to­ra­dos para bru­ce­lo­se e tuber­cu­lo­se antes de entra­rem em con­ta­to com o reba­nho local.

Vale res­sal­tar que é pos­sí­vel pre­ve­nir a bru­ce­lo­se com vaci­na­ção e, logo, a reco­men­da­ção é a de que os ani­mais adqui­ri­dos sejam, além de tes­ta­dos e nega­ti­va­dos, vaci­na­dos. Aque­les indi­ví­du­os rea­gen­tes e posi­ti­vos nos exa­mes de bru­ce­lo­se e tuber­cu­lo­se devem dei­xar o reba­nho o mais rápi­do pos­sí­vel, para que não infec­tem os demais.

A tri­pa­nos­so­mo­se bovi­na con­sis­te em uma doen­ça que teve o seu pri­mei­ro rela­to des­cri­to no Bra­sil por vol­ta da déca­da de 1970, sen­do que nos últi­mos anos vem apre­sen­tan­do um núme­ro cres­cen­te de noti­fi­ca­ções, tal­vez pela mai­or abran­gên­cia de diag­nós­ti­co nos reba­nhos e cons­ci­en­ti­za­ção dos pro­du­to­res. Essa enfer­mi­da­de é vei­cu­la­da prin­ci­pal­men­te pelo uso com­par­ti­lha­do de mate­ri­ais per­fu­ro­cor­tan­tes entre um ani­mal portador/doente e um ani­mal sau­dá­vel, como agu­lhas, por exem­plo, e pelo repas­to de inse­tos hema­tó­fa­gos, como mos­cas e mutucas. 

A sua ocor­rên­cia geral­men­te se dá na for­ma de sur­tos, levan­do a pre­juí­zos exten­sos aos ani­mais e à pro­pri­e­da­de. Cons­truin­do uma esti­ma­ti­va da mag­ni­tu­de dos pre­juí­zos, sur­tos de tri­pa­nos­so­mo­se em um reba­nho pos­su­em poten­ci­al de redu­zir a pro­du­ção de lei­te entre 40% e 60% de for­ma exces­si­va­men­te rápi­da, sen­do que a taxa de mor­ta­li­da­de fica por vol­ta de 10% a 20%.

O uso com­par­ti­lha­do de agu­lhas de oci­to­ci­na é extre­ma­men­te efi­ci­en­te na vei­cu­la­ção do Try­pa­nos­so­ma vivax, agen­te cau­sa­dor da tri­pa­nos­so­mo­se bovi­na. Logo, fazen­das que fazem o uso de oci­to­ci­na nas vacas devem optar pelo uso indi­vi­du­a­li­za­do de agu­lhas e serin­gas. Saben­do da agres­si­vi­da­de da doen­ça e das suas prin­ci­pais for­mas de dis­se­mi­na­ção, ficam mais cla­ras as deci­sões que devem ser toma­das para aumen­tar a bios­se­gu­ri­da­de em rela­ção à tri­pa­nos­so­mo­se, além da rea­li­za­ção do exa­me de iden­ti­fi­ca­ção do pató­ge­no, caso o reba­nho seja suspeito.

Uso de luvas para ordenha das vacas (Fazenda Barreiro Alto, cliente Grupo Rehagro)

SAÚDE DA GLÂNDULA MAMÁRIA, QUALIDADE DO LEITE E BIOSSEGURIDADE


Outro pon­to de gran­de aten­ção no momen­to da com­pra de ani­mais e que comu­men­te pas­sa des­per­ce­bi­do é a rea­li­za­ção de cul­tu­ra micro­bi­o­ló­gi­ca do lei­te das vacas para iden­ti­fi­car pató­ge­nos con­ta­gi­o­sos cau­sa­do­res de mas­ti­te, como é o caso do Staphy­lo­coc­cus aureus. A mas­ti­te cau­sa­da por esta bac­té­ria não é res­pon­si­va a tra­ta­men­tos e é capaz de aco­me­ter gran­de par­te do reba­nho, caso nada seja fei­to, devi­do ao seu cará­ter con­ta­gi­o­so. Além de pre­ju­di­car a saú­de dos ani­mais, as vacas infec­ta­das pro­du­zi­rão menos lei­te, sen­do tam­bém um lei­te de menor qualidade.

Con­for­me comen­ta­do há pou­co, é de gran­de impor­tân­cia o moni­to­ra­men­to das vacas por meio de cul­tu­ra micro­bi­o­ló­gi­ca do lei­te quan­to a pos­sí­veis infec­ções por Staphy­lo­coc­cus aureus na glân­du­la mamá­ria. No entan­to, esse moni­to­ra­men­to não se resu­me ape­nas aos ani­mais oriun­dos de com­pra e ao agen­te S. aureus.

O ide­al é que a fazen­da pos­sua pro­ces­sos padro­ni­za­dos de acom­pa­nha­men­to da saú­de da glân­du­la mamá­ria de todas as vacas do reba­nho, moni­to­ran­do casos espe­cí­fi­cos (pós-par­to, pre­sen­ça de gru­mos, CCS ele­va­da, etc.) por meio de cul­tu­ra micro­bi­o­ló­gi­ca do lei­te para iden­ti­fi­ca­ção de pató­ge­nos rele­van­tes (S. aureus, Strep­to­coc­cus aga­lac­ti­ae, Myco­plas­ma spp., etc). É essen­ci­al que tais pro­ces­sos sejam ela­bo­ra­dos cor­re­ta­men­te e segui­dos à ris­ca, no intui­to de evi­tar que deter­mi­na­do agen­te pato­gê­ni­co saia do con­tro­le, aumen­te sua taxa de infec­ção e com­pro­me­ta a saú­de e o desem­pe­nho dos animais.

A bios­se­gu­ri­da­de no setor de orde­nha não para por aí. É impor­tan­te pen­sar­mos tam­bém na inte­gri­da­de dos orde­nha­do­res. Uma ação de gran­de rele­vân­cia e impac­to, tan­to na saú­de huma­na quan­to na saú­de ani­mal, é o uso de luvas por par­te dos cola­bo­ra­do­res res­pon­sá­veis. Além de evi­tar a dis­se­mi­na­ção de pató­ge­nos con­ta­gi­o­sos pre­sen­tes nas mãos dos orde­nha­do­res para as vacas, as luvas tam­bém evi­tam que deter­mi­na­das zoo­no­ses sejam trans­mi­ti­das aos huma­nos, como é o caso da varío­la bovi­na. O con­ta­to das mãos des­pro­te­gi­das dos orde­nha­do­res com as pos­sí­veis lesões cutâ­ne­as espe­cí­fi­cas da doen­ça pre­sen­tes nos tetos de vacas infec­ta­das podem trans­mi­tir o vírus cau­sa­dor da enfermidade.

Con­si­de­ra­ções – Garan­tir a bios­se­gu­ri­da­de é um dever de todos – inde­pen­den­te­men­te da ati­vi­da­de desen­vol­vi­da, o con­cei­to de bios­se­gu­ri­da­de sem­pre deve estar pre­sen­te na men­te de todos, pois os aspec­tos rela­ci­o­na­das à saú­de ani­mal e à saú­de huma­na sem­pre reme­tem à saú­de úni­ca. Ou seja, dese­qui­lí­bri­os na saú­de ani­mal podem inter­fe­rir na saú­de huma­na e vice-ver­sa. Bios­se­gu­ri­da­de e bios­se­gu­ran­ça andam lado a lado.

Olhan­do para pecuá­ria lei­tei­ra por­tei­ra aden­tro, ações que garan­tem a bios­se­gu­ri­da­de do reba­nho sem­pre devem estar em foco, des­de os ani­mais mais jovens até os mais velhos. A bios­se­gu­ri­da­de jamais deve ser negli­gen­ci­a­da e não deve ser com­pre­en­di­da sim­ples­men­te como um con­jun­to de medi­das que trans­mi­tem um ambi­en­te de “garan­tia legal” para a fazen­da. Um pla­no de bios­se­gu­ri­da­de bem pen­sa­do e imple­men­ta­do é uma segu­ran­ça a mais de que os ani­mais terão con­di­ções mais favo­rá­veis de expres­sa­rem bons desem­pe­nhos, retor­nan­do melho­res resul­ta­dos para a fazenda.

 

*Médico veterinário e técnico da Equipe Leite Rehagro

Que tal aprimorar os conhecimentos e construir um raciocínio bem estruturado
sobre programas de saúde em bovinos leiteiros para otimizar a biosseguridade
das fazendas assistidas por você? Conheça a Pós-graduação em Pecuária
Leiteira da Faculdade Rehagro e garanta sua vaga na próxima turma