Brasil desenvolve a sua primeira cultivar de capim ‘brachiaria ruziziensis’ - Digital Balde Branco
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Ao manter a produtividade alta no inverno, a BRS Integra pode ser aproveitada tanto como forragem para alimentação do gado na entressafra, quanto como palhada para o próximo plantio das lavouras

SISTEMAS INTEGRADOS

Brasil desenvolve a sua primeira cultivar de

capim ‘brachiaria ruziziensis’

A nova BRS Integra visa ao aumento da produtividade em sistemas que integram lavoura, pecuária e floresta 

Rubens Neiva*

O pro­gra­ma de melho­ra­men­to gené­ti­co de for­ra­gei­ras con­du­zi­do pela Embra­pa desen­vol­veu a pri­mei­ra cul­ti­var de Uro­ch­loa ruzi­zi­en­sis ou Bra­chi­a­ria ruzi­zi­en­sis, como o capim era deno­mi­na­do cien­ti­fi­ca­men­te. Essa cul­ti­var foi desen­vol­vi­da para as con­di­ções de solo e cli­ma no Bra­sil e rece­beu o nome de BRS Inte­gra por se des­ti­nar aos sis­te­mas de Inte­gra­ção Lavou­ra, Pecuá­ria e Flo­res­ta (ILPF).

Segun­do o pes­qui­sa­dor da Embra­pa Gado de Lei­te Faus­to Sou­za Sobri­nho, que con­du­ziu os estu­dos, com­pa­ra­da à cul­ti­var atu­al­men­te dis­po­ní­vel no mer­ca­do (cv. Ken­nedy), a BRS Inte­gra apre­sen­ta mai­or pro­du­ção de for­ra­gem na entres­sa­fra, quan­do o capim está sol­tei­ro na área. “Esse dife­ren­ci­al, no perío­do de seca, tor­na a cul­ti­var mais indi­ca­da para a ILPF, poden­do con­tri­buir com o aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de des­ses sis­te­mas”, expli­ca ele.

O novo nome da ‘Bra­chi­a­ria’: ‘Uro­ch­loa’ - Ori­gi­ná­ria da Áfri­ca, ela pos­sui boa adap­ta­bi­li­da­de a solos de bai­xa fer­ti­li­da­de e a dife­ren­tes cli­mas e lati­tu­des, além de apre­sen­tar agres­si­vi­da­de na com­pe­ti­ção com plan­tas dani­nhas e pro­por­ci­o­nar bom desem­pe­nho ani­mal. Essas qua­li­da­des fize­ram do gêne­ro bra­quiá­ria qua­se um sinô­ni­mo de pas­ta­gem. Cul­ti­va­da em regiões tro­pi­cais, a gra­mí­nea pos­sui uma cen­te­na de espé­ci­es. Além da B. ruzi­zi­en­sis, outras bas­tan­te conhe­ci­das e uti­li­za­das no Bra­sil são decum­bens, bri­zantha e humidicola.

Fausto Souza Sobrinho: Com o incremento dos sistemas ILPF, a espécie tem sido muito utilizada nessa modalidade, devido à sua melhor adaptação à sobressemeadura

De um total 180 milhões de hec­ta­res de pas­ta­gens no País, 80% per­ten­cem ao gêne­ro Bra­chi­a­ria. Ou per­ten­ci­am. Recen­te­men­te, os cien­tis­tas reclas­si­fi­ca­ram qua­se todas as bra­quiá­ri­as para o gêne­ro Uro­ch­loa. A reclas­si­fi­ca­ção segue cri­té­ri­os taxonô­mi­cos (nor­mas de clas­si­fi­ca­ção) cuja fun­ção é orga­ni­zar vege­tais e ani­mais, faci­li­tan­do o estu­do e a iden­ti­fi­ca­ção dos orga­nis­mos vivos. Des­sa for­ma, cada plan­ta ou ani­mal ganha nome (gêne­ro) e sobre­no­me (espé­cie), mas mudan­ças podem ocor­rer para faci­li­tar o tra­ba­lho dos cientistas.

Foi o que acon­te­ceu com a Bra­chi­a­ria. No entan­to, por ques­tões legais, des­de a últi­ma reclas­si­fi­ca­ção taxonô­mi­ca, a nomen­cla­tu­ra cien­tí­fi­ca para o “capim bra­quiá­ria” pas­sa a ser “Uro­ch­loa (sino­ní­mia, Bra­chi­a­ria)” ou “Bra­chi­a­ria (sino­ní­mia, Uro­ch­loa)”. A sor­te é que, para o pro­du­tor, nada muda e a “bra­chi­a­ria” pode con­ti­nu­ar sen­do cha­ma­da de bra­quiá­ria, como fize­mos nes­ta repor­ta­gem. O mes­mo ser­ve para as expres­sões idi­o­má­ti­cas e nin­guém pre­ci­sa “vazar na uro­ch­loa” se qui­ser sair rapi­da­men­te de algum lugar. “Vazar na bra­quiá­ria” ain­da é uma for­ma váli­da de se retirar.

Antes da BRS Inte­gra, a cv. Ken­nedy era a cul­ti­var de ruzi­zi­en­sis exis­ten­te no mer­ca­do de semen­tes for­ra­gei­ras. O pro­ble­ma é que ela não foi desen­vol­vi­da espe­ci­fi­ca­men­te para as con­di­ções eda­fo­cli­má­ti­cas (solo e cli­ma) bra­si­lei­ras. Para o pes­qui­sa­dor, ape­sar de pos­suir boa adap­ta­ção às dife­ren­tes con­di­ções ambi­en­tais do País, a cul­ti­var Ken­nedy apre­sen­ta menor pro­du­ção de for­ra­gem se com­pa­ra­da a cul­ti­va­res de outras espé­ci­es de bra­quiá­ria como a bri­zantha ou a decumbens.

Palhada da BRS Integra no cultivo do milho

 “Isso acon­te­ce prin­ci­pal­men­te no inver­no, duran­te a entres­sa­fra das lavou­ras, quan­do, nos sis­te­mas inte­gra­dos de cul­ti­vo, as for­ra­gei­ras se encon­tram sozi­nhas na área ou acom­pa­nha­das ape­nas pelo com­po­nen­te flo­res­tal”, expli­ca Sou­za Sobri­nho. Ao man­ter a pro­du­ti­vi­da­de alta no inver­no, a BRS Inte­gra pode ser apro­vei­ta­da tan­to como for­ra­gem para ali­men­ta­ção do gado na entres­sa­fra, quan­to como palha­da para o pró­xi­mo plan­tio das lavouras.

Alexandre Brighenti: “Além de mais sensível a herbicidas, a ruziziensis só floresce uma vez ao ano, o que torna seu controle mais fácil”

O cien­tis­ta expli­ca ain­da que, embo­ra a bri­zantha e a decum­bens pos­su­am mai­or área cul­ti­va­da no País, a ruzi­zi­en­sis vem aumen­tan­do seu espa­ço com o incre­men­to do ILPF. “A espé­cie tem sido mui­to uti­li­za­da nes­ses sis­te­mas devi­do à sua melhor adap­ta­ção à sobres­se­me­a­du­ra em rela­ção às demais.”

O tam­bém pes­qui­sa­dor da Embra­pa, Ale­xan­dre Brighen­ti, apon­ta outra van­ta­gem: “A ruzi­zi­en­sis é mais sen­sí­vel a her­bi­ci­das, deman­dan­do doses mais bai­xas na des­se­ca­ção pré-seme­a­du­ra de cul­ti­vos em sis­te­mas de plan­tio dire­to”. Além dis­so, a pro­du­ção de semen­tes da espé­cie é uni­for­me, pois só flo­res­ce uma vez por ano, tor­nan­do o seu con­tro­le mais fácil.

O desen­vol­vi­men­to da BRS Inte­gra – O fato de só haver uma cul­ti­var de ruzi­zi­en­sis dis­po­ní­vel no mer­ca­do de semen­tes, sem infor­ma­ções deta­lha­das sobre seu poten­ci­al for­ra­gei­ro, difi­cul­ta­va a expan­são da área cul­ti­va­da. “Asso­ci­a­do ao aumen­to cres­cen­te da área cul­ti­va­da com ruzi­zi­en­sis, o pro­ble­ma levou a Embra­pa a pes­qui­sar novas cul­ti­va­res capa­zes de aten­der à deman­da da pecuá­ria bra­si­lei­ra”, con­ta Sou­za Sobri­nho. Segun­do ele, o desen­vol­vi­men­to da espé­cie pri­mou pela obten­ção de cul­ti­va­res de alta pro­du­ti­vi­da­de e boa qua­li­da­de da for­ra­gem. A pos­si­bi­li­da­de do uso em sis­te­mas de ILPF, que se expan­di­ram na últi­ma déca­da, tra­çou o cami­nho do desen­vol­vi­men­to da BRS Integra.

“O pro­gra­ma de melho­ra­men­to teve como estra­té­gia a sele­ção recor­ren­te feno­tí­pi­ca, que se baseia em ciclos de ava­li­a­ção, iden­ti­fi­ca­ção e sele­ção dos melho­res indi­ví­du­os e sua recom­bi­na­ção para obten­ção de novas popu­la­ções melho­ra­das, ou seja, com frequên­ci­as mais ele­va­das dos ale­los dese­já­veis”, expli­ca o pes­qui­sa­dor. A exis­tên­cia de vari­a­bi­li­da­de gené­ti­ca entre pro­gê­ni­es ou plan­tas de ruzi­zi­en­sis para todas as carac­te­rís­ti­cas ava­li­a­das, obser­va­da nos pri­mei­ros ciclos, tem impul­si­o­na­do o pro­gra­ma de melho­ra­men­to gené­ti­co da espé­cie e mos­tra­do a pos­si­bi­li­da­de de sele­ção de genó­ti­pos superiores.

Ao fim do ter­cei­ro ciclo de sele­ção foram obti­das 14 popu­la­ções melho­ra­das para ava­li­a­ções pos­te­ri­o­res. Esses gru­pos foram iden­ti­fi­ca­dos basi­ca­men­te pela supe­ri­o­ri­da­de em rela­ção à pro­du­ti­vi­da­de e qua­li­da­de da for­ra­gem. A popu­la­ção deno­mi­na­da “REC 2” se des­ta­cou nas ava­li­a­ções pos­te­ri­o­res, incluin­do os ensai­os para deter­mi­na­ção do valor de cul­ti­vo e uso (VCU) sob cor­te, rea­li­za­dos entre os anos de 2013 e 2016. O mate­ri­al gené­ti­co tam­bém foi tes­ta­do sob pas­te­jo seguin­do as nor­mas de VCU do Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, nos anos de 2016 a 2018. Nes­ses ensai­os de pas­te­jo, a popu­la­ção “REC 2” mos­trou-se seme­lhan­te à cul­ti­var comer­ci­al (Ken­nedy) tan­to em pro­du­ti­vi­da­de de for­ra­gem como em desem­pe­nho animal.

Seme­lhan­ças entre as duas cul­ti­va­res tam­bém foram veri­fi­ca­das em ensai­os com­pa­ra­ti­vos da pro­du­ti­vi­da­de de lei­te de vacas mes­ti­ças. Nes­se caso, embo­ra a pro­du­ti­vi­da­de ani­mal tenha sido seme­lhan­te, a BRS Inte­gra con­fir­mou os resul­ta­dos obti­dos nos ensai­os de VCU sob cor­te, pro­du­zin­do mai­o­res quan­ti­da­des de for­ra­gem e de folhas e meno­res quan­ti­da­des de mate­ri­al mor­to na épo­ca seca do ano, além de apre­sen­tar melhor rela­ção entre folhas e cau­les na mai­or par­te do ano, com­pa­ra­do à Kennedy.

A popu­la­ção REC 2, após con­fir­ma­da sua supe­ri­o­ri­da­de nos ensai­os de VCU, foi regis­tra­da no minis­té­rio como nova cul­ti­var sob o núme­ro 40794 em 29/4/2019, sen­do deno­mi­na­da de U. ruzi­zi­en­sis “BRS Inte­gra”. Essa nova cul­ti­var rece­beu, jun­to ao Mapa, cer­ti­fi­ca­do de pro­te­ção de cul­ti­va­res núme­ro 20210042 em 21/1/2021. Nota: as semen­tes estão dis­po­ní­veis para a com­pra por meio da Uni­pas­to (https://www.unipasto.com.br).

RECOMENDAÇÕES DA EMBRAPA PARA O CULTIVO DA BRS INTEGRA

 
Com­pos­ta por plan­tas vigo­ro­sas, de por­te médio, com altu­ra entre 80 e 110 cm, a BRS Inte­gra pos­sui boa capa­ci­da­de de cober­tu­ra do solo e o cres­ci­men­to ten­de a ser ere­to. Suas folhas pos­su­em o ter­ço final arque­a­do e medem em média 25 cm (com­pri­men­to) e 1,5 cm (lar­gu­ra). A plan­ta apre­sen­ta col­mos finos e alta taxa de per­fi­lha­men­to tan­to basal como axi­lar (per­fi­lhos aére­os). No cam­po expe­ri­men­tal da Embra­pa Gado de Lei­te, em Coro­nel Pache­co (MG), o flo­res­ci­men­to ocor­re nos meses de feve­rei­ro e mar­ço e a matu­ra­ção das semen­tes, em abril e maio. 

Com­pa­ra­ti­va­men­te à cv. Ken­nedy, a pro­du­ção de for­ra­gem total e palha­da da nova cul­ti­var no outono/inverno (perío­do seco em boa par­te do País) é mai­or. Indi­ca­da para o Bio­ma Mata Atlân­ti­ca, a BRS Inte­gra se adap­ta a solos de média a alta fer­ti­li­da­de, poden­do ser cul­ti­va­da des­de o nível do mar até 1.800 m de altitude.

Os pes­qui­sa­do­res reco­men­dam evi­tar o plan­tio em áre­as de vár­ze­as úmi­das ou sujei­tas a ala­ga­men­tos. Se a seme­a­du­ra for exclu­si­va, ou seja, para a for­ma­ção do pas­to, o solo deve ser pre­pa­ra­do de for­ma con­ven­ci­o­nal, efe­tu­an­do-se ara­ções e gra­da­gens, con­for­me a neces­si­da­de e con­di­ção do ter­re­no. Na seme­a­du­ra, é neces­sá­ria aten­ção espe­ci­al no con­tro­le de plan­tas dani­nhas para não com­pro­me­ter o esta­be­le­ci­men­to e a lon­ge­vi­da­de da pas­ta­gem.
No caso de plan­ti­os con­sor­ci­a­dos, nos sis­te­mas inte­gra­dos de cul­ti­vo, a seme­a­du­ra pode­rá ser rea­li­za­da con­co­mi­tan­te­men­te às lavou­ras. Outra for­ma é rea­li­zar o plan­tio, com um atra­so de alguns dias em rela­ção à lavou­ra, a fim de evi­tar ou redu­zir a com­pe­ti­ção ini­ci­al com ela e, ain­da, por meio da sobres­se­me­a­du­ra pró­xi­ma à colhei­ta da lavoura.

 

Cala­gem – Deve ser rea­li­za­da com ante­ce­dên­cia míni­ma de 60 dias em rela­ção à data pre­vis­ta para a seme­a­du­ra, com base nos resul­ta­dos da aná­li­se de solo, visan­do alcan­çar 50% de satu­ra­ção por bases, uti­li­zan­do-se de cal­cá­rio dolo­mí­ti­co, nas con­di­ções de bai­xo teor de Mg+2 apli­ca­do antes da ara­ção do solo, aumen­tan­do, assim, a efi­ci­ên­cia na cor­re­ção da acidez.

Adu­ba­ção de esta­be­le­ci­men­to ou de plan­tio – Pre­ci­sa ser base­a­da nos resul­ta­dos da aná­li­se de solo. Nas con­di­ções tro­pi­cais, os mai­o­res limi­tan­tes em rela­ção à fer­ti­li­da­de do solo estão rela­ci­o­na­dos aos bai­xos teo­res de fós­fo­ro e à aci­dez dos solos. Sen­do assim, reco­men­da-se ape­nas a apli­ca­ção de adu­ba­ção fos­fa­ta­da, na base de 100 kg/ha de P2O5, dis­tri­buí­dos no fun­do dos sul­cos, ou a lan­ço. A apli­ca­ção do potás­sio deve­rá ser rea­li­za­da quan­do o teor de potás­sio tro­cá­vel no solo for infe­ri­or a 50 mg/dm3, numa dose de 80 a 100 kg/ha de clo­re­to de potás­sio (KCl).

Adu­ba­ção de manutenção/cobertura – Deve ser rea­li­za­da 60 dias após a seme­a­du­ra, sen­do reco­men­da­da a apli­ca­ção de 200 kg de N e K2O e 50 kg de P2O5 por hectare/ano, fra­ci­o­na­das em três apli­ca­ções iguais (iní­cio, meio e fim da épo­ca chu­vo­sa). O adu­bo fos­fa­ta­do pode­rá ser apli­ca­do de uma úni­ca vez no iní­cio da esta­ção chu­vo­sa. As adu­ba­ções devem ser rea­li­za­das ao lon­go da esta­ção das águas, quan­do as con­di­ções de umi­da­de do solo forem favoráveis.

Seme­a­du­ra – A seme­a­du­ra pode ser rea­li­za­da tan­to com máqui­nas quan­to a lan­ço, uti­li­zan­do semen­tes de alta qua­li­da­de entre 2 e 10 quilos/ha de semen­tes puras viá­veis. Quan­do o pro­pó­si­to é a seme­a­du­ra dire­ta, visan­do ape­nas a pro­du­ção de palha­da, nor­mal­men­te reco­men­dam-se meno­res quan­ti­da­des de semen­tes. Seme­a­du­ras a lan­ço reque­rem mai­o­res quan­ti­da­des de semen­tes, que devem ser aumen­ta­das quan­do o obje­ti­vo for a for­ma­ção e o esta­be­le­ci­men­to rápi­do de uma pastagem.

Cigar­ri­nhas-das-pas­ta­gens – A BRS Inte­gra é sus­ce­tí­vel às cigar­ri­nhas-das-pas­ta­gens, assim como a cv. Kennedy.

*Jor­na­lis­ta na Embra­pa Gado de leite