Clima e custos altos afetam produção de leite no RS - Digital Balde Branco
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A estiagem foi uma das principais causas da alta de custos para os produtores gaúchos, também prejudicados pelo encurtamento do ciclo de inverno, resultando em prejuízos, apesar da alta de preço observada a partir de maio

SECA E CRISE

Clima e custos altos

afetam produção de leite no RS

Três anos seguidos de variações climáticas com dificuldades na produção de alimentos e preços desfavoráveis no mercado levam mais produtores gaúchos a abandonar a pecuária leiteira 

João Carlos de Faria 

Uma série de fato­res tem afe­ta­do a pro­du­ção de lei­te no Rio Gran­de do Sul, con­for­me rela­to de pro­du­to­res e de repre­sen­tan­tes do setor. O mais gra­ve, no entan­to, são as intem­pé­ri­es cli­má­ti­cas, que vari­am entre a seca rígi­da e pro­lon­ga­da dos últi­mos três anos e o exces­so de chu­vas que vem ocor­ren­do des­de o iní­cio do outo­no des­te ano, atra­pa­lhan­do o ciclo de pas­ta­gens de inverno. 

Segun­do a Emater/RS, as adver­si­da­des cli­má­ti­cas pro­vo­ca­ram o encur­ta­men­to do ciclo das pas­ta­gens de verão e o atra­so na for­ma­ção e no desen­vol­vi­men­to das pas­ta­gens de inver­no, com redu­ção na dis­po­ni­bi­li­da­de de sila­gem por um perío­do mais pro­lon­ga­do. Isso tem afe­ta­do dire­ta­men­te a situ­a­ção nutri­ci­o­nal e a pro­du­ção do reba­nho gaú­cho, que é pre­do­mi­nan­te­men­te a pas­to (em cer­ca de 90% das pro­pri­e­da­des), exi­gin­do mais gas­tos com suple­men­ta­ção ali­men­tar e one­ran­do ain­da mais o cus­to, ape­sar do bom momen­to do pre­ço do leite.

As mes­mas fon­tes apon­tam que esse e outros con­tra­tem­pos tam­bém têm pro­vo­ca­do o aban­do­no da ati­vi­da­de por um sig­ni­fi­ca­ti­vo núme­ro de pro­du­to­res, con­for­me os dados da Emater/RS, publi­ca­dos no Rela­tó­rio Soci­o­e­conô­mi­co da Cadeia Pro­du­ti­va do Lei­te, apre­sen­ta­do no ano pas­sa­do de for­ma vir­tu­al, duran­te a 44ª Expointer.

O docu­men­to indi­ca que o núme­ro de for­ne­ce­do­res de maté­ria-pri­ma à indús­tria de lác­te­os caiu 52,28% entre 2015 e 2021, pas­san­do de 84.199, para 40.182, ape­sar de a pro­du­ção ter se man­ti­do está­vel em fun­ção do aumen­to dos índi­ces de pro­du­ti­vi­da­de das vacas, gra­ças à pro­fis­si­o­na­li­za­ção, ao uso de tec­no­lo­gi­as e à melho­ria da gené­ti­ca, do mane­jo nutri­ci­o­nal e sani­tá­rio dos animais. 

Deci­são difí­cil – A fal­ta de comi­da foi o prin­ci­pal moti­vo que levou o pro­du­tor Aldair Althaus a dei­xar de pro­du­zir lei­te em dezem­bro do ano pas­sa­do. Jun­ta­men­te com o pai, Adal­ber­to, e com o irmão Adri­a­no, ele toca­va a Gran­ja Althaus, loca­li­za­da em Car­los Bar­bo­sa (RS), onde pro­du­zia cer­ca de 1,2 mil litros/dia de lei­te, numa área de ape­nas 4,5 hec­ta­res, com média de 30 litros/ vaca/dia.

“Foi uma deci­são mui­to difí­cil que sin­to até hoje. Eu era um pro­du­tor dife­ren­te dos outros, pois tinha uma área peque­na, mas com alta pro­du­ção.” Sua his­tó­ria no lei­te teve iní­cio em 1994, depois de 15 anos como empre­ga­do de uma pro­pri­e­da­de que viria a ser arren­da­da depois pela famí­lia, que pos­te­ri­or­men­te con­se­guiu adqui­rir a atu­al área de 4,5 hec­ta­res, onde, devi­do ao tama­nho, não dis­pu­nha de espa­ço para pro­du­zir a pró­pria silagem. 

“Com­prá­va­mos tudo, mas o pre­ço do lei­te não acom­pa­nhou o cus­to dos insu­mos”, recla­ma o pro­du­tor, que rece­beu da coo­pe­ra­ti­va, em seu últi­mo paga­men­to, o valor de R$ 1,46 por litro. Para se via­bi­li­zar, ele teria que aumen­tar o volu­me de pro­du­ção, mas não dis­pu­nha de área e nem tinha mão de obra para isso. “A cor­da esti­cou. Fomos até onde deu.”

Aldair Althaus: “Se o olhar fosse diferente muita gente estaria a salvo, mas eles sempre olham só para os grandes”

A dis­pa­ri­da­de entre o cus­to na pro­pri­e­da­de e o valor pago pelo lei­te nas pra­te­lei­ras dos super­mer­ca­dos repre­sen­ta, em sua opi­nião, uma gran­de dis­tân­cia entre o pro­du­tor e o con­su­mi­dor final. Por isso, Althaus gos­ta­ria que hou­ves­se uma rela­ção mais está­vel com a indús­tria, com con­tra­tos que asse­gu­ras­sem o pre­ço, inde­pen­den­te­men­te das vari­a­ções do mer­ca­do, como já requi­si­tam alguns pro­du­to­res gaúchos. 

Ele acre­di­ta que esse tipo de rela­ci­o­na­men­to, que já vem sen­do dis­cu­ti­do há tem­pos pela Asso­ci­a­ção dos Cri­a­do­res de Gado Holan­dês do Rio Gran­de do Sul (Gado­lan­do) e que já é uma hipó­te­se con­si­de­ra­da pela indús­tria (veja qua­dro), daria ao pro­du­tor mais segu­ran­ça e con­di­ções de se pro­gra­mar melhor. 

Na sua ava­li­a­ção, a fal­ta de chu­va por um lon­go perío­do foi só um agra­van­te para ele­var o cus­to da comi­da e, nes­se caso, não daria para cul­par nin­guém, por­que quem pro­duz sila­gem para ven­der tam­bém está em difi­cul­da­de. Mas Althaus acha que gover­nos e indús­tria dão pou­ca aten­ção aos peque­nos, o que aju­da a pio­rar a situ­a­ção. “Se fos­se dife­ren­te mui­ta gen­te esta­ria a sal­vo, mas eles olham só para os grandes.”

“Só rezan­do para melho­rar” – Na Gran­ja Fer­ra­bo­li, loca­li­za­da em Anta Gor­da, na região do Vale do Taqua­ri, a 210 quilô­me­tros de Por­to Ale­gre, a pro­du­ção tam­bém foi mui­to afe­ta­da pela esti­a­gem. Segun­do Dio­go Fer­ra­bo­li, que toca a pro­pri­e­da­de jun­ta­men­te com a famí­lia, o desem­pe­nho foi 60% a 70% abai­xo do que seria normal. 

“Não foi fácil e em alguns meses tra­ba­lhar­mos no pre­juí­zo para man­ter e segu­rar os ani­mais, por­que depois, se rela­xar, a alter­na­ti­va é man­dar para o aba­te”, des­ta­ca. Três anos segui­dos de esti­a­gem os obri­ga­ram a pagar caro pela sila­gem, nem sem­pre de boa qualidade. 

Segun­do ele, há ain­da que se con­si­de­rar o com­bus­tí­vel, a manu­ten­ção, a ener­gia elé­tri­ca, os medi­ca­men­tos e a ração suple­men­tar. “Por­que somos obri­ga­dos a equi­li­brar a fal­ta de qua­li­da­de da sila­gem com uma ração melhor, aumen­tan­do ain­da mais o cus­to”, jus­ti­fi­ca. Para ele, “é só rezan­do” que o cli­ma pode melho­rar e se ter mais dis­po­ni­bi­li­da­de de sila­gem e de grãos. 

Fer­ra­bo­li, que for­ne­ce lei­te ao Lati­cí­nio Lac­ta­lis, sedi­a­do no muni­cí­pio vizi­nho de Teutô­nia, é um dos pou­cos pro­du­to­res que con­se­gui­ram nego­ci­ar um acor­do ver­bal com a indús­tria para garan­tir pre­ço pelos pró­xi­mos três meses. Ain­da assim acha com­pli­ca­do esse tipo de nego­ci­a­ção, dian­te das vari­a­ções de cus­to e de pre­ço. “O nos­so con­tra­to garan­te um valor de R$ 3,50 o litro, o que na épo­ca que fize­mos era um óti­mo pre­ço, mas hoje já se fala em R$ 3,80”, afirma.

Ele enten­de que o cus­to de um mês pode ser 10% ou 20%, para mais ou para menos, no mês seguin­te, o que não traz nenhu­ma segu­ran­ça ao pro­du­tor. Por isso, acha que os con­tra­tos futu­ros podem ser a for­ma de pro­por­ci­o­nar mais tran­qui­li­da­de ao pro­du­tor, num momen­to em que a pers­pec­ti­va na região é de mais esti­a­gem deve vir pela frente.

A Momen­to his­tó­ri­co – “Todo pro­du­tor é um apai­xo­na­do pelo que faz e, se não fos­se isso, ele aban­do­na­ria facil­men­te o lei­te, um negó­cio tra­ba­lho­so e pou­co ren­tá­vel. Ele é antes de tudo um tei­mo­so, mas pai­xão sem lucro não se sus­ten­ta por mui­to tem­po”, diz Mar­cos Tang, pre­si­den­te da Gado­lan­do, que jun­ta­men­te com o pai, Orlan­do Tang, e com o irmão, Ita­mar Tang, pro­duz cer­ca de 1,5 mil litros/dia, na pro­pri­e­da­de da famí­lia, loca­li­za­da em Far­rou­pi­lha, na Ser­ra Gaúcha. 

Para ele, a visão em rela­ção às demais cadei­as pro­du­ti­vas é dife­ren­te quan­do se fala do lei­te, sem­pre con­si­de­ra­do ape­nas como meio de sub­sis­tên­cia e não como uma ati­vi­da­de econô­mi­ca de peso. “O pro­du­tor, inde­pen­den­te­men­te do tama­nho, tem um negó­cio que pre­ci­sa ser mui­to bem admi­nis­tra­do, por­que o lucro é de cen­ta­vos”, completa. 

O aban­do­no da ati­vi­da­de que cres­ce no Esta­do, segun­do Tang, está bas­tan­te rela­ci­o­na­do a essa visão, por­que não leva em con­ta a efi­ci­ên­cia na ges­tão do negó­cio. “E aí, aque­le pro­du­tor que não enten­de des­sa for­ma aca­ba sain­do. Pos­so dizer segu­ra­men­te que, nos últi­mos dois anos, pelo menos 20 mil famí­li­as no Rio Gran­de do Sul para­ram de pro­du­zir lei­te”, afirma. 

Tang tam­bém ana­li­sa a situ­a­ção sob o pon­to de vis­ta do his­tó­ri­co de evo­lu­ção da pro­du­ção gaú­cha. “A apti­dão para o lei­te fez com que a indús­tria des­lo­cas­se suas plan­tas para cá, de olho numa pro­je­ção de 18 milhões de litros por dia, mas che­ga­mos com 11 milhões às pla­ta­for­mas da indús­tria e para­mos por aí”, afirma. 

Marcos Tang: “Vivemos um momento histórico e muita gente parou porque não tinha mais dinheiro para comprar comida e teve que se desfazer do seu plantel. Muita vaca boa foi parar no abatedouro”

A propriedade da família Ferraboli (na foto Diogo, Marli, Paulo, Diego, Francili e Lucas Ferraboli) também foi muito afetada pelas variações do clima 

Ele pon­de­ra que, no iní­cio da cri­se, por vol­ta de 2018, as recla­ma­ções dos pro­du­to­res não foram devi­da­men­te leva­das em con­ta pela indús­tria, que enten­dia que as vacas esta­vam ape­nas “mudan­do de ende­re­ço”. Por outro lado, perío­dos con­se­cu­ti­vos de esti­a­gem leva­ram à escas­sez da sila­gem de milho, que é a base da die­ta do reba­nho gaú­cho. “Aí veio a chu­va exces­si­va e mui­tos nem con­se­gui­ram seme­ar as pastagens.”

Com isso, na hora em que o pro­du­tor pode­ria “fazer um cai­xa”, o atra­so das pas­ta­gens de inver­no ele­vou nova­men­te os cus­tos. Ape­sar do bom momen­to do mer­ca­do, hou­ve tam­bém a que­bra de expec­ta­ti­va de aumen­to da pro­du­ção nes­se perío­do, que esta­va pro­je­ta­do para ser de até 15%, mas não pas­sou de 7%, dei­xan­do a indús­tria ociosa.

“Vive­mos um momen­to his­tó­ri­co e mui­ta gen­te parou por­que não tinha mais dinhei­ro para com­prar comi­da e se des­fez do seu plan­tel. Mui­ta vaca boa foi parar no aba­te­dou­ro. Ou seja, o pro­du­tor não aguen­tou e sim­ples­men­te que­brou”, decla­ra Tang.

No verão pas­sa­do, segun­do rela­ta, o cus­to era de R$ 2,50, mas o pre­ço do lei­te era de R$ 2 por litro. Com isso a mai­o­ria dos pro­du­to­res tra­ba­lhou no ver­me­lho, com a expec­ta­ti­va de se recu­pe­rar a par­tir de abril/maio des­te ano, mas o cus­to con­ti­nu­ou alto e quem sobre­vi­veu só está pagan­do as contas.

Indús­tria – “Nes­te ano de 2022, a esti­a­gem atin­giu um pata­mar nun­ca antes atin­gi­do e, como isso vem se repe­tin­do des­de 2020, a reser­va de água foi se redu­zin­do e a situ­a­ção ficou com­pli­ca­da prin­ci­pal­men­te para peque­nas pro­pri­e­da­des, com pro­du­ção média de 300 litros/dia, embo­ra pro­pri­e­da­des mai­o­res tam­bém tenham sofri­do”, ava­lia o secre­tá­rio exe­cu­ti­vo do Sin­di­ca­to da Indús­tria de Lei­te do Rio Gran­de do Sul (Sin­di­lat), Dar­lan Palharini. 

Além do cli­ma, com o con­su­mo e o pre­ço do lei­te em bai­xa após o fim dos auxí­li­os emer­gen­ci­ais do gover­no fede­ral, em 2020, alguns lati­cí­ni­os fecha­ram suas por­tas e um núme­ro razoá­vel de pro­du­to­res aban­do­nou a ati­vi­da­de, agra­van­do ain­da mais a situação. 

Outras variá­veis, segun­do Palha­ri­ni, seri­am as ques­tões de mer­ca­do e a fal­ta de estí­mu­lo por par­te dos agen­tes públi­cos, além dos pro­ble­mas de suces­são fami­li­ar e dos bons resul­ta­dos econô­mi­cos das cadei­as da soja e do milho, que são um atra­ti­vo, levan­do mui­tos a migra­rem do lei­te para a agricultura.

O repre­sen­tan­te do Sin­di­lat apon­ta ain­da a fal­ta de uma polí­ti­ca tri­bu­tá­ria do Esta­do como um fator que impe­de a com­pe­ti­ção de igual para igual com empre­sas ins­ta­la­das nos gran­des cen­tros de consumo. 

Darlan Palharini : “Temos que considerar ainda o cenário de pós-pandemia e a ocorrência da guerra da Ucrânia, que, somadas à questão climática, criaram um cenário imprevisível”

Por outro lado, nes­ta entres­sa­fra, os pre­ços do lei­te no mer­ca­do naci­o­nal rea­gi­ram. Devi­do à fal­ta de lei­te para impor­ta­ção da Argen­ti­na e do Uru­guai, mui­tas empre­sas do ramo de ali­men­ta­ção aca­ba­ram se vol­tan­do ape­nas para o mer­ca­do inter­no, o que con­tri­buiu para a ele­va­ção de pre­ços, con­for­me a lei da pro­cu­ra e da oferta. 

Estiagem atingiu as lavouras de milho, que é a base da dieta do rebanho gaúcho, afetando a produção de silagem e aumentando custo dos produtores

Defa­sa­gem de 4% – Em 2021, segun­do Palha­ri­ni, a indús­tria repas­sou ao pro­du­tor um rea­jus­te de 13%, enquan­to o pre­ço ao ata­ca­do teve uma defa­sa­gem de 4% em rela­ção à infla­ção do ano, que foi de 10,06%, con­si­de­ran­do ape­nas os índi­ces de rea­jus­te do lei­te UHT (1%) e do lei­te em pó e do quei­jo (5%).

Para a indús­tria, por­tan­to, 2021 teria sido um dos pio­res anos, quan­do toda a “gor­du­ra” acu­mu­la­da teve que ser quei­ma­da. “E ain­da temos que con­si­de­rar o cená­rio de pós-pan­de­mia e guer­ra da Ucrâ­nia, que, soma­das à ques­tão cli­má­ti­ca, cri­a­ram um cená­rio impre­vi­sí­vel.” Palha­ri­ni relem­bra que, a par­tir do últi­mo tri­mes­tre de 2020, toda a cadeia seguiu com cus­tos ele­va­dos em fun­ção da pan­de­mia, mas rece­beu valo­res no pata­mar de 2019. 

Ape­sar das expec­ta­ti­vas que sina­li­za­vam para uma recu­pe­ra­ção do mer­ca­do, o segun­do tri­mes­tre de 2022 foi pior do que 2021, poden­do levar o País a vol­tar a ser um gran­de impor­ta­dor de lei­te, mas o cená­rio ago­ra é de con­fi­an­ça do setor na recu­pe­ra­ção da ren­ta­bi­li­da­de para toda a cadeia. A pre­vi­são do Sin­di­lat para o Rio Gran­de do Sul, para o mês de julho já era de um aumen­to de cer­ca de 1 milhão de litros em rela­ção a junho.

CONTRATOS FUTUROS PODEM SER UMA ALTERNATIVA

 
“O pro­du­tor não ven­de lei­te, ele ape­nas entre­ga por­que nun­ca sabe o quan­to vai rece­ber. Temos tra­ba­lha­do mui­to para mudar isso”, res­sal­ta Mar­cos Tang, pre­si­den­te da Gadolando. 

Em seu enten­di­men­to, ape­sar de todos os elos da cadeia do lei­te depen­de­rem um do outro, quan­do a indús­tria, por exem­plo, tem pre­juí­zo con­se­gue repor de ime­di­a­to, pois tem o poder de deci­dir sobre o seu pre­ço de ven­da. “Ao con­trá­rio de nós, pro­du­to­res, que não temos meca­nis­mo nenhum para repas­sar o pre­juí­zo para frente.” 

Por isso, ao lon­go dos anos, mui­to se tem fala­do da via­bi­li­da­de de con­tra­tos que for­ma­li­zem e regu­lem a rela­ção entre pro­du­to­res e indús­tri­as ou de algum outro meca­nis­mo que pudes­se repre­sen­tar algu­ma solu­ção e, inclu­si­ve nes­te momen­to em que há dis­pu­ta pelo litro de lei­te, alguns os pro­du­to­res têm rece­bi­do e até fecha­do pro­pos­tas nes­se sentido. 

“Temos acon­se­lha­do os pro­du­to­res a fazer os con­tra­tos, mas que este­jam cons­ci­en­tes de que em algum momen­to o pre­ço pode ultra­pas­sar o valor con­tra­ta­do e mes­mo assim eles terão que entre­gar o lei­te”, diz. 

O pro­du­tor gaú­cho, segun­do ele, tem um mate­ri­al gené­ti­co mui­to bom e pode se recu­pe­rar, mas para isso pre­ci­sa “ter dinhei­ro no bol­so”, capa­ci­da­de para pagar seus inves­ti­men­tos e pre­vi­si­bi­li­da­de para assu­mir seus compromissos.

“O socor­ro ime­di­a­to seria o finan­ci­a­men­to para que ele não tenha que ven­der a vaca. A outra solu­ção é sobrar um pou­co da sua remu­ne­ra­ção como incen­ti­vo para que ele pos­sa inves­tir. Nes­se caso, os con­tra­tos futu­ros seri­am uma garan­tia para os pró­xi­mos meses, como já acon­te­ce com a soja, por exemplo.”

 

Com­par­ti­lha­men­to de car­gas – Para as indús­tri­as, no entan­to, con­for­me afir­ma Palha­ri­ni, a ques­tão é que, se nes­te momen­to os pro­du­to­res são favo­rá­veis a esse tipo de con­tra­to por­que o pre­ço está em alta, as empre­sas, recei­am quan­to à situ­a­ção do mer­ca­do e não iden­ti­fi­cam com que indi­ca­dor pode­ri­am tra­ba­lhar. A situ­a­ção era inver­sa cer­ca de dois anos atrás, quan­do o pre­ço esta­va bai­xo e a indús­tria tinha inte­res­se, mas os pro­du­to­res não queriam.

“Um con­tra­to tem ônus e bônus, tan­to para um lado quan­to para o outro, mas eu diria que não é somen­te uma ques­tão de pre­ço. Acre­di­to, no entan­to, que a ten­dên­cia seria mes­mo cami­nhar para o con­tra­to futu­ro, embo­ra ache que para ambas as par­tes a pro­pos­ta ain­da pre­ci­sa ser ama­du­re­ci­da”, des­ta­ca Palharini. 

Esses con­tra­tos já exis­tem, segun­do ele, mas o núme­ro ain­da é peque­no e mui­tos pon­tos pre­ci­sam avan­çar nes­sa dire­ção. “Tal­vez antes do con­tra­to seria o caso de as indús­tri­as, entre elas e os pro­du­to­res, pen­sa­rem no com­par­ti­lha­men­to de car­ga, por­que hoje o trans­por­te tem um cus­to mui­to alto”, ava­lia o dirigente. 

Nes­se com­par­ti­lha­men­to, o pro­du­tor entre­ga sua pro­du­ção na indús­tria mais pró­xi­ma da sua pro­pri­e­da­de, inde­pen­den­te­men­te de qual seja a empre­sa com a qual tenha con­tra­to, e as empre­sas fazem entre si uma com­pen­sa­ção. “Hoje o cus­to da logís­ti­ca de cole­ta e trans­por­te até a indús­tria repre­sen­ta entre R$ 0,15 e R$ 0,20 o litro”, diz Palharini.