Com oferta limitada, preço reage e sobe 2,3% em abril - Digital Balde Branco

COLUNA DO CEPEA

Natália Grigol

Pesquisadora do Cepea

  Pes­qui­sa mos­trou que os pre­ços médi­os men­sais do lei­te UHT e do lei­te em pó nego­ci­a­dos jun­to ao ata­ca­do de São Pau­lo subi­ram 7,5% e 7,6%, res­pec­ti­va­men­te, de feve­rei­ro para mar­ço

Com oferta limitada, preço reage e sobe 2,3% em abril

Depois de acu­mu­lar que­da de 10,7% no pri­mei­ro tri­mes­tre do ano em ter­mos reais (dados defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de março/21), o pre­ço do lei­te cap­ta­do em mar­ço e pago aos pro­du­to­res em abril subiu 2,3% na “Média Bra­sil” líqui­da, che­gan­do a R$ 1,9837/litro. Esse valor é recor­de para um mês de abril e supe­ra em 28,4% o regis­tra­do no mes­mo perío­do de 2020. 

Segun­do pes­qui­sa do Cepea (Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da), da Esalq/USP, a inver­são na ten­dên­cia do pre­ço se deve a um cená­rio de ofer­ta limi­ta­da de lei­te no cam­po. O Índi­ce de Cap­ta­ção Lei­tei­ra (ICAP‑L) caiu 3,7% de feve­rei­ro para mar­ço e já acu­mu­la que­da de 8,8% des­de o iní­cio des­te ano. 

Tipi­ca­men­te, a par­tir de mar­ço, veri­fi­ca-se redu­ção no volu­me de chu­vas e, con­se­quen­te­men­te, menor dis­po­ni­bi­li­da­de de pas­ta­gens – cená­rio que pre­ju­di­ca a ali­men­ta­ção do reba­nho e a pro­du­ção de lei­te no Sudes­te e Cen­tro-Oes­te. Assim, o avan­ço da entres­sa­fra da pro­du­ção lei­tei­ra é, sazo­nal­men­te, um fator de dese­qui­lí­brio entre ofer­ta e deman­da e, por­tan­to, de ele­va­ção de pre­ços entre mar­ço e agos­to. Con­tu­do, nes­te ano, essa situ­a­ção tem sigo agra­va­da por con­ta da valo­ri­za­ção con­si­de­rá­vel e con­tí­nua dos grãos, prin­ci­pais com­po­nen­tes dos cus­tos de pro­du­ção da pecuá­ria lei­tei­ra. Pes­qui­sas do Cepea mos­tram per­da subs­tan­ci­al na mar­gem do pro­du­tor nos últi­mos meses, o que tem fre­a­do inves­ti­men­tos na ati­vi­da­de, pre­ju­di­ca­do o mane­jo ali­men­tar dos ani­mais e esti­mu­la­do o aba­te de vacas. 

Com a ofer­ta de lei­te limi­ta­da, a com­pe­ti­ção das indús­tri­as pela com­pra de maté­ria-pri­ma se acir­rou em mar­ço, levan­do, por con­se­guin­te, à reto­ma­da dos pre­ços pagos ao pro­du­tor em abril. As nego­ci­a­ções do lei­te spot se ele­va­ram nas duas quin­ze­nas de mar­ço, e média men­sal supe­rou em 10,4% a de fevereiro/21.

Nes­se con­tex­to, as indús­tri­as ten­ta­ram repas­sar as altas nos pre­ços dos lác­te­os nego­ci­a­dos. A pes­qui­sa do Cepea rea­li­za­da com apoio finan­cei­ro da OCB (Orga­ni­za­ção das Coo­pe­ra­ti­vas Bra­si­lei­ras) mos­trou que os pre­ços médi­os men­sais do lei­te UHT e do lei­te em pó nego­ci­a­dos jun­to ao ata­ca­do de São Pau­lo subi­ram 7,5% e 7,6%, res­pec­ti­va­men­te, de feve­rei­ro para mar­ço. No caso do quei­jo muça­re­la, o movi­men­to de valo­ri­za­ção se inten­si­fi­cou a par­tir da segun­da quin­ze­na de mar­ço, de modo que, na média men­sal, a ten­dên­cia de alta não foi obser­va­da, e o pre­ço do lác­teo caiu 5% na mes­ma com­pa­ra­ção (dados defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de março/21).

O setor lác­teo atra­ves­sa um momen­to deli­ca­do: de um lado, os cus­tos de pro­du­ção ele­vam o pre­ço do lei­te no cam­po e as indús­tri­as pre­ci­sam man­ter pre­ços atra­ti­vos aos seus for­ne­ce­do­res; de outro, a gran­de pres­são dos canais de dis­tri­bui­ção difi­cul­ta o repas­se da valo­ri­za­ção da maté­ria-pri­ma ao con­su­mi­dor, que, por sua vez, está com menor poder de com­pra, dian­te do atu­al con­tex­to econômico. 

Ape­sar de haver, por­tan­to, uma ten­dên­cia de reto­ma­da dos pre­ços do lei­te no cam­po, esse movi­men­to de valo­ri­za­ção deve­rá acon­te­cer de for­ma come­di­da, sen­do pos­si­vel­men­te fre­a­do pela deman­da fragilizada.

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