Competitividade da produção de leite em países do Mercosul - Digital Balde Branco

LEITE EM NÚMEROS

Lorildo Aldo Stock 

Analista da Embrapa Gado de Leite

Competitividade da produção de leite em países do Mercosul

O Brasil tem preços ao produtor quase sempre acima da média mundial. Com isso, aqueles tecnicamente eficientes e competitivos acabam tendo margens melhores e maior crescimento na atividade

A ati­vi­da­de lei­tei­ra vem se desen­vol­ven­do de for­ma dis­tin­ta em vári­as par­tes do mun­do, e o cres­ci­men­to da ofer­ta de lei­te pare­ce, cada vez mais, depen­den­te do desem­pe­nho dos sis­te­mas típi­cos de produção. 

A con­tri­bui­ção des­te estu­do é uma aná­li­se com­pa­ra­ti­va da com­pe­ti­ti­vi­da­de da pro­du­ção de lei­te no Bra­sil, na Argen­ti­na, no Chi­le e no Uru­guai de dez anos para cá, entre 2010 e 2019. A par­tir de dados médi­os men­sais de pre­ços ao pro­du­tor e de cus­tos do con­cen­tra­do, che­ga-se a esti­ma­ti­vas da mar­gem bru­ta em cada país. No pre­sen­te estu­do, como cus­to do ali­men­to con­cen­tra­do con­si­de­ra-se uma mis­tu­ra com­pos­ta por 70% de milho e 30% de fare­lo de soja. 

Des­con­tan­do o valor equi­va­len­te ao cus­to des­sa mis­tu­ra, assu­me-se um cri­té­rio geral de neces­si­da­de de 1 qui­lo de mis­tu­ra para a pro­du­ção de 3 litros de lei­te. Essa mar­gem será aque­la que cobri­rá os demais cus­tos da ati­vi­da­de e vai remu­ne­rar o capi­tal e o pro­du­tor. Des­ta for­ma, pode-se ter uma ava­li­a­ção com­pa­ra­ti­va da ren­ta­bi­li­da­de da pro­du­ção de lei­te, dife­ren­te­men­te daque­la abor­da­gem con­ven­ci­o­nal da rela­ção sim­ples de pre­ços leite/mistura.

A Figu­ra 1 ilus­tra dife­ren­ças em ter­mos de médi­as anu­ais da mar­gem bru­ta, em valo­res abso­lu­tos e res­pec­ti­vas médi­as em dois perío­dos de cin­co anos, entre 2010 e 2019. Como se pode­ria espe­rar, exis­tem vari­a­ções de mar­gens entre os anos para todos os países. 

O pri­mei­ro des­ta­que é uma dife­ren­ça de US$ 5/100 litros de lei­te entre os dois perío­dos que ocor­reu de for­ma simi­lar para todos os qua­tro paí­ses estu­da­dos. Obser­va-se que essa dife­ren­ça de pata­mar é seme­lhan­te àque­la da refe­rên­cia inter­na­ci­o­nal de pre­ços e cus­tos da mis­tu­ra, aqui iden­ti­fi­ca­da pelos dados moni­to­ra­dos pela rede IFCN (Inter­na­ti­o­nal Farm Com­pa­ri­son Network). 

O segun­do se refe­re ao pata­mar de mar­gens de US$ 6/100 litros a mais para o Bra­sil em rela­ção aos demais paí­ses. Den­tre outros fato­res, este se pode con­si­de­rar como mais impac­tan­te no fato de o Bra­sil ser um impor­ta­dor líqui­do de lác­te­os de paí­ses como a Argen­ti­na e o Uruguai.

Mas, afi­nal, quan­to repre­sen­ta essa esti­ma­ti­va de mar­gem, em ter­mos do pre­ço ao pro­du­tor? A Tabe­la 1 ilus­tra a mag­ni­tu­de da par­ti­ci­pa­ção da mar­gem sobre a ali­men­ta­ção em rela­ção ao pre­ço rece­bi­do pelo pro­du­tor e, des­se modo, deno­ta uma ideia sobre a capa­ci­da­de de gerar lucra­ti­vi­da­de da pro­du­ção de lei­te em vári­as par­tes do mundo.

Obser­ve-se que, sob esta óti­ca, ao lon­go do perío­do, ape­sar de mudan­ças nos valo­res abso­lu­tos, na mai­o­ria das vezes o per­cen­tu­al aca­ba por per­ma­ne­cer pou­co alte­ra­do. Toda­via, duas situ­a­ções podem ser per­ce­bi­das. Na pri­mei­ra, Bra­sil e Argen­ti­na, em situ­a­ções simi­la­res à refe­rên­cia inter­na­ci­o­nal IFCN, de 77%. A Argen­ti­na, com 80% de mar­gem, se vale de uma dife­ren­ça nos cus­tos da mis­tu­ra, fren­te a todos os demais paí­ses con­si­de­ra­dos. A média de dez anos no cus­to da mis­tu­ra na Argen­ti­na foi equi­va­len­te a US$ 19/100 litros. Enquan­to no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal e nos outros três paí­ses a média vari­ou entre US$ 26 e US$ 29/100 litros da mis­tu­ra. A segun­da se refe­re aos pro­du­to­res uru­guai­os e chi­le­nos, em que as par­ti­ci­pa­ções das mar­gens nos pre­ços são meno­res, de 72%.

Com rela­ção aos nos­sos vizi­nhos e for­ne­ce­do­res de pro­du­tos lác­te­os, Argen­ti­na e Uru­guai, nota-se que a remu­ne­ra­ção do pri­mei­ro, em per­cen­tu­al do pre­ço do lei­te, é supe­ri­or à do Bra­sil e tam­bém à do Uru­guai. O pro­du­tor uru­guaio tem 72% de mar­gem média rela­ti­va. Isso gera menor remu­ne­ra­ção do que aos pro­du­to­res bra­si­lei­ros por cau­sa de o cus­to da ali­men­ta­ção ser mai­or do que o do Bra­sil. A média geral do Chi­le foi de 72% e a mar­gem bru­ta média de US$ 0,24/litro, apre­sen­tan­do, com isso, o pior incen­ti­vo econô­mi­co para pro­du­ção de lei­te dos paí­ses estudados.

É impor­tan­te res­sal­tar que a Argen­ti­na pas­sa por uma gra­ve cri­se econô­mi­ca, com ele­va­da infla­ção e taxa de juros, tor­nan­do inviá­veis inves­ti­men­tos pro­du­ti­vos. No Uru­guai, a mão de obra está fican­do cara e a ofer­ta do país cres­ce base­a­da na pro­du­ção de gran­des fazen­das, fazen­do com que os pre­ços ao pro­du­tor fiquem mais ali­nha­dos e com­pe­ti­ti­vos no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal, geran­do uma for­te sele­ção entre os pro­du­to­res locais.

O Bra­sil tem pre­ços ao pro­du­tor qua­se sem­pre aci­ma da média mun­di­al. Com isso, os pro­du­to­res tec­ni­ca­men­te efi­ci­en­tes e com­pe­ti­ti­vos aca­bam ten­do mar­gens melho­res e um mai­or cres­ci­men­to na ati­vi­da­de. Isso tem ace­le­ra­do a con­cen­tra­ção na pro­du­ção em pro­du­to­res de regiões mais impor­tan­tes no setor lei­tei­ro. Este pode ser o cami­nho para o País se tor­nar autos­su­fi­ci­en­te na pro­du­ção de lác­te­os e encon­trar seu lugar entre os impor­tan­tes expor­ta­do­res mun­di­ais do setor.

Auto­res: Loril­do Aldo Stock — eng. agr., Ph.D., Eco­no­mia Rural, ana­lis­ta da Embra­pa Gado de Lei­te, coor­de­na­dor das ati­vi­da­des do IFCN no Bra­sil. Email: lorildo.stock@embrapa.br; Jor­ge Arta­ga­vey­tia — Ins­ti­tu­to Naci­o­nal de la Leche, Mon­te­vi­deo, coor­de­na­dor das ati­vi­da­des do IFCN no Uru­guai. E‑mail: jartagaveytia@inale.org; Mario Edo. Oli­va­res — Coo­prin­sem, Osor­no, coord. das ati­vi­da­des do IFCN no Chi­le. E‑mail: ia-mario@cooprinsem.cl; Hugo Quat­tro­chi — Unión Pro­duc­to­res de Leche Cuen­ca Mar y Sier­ras, Tan­dil, coor­de­na­dor das ati­vi­da­des do IFCN na Argen­ti­na. Email: hugo.quattrochi@gmail.com

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