Compost barn da Embrapa Gado de Leite vacas e pessoas felizes - Digital Balde Branco

Sistema compost barn, com tecnologias para garantir todo o conforto às vacas e facilitar o trabalho dos funcionários

PESQUISA

Compost barn da Embrapa Gado de Leite:

“vacas e pessoas felizes”

A entidade coloca em operação o primeiro compost barn de uma instituição de pesquisa do Brasil, com o objetivo de pesquisar e oferecer respostas fundamentais sobre essa tecnologia utilizada, ainda de forma empírica, em mais de duas mil fazendas no País

Erick Henrique

Medir, ava­li­ar e com­pa­rar. Estas são três pala­vras subs­tan­ci­ais, prin­ci­pal­men­te quan­do fala­mos da cadeia do lei­te, que pre­ci­sa, mais do que nun­ca, de dados téc­ni­cos, pes­qui­sas e indi­ca­do­res para rea­li­zar inves­ti­men­tos com o máxi­mo de segu­ran­ça. Pen­san­do des­sa manei­ra, a Embra­pa Gado de Lei­te inau­gu­rou, no dia 12 de mar­ço, o pri­mei­ro sis­te­ma de com­post barn em uma ins­ti­tui­ção de pes­qui­sa no Bra­sil, no cam­po expe­ri­men­tal da ins­ti­tui­ção, loca­li­za­do no muni­cí­pio de Coro­nel Pache­co (MG), a cer­ca de 60 quilô­me­tros de Juiz de Fora. Foi inves­ti­do cer­ca de R$ 1,2 milhão na ins­ta­la­ção do gal­pão. De acor­do com o che­fe-geral da Embra­pa Gado de Lei­te, Pau­lo do Car­mo Mar­tins, esta era uma rei­vin­di­ca­ção do setor pro­du­ti­vo des­de que os sis­te­mas con­fi­na­dos no País pas­sa­ram a intro­du­zir o mode­lo, no iní­cio da déca­da pas­sa­da. “O com­post barn ain­da é uti­li­za­do nas con­di­ções do Bra­sil na base da ten­ta­ti­va e erro, sem um res­pal­do efe­ti­vo da pes­qui­sa agro­pe­cuá­ria. Com o sis­te­ma ado­ta­do na Embra­pa, ini­ci­a­re­mos tra­ba­lhos para res­pon­der a ques­tões liga­das à qua­li­da­de do lei­te, ambi­ên­cia e saú­de ani­mal”, afir­ma. O com­post barn ins­ta­la­do na Embra­pa é do tipo “túnel de ven­to”. As late­rais são fecha­das com uma lona espe­ci­al, que refle­te a luz do sol. Numa das extre­mi­da­des ficam 12 con­jun­tos de exaus­to­res que puxam o ar de den­tro para fora do está­bu­lo, for­man­do uma cor­ren­te de ven­to que pode aumen­tar ou dimi­nuir de acor­do com a necessidade. 

“Nesta instalação da Embrapa, serão desenvolvidas pesquisas para responder a questões ligadas à qualidade do leite, produtividade, ambiência e saúde animal”

Paulo do Carmo Martins

No outro extre­mo, está uma pla­ca eva­po­ra­ti­va em for­ma de col­meia, onde cir­cu­la água, que garan­te a umi­da­de ade­qua­da den­tro do gal­pão e auxi­lia na cli­ma­ti­za­ção do ambi­en­te. A tem­pe­ra­tu­ra inter­na pode ficar até 8°C mais bai­xa do que a exter­na, resol­ven­do o pro­ble­ma do estres­se tér­mi­co que afe­ta as vacas de gran­de pro­du­ção nas con­di­ções tropicais. 

“Uma novi­da­de do mode­lo ins­ta­la­do na Embra­pa são as pla­cas defle­to­ras: con­jun­tos de lonas colo­ca­das em um ângu­lo de 45° a par­tir do teto, que pro­mo­vem a cir­cu­la­ção do ven­to de cima para bai­xo, fazen­do com que a tem­pe­ra­tu­ra na altu­ra das vacas este­ja sem­pre fres­ca. O pé-direi­to do está­bu­lo (cin­co metros) e a pro­fun­di­da­de (60 cm) tam­bém foram cui­da­do­sa­men­te pro­je­ta­dos para garan­tir con­for­to ao reba­nho”, infor­ma o che­fe-adjun­to de Pes­qui­sa & Desen­vol­vi­men­to da Embra­pa Gado de Lei­te, Pedro Bra­ga Arcuri. 

Arcu­ri diz que a cama de mara­va­lha de euca­lip­to pos­sui 1.200 metros qua­dra­dos, poden­do rece­ber até 110 vacas de alta pro­du­ção das raças Holan­de­sa e Giro­lan­do (12 metros quadrados/vaca) e pis­ta para a cir­cu­la­ção do tra­tor equi­pa­do com “avas­sa­la­dor”, que fará o revol­vi­men­to do com­pos­to duas vezes ao dia. 

Além dis­so, o gal­pão pos­sui ain­da uma série de sofis­ti­ca­ções tec­no­ló­gi­cas, como luzes de led regu­lá­veis, câme­ras e cola­res com chips para moni­to­ra­men­to do reba­nho em tem­po real, além de arma­ze­na­men­to de água da chu­va e reu­so. Nos pró­xi­mos meses, serão ins­ta­la­das célu­las foto­vol­tai­cas para cap­ta­ção de ener­gia solar. “Essas são as con­di­ções neces­sá­ri­as para que a pes­qui­sa pos­sa res­pon­der às ques­tões impor­tan­tes asso­ci­a­das ao sis­te­ma, como con­for­to ani­mal, aumen­to da pro­du­ção e melho­ria da qua­li­da­de do lei­te”, assi­na­la Martins. 

Jacques Gontijo Álvares: Após a instalação do compost barn, a média produção da Fazenda São Pedro saltou de 6.780 litros/vaca/ano em 2018 para 7.867/litros/vaca/ano em 2019

INVESTIMENTO QUE VALE MUITO A PENA 

O pro­du­tor de lei­te Jaques Gon­ti­jo Álva­res, da Fazen­da São Pedro, de Bom Des­pa­cho (MG), mudou expo­nen­ci­al­men­te os resul­ta­dos na pro­du­ção de lei­te, após ins­ta­lar o sis­te­ma de com­post barn na pro­pri­e­da­de. Gon­ti­jo ado­tou o mode­lo em 2017, con­ta­bi­li­zan­do um aumen­to de 7 litros de lei­te por vaca/dia. “A mas­ti­te entre as vacas con­fi­na­das caiu de 18 casos para três, na média men­sal, o que repre­sen­tou uma eco­no­mia de medi­ca­men­tos de R$ 5.800. A melho­ria na qua­li­da­de do lei­te, com redu­ção da CCS de 500 para 220 mil, repre­sen­ta um ganho adi­ci­o­nal de R$ 6 mil/mês”, diz. 

De acor­do com o pro­du­tor minei­ro, par­te do aumen­to de 7 litros/vaca/dia é expli­ca­da pela redu­ção da per­da de lei­te das vacas com mas­ti­te sub­clí­ni­ca, na média de 1,6 litro/vaca/dia, além do ganho de 1 litro/vaca/dia com des­car­te de 20 vacas em lac­ta­ção que pro­du­zi­ram menos de 4.000 litros de lei­te por ano. Após a ins­ta­la­ção do com­post barn, a média da pro­du­ção da Fazen­da São Pedro sal­tou de 6.780 litros/vaca/ano para 7.252/litros/vaca/ano em 2018 e 7.867/litros/vaca/ano em 2019. 

O inves­ti­men­to de Álva­res em dois gal­pões foi de R$ 4.000 por vaca (ele pos­sui 130 vacas por gal­pão). A cons­tru­ção tem 94 x 27 metros (2.538 m² cada). Já a área de cama tem 12 m²/vaca, e o tama­nho do cocho tem 70 cm por animal. 

A Fazen­da São Pedro fez uma aná­li­se da via­bi­li­da­de econô­mi­ca do sis­te­ma, a qual apon­tou que os cus­tos são pagos com o aumen­to na pro­du­ção de 2,6 litros de lei­te por vaca/dia. Para a ins­ta­la­ção do com­post barn, o pro­du­tor fez um finan­ci­a­men­to pelo BB Ino­va­gro com pra­zo de dez anos, sen­do dois anos de carên­cia e juros de 6,5%. O total do inves­ti­men­to foi de R$ 1,2 milhão. 

Além dis­so, em junho de 2018, o pecu­a­ris­ta ins­ta­lou o sis­te­ma gera­ção de ener­gia foto­vol­tai­ca, pois, ante­ri­or­men­te, tinha um con­su­mo men­sal de 21 mil kWh, com os gal­pões e o maqui­ná­rio para orde­nha, e ago­ra a pro­pri­e­da­de uti­li­za cer­ca de 14 mil kWh/mês. Con­for­me Álva­res, o inves­ti­men­to total na ins­ta­la­ção foi de R$ 700 mil, finan­ci­a­dos pelo Inovagro/BNDES, com pra­zo para paga­men­to de oito anos. “Estou satis­fei­to com os resul­ta­dos, já que a eco­no­mia de ener­gia no perío­do foi de R$ 248 mil ou R$ 12.880/mês”, comemora. 

O com­post barn da Embra­pa subs­ti­tui um anti­go free stall, apro­vei­tan­do o sis­te­ma de orde­nha já exis­ten­te. O con­fi­na­men­to é explo­ra­do em par­ce­ria com a Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra dos Cri­a­do­res de Gir Lei­tei­ro (ABC­GIL), que arcou com os cus­tos da obra. Entre os par­cei­ros pre­sen­tes no sis­te­ma, estão empre­sas de alta tec­no­lo­gia como Micro­soft e TIM, além da ABC­GIL e da Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Cri­a­do­res de Bovi­nos da Raça Holan­de­sa. Outras três star­tups que par­ti­ci­pa­ram do Desa­fio de Star­tups da ins­ti­tui­ção (Cow­med, Onfarm e Bio­ne­xus) com­ple­tam a lis­ta de parceiros. 

O res­pon­sá­vel pela for­ma­ta­ção do pro­je­to da ins­ta­la­ção da Embra­pa foi o médi­co vete­ri­ná­rio e dire­tor téc­ni­co da Cow­co­o­ling, Adri­a­no Sed­don, que é uma refe­rên­cia no assun­to, vis­to que trou­xe esse mode­lo de con­fi­na­men­to para o Bra­sil em 2011. Ele tam­bém é res­pon­sá­vel pelo pro­je­to ins­ta­la­do na pro­pri­e­da­de de Bom Des­pa­cho (box ao lado). 

“O obje­ti­vo de ambos os pro­je­tos é melho­rar o con­for­to para o reba­nho, ofe­re­cen­do às vacas uma área som­bre­a­da, ven­ti­la­da, com cama seca, área de ali­men­ta­ção ven­ti­la­da e com asper­são de água, redu­zin­do os efei­tos do estres­se tér­mi­co, pro­ble­mas de cas­cos e, como resul­ta­do, aumen­to da pro­du­ti­vi­da­de do plan­tel”, ressalta. 

Pedro Arcuri: A vacas estão felizes porque ficam em um ambiente confortável, limpo e seco, a uma temperatura adequada; enquanto as pessoas têm melhores condições de trabalho e o manejo do rebanho é menos árduo

MAIS SOBRE O COMPOST BARN

Em tra­du­ção livre, com­post barn sig­ni­fi­ca “está­bu­lo de com­pos­to”. O mode­lo sur­giu como alter­na­ti­va aos sis­te­mas de pro­du­ção de lei­te em con­fi­na­men­to como o free stall (gal­pões onde as vacas ficam reti­das em bai­as indi­vi­du­ais) e o tie stall (vacas pre­sas a cor­ren­tes tam­bém em bai­as indi­vi­du­ais). Embo­ra no com­post barn as vacas con­ti­nu­em con­fi­na­das, os ani­mais podem cir­cu­lar livre­men­te pelo gal­pão. Isso faz com que elas exer­ci­tem seus ins­tin­tos soci­ais com o gru­po e apre­sen­tem cios com mais faci­li­da­de, melho­ran­do os índi­ces reprodutivos. 

Sua prin­ci­pal carac­te­rís­ti­ca é a “cama orgâ­ni­ca” cobrin­do o piso do está­bu­lo em con­ta­to dire­to com o solo, fei­ta de mara­va­lha ou ser­ra­gem, cas­cas de amen­doim, arroz, café ou outro mate­ri­al orgâ­ni­co de bai­xo cus­to e fácil dis­po­ni­bi­li­da­de para o produtor. 

O com­pos­to é con­for­tá­vel para as vacas, abo­lin­do as bai­as com camas de areia ou de bor­ra­cha, além do piso de con­cre­to dos sis­te­mas tra­di­ci­o­nais. “Segun­do algu­mas aná­li­ses, o piso mais macio con­tri­buiu para evi­tar pro­ble­mas de cas­cos nos ani­mais”, diz o pes­qui­sa­dor da Embra­pa Gado de Lei­te Ales­san­dro Guimarães. 

As vacas pas­sam boa par­te do dia no gal­pão (só saem para serem orde­nha­das) e defe­cam e uri­nam nes­sa cama. Entre­tan­to, segun­do Arcu­ri, não há peri­go de con­ta­mi­na­ção das vacas, uma vez que a maté­ria ori­gi­nal da cama, rica em car­bo­no e pobre em nitro­gê­nio e nutri­en­tes, à qual são incor­po­ra­dos os deje­tos dos ani­mais, pas­sa por um pro­ces­so bio­ló­gi­co cha­ma­do de com­pos­ta­gem, que esti­mu­la a decom­po­si­ção de mate­ri­ais orgâ­ni­cos pelos micro-orga­nis­mos que atu­am na pre­sen­ça do ar (aeró­bi­os). Esse pro­ces­so pro­duz calor, que mata os pató­ge­nos que pode­ri­am cau­sar algu­ma contaminação. 

Para que isso ocor­ra de for­ma efe­ti­va, a cama deve ser bem mane­ja­da, estan­do sem­pre seca e sen­do sub­me­ti­da a uma cons­tan­te aera­ção. O com­pos­to deve ser revol­vi­do com a uti­li­za­ção de tra­tor equi­pa­do com enxa­da mecâ­ni­ca duas vezes ao dia. A reti­ra­da do mate­ri­al com­pos­ta­do é fei­ta a cada perío­do de apro­xi­ma­da­men­te um ano (o tem­po exa­to da subs­ti­tui­ção é uma das res­pos­tas que a pes­qui­sa da Embra­pa pre­ten­de dar). O mate­ri­al reti­ra­do do está­bu­lo é um rico adu­bo orgâ­ni­co e pode ser ven­di­do ou uti­li­za­do na pró­pria fazenda. 

O médi­co vete­ri­ná­rio afir­ma que já exis­tem cer­ca de dois mil gal­pões des­se tipo ope­ran­do na pecuá­ria de lei­te bra­si­lei­ra. “Devi­do às con­di­ções cli­má­ti­cas do País, o mode­lo se adap­tou mui­to bem, ofe­re­cen­do con­for­to tér­mi­co às vacas de alta pro­du­ção, aumen­tan­do a pro­du­ti­vi­da­de e melho­ran­do a qua­li­da­de do lei­te”, des­ta­ca Seddon. 

Para Arcu­ri, o con­for­to ani­mal é a van­ta­gem mais visí­vel des­se sis­te­ma. As vacas pare­cem tran­qui­las no gal­pão, quan­do com­pa­ra­das aos sis­te­mas de free stall ou tie stall. Quan­do não estão con­for­ta­vel­men­te dei­ta­das, elas inte­ra­gem umas com as outras. Essa carac­te­rís­ti­ca levou a Embra­pa a bati­zar seu com­post barn de “Vacas e Pes­so­as Felizes”. 

Seddon: No Brasil, devido ao clima, o compost barn traz muitos benefícios para o conforto das vacas leiteiras

“A vacas estão feli­zes por­que estão em um ambi­en­te con­for­tá­vel, lim­po e seco, a uma tem­pe­ra­tu­ra ade­qua­da para o seu nível de pro­du­ção. Quan­to às pes­so­as, tam­bém ficam feli­zes, pois as con­di­ções de tra­ba­lho são melho­res e o mane­jo do reba­nho é menos árduo. Além do mais, com o ambi­en­te moni­to­ra­do pelas tec­no­lo­gi­as digi­tais, tem-se mai­or con­fi­a­bi­li­da­de na toma­da deci­sões”, assi­na­la o pes­qui­sa­dor da Embrapa. 

Para o depu­ta­do Domin­gos Sávio, uma das lide­ran­ças da cadeia lei­tei­ra em Bra­sí­lia, mui­tas pro­pri­e­da­des evo­luí­ram com parâ­me­tros de pes­qui­sas desen­vol­vi­dos pela Embra­pa Gado de Lei­te. “Ade­mais, a ener­gia solar é de suma impor­tân­cia e não deve­mos acei­tar em hipó­te­se nenhu­ma que venham a tri­bu­tar a ener­gia foto­vol­tai­ca, sen­do algo em abun­dân­cia no Bra­sil. Por­tan­to, não acei­ta­re­mos lobby daque­les que só visam ao lucro do pro­ces­so. Acre­di­to que qua­se 50% dos cus­tos de manu­ten­ção da estru­tu­ra fica pago e ain­da sobra dinhei­ro no bol­so do pro­du­tor”, apon­ta o pre­si­den­te da Sub­co­mis­são do Leite. 

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