Compost barn: efeitos na produção e no bem-estar de vacas leiteiras - Digital Balde Branco
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Inoculante acoplado à bica da colhedora – silagem de planta inteira de milho

CONFINAMENTO

COMPOST BARN

Efeitos na produção e no bem-estar de vacas leiteiras 

Pesquisa desenvolvida pela Universidade Federal de Lavras avalia os impactos na produção e na qualidade do leite, no bem-estar de vacas e nas condições da cama, durante o período de um ano de um sistema compost barn no interior de Minas Gerais 

João Antônio dos Santos

Com a dis­se­mi­na­ção do sis­te­ma de con­fi­na­men­to em com­post barn (CB), são de gran­de impor­tân­cia as pes­qui­sas sobre os efei­tos des­sa tec­no­lo­gia nos vári­os aspec­tos da pro­du­ção de lei­te. Foi com esse pro­pó­si­to que, sob a coor­de­na­ção do pro­fes­sor Flá­vio Alves Damas­ce­no, do Depar­ta­men­to de Enge­nha­ria da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Lavras (Ufla), o estu­dan­te de zoo­tec­nia nes­sa uni­ver­si­da­de, João Antô­nio Cos­ta do Nas­ci­men­to, rea­li­zou um estu­do para ava­li­ar os efei­tos do alo­ja­men­to de vacas lei­tei­ras em uma ins­ta­la­ção de com­post barn, prin­ci­pal­men­te quan­to à pro­du­ção e à qua­li­da­de do lei­te, duran­te o pri­mei­ro ano (mar­ço de 2019 a mar­ço de 2020) de ado­ção do sis­te­ma. Nes­se estu­do, ava­li­ou-se o efei­to do ambi­en­te tér­mi­co (tem­pe­ra­tu­ra do ar e umi­da­de rela­ti­va) no ganho de peso, no bem-estar dos ani­mais, além de variá­veis refe­ren­tes à qua­li­da­de da cama.

A pro­pri­e­da­de Angu Seco, per­ten­cen­te à famí­lia Oli­vei­ra Vile­la, está loca­li­za­da no muni­cí­pio de Ita­gua­ra (MG). A pro­du­to­ra Regi­na Olím­pia de Oli­vei­ra Vile­la toca a ati­vi­da­de lei­tei­ra, jun­ta­men­te com suas filhas Chris­ti­a­ne, Taci­a­na e Vir­gí­nia.

“Fica­mos saben­do da tec­no­lo­gia do com­post barn numa pales­tra minis­tra­da em Cláu­dio (MG), minis­tra­da pelo pro­fes­sor Flá­vio Damas­ce­no, e nos inte­res­sa­mos bas­tan­te. Nela, ele fez vári­as demons­tra­ções sobre esse sis­te­ma”, con­ta Taci­a­na, dizen­do que seguiu a ori­en­ta­ção do pro­fes­sor que, na oca­sião, des­ta­cou a impor­tân­cia de pro­cu­rar assis­tên­cia téc­ni­ca espe­ci­a­li­za­da para ela­bo­ra­ção dos pro­je­tos das ins­ta­la­ções de com­post barn. Ela lem­bra ain­da que visi­ta­ram algu­mas pro­pri­e­da­des que uti­li­zam esse sis­te­ma para se infor­ma­rem melhor e verem in loco seu fun­ci­o­na­men­to.

A famí­lia Vile­la Oli­vei­ra, que cri­a­va os ani­mais no sis­te­ma de pas­ta­gem irri­ga­da, rela­ta que esta­va can­sa­da com pro­ble­mas rela­ci­o­na­dos a para­si­tas, cas­cos e mas­ti­te. Assim, em julho de 2017, alme­jan­do melho­ria na pro­du­ção e na qua­li­da­de do lei­te, ini­ci­ou as pri­mei­ras con­ver­sas para o pla­ne­ja­men­to da ins­ta­la­ção. Foram dis­cu­ti­dos alguns pon­tos impor­tan­tes para a ela­bo­ra­ção dos pro­je­tos: pro­ble­mas com que­da de ener­gia elé­tri­ca, pou­ca dis­po­ni­bi­li­da­de de água e topo­gra­fia irre­gu­lar do local. Os tra­ba­lhos se ini­ci­a­ram em setem­bro de 2017 e a exe­cu­ção da obra ocor­reu em julho de 2018. O pri­mei­ro lote de ani­mais foi alo­ja­do no mês de feve­rei­ro do ano de 2019, e com isso, foi pos­sí­vel acom­pa­nhar a evo­lu­ção da pro­du­ti­vi­da­de do reba­nho, for­ma­do por vacas com grau san­guí­neo 7/8 Holandês.

O pro­fes­sor Damas­ce­no obser­va que, para redu­zir o cus­to da cons­tru­ção, as pro­du­to­ras uti­li­za­ram mão de obra pró­pria da fazen­da, além de fazer diver­sas pes­qui­sas de pre­ço. Den­tre os mate­ri­ais empre­ga­dos na cons­tru­ção, está, por exem­plo, o rejei­to de indús­tria, caso de cabos de aço embor­ra­cha­dos que foram uti­li­za­dos no fecha­men­to late­ral da ins­ta­la­ção. Tam­bém foram uti­li­za­dos como pila­res alguns pos­tes de con­cre­to. Como a pro­pri­e­da­de apre­sen­ta­va pro­ble­ma com a deman­da ener­gé­ti­ca, foram ins­ta­la­dos dois ven­ti­la­do­res de menor con­su­mo. “Com isso, os pro­du­to­res con­se­gui­ram uma redu­ção no cus­to total de cons­tru­ção da ins­ta­la­ção de com­post barn, que ficou pró­xi­mo a R$ 240.000”, con­ta Damasceno.

A ins­ta­la­ção de com­post barn cons­truí­da apre­sen­ta dimen­sões totais de 23 x 56 metros e área de cama de 15 x 56 metros. O pé-direi­to da ins­ta­la­ção e bei­ral pos­su­em 4,8 e 2 metros, res­pec­ti­va­men­te. O mate­ri­al uti­li­za­do na cama é com­pos­to por mara­va­lha, onde é rea­li­za­da uma peque­na repo­si­ção (cer­ca de 10 m³) a cada três meses.

Flávio Damasceno: a partir de um projeto de compost barn adequado às necessidades da propriedade, os produtores conseguiram expressiva economia na construção da instalação

O pro­fes­sor Damas­ce­no expli­ca que o pro­je­to foi devi­da­men­te pro­je­ta­do para aten­der às neces­si­da­des da pro­pri­e­da­de. Na face vol­ta­da para o sul da ins­ta­la­ção, loca­li­za-se o cor­re­dor de ali­men­ta­ção, onde se encon­tram os bebe­dou­ros e o cocho. A ins­ta­la­ção pos­sui qua­tro bebe­dou­ros e, entre eles, há cin­co pas­sa­gens que dão aces­so à área da cama pelos ani­mais. O tra­je­to das vacas até a sala de espe­ra da orde­nha é fei­to no lado opos­to ao cor­re­dor de ali­men­ta­ção, por três por­tões que con­du­zem a um cor­re­dor de ser­vi­ço e, este, para a sala de orde­nha.

A pri­mei­ra lota­ção do com­post barn era de 51 ani­mais, divi­di­dos em dois lotes, que pro­du­zi­am 865 litros de lei­te por dia, repre­sen­tan­do 18,4 litros/vaca/dia. No mês de mar­ço de 2020, o gal­pão esta­va com sua lota­ção máxi­ma (70 ani­mais con­fi­na­dos), divi­di­dos em três lotes de vacas em lac­ta­ção e um lote de vacas no pré-par­to. Nes­se perío­do, obser­vou-se um incre­men­to na pro­du­ção total de 1.665 litros de lei­te, numa média de 24 litros/vaca/dia.

O incre­men­to de pro­du­ção total cor­res­pon­deu a 48%, repre­sen­tan­do um acrés­ci­mo de 23,3% de litros de leite/vaca/dia por ani­mal (Figu­ra 1). Em rela­ção ao peso dos ani­mais, o novo sis­te­ma per­mi­tiu um aumen­to de 7,2%. De acor­do com João Antô­nio C. do Nas­ci­men­to, “o fator cli­má­ti­co é uma variá­vel que exer­ce for­te influên­cia no peso dos ani­mais e na pro­du­ção de lei­te, e isso ocor­re prin­ci­pal­men­te pelo fato de que vacas de raças de ori­gem euro­peia, que pos­su­em mai­or apti­dão lei­tei­ra, são pou­co adap­ta­das ao cli­ma tro­pi­cal, sofren­do mui­to com o estres­se tér­mi­co. Este pode ser um fator limi­tan­te para que alcan­cem seu máxi­mo poten­ci­al gené­ti­co. Dian­te dis­so, o sis­te­ma com­post barn pro­por­ci­o­nou con­di­ção de con­for­to mais ade­qua­da aos animais”.

O projeto funcional do compost barn permite tranquilamente a circulação no ambiente, com o acesso facilitado aos bebedouros, cochos e até à sala de ordenha

Outro pon­to obser­va­do no estu­do foi a melho­ria na qua­li­da­de do lei­te. A CCS e CBT apre­sen­ta­ram, res­pec­ti­va­men­te, valo­res médi­os de 276 mil célu­las por mili­li­tro (cel/ml) e 7,2 mil UFC/ml, duran­te perío­do ava­li­a­do, ou seja, uma redu­ção de 30% na CCS e de 60% na CBT (Figu­ra 2). Segun­do o pro­fes­sor Damas­ce­no, “vacas que são alo­ja­das em locais secos, lim­pos e con­for­tá­veis podem apre­sen­tar mai­or pro­du­ção e qua­li­da­de do leite”.

Variá­veis da cama – No que­si­to tem­pe­ra­tu­ra da cama, na super­fí­cie e na pro­fun­di­da­de de 20 cm, regis­tra­ram-se os valo­res médi­os de 27 e 50,7 graus Cel­sius, res­pec­ti­va­men­te. Com rela­ção à tem­pe­ra­tu­ra cor­po­ral, obser­va-se que esta man­te­ve-se den­tro da fai­xa reco­men­da­da, 45 e 60 graus Cel­sius (Figu­ra 3a).

Em rela­ção à variá­vel umi­da­de da cama, veri­fi­cou-se (Figu­ra 3b) que se man­te­ve na mai­or par­te do tem­po den­tro da fai­xa reco­men­da­da (40% a 65%). “O mane­jo da cama, quan­do bem rea­li­za­do, pode tra­zer resul­ta­dos satis­fa­tó­ri­os, como redu­ção da CCS do lei­te, melho­ria do esco­re de lim­pe­za, aumen­to no con­for­to dos ani­mais e redu­ção da clau­di­ca­ção, bene­fí­ci­os que são per­ce­bi­dos pelos pro­du­to­res após a imple­men­ta­ção do sis­te­ma”, res­sal­ta Nas­ci­men­to.

A vari­a­ção do esco­re cor­po­ral man­te­ve-se entre 3,0 a 3,5 (Figu­ra 4). No caso dos esco­res de higi­e­ne e loco­mo­ção, a vari­a­ção man­te­ve-se entre 1,0 e 1,5 duran­te todo perío­do ava­li­a­do. Isso é mui­to impor­tan­te quan­to às van­ta­gens do sis­te­ma de com­post barn, con­for­me des­ta­ca Nas­ci­men­to: “Reba­nhos com esco­res de higi­e­ne entre 3 e 4 apre­sen­tam pro­ble­mas de higi­e­ne do úbe­re, o que resul­ta em mai­or ris­co de mas­ti­te ambi­en­tal, além de redu­ção da qua­li­da­de do lei­te e da efi­ci­ên­cia de orde­nha. Defi­ci­ên­ci­as de higi­e­ne, que podem gerar con­sequên­ci­as nega­ti­vas para a qua­li­da­de micro­bi­o­ló­gi­ca do lei­te, impli­cam mai­o­res obs­tá­cu­los para o con­tro­le da mastite”.

Nascimento: as boas condições de conforto térmico possibilitam que as vacas expressem melhor seu potencial genético, trazendo ganhos de produtividade

O pro­fes­sor Damas­ce­no expli­ca que a manu­ten­ção de um bom padrão de mane­jo da cama é um cons­tan­te desa­fio de con­tro­le da umi­da­de da cama. “Além da ava­li­a­ção da con­di­ção da cama e do esco­re de lim­pe­za das vacas, uma das for­mas mais ade­qua­das de ava­li­ar a inter­fe­rên­cia da qua­li­da­de da cama sobre a saú­de da glân­du­la mamá­ria é a CCS do tan­que e da inci­dên­cia de novos casos de mas­ti­te clínica.”

Manejo da cama, diariamente, deve ser rigoroso para garantir o bom funcionamento do sistema

Em rela­ção aos para­si­tas, segun­do as pro­du­to­ras de lei­te, o gas­to com remé­dio para com­ba­ter car­ra­pa­tos fica na fai­xa de R$ 600 a R$ 800. Atu­al­men­te, tem-se usa­do remé­dio somen­te em vacas secas que saem do pas­to e vão para a ins­ta­la­ção. Remé­dio para com­ba­ter mos­ca tem-se usa­do somen­te na ordenha.

No geral, com os dados do estu­do, o pro­fes­sor des­ta­ca que a famí­lia Vile­la mos­trou-se satis­fei­ta com os resul­ta­dos obti­dos pelo sis­te­ma de com­post barn, já que hou­ve um sig­ni­fi­ca­ti­vo incre­men­to na pro­du­ção lei­tei­ra e melho­ria da sani­da­de e do con­for­to do reba­nho. “Como pró­xi­mas eta­pas, as pro­du­to­ras pre­ten­dem aumen­tar a ins­ta­la­ção para alo­jar 100 vacas e melho­rar ain­da mais a qua­li­da­de do lei­te, inves­tin­do numa orde­nha mai­or e mais pró­xi­ma ao com­post barn”, adi­an­ta ele.

Dona Regina com sua equipe: Giovane (com sua filha Ana Beatriz), Clério e Bruno Henrique

Busca constante por melhorias

 

A famí­lia Oli­vei­ra Vile­la está na pro­du­ção lei­tei­ra há mais de 24 anos, e quem está à fren­te do negó­cio, des­de a mor­te de seu espo­so, é Regi­na Olím­pia de Oli­vei­ra Vile­la, que con­ta com a aju­da das filhas Chris­ti­a­ne, Taci­a­na e Vir­gí­nia. Na pro­pri­e­da­de Angu Seco, elas foram evo­luin­do, ao lon­go dos anos, sain­do de um sis­te­ma mais rús­ti­co de pro­du­ção, pas­san­do a sis­te­ma de pas­ta­gem em pique­tes irri­ga­dos, até che­ga­rem à ins­ta­la­ção do sis­te­ma de con­fi­na­men­to em com­post barn.

“Antes, com as vacas cri­a­das a pas­to, tínha­mos mui­tos pro­ble­mas com car­ra­pa­tos, estres­se tér­mi­co, doen­ças de cas­co e de mas­ti­te devi­do ao bar­ro na épo­ca de chu­vas. E, cla­ro, de repro­du­ção”, diz Taci­a­na, lem­bran­do que por mais que bus­cas­sem melho­ri­as visan­do à pro­du­ti­vi­da­de e à qua­li­da­de do lei­te, os resul­ta­dos fica­vam aquém do dese­ja­do.

Ela con­ta que a deci­são para ins­ta­lar o con­fi­na­men­to com­post barn sur­giu com o obje­ti­vo de supe­rar os vári­os pro­ble­mas cita­dos. No pri­mei­ro ano com as vacas no sis­te­ma, já veri­fi­ca­ram resul­ta­dos posi­ti­vos. “Ficou mui­to mais fácil a visu­a­li­za­ção das vacas no cio, daí se per­de menos cio, melho­ran­do os índi­ces de repro­du­ção. Pro­ble­mas com car­ra­pa­to redu­zi­ram-se mui­to, o que repre­sen­ta menos gas­tos com medi­ca­men­tos, pois uti­li­za­mos somen­te em vacas que tive­ram que ficar no pas­to. O con­for­to tér­mi­co para elas melho­rou mui­to, pois há os ven­ti­la­do­res que aju­dam mui­to nes­se que­si­to”, sali­en­ta Taci­a­na, obser­van­do tam­bém que cons­ta­tou a ele­va­ção da pro­du­ti­vi­da­de das vacas e a redu­ção nos casos de mas­ti­te, com­pro­va­do pela redu­ção da CCS.

No que­si­to aumen­to da pro­du­ção, a pro­du­to­ra rela­ta que, ante­ri­or­men­te, a média fica­va entre 850 e 1.000 litros de lei­te por dia e atu­al­men­te está entre 1.450 e 1.500 litros por dia. “Nos­sa meta é, com as novi­lhas que estão para che­gar, alcan­çar com 100 vacas em lac­ta­ção, os 2.000 litros de lei­te por dia, nos pró­xi­mos dois anos”, diz ela, lem­bran­do que esse tra­ba­lho con­ta com a vali­o­sa coo­pe­ra­ção de sua equi­pe de cola­bo­ra­do­res e com o tra­ba­lho do médi­co veterinário.

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