Controle estratégico do carrapato - Digital Balde Branco
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ATUALIZANDO

Controle estratégico do

CARRAPATO

Neste bate-papo com a Balde Branco, o professor Welber Daniel Z. Lopes* traz informações relevantes sobre esse parasito que causa tantos prejuízos para pecuaristas

João Antônio dos Santos

Bal­de Bran­co – Que ele con­ti­nua um pro­ble­mão sabe­mos, mas há algo de novo em rela­ção a este para­si­to?
Wel­ber Lopes – Na ver­da­de, as infes­ta­ções de car­ra­pa­to estão pio­ran­do. Já exis­tem estu­dos mos­tran­do que o car­ra­pa­to con­se­gue desen­vol­ver uma gera­ção a mais por ano, em com­pa­ra­ção a 20, 30 anos atrás. Isso não acon­te­ce em todas as pro­pri­e­da­des, em todos os luga­res. Mas, por cau­sa do aumen­to da tem­pe­ra­tu­ra glo­bal, o car­ra­pa­to está con­se­guin­do fazer uma gera­ção a mais.
Quan­do fala­mos em uma gera­ção a mais, isto resul­ta, apro­xi­ma­da­men­te, em dois meses a mais de con­tro­le des­se ecto­pa­ra­si­to. Temos escu­ta­do de mui­tos pro­du­to­res rela­tos de que está mais difí­cil tra­tar o car­ra­pa­to, ten­do que apli­car car­ra­pa­ti­ci­das mais vezes. Tudo isso vai ao encon­tro des­ses dados apre­sen­ta­dos pelos estu­dos divul­ga­dos recen­te­men­te.
Ali­a­do a isso, se obser­va­mos o his­tó­ri­co de pro­du­tos quí­mi­cos que foram lan­ça­dos ao lon­go de toda his­tó­ria, esta­mos pre­sen­ci­an­do um perío­do de cer­ca de 30 anos sem a des­co­ber­ta de novas molé­cu­las para com­ba­ter o car­ra­pa­to. Isso é um pro­ces­so natu­ral, no qual a efi­ci­ên­cia dos pro­du­tos está dimi­nuin­do con­for­me o tem­po de uso. A indús­tria está ten­tan­do mini­mi­zar esse impac­to, asso­ci­an­do os ati­vos que exis­tem, con­tu­do, infe­liz­men­te, não temos nenhu­ma novi­da­de. Des­sa for­ma, ali­an­do esses dois fato­res, pode­mos afir­mar que o car­ra­pa­to está bem pior do que déca­das atrás. A per­da de efi­ci­ên­cia ao lon­go dos anos é resul­ta­do da resis­tên­cia do car­ra­pa­to aos pro­du­tos químicos.

BB – Nes­se cená­rio, quais são as estra­té­gi­as mais efi­ci­en­tes para o con­tro­le do car­ra­pa­to?
Wel­ber – Exis­tem algu­mas estra­té­gi­as no con­tro­le do car­ra­pa­to que nós deve­mos con­si­de­rar: a pri­mei­ra medi­da é apli­car o pro­du­to que melhor fun­ci­o­na na pro­pri­e­da­de. Nas fazen­das lei­tei­ras, temos o tes­te do bio­car­ra­pa­ti­ci­do­gra­ma, que é mui­to efe­ti­vo, pen­san­do em vacas em lac­ta­ção. A Embra­pa Gado de Lei­te, em Juiz de Fora (MG), rea­li­za esse tipo de tes­te gra­tui­ta­men­te, a pró­pria UFG tam­bém faz essas aná­li­ses para defi­nir qual será a melhor fer­ra­men­ta. Fei­to isso, uma estra­té­gia efi­ci­en­te que tem tido um resul­ta­do satis­fa­tó­rio seria apro­vei­tar esse perío­do de iní­cio das chu­vas das Regiões Sudes­te e Cen­tro-Oes­te, por exem­plo, quan­do aumen­ta a infes­ta­ção por car­ra­pa­tos nos ani­mais, com apli­ca­ção de banhos estra­té­gi­cos a par­tir des­sa pri­mei­ra gera­ção de para­si­tos, que é menos abun­dan­te no ambi­en­te e tam­bém nos bovi­nos.
À medi­da que vai cami­nhan­do para a segun­da, a ter­cei­ra e até a quin­ta gera­ção, a ten­dên­cia é aumen­tar o núme­ro de car­ra­pa­tos no ambi­en­te e no reba­nho. Se o pro­du­tor dei­xar para atu­ar, por exem­plo, na quar­ta gera­ção, que é lá pelo mês de abril/maio, como alguns fazem, o resul­ta­do de efi­cá­cia do pro­du­to será infe­ri­or, sobre­tu­do quan­do com­pa­rar­mos quem uti­li­za essa estra­té­gia nes­se perío­do do ano (outubro/novembro/dezembro). Segun­do apon­tam alguns estu­dos, quan­to mai­or o grau de infes­ta­ção de car­ra­pa­tos no ani­mal menor será a efi­cá­cia do pro­du­to apli­ca­do. Às vezes, o que as pes­so­as fazem com rela­ção ao bio­car­ra­pa­ti­ci­do­gra­ma é pro­cu­rar aju­da por vol­ta do mês de abril e maio. Porém, cos­tu­mo dizer, esse tes­te será útil para o pro­du­tor só na pró­xi­ma “esta­ção de car­ra­pa­tos”, na épo­ca do iní­cio das chu­vas. No entan­to, tem mui­ta pro­pri­e­da­de que somen­te ten­ta apa­gar “incên­dio” bem no auge da infestação.

BB – Como essa ope­ra­ção pode ser rea­li­za­da na prá­ti­ca para com­ba­ter a pri­mei­ra gera­ção do car­ra­pa­to?
Wel­ber – Quem vai dar ao pecu­a­ris­ta o resul­ta­do do pro­du­to a ser apli­ca­do é o tes­te do bio­car­ra­pa­ti­ci­do­gra­ma, indi­can­do a solu­ção A, B, X, Z, e seu por­cen­tu­al de efi­cá­cia. Depois que o pro­du­tor ini­cia o con­tro­le estra­té­gi­co, acon­te­ce outro gar­ga­lo impor­tan­te que é deter­mi­nar o perío­do de rea­pli­ca­ção do pro­du­to nos ani­mais duran­te o con­tro­le estra­té­gi­co. O pro­du­tor não deve retra­tar os ani­mais, quan­do mui­tas teleó­gi­nas “jabu­ti­ca­bas” são visu­a­li­za­das nos ani­mais duran­te o con­tro­le estra­té­gi­co. Des­ta manei­ra, o ciclo do car­ra­pa­to não é “inter­rom­pi­do”, e cer­ta­men­te o con­tro­le estra­té­gi­co nes­tas situ­a­ções não terá bons resul­ta­dos.
Isso é mui­to impor­tan­te por­que, na mai­o­ria das vezes, não dá para fixar os dias de pro­to­co­lo. O pro­du­tor pre­ci­sa com­pre­en­der que não é pos­sí­vel esta­be­le­cer os dias de tra­ta­men­to, como se faz nos pro­to­co­los de repro­du­ção. No caso do car­ra­pa­to, se ele fixar, cor­re o ris­co de não dar cer­to o con­tro­le estra­té­gi­co des­ses ecto­pa­ra­si­tos. O tem­po médio de tra­tar nova­men­te o reba­nho com pul­ve­ri­za­ção, em gado de lei­te, varia de 21 a 28 dias após o banho rea­li­za­do ante­ri­or­men­te. Inter­va­los meno­res que esses, às vezes, são neces­sá­ri­os em casos de ele­va­das infes­ta­ções.
Já a núme­ro de banhos varia de acor­do com a região. Em algu­mas loca­li­da­des da Região Cen­tro-Oes­te, como a tem­pe­ra­tu­ra média anu­al é mai­or, temos um pico de infes­ta­ção por car­ra­pa­tos mui­to ele­va­do em julho. Regiões do Sudes­te tam­bém apre­sen­tam cin­co gera­ções, entre­tan­to a últi­ma gera­ção pos­sui um volu­me mais bai­xo de para­si­tas em fun­ção da tem­pe­ra­tu­ra entre os meses de maio e junho serem meno­res.
No Cen­tro-Oes­te, os pro­du­to­res estão apli­can­do de 7 a 8 pul­ve­ri­za­ções para con­se­guir supri­mir o últi­mo pico de infes­ta­ção por car­ra­pa­tos. É pos­sí­vel que, na Região Sudes­te, o pro­du­tor con­si­ga con­tro­lar a esta­ção de car­ra­pa­to com menos banhos. De modo geral, no míni­mo o pecu­a­ris­ta deve rea­li­zar de 6 a 8 banhos com pro­du­to de pul­ve­ri­za­ção, depen­den­do da região. Sem­pre lem­bran­do que é neces­sá­rio repe­tir o tra­ta­men­to no momen­to cer­to para inter­rom­per o ciclo de infes­ta­ção do car­ra­pa­to a cada geração.

BB – Você acha neces­sá­rio con­tar com ori­en­ta­ção téc­ni­ca nes­se tra­ba­lho?
Wel­ber – Acho que um pon­to impor­tan­te, onde acon­te­cem as prin­ci­pais falhas no mane­jo do car­ra­pa­to em bovi­nos, é por­que o pro­du­tor não pro­cu­ra ori­en­ta­ção téc­ni­ca para fazer o con­tro­le estra­té­gi­co. Para mim, a ausên­cia de assis­tên­cia téc­ni­ca tam­bém é um dos prin­ci­pais gar­ga­los, vis­to a neces­si­da­de de apli­car os pro­du­tos na hora cer­ta, no inter­va­lo cer­to. O con­tro­le pre­ci­sa ser assis­ti­do, jamais em perío­do fixa­do por con­ta do pro­du­tor. E essa é a gran­de difi­cul­da­de, pois a mai­or par­te das fazen­das não tem pes­so­as que acom­pa­nhem de per­to o esque­ma de con­tro­le estra­té­gi­co.
Se não hou­ver um pro­to­co­lo assis­ti­do, tudo isso que eu dis­se ante­ri­or­men­te vai por “água bai­xo”. Se o pro­du­tor tem uma fer­ra­men­ta boa, uma assis­tên­cia téc­ni­ca acom­pa­nhan­do, a chan­ce de suces­so no con­tro­le des­ses ecto­pa­ra­si­tos é maior.

BB – Que outras falhas você des­ta­ca­ria?
Wel­ber – Uma falha impor­tan­te é a fal­ta de mai­or comu­ni­ca­ção entre a aca­de­mia com o pro­du­tor rural. Exis­te uma lacu­na mui­to gran­de entre o meio aca­dê­mi­co e o pro­du­tor, de modo que as infor­ma­ções aca­bam não che­gan­do de manei­ra apro­pri­a­da ao pecu­a­ris­ta. Por­tan­to, falhas exis­tem, só que elas estão incluí­das den­tro do sis­te­ma, pois não acho jus­to jogar toda cul­pa nas cos­tas do pro­du­tor.
Falha na apli­ca­ção – Na pul­ve­ri­za­ção ocor­rem as mai­o­res falhas por par­te do pro­du­tor, já que é aque­la que mais depen­de do ser huma­no. Logo, é a que mais está sujei­ta a suces­são de falhas, como o volu­me cor­re­to de cal­da apli­ca­da. Em gado adul­to, por exem­plo, tem de ser 5 litros por ani­mal, algo que mui­tas vezes não ocor­re. Já o pH da água influ­en­cia na efi­cá­cia do pro­du­to. Quan­to mais pró­xi­mo ao pH de 4,5 a 5, ela ten­de a desen­vol­ver um efei­to melhor na pul­ve­ri­za­ção, isso para a mai­o­ria dos pro­du­tos car­ra­pa­ti­ci­das.
Pour-on – Quan­do a apli­ca­ção é fei­ta via pour-on em épo­cas chu­vo­sas, pode acon­te­cer a dimi­nui­ção do efei­to resi­du­al do pro­du­to. Ou seja, se aque­la solu­ção fun­ci­o­na por 35 dias, nor­mal­men­te pode fun­ci­o­nar até uma sema­na a menos, de 28 a 30 dias. Por­tan­to, são fato­res aos quais o pro­du­tor deve estar liga­do. Sem­pre digo que a resis­tên­cia não apa­re­ce do dia para a noi­te, nem de um ano para outro. A resis­tên­cia dos car­ra­pa­tos apre­sen­ta sinais que o pecu­a­ris­ta per­ce­be quan­do usa deter­mi­na­do pro­du­to, prin­ci­pal­men­te quan­do essa solu­ção dura­va cer­ca de 50 dias, mas ago­ra está duran­do 30, 20 dias e até nada. Ou seja, são fato­res que o pecu­a­ris­ta con­se­gue ava­li­ar ao lon­go dos anos.

BB – Todo cui­da­do é pou­co no pro­ces­so de tra­ta­men­to, sobre­tu­do na apli­ca­ção, não?
Wel­ber – Uma coi­sa que pre­ci­so res­sal­tar é que deve­mos tomar cui­da­do com resí­du­os dei­xa­dos em lei­te e car­ne. O momen­to ide­al de fazer a pul­ve­ri­za­ção é nas horas mais fres­cas do dia, e sem­pre a favor do ven­to, de bai­xo para cima no ani­mal, atin­gin­do todas as regiões do cor­po, incluin­do cabe­ça e ore­lha, para entrar em con­ta­to com o pro­du­to. O pro­du­tor não deve apli­car o pro­du­to em dias chu­vo­sos, até inclu­si­ve no pro­to­co­lo de con­tro­le estra­té­gi­co é pre­ci­so levar isso em con­ta. Obser­var sem­pre a bula de cada medi­ca­men­to para res­pei­tar o perío­do de carên­cia. Além do uso cor­re­to de todos os equi­pa­men­tos de pro­te­ção indi­vi­du­al (EPIs).

* Wel­ber Dani­el Z. Lopes é mem­bro do Ins­ti­tu­to de Pato­lo­gia Tro­pi­cal e Saú­de Públi­ca (IPTSP) e pro­fes­sor no Depar­ta­men­to de Para­si­to­lo­gia vete­ri­ná­ria da UFG

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