Desafio: Alimentar mais pessoas sem afetar mais o meio ambiente - Digital Balde Branco
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MUNDO

DESAFIO

Alimentar mais pessoas sem afetar mais o meio ambiente

Em duas décadas, consumo de alimentos aumentou 48% no mundo. O desafio é aumentar a produção sem aumentar o impacto ambiental, concluiu Agrivision 2021 

Altair Albuquerque*

Os dados são da Tro­pi­cal Forest Alli­an­ce, pla­ta­for­ma glo­bal que apoia com­pro­mis­sos do setor pri­va­do em prol da pro­du­ção de ali­men­tos com sus­ten­ta­bi­li­da­de: o con­su­mo de ali­men­tos aumen­tou 48% em ter­mos glo­bais nas duas pri­mei­ras déca­das do sécu­lo 21, em com­pa­ra­ção com igual perío­do no sécu­lo pas­sa­do. “Se que­re­mos ali­men­tar 10 bilhões de pes­so­as em 2050 de uma for­ma sus­ten­tá­vel, jus­ta e trans­pa­ren­te, pre­ci­sa­mos pen­sar, jun­tos, em novas for­mas de fazer isso acon­te­cer. Estou con­ven­ci­do de que a úni­ca for­ma de alcan­çar­mos esse pro­pó­si­to é tra­ba­lhan­do em par­ce­ria como indús­tri­as e pro­du­to­res. O desa­fio é imen­so. Tere­mos de pro­du­zir, nos pró­xi­mos 30 anos, mais ali­men­tos do que pro­du­zi­mos nos últi­mos 8 mil anos”, aler­tou Ful­co van Lede, CEO da Nutre­co, duran­te o Agri­vi­si­on 2021, even­to que reu­niu por­ta-vozes do agro­ne­gó­cio mun­di­al para deba­ter desa­fi­os e opor­tu­ni­da­des da pro­du­ção de ali­men­tos de manei­ra sus­ten­tá­vel para nutrir a popu­la­ção glo­bal, que está em crescimento.

Produção de trigo, um dos grãos mais consumidos do mundo na forma de pão e massas 

O pro­ble­ma é imi­nen­te: 50% dos recur­sos do pla­ne­ta já foram usa­dos para ati­vi­da­des huma­nas. Dian­te dos núme­ros, Sas­kia Korinsk, CEO da Trouw Nutri­ti­on – empre­sa glo­bal da Nutre­co que atua em ali­men­ta­ção ani­mal –, refor­çou que a res­pon­sa­bi­li­da­de é mui­to gran­de para que ape­nas uma empre­sa lide­re a bus­ca por novas for­mas de pro­du­zir ali­men­tos. Para isso, todos os pro­fis­si­o­nais liga­dos ao setor pro­du­ti­vo têm papel sig­ni­fi­ca­ti­vo a desem­pe­nhar na cres­cen­te deman­da por car­nes e lei­te, de for­ma sustentável.

“O futu­ro impor­ta, e impor­ta para todos. Por isso, as dis­cus­sões e tro­cas pre­ci­sam ser cada vez mais fre­quen­tes. Assim como per­ce­be­mos na pan­de­mia, quan­do lida­mos com os pro­ble­mas reu­nin­do esfor­ços cole­ti­vos, somos mui­to mais rápi­dos em encon­trar solu­ções. Espe­ro que con­si­ga­mos fazer o mes­mo com o desa­fio de ali­men­tar mais pes­so­as sem pre­ju­di­car mais o meio ambi­en­te. É tem­po de agir”, des­ta­cou Saskia.

Com par­ti­ci­pa­ção do vice- pre­si­den­te da WWF-US, Jason Clay, a refle­xão sobre a velo­ci­da­de com que as mudan­ças têm acon­te­ci­do se tor­nou o cen­tro do deba­te. “Tudo acon­te­ce de for­ma mui­to mais rápi­da do que pode­ría­mos ima­gi­nar há alguns anos. Isso sig­ni­fi­ca que temos de apren­der mais rápi­do e tam­bém res­pon­der com mai­or agi­li­da­de. O que é sus­ten­tá­vel hoje pode não ser amanhã.”

Saskia Korinsk: “Todos os profissionais ligados ao setor produtivo têm papel significativo a desempenhar na crescente demanda por carnes e leite, e de forma sustentável”

O futu­ro das pro­teí­nas ani­mais tem des­ta­que quan­do o assun­to é encon­trar novas for­mas de pro­du­ção. Para fomen­tar o tema, Jus­tin Sher­rard, estra­te­gis­ta glo­bal de Pro­teí­na Ani­mal do Rabo­bank, lem­brou que o mun­do já pos­sui fon­tes de pro­teí­nas alter­na­ti­vas, como car­ne cul­ti­va­da em labo­ra­tó­rio e fon­tes de pro­teí­nas não-ani­mais. “O mer­ca­do de pro­teí­nas ani­mais con­ti­nu­a­rá cres­cen­do, mas gran­de par­te des­se avan­ço ocor­re­rá nos paí­ses em desen­vol­vi­men­to. Não tan­to pela rique­za, mas mui­to pela cres­cen­te urba­ni­za­ção.” Sobre as pro­teí­nas alter­na­ti­vas, ele expli­cou que mui­tas ain­da têm pre­ços pou­co atra­ti­vos. Por isso, as pro­teí­nas tra­di­ci­o­nais ain­da con­ti­nu­a­rão a ser mais pro­cu­ra­das. Espe­ci­al­men­te no cur­to prazo.

Ain­da sobre esse tema, Mar­cel Sac­co, vice-pre­si­den­te de Novos Negó­ci­os da BRF, com­ple­men­tou que a nova rea­li­da­de não é de subs­ti­tui­ção das car­nes. “Tra­ta-se de ofe­re­cer mais opções aos con­su­mi­do­res. Pode­mos com­bi­nar a ofer­ta exis­ten­te de pro­teí­nas ani­mais com novos produtos.”

Leite, um dos alimentos mais completos para pessoas de todas as idades

Fazenda de caviar alimentada por vacas leiteiras


Rogi­er Schul­te, pro­fes­sor de sis­te­mas agrí­co­las e eco­lo­gia da Wage­nin­gen Uni­ver­sity & Rese­ar­ch, na Holan­da, com­par­ti­lhou no Agri­vi­si­on uma nova for­ma de pen­sar a agro­pe­cuá­ria: o con­cei­to de “fazen­das-mode­lo”. A ideia é que, no futu­ro, seja mais comum o uso dos recur­sos natu­rais para a pro­du­ção de dife­ren­tes ali­men­tos, simul­ta­ne­a­men­te, como já acon­te­ce na Indo­né­sia, com os sis­te­mas de cul­ti­vo de arroz con­sor­ci­a­do com pei­xes e patos.

Em outro exem­plo, ele citou a Fazen­da As Zie­di, na Letô­nia, que tem 2 mil vacas lei­tei­ras, além de 3 mil hec­ta­res com dife­ren­tes cul­tu­ras. “O lei­te é o sub­pro­du­to. O prin­ci­pal pro­du­to é o estru­me, que é colo­ca­do em bio­di­ges­to­res ana­e­ró­bi­os, que geram ele­tri­ci­da­de. Mas a ener­gia tam­bém é um sub­pro­du­to, cujo prin­ci­pal pro­du­to é o calor, pois per­mi­te o cres­ci­men­to de estur­jões e engui­as. Em dois anos, os pei­xes estão pre­pa­ra­dos para des­pes­ca, tam­bém um sub­pro­du­to. Aqui, o cavi­ar é o negó­cio prin­ci­pal. É uma fazen­da de cavi­ar ali­men­ta­da por vacas leiteiras.”

A mes­ma ideia, de que a solu­ção para os pro­ble­mas atu­ais pode ser encon­tra­da na natu­re­za, foi refor­ça­da pelo fun­da­dor do One Pla­net Busi­ness for Bio­di­ver­sity e ex-CEO da Dano­ne, Emma­nu­el Faber. Para ele, a indús­tria inves­te mui­to tem­po e recur­sos na pro­du­ção de ali­men­tos não tão sau­dá­veis e sus­ten­tá­veis. “Quan­do pro­du­zi­mos, esta­mos ofe­re­cen­do sobe­ra­nia ali­men­tar às pes­so­as.” Faber aler­tou que o modo de olhar a natu­re­za como um dado cien­tí­fi­co no labo­ra­tó­rio não é a solu­ção. “Pre­ci­sa­mos usar tec­no­lo­gi­as não para subs­ti­tuir a natu­re­za, mas para colo­cá-la de vol­ta ao cen­tro do nos­so sis­te­ma. A diver­si­da­de de espé­ci­es cul­ti­va­das na agri­cul­tu­ra é mui­to bai­xa. Pre­ci­sa­mos recu­pe­rá-la rein­tro­du­zin­do espé­ci­es de vol­ta”, pontuou.

*Altair Albu­quer­que é Dire­tor na Tex­to Asses­so­ria de Comunicações