É preciso conhecer a realidade dos produtores para encontrar soluções para os desafios do setor - Digital Balde Branco

“Firmei o compromisso de que a atividade leiteira se desenvolva com independência, atendendo às normas de controle sanitário, investindo em tecnologia, melhoramento genético dos rebanhos e na profissionalização de propriedades, gerando emprego e renda com sustentabilidade a sua aposentadoria no futuro”

ENTREVISTA

Aline Sleutjes

É preciso conhecer a realidade dos produtores para encontrar soluções para os

DESAFIOS DO SETOR

Nas­ci­da em Cas­tro, na região dos Cam­pos Gerais, Para­ná, Ali­ne Sleut­jes, filha de pro­du­tor rural holan­dês, este­ve sem­pre envol­vi­da na vida do cam­po, já que seus fami­li­a­res, des­de sem­pre, esti­ve­ram liga­dos à ati­vi­da­de agro­pe­cuá­ria, sobre­tu­do no lei­te. Com gra­du­a­ção em Edu­ca­ção Físi­ca e pós-gra­du­a­ção em Ges­tão Esco­lar, é pro­fes­so­ra e empre­sá­ria. Tam­bém já exer­ceu fun­ções públi­cas e dois man­da­tos de vere­a­do­ra em Cas­tro. Em 2018, foi elei­ta depu­ta­da fede­ral. Em seu man­da­to, tem se empe­nha­do em defen­der os assun­tos de inte­res­se dos pro­du­to­res, de todos os que se dedi­cam à ati­vi­da­de lei­tei­ra e à pro­du­ção de ali­men­tos em geral.


João Antô­nio dos Santos

Balde Branco – O que Castro lhe ensinou sobre o setor de leite?

Ali­ne Sleut­jes - Cas­tro é a capi­tal naci­o­nal do lei­te, que se des­ta­ca na pro­du­ção e qua­li­da­de des­te pro­du­to, com mais de 416 milhões de litros por ano, segun­do rela­tó­rio anu­al 2020 da Cas­tro­lan­da, com pro­du­ti­vi­da­de média anu­al de 9 mil litros por vaca. Em Cas­tro se encon­tra o Cen­tro de Trei­na­men­to Pecu­a­ris­ta – CTP, que trei­na milha­res de bra­si­lei­ros há 55 anos. Sou filha de pro­du­tor de lei­te vin­do da Holan­da e sem­pre esti­ve­mos liga­dos à coo­pe­ra­ti­va. Pri­mei­ro à Bata­vo e hoje à coo­pe­ra­ti­va Cas­tro­lan­da, que fica na cida­de de Cas­tro, onde temos recor­des de pro­du­ção. Em Cas­tro apren­di a valo­ri­zar essa cadeia tão impor­tan­te, que tra­ba­lha ardu­a­men­te, de domin­go a domin­go, 365 dias por ano, com mui­to amor, von­ta­de e dedi­ca­ção para con­ti­nu­ar. O lei­te é pro­du­zi­do em 99% dos muni­cí­pi­os bra­si­lei­ros, ten­do, assim, enor­me impor­tân­cia econô­mi­ca e soci­al em pra­ti­ca­men­te todas as cida­des, além de exer­cer papel fun­da­men­tal para man­ter o tra­ba­lha­dor no cam­po, evi­tan­do o êxo­do rural e o desemprego.

BB – E essa vivência tem lhe ajudado em suas ações e batalhas em prol da cadeia do leite?

AS - Sem dúvi­da. No ano pas­sa­do, cons­ci­en­te de que outros Esta­dos não tinham as con­di­ções que o Para­ná tem para a cadeia lei­tei­ra, resol­vi tomar algu­mas medi­das e cri­ei o Fórum Naci­o­nal de Incen­ti­vo à Cadeia Lei­tei­ra. Duran­te seis audi­ên­ci­as, ouvi peque­nos, médi­os e gran­des pro­du­to­res, mem­bros das coo­pe­ra­ti­vas e indús­tria, téc­ni­cos do setor e, por fim, rea­li­za­mos uma audi­ên­cia com a minis­tra da Agri­cul­tu­ra, Tere­za Cris­ti­na, e o minis­tro da Eco­no­mia, Pau­lo Gue­des, o que pos­si­bi­li­tou a cons­tru­ção de um pla­no de apoio ao setor lei­tei­ro, com 19 itens que estão sen­do tra­ba­lha­dos na Câma­ra Seto­ri­al do Lei­te e nas ações do gover­no fede­ral, em espe­ci­al na Agri­cul­tu­ra. Rees­ta­be­le­ci tam­bém a Sub­co­mis­são do Lei­te, que tem como pre­si­den­te o depu­ta­do Alceu Morei­ra e, como rela­tor, o depu­ta­do Domin­gos Sávio. Ali se dis­cu­tem pau­tas e pro­je­tos do lei­te, além de ini­ci­a­ti­vas para o setor. Cri­ei a Cara­va­na do Lei­te, com o obje­ti­vo de conhe­cer a rea­li­da­de dos Esta­dos, tra­zen­do as boas vivên­ci­as, os exem­plos, o que está dan­do cer­to nas pro­pri­e­da­des des­ses Esta­dos em rela­ção à qua­li­fi­ca­ção do lei­te, à pre­ci­fi­ca­ção, à redu­ção de cus­to e ao apri­mo­ra­men­to gené­ti­co, e que gera­rá um pro­je­to sobre polí­ti­cas na cadeia lei­tei­ra. Sou vice-pre­si­den­te da Fren­te Par­la­men­tar do Lei­te, faço par­te da dire­to­ria da Fren­te Par­la­men­tar da Agro­pe­cuá­ria, onde levo sem­pre as pau­tas do setor para serem dis­cu­ti­das. Além dis­so, tenho reu­niões com o Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, a Conab e a Embra­pa para dis­cu­tir o tema, pro­cu­ro levar, por meio de pales­tras e fóruns, esses conhe­ci­men­tos para os pro­du­to­res dos qua­tro can­tos do País.

BB – Em sua visão, quais os principais gargalos que prejudicam a classe produtora, sobretudo os pequenos e médios produtores? 

AS - Tenho obser­va­do em todas as visi­tas e reu­niões com o setor que um dos prin­ci­pais pro­ble­mas é o cus­to de pro­du­ção, que aumen­tou devi­do à pan­de­mia. A ali­men­ta­ção dos ani­mais está mui­to cara. Por essa razão, os pro­du­to­res pre­ci­sam se rein­ven­tar, cri­an­do outros tipos de com­ple­men­ta­ção na ali­men­ta­ção do gado, que não afe­te tan­to no cus­to do lei­te. Outra situ­a­ção é a pre­vi­si­bi­li­da­de, pois é o úni­co setor que tra­ba­lha 30 dias para depois rece­ber, sem saber quan­to vai ganhar. Essa pau­ta tem sido imen­sa­men­te dis­cu­ti­da entre os pro­du­to­res, lati­cí­ni­os, ins­ti­tui­ções, Con­se­lei­tes, ten­tan­do encon­trar soluções.

BB – Além dessas questões de mercado, digamos, o que você vê como “gargalo” na atividade dentro da porteira? 

AS - Obser­va­mos que o acom­pa­nha­men­to téc­ni­co não exis­te em mui­tas pro­pri­e­da­des. A fal­ta de ges­tão pre­ju­di­ca os pro­du­to­res, pois não sabem qual o cus­to e o lucro da pro­pri­e­da­de, che­gan­do a situ­a­ções em que o valor do cus­to é mai­or do que o valor de ven­da. É neces­sá­ria a qua­li­fi­ca­ção dos pro­du­to­res, para que eles sejam empre­sá­ri­os do lei­te, supe­ran­do os desa­fi­os e melho­ran­do a ren­da e a qua­li­da­de de vida. Outro fator que mere­ce mui­ta aten­ção é a neces­si­da­de de melho­ra­men­to gené­ti­co, pois, quan­do se tem um gado ruim, a pro­du­ção é mui­to bai­xa, fazen­do com que não se tenha lucro, afi­nal, o lei­te se tor­na ren­tá­vel devi­do à sua quantidade.

BB – O que vê como estratégias para os produtores superarem tais problemas? 

AS - Mui­tas pro­pri­e­da­des têm a chan­ce de ver­ti­ca­li­zar a pro­du­ção, pro­du­zin­do quei­jos, requei­jão, doce de lei­te, entre outros, que pos­si­bi­li­tam mai­or ren­ta­bi­li­da­de. Mas, para que isso acon­te­ça, as coo­pe­ra­ti­vas e o Senar pre­ci­sam dar mais apoio. Em alguns Esta­dos, o gar­ga­lo é a água, prin­ci­pal­men­te no Nor­des­te. Antes de pro­du­zir lei­te, o gado neces­si­ta pas­tar, se ali­men­tar, e tudo isso depen­de da água. Sem água, sem lei­te. Em outros Esta­dos, o coo­pe­ra­ti­vis­mo ain­da é deses­tru­tu­ra­do ou ine­xis­ten­te, sen­do impor­tan­te um tra­ba­lho for­te, pois as coo­pe­ra­ti­vas pro­por­ci­o­nam um aten­di­men­to qua­li­fi­ca­do, redu­zem o cus­to de pro­du­ção com a com­pra de mui­tos pro­du­tos cole­ti­vos, ofe­re­ce assis­tên­cia téc­ni­ca e auxi­lia em ques­tões gené­ti­cas. Por isso, vemos o coo­pe­ra­ti­vis­mo como uma gran­de aju­da para os peque­nos e médi­os pro­du­to­res. Outro pro­ble­ma é o endi­vi­da­men­to. Vemos mui­tos pro­du­to­res com pen­dên­ci­as, pois par­te deles per­deu tudo na seca, che­gan­do a ven­der suas pró­pri­as vacas para pagar as dívi­das. Temos que fazer um tra­ba­lho for­te com o Minis­té­rio da Eco­no­mia e com o Ban­co Cen­tral para encon­trar solu­ções de redu­ção de juros, aumen­to de pra­zo ou até mes­mo uma linha de refi­nan­ci­a­men­to especial.

BB – O que você destacaria em relação aos trabalhos da Comissão que preside, sobretudo em relação ao segmento leiteiro? 

AS - Como pre­si­den­te da Comis­são de Agri­cul­tu­ra, reins­ta­lei a Sub­co­mis­são do Lei­te e fir­mei o com­pro­mis­so de que a ati­vi­da­de lei­tei­ra se desen­vol­va com inde­pen­dên­cia, aten­den­do às nor­mas de con­tro­le sani­tá­rio, inves­tin­do em tec­no­lo­gia, melho­ra­men­to gené­ti­co dos reba­nhos e na pro­fis­si­o­na­li­za­ção de pro­pri­e­da­des, geran­do empre­go e ren­da com sus­ten­ta­bi­li­da­de. A comis­são ficou para­da em 2020 por cau­sa da pan­de­mia e, com isso, vári­os pro­je­tos se acu­mu­la­ram, mas hoje já vota­mos 172 deles e ain­da temos mais 125 pro­je­tos a serem apre­ci­a­dos. Na comis­são pode­mos dis­cu­tir vári­os temas do setor, apro­var legis­la­ções que des­bu­ro­cra­ti­zam e agi­li­zam os pro­ces­sos, faci­li­tan­do as coi­sas para o setor pro­du­ti­vo. Rea­li­za­mos 88 audi­ên­ci­as públi­cas sobre os prin­ci­pais temas: bioin­su­mos, atu­a­ção do sis­te­ma naci­o­nal de fomen­to ao agro­ne­gó­cio, fal­ta de defen­si­vos agrí­co­las para a pró­xi­ma safra, impac­tos das gea­das na agri­cul­tu­ra e pecuá­ria lei­tei­ra e agri­cul­tu­ra fami­li­ar e pro­du­ção orgâ­ni­ca de ali­men­tos. Cri­ei a Cara­va­na do Lei­te, que faz par­te da Comis­são de Agri­cul­tu­ra e da Sub­co­mis­são do Lei­te, con­se­gui­mos uma vaga na Câma­ra Seto­ri­al do Lei­te, em que um depu­ta­do par­ti­ci­pa ati­va­men­te do pro­ces­so e pode obser­var as ações do gover­no para esse setor, levan­do suges­tões e veri­fi­can­do as pau­tas que podem ser agi­li­za­das na Câma­ra dos Depu­ta­dos. Vota­mos tam­bém, para o setor lei­tei­ro, os pro­je­tos PDL 597/2019 e 598/2019 – que sus­ta a IN 77, que defi­ne cri­té­ri­os para a pro­du­ção, acon­di­ci­o­na­men­to, con­ser­va­ção, trans­por­te, sele­ção e recep­ção do lei­te cru. Jus­ti­fi­cam o pro­je­to as coo­pe­ra­ti­vas de lati­cí­ni­os que não con­se­gui­ram se adap­tar às regras fixa­das pelo gover­no; PL 6.388/2019 – que con­ce­de des­con­to de 30% nas tari­fas de ener­gia elé­tri­ca rela­ti­vas ao con­su­mo para pro­du­ção, arma­ze­na­gem e bene­fi­ci­a­men­to de lei­te in natu­ra por pro­du­to­res rurais e coo­pe­ra­ti­vas; PL 5925/2019 – que reduz a zero as alí­quo­tas da con­tri­bui­ção para o Pis/Pasep e da Cofins inci­den­tes sobre rações e suple­men­tos para ali­men­ta­ção bovi­na, entre vári­os outros que bene­fi­ci­am o pro­du­tor de leite.

BB – E quanto à precificação da matéria-prima? Já tem alguma proposta? Em sua visão, qual deve ser o caminho para alcançar essa meta? 

AS - Alguns gos­ta­ri­am que o pre­ço do lei­te ao pro­du­tor fos­se tabe­la­do pelo gover­no. Mas a expe­ri­ên­cia bra­si­lei­ra de tabe­la­men­to por 45 anos mos­trou que hou­ve trans­fe­rên­cia de ren­da do pro­du­tor para o con­su­mi­dor. O tabe­la­men­to não resol­veu o pro­ble­ma, por­tan­to, não é solu­ção. O pre­ço tabe­la­do sem­pre subiu menos que a infla­ção e deses­ti­mu­lou a moder­ni­za­ção do setor. Para pro­ble­mas com­ple­xos, não há solu­ções sim­ples. Temos de com­ba­ter a vola­ti­li­da­de dos pre­ços. Para isso, pre­ci­sa­mos cres­cer e nos tor­nar­mos expor­ta­do­res. Fiquei feliz com as expor­ta­ções da CCGL recen­te­men­te e come­mo­rei o coro­a­men­to do esfor­ço fei­to pelos pro­du­to­res, com o apoio da Apex e da minis­tra Tere­za Cris­ti­na e equi­pe. Isso tra­rá ren­da e apren­di­za­do. E pode­mos cri­ar con­di­ções para colo­car o exce­den­te no mun­do, sem­pre que ocor­rer. Tam­bém acre­di­to que os con­fli­tos entre pro­du­tor e indús­tria ten­de­rão a se redu­zir, tor­nan­do o setor mais pre­vi­sí­vel, o que é óti­mo para esti­mu­lar seu cres­ci­men­to. Tam­bém visu­a­li­zo que a con­tra­tu­a­li­za­ção tem aju­da­do a man­ter os pre­ços, dan­do esta­bi­li­da­de ao setor.

É pre­ci­so um tra­ba­lho for­te quan­to ao coo­pe­ra­ti­vis­mo jun­to aos pro­du­to­res, pois a coo­pe­ra­ti­va pro­por­ci­o­na um aten­di­men­to qua­li­fi­ca­do, reduz o cus­to da com­pra de mui­tos pro­du­tos cole­ti­vos, ofe­re­ce assis­tên­cia téc­ni­ca e auxi­lia em ques­tões genéticas”

BB – E quanto ao Plano de Incentivo à Cadeia do Leite? Explique, resumidamente, o que é e como funcionará. 

AS - O papel da Comis­são de Agri­cul­tu­ra, Pecuá­ria, Abas­te­ci­men­to e Desen­vol­vi­men­to Rural é iden­ti­fi­car pro­ble­mas e pro­por medi­das para os órgãos do Exe­cu­ti­vo, para todos os assun­tos que digam res­pei­to ao agro. Sim, esta­mos dan­do uma aten­ção espe­ci­al ao setor lei­tei­ro e há moti­vos de sobra para isso. Essa cadeia pro­du­ti­va é a mais impor­tan­te para a inte­ri­o­ri­za­ção da gera­ção de empre­go, ren­da e manu­ten­ção do povo no cam­po. A pro­du­ção de lei­te não ape­nas está pre­sen­te em pra­ti­ca­men­te todo o ter­ri­tó­rio bra­si­lei­ro, como é uma das três prin­ci­pais ati­vi­da­des econô­mi­cas, den­tre todas, em mais de 80% dos muni­cí­pi­os bra­si­lei­ros, prin­ci­pal­men­te os meno­res. Além dis­so, vai gerar este ano mais de R$ 120 bilhões de ren­da, da fazen­da até no por­tão do lati­cí­nio, com milhões de pes­so­as se bene­fi­ci­an­do. Já o Pro­gra­ma Naci­o­nal de Apoio à Pecuá­ria Lei­tei­ra tem o seguin­te obje­ti­vo: fomen­tar a pecuá­ria lei­tei­ra no Bra­sil, visan­do garan­tir autos­su­fi­ci­ên­cia sus­ten­tá­vel na pro­du­ção de lei­te e deri­va­dos. E ao mes­mo tem­po asse­gu­rar aos pro­du­to­res de lei­te uma remu­ne­ra­ção jus­ta e segu­ra de seu tra­ba­lho, por meio de uma polí­ti­ca públi­ca com pla­ne­ja­men­to e ações con­cre­tas que esti­mu­lem a pro­du­ção lei­tei­ra de qua­li­da­de, garan­tin­do tam­bém ao con­su­mi­dor bra­si­lei­ro o aces­so a pro­du­tos lác­te­os naci­o­nais de exce­len­te qua­li­da­de a pre­ços jus­tos. Em resu­mo, as dire­tri­zes e con­di­ções bási­cas para ela­bo­ra­ção e implan­ta­ção des­se Pro­gra­ma são: I – Pre­ço jus­to; II – Pre­vi­si­bi­li­da­de; III – Incen­ti­vo para a cri­a­ção em todos os Esta­dos de asso­ci­a­ções civis (Con­se­lei­te); IV – Ampli­ar a atu­a­ção de uma área den­tro do Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra; V – Saú­de ani­mal; VI – Con­tra­tu­a­li­za­ção; VII – Pro­gra­mas soci­ais; VIII – Estí­mu­lo ao con­su­mo; IX – Deba­ter a res­pei­to da uti­li­za­ção inde­vi­da da pala­vra lei­te; X – Car­ga tri­bu­tá­ria; XI – Com­ba­te à con­cor­rên­cia pre­da­tó­ria; XII – Incen­ti­vo à expor­ta­ção; XIII – Melho­ria da qua­li­da­de; XIV – Esto­que regu­la­dor; XV – Exten­são; XVI – Cré­di­to; XVII – Infra­es­tru­tu­ra; XVI­II – Ele­tri­fi­ca­ção; XIX – Atu­a­li­za­ção do Guia Ali­men­tar para a Popu­la­ção Bra­si­lei­ra. Para tan­to, vamos bus­car esta­be­le­cer acor­dos e par­ce­ri­as com enti­da­des públi­cas e pri­va­das; con­si­de­rar as rei­vin­di­ca­ções e suges­tões do setor lei­tei­ro e dos con­su­mi­do­res; apoi­ar o comér­cio inter­no e exter­no da cadeia lei­tei­ra, além de pos­si­bi­li­tar a pre­vi­si­bi­li­da­de do pre­ço; esti­mu­lar inves­ti­men­tos pro­du­ti­vos dire­ci­o­na­dos ao aten­di­men­to das deman­das do mer­ca­do; fomen­tar a pes­qui­sa e o desen­vol­vi­men­to de vari­e­da­des supe­ri­o­res do lei­te e deri­va­dos, e, prin­ci­pal­men­te, incen­ti­var e apoi­ar a orga­ni­za­ção dos pro­du­to­res de lei­te e derivados.

BB – Sintetize o que é quais são os objetivos da Caravana do Leite. Que resultados práticos você pretende extrair dessa experiência em prol do setor leiteiro? 

AS - A Cara­va­na do Lei­te é uma ini­ci­a­ti­va pio­nei­ra da comis­são e da sua Sub­co­mis­são do Lei­te, com o pro­pó­si­to de conhe­cer, jun­to com os ato­res de cada local, os gar­ga­los e os desa­fi­os de quem pro­duz. Mas, tam­bém, as expe­ri­ên­ci­as bem-suce­di­das, que podem ser dis­se­mi­na­das para outras regiões do Bra­sil. Tudo isso vai sub­si­di­ar a pro­po­si­ção de polí­ti­cas públi­cas que vamos fazer para o setor lei­tei­ro. Tenho como lema de vida sem­pre se colo­car no lugar do outro, indo até o local para conhe­cer a rea­li­da­de, con­ver­sar com as pes­so­as, sejam os pro­du­to­res, os téc­ni­cos, os pes­qui­sa­do­res, os diri­gen­tes das coo­pe­ra­ti­vas, sejam os líde­res das ins­ti­tui­ções, para que pos­sa­mos encon­trar solu­ções rea­lis­tas para os desa­fi­os do setor. Temos desa­fi­os de infra­es­tru­tu­ra, como água, ener­gia, conec­ti­vi­da­de e estra­das vici­nais. Temos o desa­fio da suces­são fami­li­ar e o de via­bi­li­zar aces­so a novas tec­no­lo­gi­as, gené­ti­ca e assis­tên­cia téc­ni­ca que estão sur­gin­do. Mas temos solu­ções cri­a­ti­vas, bara­tas e efi­ci­en­tes sur­gin­do e que pre­ci­sam ser incor­po­ra­das pelas ações de gover­no e instituições.

BB – Que lições foram tiradas de cada local visitado? Destaque as principais. 

AS - Come­ça­mos em Minas Gerais, pela Embra­pa Gado de Lei­te. Lá, vimos solu­ções pron­tas, em ter­mos de melho­ra­men­to gené­ti­co ani­mal e de for­ra­gei­ras, saú­de ani­mal, repro­du­ção e ges­tão da pro­pri­e­da­de. E tam­bém vol­ta­das para as star­tups. No Rio Gran­de do Sul, vimos a expe­ri­ên­cia do com­par­ti­lha­men­to, os con­do­mí­ni­os, onde pro­du­to­res divi­dem as eta­pas da pro­du­ção. Vimos o uso de robôs e tam­bém a expe­ri­ên­cia das coo­pe­ra­ti­vas em levar tec­no­lo­gia às pro­pri­e­da­des, visan­do redu­zir cus­tos e melho­rar a qua­li­da­de do lei­te. Em São Pau­lo, conhe­ce­mos os resul­ta­dos do sis­te­ma de inte­gra­ção lavou­ra-pecuá­ria-flo­res­ta, a pro­du­ção de lei­te orgâ­ni­co, o lei­te car­bo­no neu­tro e os quei­jos arte­sa­nais de alto valor agre­ga­do. No Para­ná, conhe­ce­mos pro­du­to­res jovens, que deci­di­ram entrar no lei­te e são alta­men­te efi­ci­en­tes, além de pro­du­to­res de quei­jo arte­sa­nal, gado de gené­ti­ca apu­ra­da, alto ren­di­men­to, o Cen­tro de Trei­na­men­to para Pecu­a­ris­tas (CTP) e vári­os mode­los de orde­nha. Já no Rio Gran­de do Nor­te, fomos conhe­cer a rea­li­da­de de quem vive no semiá­ri­do. Ficou evi­den­te que pre­ci­sam de uma polí­ti­ca dife­ren­ci­a­da. Mas tam­bém vimos que o uso de tec­no­lo­gia tor­na ren­tá­vel pro­du­zir lei­te naque­le bio­ma. Com desa­fi­os mai­o­res pela fal­ta de água e alta tem­pe­ra­tu­ra, mas com dedi­ca­ção, apoio téc­ni­co e tec­no­lo­gia é possível.

BB – O que fazer para reduzir a saída de produtores do setor? 

AS - Exis­tem pro­du­to­res que estão sain­do por von­ta­de pró­pria e outros por fal­ta de suces­sor, uma vez que os filhos deci­di­ram se dedi­car a outras ati­vi­da­des. Isso acon­te­ce em todos os seto­res e, nes­ses casos, não há o que fazer. Mas exis­tem os pro­du­to­res que que­rem e pre­ci­sam con­ti­nu­ar e não estão con­se­guin­do, por pro­ble­mas de ren­ta­bi­li­da­de. Para estes, é pre­ci­so cri­ar estí­mu­los para que aumen­tem a pro­du­ti­vi­da­de rapi­da­men­te, melho­ran­do a ges­tão do pro­du­tor sobre a pro­pri­e­da­de. Não há outro cami­nho. Para isso, é fun­da­men­tal levar conhe­ci­men­to por meio de assis­tên­cia téc­ni­ca pre­sen­ci­al e trei­na­men­to à dis­tân­cia. Esse esfor­ço tem de ser inte­gra­do, com a par­ti­ci­pa­ção de coo­pe­ra­ti­vas, lati­cí­ni­os, órgãos de assis­tên­cia téc­ni­ca públi­ca e pri­va­da, bem como cri­an­do opor­tu­ni­da­de para os jovens, como conec­ti­vi­da­de e aces­so aos estu­dos, às uni­ver­si­da­des, lazer, para faci­li­tar a vida e incen­ti­var a con­ti­nui­da­de do jovem no campo.

BB – Como você vê o consumo de produtos de origem vegetal que imitam leite e derivados? 

AS - Essa ten­dên­cia vem cres­cen­do na Euro­pa e nos Esta­dos Uni­dos. A mai­o­ria são con­su­mi­do­res jovens que acre­di­tam que a pro­du­ção de lei­te cria pro­ble­mas ambi­en­tais e sacri­fi­ca os ani­mais. Outros, por acre­di­tar que são pro­du­tos mais sau­dá­veis. Pre­ci­sa­mos agir no sen­ti­do de mos­trar ao con­su­mi­dor os cui­da­dos que os pro­du­to­res têm com os ani­mais e mos­trar que o impac­to ambi­en­tal ao se pro­du­zir lei­te nos tró­pi­cos é menor do que as esta­tís­ti­cas divul­ga­das e gera­das nos paí­ses de cli­ma tem­pe­ra­do. Tam­bém é pre­ci­so mos­trar que esses pro­du­tos que imi­tam o lei­te são ultra­pro­ces­sa­dos e usam sabo­res arti­fi­ci­ais. Pro­du­tos arti­fi­ci­ais, por­tan­to, não são sau­dá­veis como o lei­te e não podem ser vis­tos como seus subs­ti­tu­tos. Temos vis­to ver­da­dei­ros absur­dos, pro­du­tos que se dizem “tipo man­tei­ga”, mas são fei­tos à base de pal­ma. Pro­du­tos à base de soja, que são apre­sen­ta­dos como requei­jão. Se não bas­tas­se, requei­jão com sabor pro­vo­lo­ne, gor­gon­zo­la e ched­dar. Isso é um absur­do! Por isso, temos nos esfor­ça­do para apro­var o pro­je­to de lei da minis­tra Tere­za Cris­ti­na, apre­sen­ta­do ain­da quan­do ela era depu­ta­da fede­ral, que cor­ri­ge tais aber­ra­ções, ao proi­bir o uso da pala­vra “lei­te” na emba­la­gem des­ses pro­du­tos que são tudo, menos leite.

BB – Como a pressão por bem-estar animal tem afetado o setor? 

AS - O mun­do mudou e o con­su­mi­dor exi­gen­te é a refe­rên­cia. Quem com­pra um pro­du­to quer saber quem pro­du­ziu, como foi pro­du­zi­do, se é sau­dá­vel, que impac­to pro­du­ziu no meio ambi­en­te. No caso dos pro­du­tos lác­te­os não é dife­ren­te. É evi­den­te que o stress, de qual­quer ori­gem, reduz a pro­du­ção de lei­te. Man­ter tem­pe­ra­tu­ras agra­dá­veis no ambi­en­te de pro­du­ção, ofe­re­cer ali­men­ta­ção de qua­li­da­de, ado­tar apli­ca­ti­vos gera­dos pelas star­tups, que per­mi­tem geren­ci­ar o com­por­ta­men­to ani­mal, tudo isso está em con­so­nân­cia com a pro­du­ção de lei­te sau­dá­vel, além de aumen­tar a pro­du­ti­vi­da­de. Então, a pres­são por bem-estar ani­mal tem agi­do como estí­mu­lo à moder­ni­za­ção. O pro­ble­ma é que tudo isso requer inves­ti­men­to ini­ci­al, o que tem sido uma bar­rei­ra para alguns pro­du­to­res evo­luí­rem. Os pro­du­to­res têm se dedi­ca­do todos os dias para melho­rar a qua­li­da­de de vida dos ani­mais e, com isso, mai­or pro­du­ti­vi­da­de, qua­li­da­de e satis­fa­ção do consumidor.

BB – Você acredita que a tecnologia vai aumentar o fosso entre pequenos e grandes produtores? 

AS - Exis­te uma pres­são anti­ga sobre os pro­du­to­res para que haja um aumen­to con­tí­nuo de pro­du­ção. Além dis­so, exis­tem novas exi­gên­ci­as do con­su­mi­dor rela­ci­o­na­das à qua­li­da­de do lei­te. Uma tec­no­lo­gia só deve ser ado­ta­da pelo pro­du­tor quan­do reduz cus­tos de pro­du­ção e melho­ra a qua­li­da­de do pro­du­to. Pelas minhas cami­nha­das, tenho vis­to gran­des e peque­nos pro­du­to­res com mui­ta tec­no­lo­gia e tam­bém gran­des e peque­nos com pou­ca. Então, a tec­no­lo­gia não é exclu­si­vi­da­de dos gran­des pro­du­to­res. Tenho vis­to pro­du­to­res peque­nos cres­cen­do a pro­du­ção por ado­ta­rem melho­ra­men­to gené­ti­co, melho­ra­men­to nutri­ci­o­nal com o uso do capi­a­çu na ali­men­ta­ção dos ani­mais, apli­ca­ti­vos de ges­tão e solu­ção de star­tups. Creio que o fos­so está aumen­tan­do entre aque­les que estão foca­dos no lei­te como negó­cio e os que não estão. Mas, reco­nhe­ço, exis­tem pro­du­to­res peque­nos que não pos­su­em recur­sos para inves­tir em tec­no­lo­gi­as e pre­ci­sam de polí­ti­cas públi­cas que os apoi­em, pois pode­mos ter um gran­de pro­du­tor em uma peque­na propriedade.

BB – Como levar os produtores a aderir ao leite carbono neutro?

AS - O lati­cí­nio tem um papel fun­da­men­tal, pois com­pe­te a ele esta­be­le­cer polí­ti­cas de estí­mu­lo à ado­ção de prá­ti­cas que levem à pro­du­ção de lei­te car­bo­no neu­tro. Já ao Esta­do com­pe­te cri­ar con­di­ções favo­rá­veis, geran­do novas tec­no­lo­gi­as, trei­nan­do téc­ni­cos e pro­du­to­res, escla­re­cen­do as empre­sas e cri­an­do mar­cos regu­la­tó­ri­os, como regras de cer­ti­fi­ca­ção de pro­du­tos, que per­mi­tam ao con­su­mi­dor ter a segu­ran­ça que está con­su­min­do um pro­du­to que tem os impac­tos ao meio ambi­en­te miti­ga­dos. Sabe­mos que hoje não temos no mun­do um paco­te tec­no­ló­gi­co que via­bi­li­ze a pro­du­ção de lei­te car­bo­no neu­tro. Mas isso é ques­tão de tem­po. Esta­mos cri­an­do tec­no­lo­gia genuí­na, bra­si­lei­ra. Tam­bém tere­mos a entra­da de recur­sos nas pro­pri­e­da­des de lei­te, por meio do mer­ca­do de cré­di­to de car­bo­no, legis­la­ção que está tra­mi­tan­do na Câma­ra e que foi foco na COP-26. Os prin­ci­pais paí­ses do mun­do não têm mui­tas opções para neu­tra­li­zar a emis­são de gases do efei­to estu­fa e, ao mes­mo tem­po, con­ti­nu­ar com PIB ele­va­do. Mas os pro­du­to­res bra­si­lei­ros podem, sim, con­ci­li­ar esses dois inte­res­ses, aumen­tan­do a pro­du­ti­vi­da­de do reba­nho, fazen­do agri­cul­tu­ra rege­ne­ra­ti­va, pro­du­zin­do ener­gia lim­pa em suas pro­pri­e­da­des. O pro­du­tor bra­si­lei­ro pro­va­rá ao mun­do que nun­ca foi o vilão, tão pro­pa­ga­do em mui­tos mei­os de comu­ni­ca­ção inter­no e exter­no, mas são os heróis no com­ba­te à emis­são de gases do efei­to estu­fa e na segu­ran­ça ali­men­tar do mundo.