ESPECIAL: BALDE BRANCO 56 ANOS - Digital Balde Branco
Produtor José Ricardo Pereira Morais discute dados com técnico da Cati/prefeitura

ESPECIAL

Balde Branco — 56 anos

Boas práticas direto do campo, obrigado técnicos! 

Parceria com técnicos de campo traz orientações e informações abalizadas para os leitores

João Antônio dos Santos

Nes­te mês de outu­bro, a revis­ta Bal­de Bran­co com­ple­ta 56 anos de ati­vi­da­de inin­ter­rup­ta, levan­do as melho­res prá­ti­cas da pecuá­ria lei­tei­ra aos pro­du­to­res e a todos os envol­vi­dos na cadeia pro­du­ti­va do lei­te. E, nes­sa tra­je­tó­ria, a Bal­de sem­pre con­tou com a par­ce­ria de espe­ci­a­lis­tas, pro­fes­so­res e téc­ni­cos das mais dife­ren­tes áre­as de conhe­ci­men­to do seg­men­to do lei­te, liga­dos a ins­ti­tui­ções e cen­tros de pes­qui­sas, uni­ver­si­da­des, empre­sas pri­va­das, coo­pe­ra­ti­vas, entre outros.

A todos esses pro­fis­si­o­nais que têm esta­do nas pági­nas da Bal­de Bran­co, com a vali­o­sís­si­ma mis­são de levar seus conhe­ci­men­tos e tec­no­lo­gi­as ao homem do cam­po, a gra­ti­dão da equi­pe da revis­ta. E, por exten­são, toma­mos a liber­da­de fazer esse agra­de­ci­men­to tam­bém em nome de nos­sos milha­res de lei­to­res, que, com cer­te­za, con­cor­dam.

Nes­ta edi­ção, como que uma home­na­gem em come­mo­ra­ção de seus 56 anos, a revis­ta des­ta­ca uma des­sas par­ce­ri­as que sem­pre têm esta­do conos­co, cola­bo­ran­do na gera­ção de con­teú­do téc­ni­co e infor­ma­ti­vo: os Téc­ni­cos a Cam­po – zoo­tec­nis­tas, médi­cos vete­ri­ná­ri­os, téc­ni­cos agrí­co­las e agrô­no­mos –, que pres­tam assis­tên­cia técnica/consultoria aos pro­du­to­res.

Liga­dos aos mais diver­sos pro­gra­mas de assis­tên­cia téc­ni­ca e ges­tão, pro­por­ci­o­na­dos por enti­da­des ofi­ci­ais, coo­pe­ra­ti­vas, indús­tri­as lác­te­as e empre­sas for­ne­ce­do­ras de insu­mos, são eles que, no dia a dia das pro­pri­e­da­des lei­tei­ras, estão ao lado dos pro­du­to­res, ori­en­tan­do sobre as boas prá­ti­cas de pro­du­ção (BPP) na pecuá­ria lei­tei­ra, de modo a ele­var a ati­vi­da­de a um pata­mar tec­no­ló­gi­co cada vez mais alto em ter­mos de ges­tão, pro­du­ti­vi­da­de, sani­da­de do reba­nho, qua­li­da­de do lei­te e, na pon­ta final, melho­ria da ren­ta­bi­li­da­de.

Per­de­mos a con­ta do núme­ro des­ses abne­ga­dos pro­fis­si­o­nais pre­sen­tes em nos­sas repor­ta­gens, entre­vis­tas, arti­gos téc­ni­cos, com­par­ti­lhan­do suas expe­ri­ên­ci­as e conhe­ci­men­tos sobre a pecuá­ria lei­tei­ra. Dadas as limi­ta­ções de espa­ço, trou­xe­mos cin­co arti­gos de téc­ni­cos que fazem refle­xões sobre alguns temas fun­da­men­tais (den­tre os mui­tos) para a ati­vi­da­de lei­tei­ra. Acre­di­ta­mos que esses cin­co pro­fis­si­o­nais são repre­sen­ta­ti­vos do vali­o­so tra­ba­lho des­sa cate­go­ria, sem a qual o setor não teria che­ga­do à gran­de­za que osten­ta hoje e que tem tudo para ser mai­or ainda.

Os sonhos abrem as porteiras 

A maioria dos consultores pensa em fazer o que é melhor para a vaca ou fazer o que dá mais dinheiro; poucos pensam em fazer o que é melhor para a pessoa do produtor de leite

“Definir um sonho
é abrir uma janela
para uma vitória”

Ronaldo Carvalho,
médico veterinário e diretor da Cia do Leite

Em nos­sa roti­na de con­sul­to­ria, somos desa­fi­a­dos dia­ri­a­men­te a apre­sen­tar uma com­pro­va­ção mate­má­ti­ca para raci­o­na­li­zar uma toma­da de deci­são. Cha­ma­mos isso tra­di­ci­o­nal­men­te de rela­ção custo/benefício. Se o pro­je­to retor­na, em um tem­po atra­ti­vo, mais dinhei­ro do que foi apli­ca­do, para o téc­ni­co não res­ta dúvi­da: deve ser imple­men­ta­do, seja esse pro­je­to um gran­de inves­ti­men­to (com­post barn), seja uma sim­ples téc­ni­ca de pro­du­ção pré-par­to.

No entan­to, é mui­to comum que, depois de exe­cu­tar todos os cál­cu­los e ter a cer­te­za de que está dian­te de uma pro­pos­ta viá­vel, o téc­ni­co se depa­re com a “nega­ti­va” do pro­du­tor. E esse posi­ci­o­na­men­to pode se repe­tir dian­te de vári­as pro­pos­tas apre­sen­ta­das pelo téc­ni­co que assis­te a fazen­da, nas dife­ren­tes áre­as da bovi­no­cul­tu­ra lei­tei­ra. E, por isso, com frequên­cia, ouvi­mos os con­sul­to­res dize­rem que o pro­du­tor de lei­te é mui­to resis­ten­te à mudan­ça. Sen­tin­do-nos desa­fi­a­dos por esse fato, come­ça­mos a estu­dar o porquê des­sa “resis­tên­cia” e se exis­te algo a ser fei­to para que pudés­se­mos trans­por tal bar­rei­ra.

Após mui­to estu­do e com­pa­ra­ção entre pro­du­to­res, obser­va­mos que a razão de um pro­du­tor cres­cer na ati­vi­da­de ou ado­tar deter­mi­na­da pro­pos­ta téc­ni­ca vai além de um resul­ta­do finan­cei­ro. Isso quer dizer que a deci­são é moti­va­da por algo mais que dinhei­ro. O resul­ta­do econô­mi­co é a con­sequên­cia do pro­je­to, mas não é o alvo que os pro­du­to­res que­rem alcan­çar. Isso per­mi­tiu apro­fun­dar a aná­li­se com as seguin­tes ques­tões: mais dinhei­ro pra quê? Se essa téc­ni­ca não traz mais dinhei­ro, ela traz o quê?
Pre­za­dos lei­to­res da minha que­ri­da Bal­de Bran­co, iden­ti­fi­car os “sonhos” do pro­du­tor abre as por­tei­ras da fazen­da para se cons­truí­rem pro­je­tos e estra­té­gi­as que lhe per­mi­tam alcan­çá-los. E, depen­den­do de cada um, são diver­sos os sonhos: tra­zer o filho de vol­ta da cida­de para a fazen­da, qui­tar uma dívi­da que afe­ta as rela­ções fami­li­a­res, com­prar uma casa na cida­de, con­se­guir con­tra­tar uma pes­soa para aju­dá-lo e assim poder ter fol­gas em alguns dias estra­té­gi­cos, tra­ba­lhar menos, melho­rar a apre­sen­ta­ção da fazen­da mini­mi­zan­do o bar­ro e pro­pi­ci­an­do mai­or bem-estar ani­mal, poder ir à praia, refor­mar a casa da fazen­da, casar uma filha e dar uma boa fes­ta, via­bi­li­zar a ati­vi­da­de lei­tei­ra para que ela pos­sa dar vida dig­na a um irmão (sócio) que fora usuá­rio de dro­gas, atin­gir a tão sonha­da pro­du­ção de X litros/dia (esse gos­ta de mais vaca mes­mo)… E até mes­mo aque­les que não têm sonhos, estão bem como estão e, por fim, como últi­mo exem­plo, parar de pro­du­zir lei­te tam­bém é um sonho. Esses e outros são exem­plos de sonhos de pro­du­to­res com quem depa­ra­mos na estra­da da equi­pe Cia do Lei­te.

Pos­so dizer, sem medo de errar, que a mai­o­ria dos con­sul­to­res pen­sa em fazer o que é melhor para a vaca ou fazer o que dá mais dinhei­ro, pou­cos pen­sam em fazer o que é melhor para a pes­soa do pro­du­tor de lei­te. Pode­mos aqui dar exem­plo de ado­ção de pro­pos­tas em uma fazen­da, que depen­den­do da for­ma em que forem dimen­si­o­na­das, não tra­ri­am a melhor res­pos­ta econô­mi­ca, mas resul­ta­ri­am em gran­de rea­li­za­ção pes­so­al para um pro­du­tor. Um exem­plo dis­so seria a ins­ta­la­ção de um com­post barn, de uma orde­nha­dei­ra mais tec­no­ló­gi­ca, a con­tra­ta­ção de um fun­ci­o­ná­rio, entre outras.

Não sou um estu­di­o­so do assun­to “ser huma­no”, mas come­cei a per­ce­ber que, para você con­se­guir aju­dar alguém, essa pes­soa pre­ci­sa encon­trar ou você aju­dá-la a encon­trar uma neces­si­da­de, um sonho ou um pro­ble­ma a ser resol­vi­do. Quem não quer mudar ain­da não reco­nhe­ceu uma des­sas deman­das ou se sen­te, cer­to ou não, capaz de resol­vê-las. E nós, equi­vo­ca­da­men­te, cha­ma­mos isso de resis­tên­cia à mudan­ça.

Des­sa for­ma, gos­ta­ría­mos de dei­xar uma men­sa­gem para os ato­res des­sa cadeia: vamos tra­ba­lhar para aju­dar o pro­du­tor a rea­li­zar os seus sonhos. Defi­nir um sonho é abrir uma jane­la para uma vitó­ria. Pen­san­do assim os pro­je­tos para ampli­a­ção da pro­du­ção e as imple­men­ta­ções de tec­no­lo­gi­as na fazen­da se tor­nam um meio de alcan­çar os sonhos e não o alvo. Tra­ba­lhan­do assim, o pro­du­tor pas­sa a enxer­gar na pro­pos­ta do con­sul­tor uma solu­ção e não um sacri­fí­cio.

Outra con­si­de­ra­ção impor­tan­te é que quan­do o con­sul­tor dimen­si­o­na um pro­je­to para atin­gir esse sonho, ago­ra alvo comum dele e do pro­du­tor, com estra­té­gi­as e velo­ci­da­de com­pa­tí­veis com o pro­du­tor, com a pro­pri­e­da­de e com os recur­sos dis­po­ní­veis (o pro­je­to pre­ci­sa con­tar com um estu­do de flu­xo de cai­xa, isso quer dizer que não adi­an­ta sonhar se o pro­je­to não tiver um flu­xo de des­pe­sas e recei­tas que o tor­ne ope­ra­ci­o­nal­men­te exequí­vel), ele soli­di­fi­ca a par­ce­ria entre eles no lon­go pra­zo. A con­sul­to­ria se tor­na um insu­mo neces­sá­rio para alcan­çar aque­la pro­pos­ta.

Trou­xe essa ques­tão que para alguns pode pare­cer algo filo­só­fi­co, mas que para nós está cada dia mais no lado prá­ti­co. Lem­brem-se con­sul­to­res e pro­du­to­res: come­cem pelo por quê, pois não é só o dinhei­ro que impul­si­o­na as toma­das de decisões!

Juntos, mais fortes 

Associar-se em grupos de produtores não só contribui para comprar insumos em melhores condições, como também para fortalecer a interação entre seus membros

“Sozinhos até podemos ir mais rápido, mas juntos vamos mais longe”

Carlos Augusto Siguinolfi, eng. agrônomo Educampo/Sebrae/Alhambra Gestor Grupo de Compras LDM

A com­ple­xa e desa­fi­a­do­ra cadeia pro­du­ti­va do lei­te vem em uma cres­cen­te e con­tí­nua evo­lu­ção e mudan­ça. Cada vez mais o setor como um todo e, den­tre eles, os pro­du­to­res de lei­te, estão pro­cu­ran­do for­mas para melho­rar a pro­du­ção, os resul­ta­dos téc­ni­cos e econô­mi­cos, visan­do ser mais efi­ci­en­tes e com­pe­ti­ti­vos em um cená­rio em que o ama­do­ris­mo não é mais tole­ra­do. Assim como todo dono de empre­sa deve bus­car um negó­cio ren­tá­vel, o pro­du­tor de lei­te, empre­en­de­dor que é – e essa auto­cons­ci­ên­cia tem final­men­te toma­do cor­po den­tre os pro­du­to­res –, deve bus­car tor­nar sua empre­sa efi­ci­en­te e prin­ci­pal­men­te resi­li­en­te a enfren­tar os desa­fi­os. Nes­se cená­rio, a asso­ci­a­ção de pro­du­to­res, prin­ci­pal­men­te peque­nos e médi­os, tem se mos­tra­do como uma alter­na­ti­va for­ta­le­ce­do­ra e com exce­len­tes resul­ta­dos.

Den­tre as van­ta­gens de par­ti­ci­par de um gru­po real­men­te uni­do de pro­du­to­res, pode-se des­ta­car como uma das prin­ci­pais a com­pra con­jun­ta de insu­mos. Prin­ci­pal­men­te os insu­mos de mai­or impac­to no cus­to de pro­du­ção. Os quais basi­ca­men­te são: os con­cen­tra­dos (fare­lo de soja, pol­pa cítri­ca, milho, caro­ço de algo­dão, entre outros) e as for­ra­gens (adu­bos, semen­tes, defen­si­vos, lonas, etc.). Estes, soma­dos, são a ali­men­ta­ção do reba­nho e podem repre­sen­tar 60% ou mais na recei­ta da ati­vi­da­de, depen­den­do do sis­te­ma de pro­du­ção uti­li­za­do.

Por­tan­to, rea­li­zar mui­to bem as com­pras des­ses insu­mos, uti­li­zan­do o volu­me de com­pras dos pro­du­to­res soma­dos, gera um gran­de poder de bar­ga­nha a ser explo­ra­do, de manei­ra pla­ne­ja­da e pro­fis­si­o­nal duran­te o ano. Tem-se, assim, a expe­ri­ên­cia e a esta­tís­ti­ca como van­ta­gens para bus­car esco­lher o melhor momen­to de com­pras, com efei­to dire­to e expres­si­vo no cus­to de pro­du­ção da ati­vi­da­de. Como cos­tu­ma­mos dizer aqui no Gru­po Lei­te da Man­ti­quei­ra (LDM): “No Gru­po, o peque­no pro­du­tor se tor­na gran­de”. E con­se­gue fazer con­tra­tos, com­prar com melho­res pre­ços de for­ma dire­ta, sem inter­me­diá­ri­os. É cla­ro que outros itens podem ser com­pra­dos em gru­po, porém o mai­or impac­to real­men­te fica na ali­men­ta­ção.

A inte­ra­ção em gru­po tem como outros bene­fí­ci­os a tro­ca de expe­ri­ên­ci­as e a inte­gra­ção entre os pro­du­to­res, por meio de reu­niões perió­di­cas, via­gens téc­ni­cas, pales­tras, dias de cam­po e inú­me­ras ati­vi­da­des que podem ser desen­vol­vi­das com o gru­po no intui­to do cres­ci­men­to do pro­du­tor como empre­sá­rio e con­se­quen­te­men­te do gru­po como enti­da­de.

Além das com­pras, outros aspec­tos de desen­vol­vi­men­to devem ser bus­ca­dos, entre eles a assis­tên­cia téc­ni­ca e a ges­tão das pro­pri­e­da­des. Gerir bem os recur­sos, bus­car ser mais efi­ci­en­te, aumen­tar a esca­la pro­du­ti­va, melho­rar os índi­ces pro­du­ti­vos e econô­mi­cos.

Des­sa for­ma, as com­pras têm efei­to poten­ci­a­li­za­do, pois, além de com­prar bem, esses recur­sos serão uti­li­za­dos de for­ma raci­o­nal den­tro da pro­pri­e­da­de. Assim, entre os três pila­res que refle­tem no resul­ta­do da ati­vi­da­de – pre­ço, cus­to e esca­la –, o pro­du­tor tem a pos­si­bi­li­da­de de atu­ar vigo­ro­sa­men­te em dois: cus­to e esca­la, que são os dois itens que estão no seu cam­po de con­tro­le.

O gran­de desa­fio de se for­mar um gru­po real­men­te uni­do vem, pri­mei­ra­men­te, da incre­du­li­da­de do pró­prio pro­du­tor de que ações como essas geram resul­ta­dos reais e de gerar a cons­ci­ên­cia de que o gru­po só fun­ci­o­na se todos esti­ve­rem jun­tos “nas ale­gri­as e nas tris­te­zas”. É mui­to gra­ti­fi­can­te quan­do escu­ta­mos casos de suces­so de gru­pos em vári­as regiões des­se gran­de Bra­sil pro­du­tor de lei­te.

Porém, ter um gru­po real­men­te uni­do deman­da a ideia de que quan­do as coi­sas derem cer­to esta­mos jun­tos, e quan­do as coi­sas não derem tão cer­to assim, tam­bém esta­mos jun­tos, afi­nal somos um gru­po! Há dois per­fis de pro­du­tor que não se ade­quam ao gru­po: o pro­du­tor que não tem o espí­ri­to de ganha-ganha, e o pro­du­tor com espí­ri­to espe­cu­la­dor. Esses per­fis, geral­men­te, têm difi­cul­da­de em par­ti­ci­par de ações em con­jun­to e não acei­tam per­der de for­ma algu­ma, e a rea­li­da­de, na ver­da­de, nem sem­pre é assim.

Daí ser pre­ci­so enten­der a máxi­ma de que “sozi­nho até pode­mos ir mais rápi­do, mas que jun­tos vamos mais lon­ge”, que está na base da cul­tu­ra de um gru­po com resul­ta­dos. E essa cul­tu­ra de “estar­mos jun­tos” per­pas­sa não ape­nas entre os pro­du­to­res, mas entre todos os atu­an­tes no pro­ces­so, da nego­ci­a­ção, ao ensa­ca­men­to, do fre­te regi­o­nal ao inte­res­ta­du­al, do aten­di­men­to ao cli­en­te a fazen­da.

Na média, os resul­ta­dos são mui­to posi­ti­vos, porém, em algum momen­to, pode haver desa­fi­os a serem solu­ci­o­na­dos. Por exem­plo, fechar algum con­tra­to de com­pra de insu­mo em um dia e, sema­nas depois, esse insu­mo pode bai­xar de pre­ço, devi­do ao mer­ca­do, e o gru­po cons­ta­tar que fechou em pre­ço mais alto. Tam­bém podem ocor­rer em algum momen­to pro­ble­mas com fre­te e entre­gas. Por isso, em qual­quer situ­a­ção adver­sa, o gru­po deve estar uni­do para bus­car a solu­ção. O fato é que, para fechar­mos uma nego­ci­a­ção, não exis­te bola de cris­tal, mas há a expe­ri­ên­cia do pró­prio gru­po ali­a­da às esta­tís­ti­cas de mer­ca­do inter­nas e exter­nas. Paci­ên­cia, per­se­ve­ran­ça e espí­ri­to de união são essen­ci­ais para que um gru­po fique cada vez mais madu­ro e forte.

Volumosos: vilões ou heróis? 

Às vezes, os produtores e técnicos estão focados em reduzir gastos com concentrados, mas se esquecem de que fornecer volumosos de qualidade também é uma estratégia de redução de custos com concentrado

“É fundamental o planejamento de volumosos. Assim como a ‘vaca não dá leite’, mas produz leite conforme as condições que lhe são dadas, as forrageiras produzirão alimento de qualidade e em quantidade, conforme as condições disponíveis”

William Heleno Mariano, consultor da Labor Rural 

Na pecuá­ria lei­tei­ra, um dos gran­des desa­fi­os é a pro­du­ção de volu­mo­sos, vis­to que ao lon­go dos meses do ano há gran­de vari­a­ção na ocor­rên­cia de chu­vas, tem­pe­ra­tu­ra e lumi­no­si­da­de, que influ­en­ci­am dire­ta­men­te no desen­vol­vi­men­to e na qua­li­da­de das for­ra­gei­ras tro­pi­cais. Além da impor­tân­cia téc­ni­ca des­ses ali­men­tos nas die­tas dos reba­nhos lei­tei­ros, quan­do ava­li­a­mos a impor­tân­cia econô­mi­ca per­ce­be­mos que os gas­tos com volu­mo­sos, de for­ma geral, são o segun­do mai­or com­po­nen­te do cus­to de pro­du­ção de lei­te e, por­tan­to, tam­bém devem rece­ber aten­ção espe­ci­al dos pro­du­to­res de lei­te e téc­ni­cos.

Dife­ren­te­men­te dos ali­men­tos con­cen­tra­dos, como o milho e soja, que nor­mal­men­te são adqui­ri­dos de ter­cei­ros e pos­su­em pre­ço dita­do pelo mer­ca­do e são mui­to influ­en­ci­a­dos pela taxa de câm­bio, os ali­men­tos volu­mo­sos, como a sila­gem de milho, na mai­o­ria das vezes são pro­du­zi­dos na fazen­da e estão sob con­tro­le do pro­du­tor. Com isso, mes­mo con­si­de­ran­do os desa­fi­os rela­ti­vos à sazo­na­li­da­de cli­má­ti­ca, o con­tro­le da quan­ti­da­de pro­du­zi­da e a qua­li­da­de des­ses ali­men­tos per­pas­sam pelas mãos do pro­du­tor e do téc­ni­co que o aten­de.

Con­si­de­ran­do esse con­tro­le por par­te do pro­du­tor, um dos pon­tos pri­mor­di­ais se refe­re ao pla­ne­ja­men­to de volu­mo­sos, que mui­tas vezes é negli­gen­ci­a­do den­tro da pro­pri­e­da­de. É fun­da­men­tal que seja rea­li­za­do um bom pla­ne­ja­men­to com base na evo­lu­ção do reba­nho pla­ne­ja­da, de for­ma a garan­tir ali­men­to em quan­ti­da­de e qua­li­da­de para todo o reba­nho, vis­to que a fal­ta de ali­men­tos pode gerar diver­sos com­pro­me­ti­men­tos na pro­du­ção de lei­te, na repro­du­ção, den­tre outros. Além dis­so, uma com­pra emer­gen­ci­al de volu­mo­sos, quan­do dis­po­ní­vel no mer­ca­do, pode ter valo­res bas­tan­te ele­va­dos e qua­li­da­de infe­ri­or, com­pro­me­ten­do dire­ta­men­te os resul­ta­dos da pro­pri­e­da­de. Já parou para pen­sar e cal­cu­lar o impac­to econô­mi­co des­sas ques­tões?

Inde­pen­den­te­men­te do sis­te­ma de pro­du­ção, há pon­tos de aten­ção que às vezes são esque­ci­dos. Por exem­plo, quan­do fala­mos de sis­te­mas de pas­te­jo, é mui­to comum obser­var­mos que os pro­du­to­res não dire­ci­o­nam mui­ta aten­ção aos tra­tos cul­tu­rais bási­cos, como adu­ba­ção, cala­gem, den­tre outros, ou que não se aten­tam à altu­ra de entra­da nos pique­tes. Ou, ain­da, tra­ba­lham com áre­as em super­pas­te­jo ou sub­pas­te­jo, o que tam­bém pre­ju­di­ca a for­ra­gei­ra. Já quan­do fala­mos de pro­pri­e­da­des com reba­nhos em con­fi­na­men­to, mui­tas vezes des­con­si­de­ra­das pelos envol­vi­dos, as per­das decor­ren­tes por falhas ao lon­go pro­ces­so pro­du­ti­vo, sobre­tu­do em rela­ção às sila­gens, podem ter um peso con­si­de­rá­vel no bol­so do pro­du­tor. Para enten­der melhor o impac­to econô­mi­co das per­das, temos um com­pa­ra­ti­vo nes­ta pági­na, fixan­do a pro­du­ti­vi­da­de obti­da e o cus­to por hec­ta­re de sila­gem.

No caso de um per­cen­tu­al de per­das de 30%, com­pa­ran­do com o per­cen­tu­al de 10% de per­das, que é a média nor­mal­men­te obser­va­da, repa­re que o cus­to da tone­la­da da sila­gem seria R$ 31,80 mais caro, com 15 tone­la­das dei­xan­do de ser con­su­mi­das, ou seja, 15 tone­la­das foram, lite­ral­men­te, des­car­ta­das. Com isso, 50 tone­la­das por hec­ta­re foram gas­tas para pro­du­zir, mas ape­nas 35 tone­la­das foram efe­ti­va­men­te con­su­mi­das. Con­si­de­rá­vel, con­cor­da? Des­sa for­ma, é fun­da­men­tal o pro­du­tor ficar aten­to aos pro­ces­sos de ensi­la­gem e for­ne­ci­men­to, evi­tan­do per­das den­tro da fazen­da. É pre­ci­so capri­char no pro­ces­so de ensi­la­gem, de com­pac­ta­ção e de volu­me de reti­ra­da de ali­men­tos do silo, por exem­plo. Além dis­so, falhas nes­ses pro­ces­sos podem com­pro­me­ter a qua­li­da­de da sila­gem, devi­do ao aumen­to da quan­ti­da­de de micror­ga­nis­mos dete­ri­o­ra­do­res que podem, inclu­si­ve, gerar toxi­nas pre­ju­di­ci­ais ao reba­nho. Não adi­an­ta nada capri­char na lavou­ra e per­der dema­si­a­da­men­te no silo e no cocho, não é mes­mo?

Para enten­der melhor os efei­tos econô­mi­cos, com­pa­ra­mos os resul­ta­dos das pro­pri­e­da­des mais ren­tá­veis, clas­si­fi­ca­das como supe­ri­o­res, com as pro­pri­e­da­des menos ren­tá­veis, clas­si­fi­ca­das como infe­ri­o­res, na tabe­la.

Nes­sa com­pa­ra­ção, per­ce­be­mos que os gas­tos das fazen­das infe­ri­o­res são mai­o­res do que os das supe­ri­o­res, geran­do dese­qui­lí­brio dos cus­tos de pro­du­ção. Um pon­to que cha­ma bas­tan­te aten­ção é que, se com­pa­rar­mos as des­pe­sas com volu­mo­sos com as des­pe­sas com con­cen­tra­do, per­ce­be­mos que a dife­ren­ça do cus­to de volu­mo­sos é pro­por­ci­o­nal­men­te mai­or do que a dife­ren­ça do cus­to com con­cen­tra­do. Veja que, por exem­plo, as fazen­das infe­ri­o­res gas­tam 29,02% a mais de con­cen­tra­do por litro de lei­te, mas gas­tam 71,19% a mais com volu­mo­sos.

Ana­li­san­do esses núme­ros, per­ce­be­mos que podem ter ocor­ri­do falhas que pre­ju­di­ca­ram a quan­ti­da­de e a qua­li­da­de dos volu­mo­sos das fazen­das infe­ri­o­res, falhas em pro­ces­sos que pre­ju­di­ca­ram a pro­du­ti­vi­da­de das for­ra­gei­ras, ou ain­da que adqui­ri­ram volu­mo­sos mais caros nes­se perío­do, o que afe­tou seus cus­tos de pro­du­ção e a qua­li­da­de nutri­ci­o­nal do ali­men­to. Per­ce­be­mos tam­bém que a des­pe­sa com volu­mo­sos das fazen­das infe­ri­o­res cor­res­pon­de a um per­cen­tu­al mai­or do cus­to ope­ra­ci­o­nal efe­ti­vo da pro­pri­e­da­de, que são os desem­bol­sos dire­tos ocor­ri­dos, bem como um per­cen­tu­al mai­or da ren­da bru­ta da ati­vi­da­de. Com isso, pode­mos afir­mar, sem medo de errar, que essas pro­pri­e­da­des pre­ci­sam dar mai­or aten­ção aos gas­tos com ali­men­ta­ção da ati­vi­da­de, sobre­tu­do volu­mo­sos.

Isso é o que a Labor Rural faz! Mos­trar, em núme­ros, rela­ci­o­nan­do a par­te téc­ni­ca com a par­te econô­mi­ca, os cami­nhos para ganhar mais dinhei­ro na ati­vi­da­de lei­tei­ra, sen­do mais efi­ci­en­te e de for­ma sus­ten­tá­vel. Às vezes, os pro­du­to­res e téc­ni­cos estão total­men­te foca­dos em redu­zir gas­tos com con­cen­tra­dos, mas se esque­cem de que for­ne­cer volu­mo­sos de qua­li­da­de tam­bém é uma estra­té­gia de redu­ção de cus­tos com con­cen­tra­do, vis­to que a deman­da nutri­ci­o­nal do reba­nho será mais bem aten­di­da por esses ali­men­tos, que em geral são mais baratos.

A busca pela vaca longeva 

Elevada longevidade significa redução na taxa de descarte, menores custos de criação e, acima de tudo, rendimentos mais elevados na vida produtiva 

Walter Miguel Ribeiro, coordenador do Programa Balde Cheio/MG, pela Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de Minas Gerais-Faemg* 

Até o ano de 2050 deve­re­mos dobrar a pro­du­ção de lei­te no mun­do, uti­li­zan­do ape­nas 50% dos recur­sos dis­po­ní­veis. Des­ta for­ma, os gran­des desa­fi­os da huma­ni­da­de esta­rão inti­ma­men­te liga­dos à dis­po­ni­bi­li­da­de e ao uso da água, de ener­gia e da pro­du­ção de pro­teí­na ani­mal. Ou seja, tere­mos que pro­du­zir o dobro com a meta­de dos recur­sos dis­po­ní­veis no pla­ne­ta. A bus­ca do pro­du­tor por vacas fun­ci­o­nais, efi­ci­en­tes, e de fácil mane­jo, a cada dia será mai­or.
Atu­al­men­te, o que se bus­ca são vacas que exi­gem menos aten­ção, que tenham mai­or con­ver­são ali­men­tar, fiquem menos doen­tes, e que sejam mais fér­teis, com uma mai­or pro­du­ção de sóli­dos. Ou seja, vacas que sejam lon­ge­vas, pois lon­ge­vi­da­de é sinô­ni­mo de dinhei­ro.

Lon­ge­vi­da­de é uma medi­da de dura­bi­li­da­de de uma vaca den­tro do sis­te­ma de pro­du­ção de uma fazen­da de lei­te. É base­a­do no perío­do de vida pro­du­ti­va, decor­ren­te entre o pri­mei­ro par­to e o des­car­te do ani­mal. Ele­va­da lon­ge­vi­da­de sig­ni­fi­ca redu­ção na taxa de des­car­te, meno­res cus­tos de cri­a­ção e, aci­ma de tudo, ren­di­men­tos mais ele­va­dos na vida pro­du­ti­va!

A lon­ge­vi­da­de aumen­ta o perío­do de vida pro­du­ti­va das vacas, sen­do uma impor­tan­te carac­te­rís­ti­ca que influ­en­cia no resul­ta­do téc­ni­co e econô­mi­co das pro­pri­e­da­des lei­tei­ras de todo o mun­do. O aumen­to da lon­ge­vi­da­de reduz a taxa de des­car­te, aumen­ta o índi­ce de nata­li­da­de e o sal­do líqui­do de ani­mais. Isso gera exce­den­tes para cres­ci­men­to do reba­nho e, ain­da, para a comer­ci­a­li­za­ção de ani­mais. Além dis­so, aumen­ta-se a pro­du­ção duran­te a vida útil, redu­zin­do os gas­tos com repo­si­ção de matri­zes, medi­ca­men­tos e mão de obra.

Exis­tem vári­os índi­ces de sele­ção gené­ti­ca para bovi­nos de lei­te, porém dois deles se des­ta­cam quan­do o assun­to é lon­ge­vi­da­de atre­la­da a efi­ci­ên­cia, fer­ti­li­da­de e pro­du­ção de sóli­dos. Tais índi­ces de sele­ção que bus­cam inten­sa­men­te ani­mais que sejam supe­ri­o­res em rela­ção à sua popu­la­ção de refe­rên­cia são cha­ma­dos de NVI e MZMI.

NVI é o índi­ce de desem­pe­nho total da Holan­da usa­do para clas­si­fi­car os tou­ros de acor­do com o seu méri­to gené­ti­co econô­mi­co. O ter­mo é deri­va­do da expres­são Neder­lands-Vla­am­se Index, que sig­ni­fi­ca Índi­ce Holan­do-Bel­ga. NVI é a soma das carac­te­rís­ti­cas de Lon­ge­vi­da­de, Pro­du­ção e Saú­de. Ori­en­tan­do-se pelo NVI no seu pro­gra­ma de melho­ra­men­to gené­ti­co, você sele­ci­o­na­rá: melho­ria da pro­du­ção e aumen­to da lon­ge­vi­da­de; meno­res taxas de des­car­te, o que sig­ni­fi­ca menos subs­ti­tui­ções e mai­or sal­do líqui­do de ani­mais e, com isso, uma ren­da mais ele­va­da; vacas mais fér­teis e sau­dá­veis, o que gera um efei­to posi­ti­vo sobre a pro­du­ção e qua­li­da­de do lei­te, aumen­tan­do o ren­di­men­to indus­tri­al e melho­res pro­du­tos lác­te­os para o con­su­mi­dor.

Na Holan­da, a popu­la­ção de vacas da raça Holan­de­sa se encon­tra com média de qua­tro par­tos, onde foi pos­sí­vel encon­trar pelo menos qua­tro vacas com pro­du­ção aci­ma de 200.000 kg de lei­te em toda a sua vida pro­du­ti­va, refor­çan­do na prá­ti­ca a filo­so­fia de sele­ção. Já são mais de 40 mil vacas com ida­de supe­ri­or a 10 anos e 10 mil vacas aci­ma de 15 anos. Dia­ri­a­men­te, em média, sete vacas cru­zam a mar­ca de 100.000 kg de lei­te e este núme­ro aumen­ta a cada ano naque­le país.

Já o Índi­ce de Méri­to da Nova Zelân­dia (NZMI) foi desen­vol­vi­do para per­mi­tir que os pro­du­to­res de lei­te neo­ze­lan­de­ses obte­nham um reba­nho pro­du­ti­vo, ren­tá­vel e lon­ge­vo. A filo­so­fia do NZMI con­cen­tra-se na bus­ca de uma vaca que tenha pró­xi­mo de 450 kg de peso vivo, e que pro­du­za uma média de 450 kg de sóli­dos de lei­te a cada ano e uma vida pro­du­ti­va de pelo menos seis lac­ta­ções.

Ou seja, bus­ca-se uma vaca capaz de trans­for­mar pas­to em gor­du­ra e pro­teí­na e que pro­du­za um ani­mal extre­ma­men­te efi­ci­en­te e adap­ta­do ao sis­te­ma de pro­du­ção inten­si­vo de pas­te­jo. O peso vivo de uma vaca é um impor­tan­te indi­ca­dor para a con­ver­são mais ren­tá­vel de pas­to em lei­te de alto per­cen­tu­al de sóli­dos e con­se­quen­te­men­te em dinhei­ro. Vacas mais pesa­das têm, em média, mai­o­res cus­tos de ali­men­ta­ção para manu­ten­ção, mais difi­cul­da­de de cami­nhar, pro­ble­mas de loco­mo­ção, desor­dens meta­bó­li­cas, per­da de esco­re cor­po­ral, pro­ble­mas repro­du­ti­vos do que vacas mais leves.

Os dois índi­ces cita­dos bus­cam auxi­li­ar os pro­du­to­res de lei­te de todo o mun­do na bus­ca de vacas mais adap­ta­das aos diver­sos sis­te­mas de pro­du­ção, que sejam mais efi­ci­en­tes, sau­dá­veis e de fácil manejo.

*Com a cola­bo­ra­ção de Samu­el Miguel Hy­lario, médi­co veterinário

Vacas secas: importância do conforto térmico 

As fazendas que fazem um trabalho de resfriamento de suas matrizes durante todo o período seco obtêm vários resultados positivos quanto ao desempenho do rebanho

“Animais que no período seco tiveram seu limiar de conforto térmico excedido adoeceram mais”

João Victor Rocha, médico veterinário Grupo Apoiar

Um pro­ble­ma com o qual nos depa­ra­mos com frequên­cia nas fazen­das nas quais tra­ba­lha­mos é a fal­ta de con­for­to tér­mi­co para as vacas no perío­do seco. Mui­tas vezes, nos esfor­ça­mos para garan­tir o máxi­mo de con­for­to para as vacas em lac­ta­ção, mas o con­for­to das vacas secas é negli­gen­ci­a­do, por ser um ani­mal não pro­du­ti­vo.

Esse perío­do seco é de extre­ma impor­tân­cia na pró­xi­ma lac­ta­ção do ani­mal, pois é nes­sa fase que a glân­du­la mamá­ria pas­sa por perío­dos fisi­o­ló­gi­cos de invo­lu­ção e uma pos­te­ri­or evo­lu­ção do parên­qui­ma mamá­rio, que será res­pon­sá­vel pela pro­du­ção do lei­te. Geral­men­te, o perío­do seco dura 60 dias e pode ser divi­di­do em duas cate­go­ri­as: vacas secas (60 a 30 dias do par­to) e vacas no perío­do de tran­si­ção ou pré-par­to (30–21 a 0 dias do par­to).

O que as pes­qui­sas mos­tram e que cons­ta­ta­mos a cam­po é que as fazen­das que fazem um tra­ba­lho de res­fri­a­men­to dos ani­mais duran­te todo o perío­do seco têm vári­os resul­ta­dos posi­ti­vos.

Em uma pes­qui­sa, as vacas foram divi­di­das em dois lotes, duran­te todo o perío­do seco, e alo­ja­das em um mes­mo gal­pão de free stall. Em um des­ses lotes as vacas tinham ven­ti­la­do­res e asper­so­res para aju­dar no con­tro­le de tem­pe­ra­tu­ra, enquan­to no outro lote os ani­mais não tinham nenhum sis­te­ma de res­fri­a­men­to. Após o par­to, essas vacas fica­ram no mes­mo ambi­en­te, rece­ben­do a mes­ma ali­men­ta­ção e os mes­mos mane­jos.

Ao fim da lac­ta­ção des­ses ani­mais, os pes­qui­sa­do­res com­pa­ra­ram as pro­du­ções de lei­te dos dois gru­pos e obser­va­ram que as vacas que pas­sa­ram o perío­do seco em ambi­en­te ter­mi­ca­men­te estres­san­te pro­du­zi­ram 550 litros de lei­te a menos que as vacas res­fri­a­das. Par­te des­sa per­da de pro­du­ção se jus­ti­fi­ca, pois vacas secas que estão pas­san­do por algum nível de estres­se caló­ri­co têm os pro­ces­sos de invo­lu­ção e evo­lu­ção da glân­du­la mamá­ria bas­tan­te afe­ta­dos, refle­tin­do, por­tan­to, em per­das na pró­xi­ma lac­ta­ção.

Mui­to além de per­das na pro­du­ção total de lei­te, os danos de um perío­do seco sob estres­se caló­ri­co podem ser mui­to mai­o­res. A repro­du­ção des­sas na lac­ta­ção sub­se­quen­te foi um índi­ce que sofreu um gran­de impac­to nega­ti­vo devi­do à má con­du­ção dos ani­mais duran­te a fase seca. Mai­or núme­ro de inse­mi­na­ções por pre­nhez e menor taxa de con­cep­ção foram dois índi­ces que mos­tram que o calor exces­si­vo duran­te a fase seca das vacas pode influ­en­ci­ar nega­ti­va­men­te o fun­ci­o­na­men­to repro­du­ti­vo dos ani­mais.

Duran­te a pes­qui­sa, foi obser­va­do que o estres­se tér­mi­co tam­bém dimi­nui a inges­tão de ali­men­tos em vacas secas. Isso resul­ta em um menor apor­te de ener­gia ao sis­te­ma imu­ne, que é bas­tan­te depen­den­te de ener­gia para o seu ade­qua­do fun­ci­o­na­men­to, deixando‑o em pata­ma­res não con­di­zen­tes com os desa­fi­os de uma nova lac­ta­ção. No pós-par­to, doen­ças como mas­ti­te, reten­ção de pla­cen­ta, metri­te, entre outras, reque­rem do ani­mal uma res­pos­ta imu­ne rápi­da e efi­caz. Ani­mais que no perío­do seco tive­ram seu limi­ar de con­for­to tér­mi­co exce­di­do ado­e­ce­ram mais. Os núme­ros de casos de pneu­mo­nia, mas­ti­te e reten­ção de pla­cen­ta foram mai­o­res para aque­le gru­po de vacas secas que não foram res­fri­a­das em com­pa­ra­ção às que foram res­fri­a­das.

Além do impac­to dire­to na lac­ta­ção sub­se­quen­te da vaca, bezer­ras nas­ci­das de vacas que não pas­sa­ram por estres­se tér­mi­co duran­te o perío­do seco nas­ce­ram mais pesa­das do que as nas­ci­das de vacas não res­fri­a­das. Tam­bém apre­sen­ta­ram melhor absor­ção de IgGs do colos­tro no intes­ti­no, bem como se man­ti­ve­ram mais pesa­das até o pri­mei­ro ano de vida e se tor­na­ram novi­lhas que pro­du­zi­ram na pri­mei­ra lac­ta­ção 5 kg de leite/dia a mais que as filhas das vacas estres­sa­das ter­mi­ca­men­te.

Fica cla­ra a impor­tân­cia e a via­bi­li­da­de econô­mi­ca de ofe­re­cer às vacas secas um ambi­en­te que tra­ga con­for­to tér­mi­co. Gal­pões equi­pa­dos com ven­ti­la­do­res e asper­so­res seri­am o ide­al, porém sabe­mos que isso nem sem­pre é pos­sí­vel. Pen­san­do na rea­li­da­de das fazen­das bra­si­lei­ras, que na mai­o­ria das vezes não pos­su­em gal­pões, garan­tir aos ani­mais um espa­ço ade­qua­do de som­bra, água e comi­da em quan­ti­da­de e qua­li­da­de pode ser um bom come­ço para ter melho­res índi­ces pro­du­ti­vos nes­ta fase.

Outra medi­da que pode ser uma alter­na­ti­va para mui­tas fazen­das seria a ins­ta­la­ção de uma sala de res­fri­a­men­to (sala de banho), que pode ser uti­li­za­da para as vacas em lac­ta­ção antes das orde­nhas e para as vacas secas e do pré-par­to nos inter­va­los entre as orde­nhas. Dois a três banhos diá­ri­os com dura­ção de 30 a 45 minu­tos cada um podem ser uma boa medi­da para ofe­re­cer con­for­to tér­mi­co para essa fase.

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