Estância Silvânia: Uma história de 59 anos de seleção do Gir Leiteiro e muito mais - Digital Balde Branco
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CAMILA ALMEIDA: “A gente já recebia muitas visitas, inclusive internacionais, por causa da genética. Com o queijo essas visitas aumentaram em dez vezes e com um público diferente. Virou um ‘combo’ de negócios dentro da fazenda”

NEGÓCIO LEITE

Estância Silvânia:

Uma história de 59 anos de seleção do Gir Leiteiro e muito mais

Visão profissional, empreendedora e inovadora estão na base dessa tradição que se sustenta em boas práticas, bem-estar animal, qualidade e sustentabilidade

João Carlos de Faria, texto e fotos

Em 2022, a Estân­cia Sil­vâ­nia, loca­li­za­da em Caça­pa­va, no Vale do Paraí­ba (SP), vai com­ple­tar 60 anos de sele­ção da raça Gir Lei­tei­ro, da qual se tor­nou uma das mais impor­tan­tes refe­rên­ci­as naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais, com gené­ti­ca expor­ta­da para diver­sos paí­ses, inclu­si­ve a pró­pria Índia, país de ori­gem da raça.

Para mar­car o iní­cio das come­mo­ra­ções, o casal Cami­la Almei­da Oli­vei­ra e Edu­ar­do Fal­cão de Car­va­lho orga­ni­zou a “Sil­vâ­nia Week”, que segui­rá ocor­ren­do todos os meses até novem­bro do ano que vem, com uma série de even­tos. A pro­gra­ma­ção come­çou no dia 6 de novem­bro, com a Cara­va­na Nação Agro, pro­je­to do Ser­vi­ço Naci­o­nal de Apren­di­za­gem Rural (Senar) em par­ce­ria com Canal Rural, com trans­mis­são ao vivo pela emis­so­ra de TV.

O even­to atraiu cer­ca de 80 pro­du­to­res, repre­sen­tan­tes de pre­fei­tu­ras e téc­ni­cos, que assis­ti­ram a duas pales­tras sobre ten­dên­ci­as e prá­ti­cas de sus­ten­ta­bi­li­da­de e de ade­qua­ção ao Pro­gra­ma de Regu­la­ri­za­ção Ambi­en­tal (PRA) nas pro­pri­e­da­des rurais.

EDUARDO FALCÃO: “Assumi a Estância em 1994, e o objetivo era transformá-la numa referência. Naquela época, algumas vacas se tornaram recordistas de produção, servindo de vitrine para o trabalho de seleção realizado na fazenda.”

Entre o ano de 1962, quan­do foi fun­da­da por José Fer­nan­des de Car­va­lho, até os dias de hoje, a tra­je­tó­ria da Estân­cia Sil­vâ­nia é mar­ca­da por uma sequên­cia de fatos que ates­tam, em vári­os momen­tos, seu pio­nei­ris­mo e posi­ci­o­na­men­to de vanguarda. 

A his­tó­ria come­çou exa­ta­men­te no mes­mo mês e ano em que nas­cia Edu­ar­do Fal­cão de Car­va­lho, que, aos 12 anos, já fazia inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al em vacas da fazen­da. Caçu­la entre 12 irmãos, foi o úni­co que se inte­res­sou em assu­mir o coman­do dos negó­ci­os da fazenda. 

O pai era indus­tri­al e, no Cea­rá, já mexia com lei­te. Quan­do veio para o Vale do Paraí­ba, ele quis con­ti­nu­ar e pas­sou a estu­dar as raças mais viá­veis para cri­a­ção. Aca­bou optan­do pelo Gir Lei­tei­ro e bus­cou plan­téis que já fizes­sem con­tro­le lei­tei­ro ofi­ci­al. “Ele com­prou 25 novi­lhas em Fran­ca, que foram a base do nos­so cri­a­tó­rio”, conta.

“Des­sas novi­lhas, 17 eram irmãs e logo que se repro­du­zi­ram meu pai ini­ci­ou o con­tro­le lei­tei­ro delas, por­que isso era fun­da­men­tal”, relem­bra Fal­cão, des­ta­can­do a impor­tân­cia da pesa­gem do lei­te de for­ma cri­te­ri­o­sa, para o acom­pa­nha­men­to da pro­du­ção e para se ter um pro­ces­so sele­ti­vo com bons resul­ta­dos. Nos pri­mei­ros tem­pos a gran­de difi­cul­da­de era con­se­guir tou­ros melho­ra­dos. “Mui­tas vezes havia erros difi­cul­tan­do a evo­lu­ção gené­ti­ca e a pro­du­ti­vi­da­de dos animais.”

Com esse pri­mei­ro plan­tel, ain­da na déca­da de 1960, a fazen­da par­ti­ci­pou de vári­as edi­ções da Expo­si­ção Naci­o­nal, que era rea­li­za­da anu­al­men­te no Par­que da Água Bran­ca, dan­do iní­cio à sua tra­je­tó­ria vito­ri­o­sa. “De 1970 até 1976, duran­te seis anos fomos o melhor expo­si­tor.” No total, ao lon­go dos 60 anos, foram mais de mil premiações.

Na déca­da de 1980, a cri­a­ção da Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra dos Cri­a­do­res de Gir Lei­tei­ro (ABC­GIL) impul­si­o­nou um pro­gra­ma de melho­ra­men­to no País, em par­ce­ria com a Empre­sa Bra­si­lei­ra de Pes­qui­sa Agro­pe­cuá­ria (Embra­pa), a par­tir de 1982. Fal­cão, que logo se fili­ou à asso­ci­a­ção, se envol­veu com o pro­gra­ma que, segun­do ele, foi fun­da­men­tal para que o Gir Lei­tei­ro che­gas­se aos padrões de qua­li­da­de atuais.

“Foi o pri­mei­ro pro­gra­ma de pro­gê­nie para ani­mais zebus lei­tei­ros do mun­do”, afir­ma. Isso, segun­do ele, fomen­tou ain­da mais a cri­a­ção, tra­zen­do a ade­são de novos cri­a­do­res e mais espa­ço para a raça no mercado. 

Fal­cão assu­miu a fazen­da em 1994, depois de se for­mar em Medi­ci­na Vete­ri­ná­ria na Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo-USP, em 1986, e pas­sou a pro­fis­si­o­na­li­zar suas ati­vi­da­des. O obje­ti­vo era trans­for­mar a fazen­da numa refe­rên­cia. Foi naque­la épo­ca que algu­mas vacas se tor­na­ram recor­dis­tas de pro­du­ção, ser­vin­do de vitri­ne para o tra­ba­lho de sele­ção rea­li­za­do na fazenda.

A par­tir de 1999 as expo­si­ções vol­ta­ram a ser rea­li­za­das e foram impor­tan­tes para mos­trar e divul­gar a raça jun­to ao públi­co, for­ta­le­cen­do o poten­ci­al de expor­ta­ção de gené­ti­ca do Bra­sil. Fal­cão pre­si­diu a ABC­GIL por dois man­da­tos, de 2001 a 2006, e bus­cou dar ain­da mais visi­bi­li­da­de e incre­men­to ao pro­gra­ma de melhoramento.

Hoje a Estân­cia Sil­vâ­nia tra­ba­lha com a ven­da per­ma­nen­te de ani­mais e pre­nhe­zes na pro­pri­e­da­de, pelo site e nos even­tos que pro­mo­ve, além de con­tar com a par­ce­ria das prin­ci­pais cen­trais de sêmen do Bra­sil, dis­se­mi­nan­do gené­ti­ca de Gir Lei­tei­ro para o Bra­sil e para outros paí­ses das Amé­ri­cas Lati­na e Cen­tral, além de Áfri­ca e Ásia. 

O seu plan­tel é for­ma­do por 240 ani­mais, incluin­do os tou­ros que estão na cen­tral de sêmen. Em lac­ta­ção são cer­ca de 60 vacas, com média diá­ria de 16 litros a pasto. 

Vacas na sala de espera para serem ordenhadas

Pre­o­cu­pa­ção ambi­en­tal – Além de ter uma visão de van­guar­da quan­to à gené­ti­ca de seu plan­tel, as prá­ti­cas ambi­en­tais e de sus­ten­ta­bi­li­da­de tam­bém fazem par­te da his­tó­ria da fazen­da ins­ta­la­da no local onde está hoje, há cer­ca dez anos. A área total é de 60 hec­ta­res, sen­do 33 de pas­tos e 6 de capi­nei­ras, cuja sila­gem é uti­li­za­da como suple­men­ta­ção em perío­dos de pou­ca pastagem. 

O anti­go pro­pri­e­tá­rio não tinha nenhum con­tro­le do aces­so do gado às nas­cen­tes e da pro­du­ção e uso da água. Foi fei­to então um levan­ta­men­to das nas­cen­tes da pro­pri­e­da­de, que foram cer­ca­das e reflo­res­ta­das com espé­ci­es da Mata Atlân­ti­ca. Ado­tou-se ain­da a aná­li­se perió­di­ca de solo e os pas­tos foram divi­di­dos em pique­tes, todos com aces­so dos ani­mais à água. 

“Foi todo um con­cei­to que des­de o iní­cio focou no bem-estar ani­mal, na con­ser­va­ção da natu­re­za, sem­pre agre­gan­do novas prá­ti­cas para se ter mais recur­sos natu­rais e menos impac­tos ambi­en­tais, man­ten­do a qua­li­da­de de vida não só dos ani­mais, mas tam­bém das pes­so­as que moram e tra­ba­lham aqui”, expli­ca Falcão.

Com isso, a fazen­da tor­nou-se a pri­mei­ra na Amé­ri­ca Lati­na a ter cer­ti­fi­ca­ção por bem-estar ani­mal. Para obter essa qua­li­fi­ca­ção, vári­os pro­ce­di­men­tos foram ado­ta­dos, como o for­ne­ci­men­to raci­o­nal de água e ali­men­ta­ção, a for­ma de tra­ta­men­to dos ani­mais, o mane­jo sani­tá­rio e repro­du­ti­vo, a con­du­ção da orde­nha e o mane­jo dos bezer­ros. Tudo para que os ani­mais não sofram nenhum tipo de estresse. 

“Isso pode ser facil­men­te cons­ta­ta­do na hora da orde­nha, quan­do as vacas con­ti­nu­am rumi­nan­do, não defe­cam e ficam mui­to bem adap­ta­das ao ser­vi­ço ao qual estão sen­do sub­me­ti­das.” Outra refe­rên­cia são os resul­ta­dos das ava­li­a­ções de tem­pe­ra­men­to dos tou­ros, fei­tas den­tro do pro­gra­ma de melho­ra­men­to da Embra­pa e da ABC­GIL, no qual os ani­mais da fazen­da sem­pre se destacam.

A área total é de 60 hectares, sendo 33 de pastos e 6 de capineiras, cuja silagem é utilizada como suplementação em períodos de pouca pastagem

Mudan­ça de rumo - Entre 1999 e 2012, a Estân­cia Sil­vâ­nia foi elei­ta 7 vezes melhor cri­a­dor naci­o­nal e 11 vezes melhor cri­a­dor pau­lis­ta nas expo­si­ções, mas já esta­va em bus­ca de algo dife­ren­te para valo­ri­zar a qua­li­da­de do lei­te que produzia.

É aí que entra o lei­te tipo A2, pró­prio para o con­su­mo de pes­so­as alér­gi­cas à Beta Caseí­na A1. O iní­cio se deu a par­tir dos pri­mei­ros con­ta­tos com o nutró­lo­go e cirur­gião vas­cu­lar Wil­son Ron­dó Júni­or, espe­ci­a­lis­ta em medi­ci­na pre­ven­ti­va e de alta per­for­man­ce, que em 2008 trou­xe essa novi­da­de para a fazenda.

“Era exa­ta­men­te o que pro­cu­rá­va­mos há mui­to tem­po, por­que sem­pre acre­di­ta­mos que o Gir Lei­tei­ro pre­ci­sa­va ter valo­ri­za­da a qua­li­da­de do seu lei­te, que tem altos índi­ces de sóli­dos e sabor dife­ren­ci­a­do e mere­cia um nicho de mer­ca­do com uma remu­ne­ra­ção mais adequada.”

A partir de 2008, a Estância Silvânia iniciou a seleção para animais A2A2, e tornou-se a pioneira na América Latina na produção do leite A2

A opor­tu­ni­da­de foi agar­ra­da com as duas mãos e pas­sou a ser obje­to de estu­do, quan­do ain­da não havia no Bra­sil nenhum pro­du­tor des­se tipo de lei­te, nem labo­ra­tó­ri­os que fizes­sem essa aná­li­se de qua­li­fi­ca­ção e tam­pou­co havia infor­ma­ção dos tou­ros nos catá­lo­gos e pro­gra­mas de melhoramento.

A Estân­cia Sil­vâ­nia tor­nou-se então a pio­nei­ra na Amé­ri­ca Lati­na na pro­du­ção do lei­te A2. “Foi um iní­cio pra­ti­ca­men­te no escu­ro”, relem­bra Fal­cão. As par­ce­ri­as come­ça­ram a ser rea­li­za­das e diver­sas enti­da­des se envol­ve­ram na pesquisa.

Como havia a pos­si­bi­li­da­de de se ter um pro­du­to final com mai­or valor agre­ga­do, o pro­du­tor deci­diu mudar o foco dos ani­mais, até então cri­a­dos para pis­ta, para a pro­du­ção comer­ci­al de lei­te e ven­da ao con­su­mi­dor final, fechan­do o ciclo de produção.

O mane­jo foi total­men­te muda­do, sem uso de hormô­ni­os e com a ado­ção da pro­du­ção a pas­to, com estru­tu­ra de pique­tes e pas­te­jo rota­ci­o­na­do, em áre­as defi­ni­das de acor­do com o núme­ro de ani­mais, além de boas prá­ti­cas na sala de orde­nha – que é meca­ni­za­da e com bezer­ro ao pé –, com cui­da­dos sani­tá­ri­os na pré e pós-orde­nha, com as vacas per­ma­ne­cen­do em pé após orde­nha­das e fican­do a mai­or par­te do tem­po a pasto.

Após diver­sas aná­li­ses veri­fi­cou-se que o mane­jo ado­ta­do real­men­te poten­ci­a­li­za­va ele­men­tos com­po­nen­tes do lei­te que res­pon­dem pela melhor qua­li­da­de nutri­ci­o­nal para o ser huma­no. A pos­si­bi­li­da­de de agre­gar valor com a pro­du­ção de pro­du­tos fres­cos tam­bém pas­sou então a fazer par­te dos pla­nos”, diz o produtor.

O bem-estar animal é uma realidade na Estância. Isso pode ser constatado na sala de ordenha, quando as vacas continuam ruminando, não defecam e ficam muito bem adaptadas à ordenha

Do lei­te ao quei­jo, agre­gan­do valor – Foi em 2017 que a fazen­da rece­beu a visi­ta de Her­vé Mons, reno­ma­do mes­tre quei­jei­ro arte­sa­nal da Fran­ça, mui­to res­pei­ta­do na Euro­pa, que ficou encan­ta­do com a qua­li­da­de do lei­te e reco­men­dou que se tra­ba­lhas­se com pro­du­tos matu­ra­dos para acen­tu­ar esse dife­ren­ci­al e poten­ci­a­li­zar o con­su­mo e a comer­ci­a­li­za­ção des­ses produtos.

Da pro­du­ção de quei­jos fres­cos, que já era fei­ta e que já havia sido pre­mi­a­da naci­o­nal­men­te, pas­sou-se a focar nos quei­jos maturados.

Fal­cão diz que o que a fazen­da bus­ca­va havia dez anos era exa­ta­men­te che­gar a um mane­jo raci­o­nal e comer­ci­al­men­te viá­vel, que resul­tas­se num pro­du­to final de exce­lên­cia, fazen­do jus à visão esta­be­le­ci­da para os negó­ci­os, de ser refe­rên­cia mun­di­al na sele­ção e no melho­ra­men­to gené­ti­co da raça Gir Lei­tei­ro, fato que Fal­cão con­si­de­ra con­so­li­da­do. “Isso já se cum­pre, mas é mutan­te. A gen­te che­gar é uma coi­sa, mas se man­ter é outra coi­sa”, ressalta.

 

Quei­jos com a mar­ca da fazen­da – Àque­la altu­ra, a zoo­tec­nis­ta Cami­la Almei­da Oli­vei­ra, espo­sa de Fal­cão des­de 2008, já atu­a­va na roti­na da fazen­da e acom­pa­nha­va todo o pro­ces­so que viria a dar um novo rumo aos negócios.

Bai­a­na de Vitó­ria da Con­quis­ta, onde con­vi­veu na infân­cia com a ati­vi­da­de agro­pe­cuá­ria na fazen­da da avó, que aos 91anos ain­da con­ti­nua pro­du­zin­do lei­te, ela afir­ma que “pra­ti­ca­men­te nas­ceu embai­xo de uma vaca de lei­te”. Esse fato, segun­do ela, faci­li­ta a cone­xão com os mes­mos inte­res­ses e visões de vida do mari­do, que conhe­ceu numa Expo­ze­bu, em Uberaba.

Como o obje­ti­vo do lei­te A2 era pro­por­ci­o­nar ao con­su­mi­dor final o aces­so à qua­li­da­de do que era pro­du­zi­do na fazen­da, ela come­çou a se qua­li­fi­car para a pro­du­ção dos quei­jos. Tor­nou-se mes­tre quei­jei­ra e fez espe­ci­a­li­za­ção na Fran­ça, para se aper­fei­ço­ar na téc­ni­ca da maturação.

“O A2 foi um pre­sen­te pra nós, por­que veio for­ta­le­cer a ideia de cri­ar um dife­ren­ci­al. Vimos aí a opor­tu­ni­da­de de quem não con­su­mia lác­te­os pas­sar a con­su­mir”, reve­la. No come­ço, no entan­to, 90% dos médi­cos nem sabi­am sobre as qua­li­da­des do lei­te e as infor­ma­ções tive­ram que ser insis­ten­te­men­te leva­das a mui­tos pro­fis­si­o­nais da área.

Cami­la fez o estu­do de via­bi­li­da­de de cons­tru­ção de um lati­cí­nio, mas, em 2014, quan­do sur­gi­ram os pri­mei­ros pro­du­tos, esses ain­da eram pro­ces­sa­dos por um par­cei­ro, enquan­to a quei­ja­ria esta­va sen­do construída.

Logo em 2017, no 3º Prê­mio Quei­jo Bra­sil, a fazen­da foi a mais pre­mi­a­da, com seis meda­lhas, e em 2018 foram dez meda­lhas. Em setem­bro pas­sa­do, na 5° Edi­ção do Con­cours Mon­di­al du Fro­ma­ge et des Pro­duits Lai­ti­ers (Con­cur­so Mun­di­al dos Quei­jos e Lati­cí­ni­os), pre­mi­a­ção mais impor­tan­te do mun­do, Cami­la con­quis­tou duas meda­lhas de ouro e uma de bron­ze com os quei­jos e duas de pra­ta pelo seu tra­ba­lho de maturadora.

Fal­cão atri­bui essas con­quis­tas tan­to à qua­li­da­de da maté­ria-pri­ma, quan­to à for­ma de pro­ces­sa­men­to dos quei­jos. “Para se obter um bom pro­du­to final, temos que ter uma boa qua­li­da­de da maté­ria-pri­ma”, destaca.

O quei­jo da Estân­cia Sil­vâ­nia hoje é reco­nhe­ci­do, ven­di­do e con­su­mi­do no Bra­sil todo, poden­do ser com­pra­do pela inter­net, na pró­pria fazen­da ou em lojas de ven­da de pro­du­tos arte­sa­nais. “A gen­te entrou e não saiu mais”, afir­ma a mes­tre queijeira.

Touro Teatro da Silvânia (clone), que já exportou material genético inclusive para a Índia

ORGULHOS DO CRIADOR


Dois íco­nes se des­ta­cam na his­tó­ria da Estân­cia Sil­vâ­nia. A for­ma cari­nho­sa como Edu­ar­do Fal­cão se refe­re a ambos demons­tra o quan­to são impor­tan­tes para a fazen­da.

Uma é Nata da Sil­vâ­nia, mor­ta em 2009, vaca que pro­du­ziu mais de dez tou­ros pro­va­dos em cen­trais de inse­mi­na­ção, sen­do segu­ra­men­te a mai­or avó da pecuá­ria lei­tei­ra do Bra­sil, ten­do gera­do qua­tro impor­tan­tes doa­do­ras da raça: Deu­sa, Fábu­la, Jano­ta e Imbaú­ba, todas excep­ci­o­nais pro­du­to­ras de lei­te.

O outro íco­ne é o tou­ro Tea­tro da Sil­vâ­nia, um dos que mais ven­de­ram sêmen e ain­da ven­de, sen­do uma refe­rên­cia no mun­do. A vaca Marí­lia do Tea­tro, uma de suas filhas, é a atu­al recor­dis­ta mun­di­al de meio-san­gue, com pro­du­ção de mais de 126 kg de lei­te num só dia. “É um tou­ro que real­men­te faz his­tó­ria”, afir­ma Fal­cão.

O tou­ro ori­gi­nal, no entan­to, mor­reu há cer­ca de oito anos. O que está na fazen­da hoje é um clo­ne, o pri­mei­ro e úni­co da raça Gir Lei­tei­ro que atua numa cen­tral de inse­mi­na­ção, que já expor­tou mate­ri­al gené­ti­co, inclu­si­ve para a Índia, país de ori­gem do zebu lei­tei­ro. “É um ates­ta­do de com­pe­tên­cia para o Bra­sil”, diz Falcão.

Vitri­ne para a fazen­da – “Tínha­mos mui­ta visi­bi­li­da­de e mui­to tra­ba­lho foca­do em raça, mas éra­mos novís­si­mos em pro­du­ção de lác­te­os. As pre­mi­a­ções fize­ram com que as pes­so­as da cida­de se inte­res­sas­sem mais em saber como o cam­po tra­ba­lha e, quan­do veem como tra­ba­lha­mos, se encan­tam. Essa inte­ra­ção é mui­to posi­ti­va”, afirma. 

As visi­tas, aliás, aumen­ta­ram mui­to, inclu­si­ve de mora­do­res da pró­pria cida­de de Caça­pa­va, atraí­dos pela curi­o­si­da­de, dian­te da reper­cus­são das premiações. 

“A gen­te já rece­bia mui­tas visi­tas, inclu­si­ve inter­na­ci­o­nais, por cau­sa da gené­ti­ca, mas eram mui­to pon­tu­ais. Com o quei­jo essas visi­tas aumen­ta­ram em dez vezes e com um públi­co dife­ren­te. Virou um ‘com­bo’ de negó­ci­os den­tro da fazen­da”, brin­ca Cami­la. Por­cen­tu­al­men­te, os quei­jos repre­sen­tam hoje cer­ca de 20% do fatu­ra­men­to da fazenda.

 

Ins­pi­ra­ção vale-parai­ba­na – O car­ro-che­fe entre os quei­jos hoje é o “Pri­ma­ve­ra Sil­vâ­nia”, fei­to de mas­sa pren­sa­da e não cozi­da, que leva óleo de lavan­da, matu­ra­do com flo­res comes­tí­veis, que foi meda­lha de ouro no mun­di­al na França.

O quei­jo “Tai­a­da”, outro dos pre­mi­a­dos no con­cur­so mun­di­al, leva na recei­ta o içá, uma igua­ria mui­to apre­ci­a­da no Vale do Paraí­ba, reco­nhe­ci­da até pelo escri­tor Mon­tei­ro Loba­to, que o cha­mou de “cavi­ar vale-paraibano”. 

Cami­la rela­ta que sua ins­pi­ra­ção para a recei­ta veio do dese­jo de sur­pre­en­der e o quei­jo foi pen­sa­do espe­ci­fi­ca­men­te para par­ti­ci­par e ganhar o concurso.

“Que­ria algo que cau­sas­se impac­to e reme­tes­se à nos­sa região e con­cluí que tinha de ser de içá, por­que não tinha quei­jo de for­mi­ga no Bra­sil. E a tai­a­da, além de ser um doce tra­di­ci­o­nal que vem dos tem­pos dos tro­pei­ros e de ser a for­ma como os caça­pa­ven­ses cari­nho­sa­men­te são cha­ma­dos, tam­bém vem de ‘talhar’ ou ‘coa­lhar’, que é o mes­mo pro­ces­so uti­li­za­do no quei­jo”, con­ta a mes­tre queijeira.

Palestras atraíram mais de 80 pessoas ao evento

NAÇÃO AGRO DEBATEU SUSTENTABILIDADE NAS PROPRIEDADES


A aber­tu­ra da “Sil­vâ­nia Week”, no dia 6 de novem­bro, levou para Caça­pa­va a Cara­va­na Nação Agro, uma ini­ci­a­ti­va do Senar São Pau­lo em par­ce­ria com o Canal Rural, que per­cor­re muni­cí­pi­os do inte­ri­or de São Pau­lo, ten­do suas edi­ções trans­mi­ti­das ao vivo pela emis­so­ra de TV.

O enge­nhei­ro agrô­no­mo Pau­lo Sér­gio Sil­va Ramos, que veio da Bahia para o even­to, expli­cou que a sigla ESG (Envi­ron­men­tal, Soci­al and Gover­nan­ce), tema de sua pales­tra, está rela­ci­o­na­da ao tri­pé meio ambi­en­te, soci­al e de gover­nan­ça nas pro­pri­e­da­des rurais. “É a for­ma como o pro­du­tor lida com essas ques­tões no seu dia a dia.” 

Tam­bém rela­tou cases, que demons­tram pos­si­bi­li­da­des que a sus­ten­ta­bi­li­da­de pre­ci­sa ter foco no mer­ca­do con­su­mi­dor com a ofer­ta de pro­du­tos dife­ren­ci­a­dos e “lim­pos”, que agre­gam valor e ren­da para as propriedades. 

“É pre­ci­so ter qua­li­da­de para aten­der o con­su­mi­dor dos gran­des mer­ca­dos, cada vez mais exi­gen­te, o que já é per­cep­tí­vel nas gôn­do­las dos super­mer­ca­dos”, disse.

 

Res­tau­ra­ção flo­res­tal - Wan­der Bas­tos, pre­si­den­te do Sin­di­ca­to Rural de Cru­zei­ro, falou, por sua vez, de pro­je­tos de ade­qua­ção ambi­en­tal de pro­pri­e­da­des rurais ao Pro­gra­ma de Regu­la­ri­za­ção Ambi­en­tal (PRA), desen­vol­vi­dos pela enti­da­de, em ini­ci­a­ti­vas con­jun­tas com as pre­fei­tu­ras locais e inves­ti­men­tos do Fun­do Esta­du­al de Recur­sos Hídri­cos (Fehi­dro).

As ações se desen­vol­vem em qua­tro baci­as hidro­grá­fi­cas, que estão sen­do recu­pe­ra­das com o obje­ti­vo de melho­rar o abas­te­ci­men­to huma­no de água. São 15 pro­pri­e­da­des, sen­do 5 pro­du­to­ras de lei­te, com inves­ti­men­to apro­xi­ma­do de R$ 2,7 milhões. 

“O Vale do Paraí­ba está loca­li­za­do entre os três mai­o­res cen­tros urba­nos do Bra­sil e é uma vitri­ne. O que pre­ci­sa é cons­ci­en­ti­zar e con­quis­tar o pro­du­tor para que ele per­ce­ba que, quan­do faz ade­qua­ção ambi­en­tal da pro­pri­e­da­de, ele pode ter um ganho sobre isso”, afirmou.