Evolução da produção do leite inspecionado no Brasil, no Sul e no Sudeste - Digital Balde Branco

LEITE EM NÚMEROS

Samuel J. de M. Oliveira 

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

Evolução da produção do leite inspecionado no Brasil, no Sul e no Sudeste

Ao longo dos últimos anos, o volume de leite inspecionado tem avançado, mas recentemente tem registrado quedas

Em regra, nos últi­mos 25 anos a pro­du­ção de lei­te tem avan­ça­do no Bra­sil. A pro­du­ção acu­mu­la­da de lei­te ins­pe­ci­o­na­do em 12 meses era de cer­ca de 10,7 bilhões de litros no iní­cio de 1997. Esse valor atin­giu 15 bilhões de litros em 2005, 20 bilhões em 2009 e 25 bilhões em 2014. A par­tir de então a pro­du­ção pas­sou a osci­lar e atin­giu 25,8 bilhões de litros nos 12 meses fina­li­za­dos em mar­ço de 2021. Des­de então tem regis­tra­do que­das até atin­gir ape­nas 24,4 bilhões de litros acu­mu­la­dos em 12 meses em mar­ço de 2022 (Figu­ra 1).

As medi­das de con­tro­le de pan­de­mia, que incluí­ram o fecha­men­to da eco­no­mia e as diver­sas medi­das de auxí­lio ao sis­te­ma de saú­de e àque­les que esti­ve­ram pri­va­dos de tra­ba­lhar afe­ta­ram a ofer­ta de pro­du­tos diver­sos na eco­no­mia e leva­ram à expan­são do dinhei­ro em cir­cu­la­ção na eco­no­mia. Soma­do a isso, hou­ve uma desor­ga­ni­za­ção logís­ti­ca em esca­la mun­di­al, em espe­ci­al no setor marí­ti­mo, o que enca­re­ceu o fre­te e o pre­ço de pro­du­tos comer­ci­a­li­za­dos mundialmente.

O iní­cio de 2022 assis­tiu ao iní­cio do con­fli­to entre Rús­sia e Ucrâ­nia, que afe­tou a ofer­ta de com­mo­di­ti­es agrí­co­las e ener­gé­ti­cas, como petró­leo, milho e outras.

Todos esses fato­res leva­ram à for­te pres­são nos cus­tos de pro­du­ção de lei­te. Dados do ICPLeite/Embrapa mos­tram que os cus­tos do lei­te che­ga­ram a aumen­tar 40% nos 12 meses fina­li­za­dos em agos­to de 2021. O pre­ço do lei­te pago ao pro­du­tor, por sua vez, não esta­va acom­pa­nhan­do esse aumen­to de cus­to, já que a ofer­ta de lei­te per­mi­tia à indús­tria não aumen­tar o pre­ço. Assim, o con­su­mi­dor não per­ce­bia o que já esta­va acon­te­cen­do com a pro­du­ção lei­tei­ra. O lei­te UHT comer­ci­a­li­za­do no ata­ca­do pau­lis­ta aumen­ta­va ape­nas 2% entre agos­to de 2020 e agos­to de 2021, sen­do comer­ci­a­li­za­do por R$ 3,60 o litro, em média. O lei­te spot em Minas Gerais apre­sen­ta­va que­da de 4% no acu­mu­la­do de 12 meses em agos­to de 2021.

A pro­du­ção de lei­te pas­sou a ser pres­si­o­na­da pelo cres­cen­te cus­to de pro­du­ção e pelo não aumen­to da recei­ta pro­por­ci­o­na­da pela ven­da do lei­te. Para fazer fren­te a esse novo cená­rio, pro­du­to­res redu­zi­ram o uso de insu­mos, des­car­ta­ram ani­mais ou até mes­mo saí­ram da ati­vi­da­de. O resul­ta­do dis­so foi uma con­tí­nua retra­ção na ofer­ta de lei­te obser­va­da a par­tir do ter­cei­ro tri­mes­tre de 2021. A pro­du­ção lei­tei­ra retro­ce­deu, em volu­me, a níveis de mais de três anos atrás, atin­gin­do o pata­mar do últi­mo tri­mes­tre de 2018.

Essa escas­sez de lei­te então pas­sou a reper­cu­tir nos pre­ços pagos ao pro­du­tor e ao con­su­mi­dor. O pre­ço médio naci­o­nal do lei­te pago ao pro­du­tor supe­rou R$ 3,00 o litro. O lei­te spot em Minas Gerais ultra­pas­sou R$ 5,00 o litro e o lei­te UHT no ata­ca­do supe­rou os R$ 6,00 o litro.

O cho­que recen­te no setor lác­teo bra­si­lei­ro coin­ci­diu com a con­so­li­da­ção de uma ten­dên­cia que já esta­va sen­do obser­va­da há algum tem­po – o cres­ci­men­to da impor­tân­cia da Região Sul na pro­du­ção lei­tei­ra do Bra­sil. A par­ti­ci­pa­ção do Sul no total do lei­te ins­pe­ci­o­na­do pro­du­zi­do no País só tem aumen­ta­do nos últi­mos 25 anos: 22% em 1998, 30% em 2008 e 34% em 2011. Em 2021, essa soma atin­giu 39%. Mui­tos dos pro­du­to­res que entra­ram na ati­vi­da­de e per­mi­ti­ram essa expres­si­va evo­lu­ção da pro­du­ção regi­o­nal são egres­sos de cadei­as pro­du­ti­vas já bem inte­gra­das com os mer­ca­dos glo­bais e que são inten­si­vas em tec­no­lo­gia, como a sui­no­cul­tu­ra e a avi­cul­tu­ra. Essa nova visão de negó­cio e de ino­va­ção tec­no­ló­gi­ca foi leva­da ao lei­te e aju­dou a alçar a Região Sul como aque­la de mai­or pro­du­ti­vi­da­de no País, aci­ma de 3.600 litros/vaca/ ano, ante 2.200 litros obser­va­dos no Bra­sil em 2020.

Se a Região Sul já se tor­na­ra cam­peã em pro­du­ti­vi­da­de no País, tam­bém se tor­nou a prin­ci­pal pro­du­to­ra de lei­te ins­pe­ci­o­na­do do Bra­sil. No segun­do tri­mes­tre de 2021, pela pri­mei­ra vez, a região suplan­tou o Sudes­te no acu­mu­la­do em 12 meses de pro­du­ção de lei­te ins­pe­ci­o­na­do. Embo­ra as duas regiões apre­sen­tem que­da nas esta­tís­ti­cas des­de então, essa dis­tân­cia está aumen­tan­do e atin­giu 9,6 bilhões de litros no Sul, ante 9,2 bilhões de litros no Sudes­te. De fato, a pro­du­ção acu­mu­la­da em 12 meses fina­li­za­dos no pri­mei­ro tri­mes­tre de 2022 no Sul é pró­xi­ma àque­la veri­fi­ca­da no segun­do tri­mes­tre de 2020. No Sudes­te, a que­da de pro­du­ção reme­te ao ter­cei­ro tri­mes­tre de 2013, mos­tran­do quão pro­nun­ci­a­da foi a que­da nes­sa região. (Figu­ra 2).

Mudan­ças estru­tu­rais e regi­o­nais na pro­du­ção naci­o­nal acon­te­ce­ram a par­tir des­se qua­dro de cri­se. Nada garan­te que elas serão rever­ti­das. É mui­to impor­tan­te acom­pa­nhar os dados da cadeia do lei­te e obser­var qual é a nova rea­li­da­de que se dese­nha­rá após a supe­ra­ção de mais esses desa­fi­os para o agro­ne­gó­cio do leite.

Coau­tor: Glau­co Rodri­gues Car­va­lho, pes­qui­sa­dor da Embra­pa Gado de Leite