Evolução da produção e do consumo de leite e derivados - Digital Balde Branco

LEITE EM NÚMEROS

Denis Teixeira da Rocha

Analista da Embrapa Gado de Leite

Evolução da produção e do consumo de leite e seus derivados no Brasil

Lei­te UHT e lei­te em pó, ape­sar da alta no perío­do, regis­tra­ram um desem­pe­nho tími­do, fican­do sua expan­são na depen­dên­cia de um cres­ci­men­to econô­mi­co mais robus­to e com melhor dis­tri­bui­ção de renda

A pro­du­ção e o con­su­mo de lei­te e seus deri­va­dos no Bra­sil sem­pre esti­ve­ram mui­to asso­ci­a­dos ao cres­ci­men­to da eco­no­mia naci­o­nal. Com volu­mes de expor­ta­ção ain­da peque­nos, o lei­te bra­si­lei­ro é mui­to depen­den­te do con­su­mo domés­ti­co. Nes­se sen­ti­do, a pro­du­ção de lei­te ins­pe­ci­o­na­do, que cres­ceu de for­ma con­tí­nua até 2014, teve que­das con­se­cu­ti­vas em 2015 e 2016. Naque­les dois anos, hou­ve recuo tam­bém da eco­no­mia bra­si­lei­ra, repre­sen­ta­do pela que­da do PIB. Na medi­da em que o PIB vol­tou a cres­cer, mes­mo que de for­ma tími­da, a pro­du­ção de lei­te sob ins­pe­ção tam­bém reto­mou sua tra­je­tó­ria de cres­ci­men­to. A exce­ção ficou por con­ta de 2020, ano de iní­cio da pan­de­mia de covid-19, em que a eco­no­mia se retraiu for­te­men­te, enquan­to a pro­du­ção de lei­te con­ti­nu­ou cres­cen­do. Nes­se caso, o for­ta­le­ci­men­to da deman­da por lác­te­os, com o auxí­lio emer­gen­ci­al e os novos hábi­tos da popu­la­ção, con­tri­buí­ram para aumen­tar o con­su­mo, mes­mo com redu­ção do PIB (Figu­ra 1).

Em 2020, a pro­du­ção de lei­te ins­pe­ci­o­na­do atin­giu seu recor­de his­tó­ri­co, de 25,5 bilhões de litros, alta de 2,1% sobre 2019. Entre­tan­to, esse valor foi ape­nas 3,1% supe­ri­or à pro­du­ção regis­tra­da em 2014. Nes­se mes­mo perío­do, a popu­la­ção bra­si­lei­ra cres­ceu 4,4%, o equi­va­len­te a qua­se 9 milhões de habi­tan­tes, segun­do o IBGE. Com isso, o con­su­mo apa­ren­te per capi­ta de lei­te e deri­va­dos, que em 2020 ficou em 173 litros/habitante, ain­da não supe­rou seu máxi­mo his­tó­ri­co regis­tra­do em 2014, de 176 litros. Vale res­sal­tar que o con­su­mo apa­ren­te per capi­ta refe­re-se à pro­du­ção inter­na total, soma­da as impor­ta­ções e des­con­ta­das às expor­ta­ções, divi­di­da pela popu­la­ção bra­si­lei­ra em cada ano.

Os pro­du­tos lác­te­os que mais deman­dam lei­te no Bra­sil são os quei­jos, o lei­te UHT e o lei­te em pó, que, jun­tos, absor­ve­ram 86% do lei­te adqui­ri­do pelos lati­cí­ni­os em 2020, con­for­me o Rela­tó­rio Anu­al da ABLV. Dos cin­co gru­pos de pro­du­tos ana­li­sa­dos – quei­jos, lei­te UHT, lei­te em pó, lei­te pas­teu­ri­za­do e demais pro­du­tos –, somen­te o lei­te pas­teu­ri­za­do teve redu­zi­do o volu­me de lei­te des­ti­na­do para sua pro­du­ção no perío­do 2011–2020, com que­da de 35% (Figu­ra 2). Para este pro­du­to, os volu­mes de lei­te vêm se redu­zin­do ano a ano, pas­san­do de 1,63 bilhão de litros em 2011 para 1,05 bilhão de litros em 2020. Dos demais gru­pos, os quei­jos têm apre­sen­ta­do tra­je­tó­ria de cres­ci­men­to con­sis­ten­te no volu­me de lei­te des­ti­na­do para a sua pro­du­ção, atin­gin­do seu máxi­mo his­tó­ri­co em 2020 de 8,75 bilhões de litros, alta de 30% sobre 2011.

Já os outros três gru­pos – lei­te UHT, lei­te em pó e demais pro­du­tos, ape­sar de terem cres­ci­do nos últi­mos dez anos, fecha­ram 2020 com volu­me de lei­te des­ti­na­do para sua pro­du­ção infe­ri­or ao seu máxi­mo his­tó­ri­co. O lei­te UHT cres­ceu 20% no perío­do 2011–2020, mas atin­giu seu volu­me recor­de em 2017, quan­do absor­veu 7,02 bilhões de litros para sua pro­du­ção. Em 2020, esse volu­me foi de 6,98 bilhões de litros, redu­ção de 1% em rela­ção a 2017. O volu­me des­ti­na­do à pro­du­ção de lei­te em pó cres­ceu 16% entre 2011 e 2020, entre­tan­to, nes­te últi­mo ano, o volu­me foi pra­ti­ca­men­te o mes­mo de 2014 (6,20 bilhões de litros). Já o gru­po de “demais pro­du­tos” cres­ceu 11% nos últi­mos dez anos, mas fechou 2020 com que­da de 7% sobre o volu­me recor­de regis­tra­do em 2014.

Por­tan­to, ana­li­san­do o his­tó­ri­co recen­te para esses deri­va­dos lác­te­os, veri­fi­ca-se um cres­ci­men­to hete­ro­gê­neo na absor­ção de lei­te, com melhor desem­pe­nho para os quei­jos, jus­ta­men­te o pro­du­to cuja deman­da tem mai­or rela­ção com a ren­da. Lei­te UHT e lei­te em pó, ape­sar da alta no perío­do, regis­tra­ram um desem­pe­nho tími­do, fican­do sua expan­são na depen­dên­cia de um cres­ci­men­to econô­mi­co mais robus­to e com melhor dis­tri­bui­ção de renda.

Coau­to­res: Glau­co Rodri­gues Car­va­lho e João César de Resen­de são pes­qui­sa­do­res da Embra­pa Gado de Leite

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