Evolução tecnológica nas fazendas de leite do Brasil, da Argentina e do Uruguai - Digital Balde Branco

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João Cesar Resende

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

Evolução tecnológica

nas fazendas de leite do Brasil, da Argentina e do Uruguai

No Bra­sil, há pro­du­to­res de mai­or esca­la que têm regis­tra­do um aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de bem aci­ma da média naci­o­nal e já exis­te ele­va­do núme­ro de muni­cí­pi­os com pro­du­ti­vi­da­de pró­xi­ma ou até supe­ri­or às médi­as da Argen­ti­na e do Uruguai

Apro­du­ti­vi­da­de de um fator refle­te a efi­ci­ên­cia tec­no­ló­gi­ca com que os recur­sos são trans­for­ma­dos em pro­du­to duran­te o pro­ces­so de pro­du­ção. Esta asser­ti­va é váli­da para todas as ati­vi­da­des da eco­no­mia, sejam elas do setor pri­má­rio (onde estão a pecuá­ria e a agri­cul­tu­ra), do setor secun­dá­rio (indús­tria de trans­for­ma­ção) e do ter­ciá­rio (pres­ta­ção de ser­vi­ços).

Na pecuá­ria de lei­te, pode-se divi­dir os fato­res de pro­du­ção em qua­tro gru­pos: ter­ra, mão de obra, reba­nho e capi­tal inves­ti­do (fixo e variá­vel). A pro­du­ti­vi­da­de de cada um des­ses fato­res pode ser medi­da em quan­ti­da­de pro­du­zi­da de lei­te por uni­da­de uti­li­za­da do fator. Nes­te caso, a pro­du­ti­vi­da­de da ter­ra é medi­da em litros de lei­te por hec­ta­re, a da mão de obra em litros de lei­te por fun­ci­o­ná­rio, a do capi­tal em litros de lei­te por real inves­ti­do e a do reba­nho em litros de lei­te por vaca. À medi­da que a tec­no­lo­gia de pro­du­ção vai se ajus­tan­do e moder­ni­zan­do, geral­men­te a pro­du­ti­vi­da­de de cada um des­ses fato­res vai se elevando. 

Moni­to­rar a vari­a­ção da pro­du­ti­vi­da­de é, por­tan­to, uma boa estra­té­gia para veri­fi­car se as tec­no­lo­gi­as de pro­du­ção estão evo­luin­do e em qual velo­ci­da­de. Uma for­ma sim­ples de ana­li­sar a evo­lu­ção das tec­no­lo­gi­as uti­li­za­das nas fazen­das de lei­te é veri­fi­car o com­por­ta­men­to da pro­du­ti­vi­da­de ani­mal. Na Amé­ri­ca do Sul, o Bra­sil, a Argen­ti­na e o Uru­guai são os três prin­ci­pais paí­ses pro­du­to­res de lei­te. O Bra­sil se des­ta­ca pelo seu alto volu­me de pro­du­ção: 33,8 bilhões de litros em 2018, 3,2 vezes mai­or que a pro­du­ção da Argen­ti­na (10,5 bilhões de litros) e 15,7 vezes mai­or que a do Uru­guai (2,2 bilhões de litros), o que colo­ca o País como ter­cei­ro mai­or pro­du­tor de lei­te do mundo. 

1 Evolução percentual da produtividade do rebanho leiteiro no período de 2000 a 2018 (2000 = 100)

Ape­sar da ele­va­da pro­du­ção inter­na, o Bra­sil é impor­ta­dor líqui­do de lei­te, devi­do ao seu gran­de mer­ca­do inter­no e a ques­tões de com­pe­ti­ti­vi­da­de inter­na­ci­o­nal. Argen­ti­na e Uru­guai, embo­ra com pro­du­ção menor, des­ta­cam-se como expor­ta­do­res de lei­te, prin­ci­pal­men­te pela pro­por­ção expor­ta­da em rela­ção à sua pro­du­ção inter­na. Por outro lado, quan­do se foca na tec­no­lo­gia de pro­du­ção, esti­ma­da pela pro­du­ti­vi­da­de do reba­nho, o Bra­sil fica bem atrás dos seus dois vizi­nhos. Em 2018, a pro­du­ti­vi­da­de média do reba­nho bra­si­lei­ro, em litros de lei­te por vaca por ano, era de 2.069 litros, bem abai­xo do desem­pe­nho pro­du­ti­vo das vacas do Uru­guai (2.837 litros) e menor ain­da do que pro­du­zi­am as vacas argen­ti­nas (6.596 litros). Vale des­ta­car, no entan­to, que estes valo­res refle­tem médi­as. No Bra­sil, exis­tem mui­tas fazen­das com ele­va­da pro­du­ti­vi­da­de ani­mal, atin­gin­do pata­ma­res simi­la­res aos de reba­nhos europeus. 

Uma ques­tão ani­ma­do­ra, no entan­to, é que a pro­du­ti­vi­da­de rela­ti­va do reba­nho lei­tei­ro no Bra­sil, que refle­te bem a moder­ni­za­ção tec­no­ló­gi­ca das fazen­das, vem cres­cen­do de for­ma bem mais rápi­da do que na Argen­ti­na e no Uru­guai (Grá­fi­co 1). De 2000 a 2018, a pro­du­ti­vi­da­de das vacas no Bra­sil cres­ceu 82%, bem aci­ma do obser­va­do na Argen­ti­na (60%) e no Uru­guai (40%). Obser­va-se ain­da que o cres­ci­men­to da pro­du­ti­vi­da­de do nos­so reba­nho foi con­tí­nuo no perío­do, mos­tran­do, por­tan­to, que a tec­no­lo­gia uti­li­za­da nas fazen­das bra­si­lei­ras vem se moder­ni­zan­do de for­ma con­sis­ten­te e cada vez mais rápido. 

No Uru­guai, a pro­du­ti­vi­da­de per­ma­ne­ce esta­bi­li­za­da nos últi­mos sete anos, poden­do obser­var inclu­si­ve algu­ma redu­ção (-6%), entre 2012 e 2018. No caso da Argen­ti­na, o aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de não tem apre­sen­ta­do a mes­ma con­sis­tên­cia obser­va­da no Bra­sil, espe­ci­al­men­te a par­tir de 2011. Nes­te caso é impor­tan­te regis­trar que a pro­du­ti­vi­da­de argen­ti­na, des­de 1999, já tinha ultra­pas­sa­do a casa dos 4.000 kg/vaca/ano, che­gan­do a 6.600 kg/vaca/ano em 2018. A tec­no­lo­gia de pro­du­ção pra­ti­ca­da nas fazen­das argen­ti­nas, embo­ra ain­da ascen­den­te, pode estar atin­gin­do o limi­te gené­ti­co atu­al do rebanho. 

2 Evolução percentual do número de vacas leiteiras no período de 2000 a 2018 (2000 = 100)

No Bra­sil, este limi­te ain­da per­ma­ne­ce dis­tan­te, uma vez que só em 2018 nos­sa pro­du­ti­vi­da­de che­gou pró­xi­mo a 2.100 kg/vaca/ano, pata­mar que a Argen­ti­na já tinha alcan­ça­do há 30 anos. Uma ques­tão a se obser­var é que o cres­ci­men­to da pro­du­ti­vi­da­de do reba­nho vem acom­pa­nha­do de uma cons­tan­te redu­ção per­cen­tu­al do núme­ro de vacas, sobre­tu­do no Bra­sil e Argen­ti­na, a par­tir de 2012, fato que não tem sido obser­va­do no Uru­guai, onde o plan­tel de vacas está mais ou menos esta­bi­li­za­do (Grá­fi­co 2). Este com­por­ta­men­to leva a crer que a moder­ni­za­ção das fazen­das lei­tei­ras, prin­ci­pal­men­te na Argen­ti­na e no Bra­sil, é decor­ren­te prin­ci­pal­men­te da ele­va­ção do poten­ci­al gené­ti­co do reba­nho, acom­pa­nha­do da neces­sá­ria ade­qua­ção do mane­jo, da nutri­ção e da sani­da­de dos ani­mais, além da mai­or meca­ni­za­ção e inten­si­fi­ca­ção dos mode­los de produção. 

Além des­sas ques­tões tec­no­ló­gi­cas, é impor­tan­te men­ci­o­nar outras dife­ren­ças entre esses paí­ses. A pri­mei­ra é o gran­de núme­ro ain­da de fazen­das que che­gam a 1,176 milhão no Bra­sil (embo­ra rapi­da­men­te cain­do em núme­ro e aumen­tan­do em esca­la de pro­du­ção), enquan­to na Argen­ti­na não pas­sa de 12 mil e, no Uru­guai, 3 mil fazendas. 

No caso da Argen­ti­na, mere­ce des­ta­que tam­bém a cri­se polí­ti­ca e econô­mi­ca enfren­ta­da pelo país nos últi­mos anos, com infla­ção e taxa de juros ele­va­das, deses­ti­mu­lan­do e invi­a­bi­li­zan­do inves­ti­men­tos na pro­du­ção, inclu­si­ve entre os pecu­a­ris­tas. As medi­das do gover­no para con­ter a infla­ção vêm punin­do os inves­ti­do­res, inclu­si­ve desen­co­ra­jan­do os pro­du­to­res de lei­te, que estão man­ten­do a ofer­ta total de lei­te do país ins­tá­vel e pra­ti­ca­men­te estag­na­da no sal­do dos últi­mos 12 anos (Grá­fi­co 3). 

No Uru­guai, pro­du­to­res tra­di­ci­o­nais de lei­te estão dei­xan­do a ati­vi­da­de por enfren­tar pro­ble­mas, prin­ci­pal­men­te com a mão de obra cada vez mais escas­sa e cara no país. Os pre­ços tam­bém são meno­res que os rece­bi­dos pelos pro­du­to­res bra­si­lei­ros, pois estão his­to­ri­ca­men­te ali­nha­dos ao pre­ço médio inter­na­ci­o­nal, uma vez que o Uru­guai expor­ta gran­de par­te de sua pro­du­ção, já que a popu­la­ção local não absor­ve toda a ofer­ta inter­na. No Bra­sil, os pro­du­to­res de mai­or esca­la, espe­ci­al­men­te nas regiões Sul e Sudes­te, têm regis­tra­do um aumen­to de pro­du­ti­vi­da­de bem aci­ma da média naci­o­nal e já exis­te ele­va­do núme­ro de muni­cí­pi­os com pro­du­ti­vi­da­de pró­xi­ma ou até supe­ri­or às médi­as da Argen­ti­na e do Uruguai. 

3 Evolução percentual da produção total de leite no período de 2000 a 2018 (2000 = 100)

Coautores: Denis Teixeira da Rocha – analista da Embrapa Gado de Leite; Glauco Rodrigues Carvalho – pesquisador da Embrapa Gado de Leite

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