Fazendas leiteiras ganham sustentabilidade com o programa produtor de água - Digital Balde Branco
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Não se pode pensar hoje num sistema profissional de produção de leite sem os requisitos da sustentabilidade, a começar pela proteção dos recursos hídricos

ÁGUA

Fazendas leiteiras ganham sustentabilidade

com o programa produtor de água

São propriedades em Guaratinguetá (SP) que participam de iniciativas de proteção ambiental, baseadas em conhecimento técnico-científico, que trazem maior previsibilidade sobre a gestão dos recursos hídricos

João Carlos de Faria, texto e fotos 

No dia 22 de mar­ço foi come­mo­ra­do o Dia Mun­di­al da Água, que bus­ca des­per­tar na huma­ni­da­de o quão impor­tan­tes são os cui­da­dos, no cam­po e nas cida­des, para pre­ser­var esse recur­so essen­ci­al para a exis­tên­cia de todos os seres vivos do pla­ne­ta Ter­ra. Quan­do escas­sa, ela pro­vo­ca cala­mi­da­des; quan­do em exces­so, tra­gé­di­as. A Bal­de Bran­co, sem­pre divul­gan­do as boas prá­ti­cas na pro­du­ção lei­tei­ra com base na sus­ten­ta­bi­li­da­de, dá o mere­ci­do des­ta­que às ini­ci­a­ti­vas foca­das na ques­tão ambi­en­tal, com o olho no pre­sen­te e miran­do o futuro.

O Ribei­rão Gua­ra­tin­gue­tá nas­ce na Ser­ra da Man­ti­quei­ra e desem­bo­ca no Rio Paraí­ba do Sul, já na zona urba­na da cida­de de Gua­ra­tin­gue­tá, no Vale do Paraí­ba, que tem 95% do seu abas­te­ci­men­to com as águas des­te que é pra­ti­ca­men­te o seu úni­co manan­ci­al hídrico. 

Por isso, des­de 2011 toda a bacia hidro­grá­fi­ca do ribei­rão é o prin­ci­pal foco do Pro­gra­ma Pro­du­tor de Água, ini­ci­a­ti­va da pre­fei­tu­ra do muni­cí­pio, em par­ce­ria com a Com­pa­nhia de Ser­vi­ço de Água, Esgo­to e Resí­du­os de Gua­ra­tin­gue­tá (Saeg), Basf, Fun­da­ção Espa­ço Eco, Escri­tó­rio de Desen­vol­vi­men­to Rural de Gua­ra­tin­gue­tá (Cati/SAA) e Secre­ta­ria Muni­ci­pal de Meio Ambi­en­te, ins­pi­ra­do no pro­je­to Con­ser­va­dor das Águas, de Extre­ma (MG), o pri­mei­ro no País a pro­mo­ver uma ini­ci­a­ti­va des­sa natu­re­za, pre­mi­a­da pela Orga­ni­za­ção das Nações Uni­das (ONU).

Cer­ca de cem pro­pri­e­da­des rurais estão ao lon­go do tra­je­to do ribei­rão, entre elas, a Fazen­da San­ta Tere­zi­nha, pro­pri­e­da­de lei­tei­ra que é refe­rên­cia de pro­du­ti­vi­da­de na região, com reba­nho de 150 vacas em lac­ta­ção e pro­du­ção de 3.500 litros de leite/dia. Do Giro­lan­do ao Holan­dês, com a meta de che­gar a um grau de san­gue de 7/8 de Holan­dês, o padrão gené­ti­co da fazen­da vem evo­luin­do sem­pre, mas aten­ta à neces­si­da­de de ter ani­mais com mai­or resis­tên­cia para enfren­tar o calor da região e com a meta de che­gar à média de 30 litros/dia por animal. 

Sua his­tó­ria come­çou na déca­da de 1940, quan­do o minei­ro de Ita­ju­bá José de Faria deci­diu migrar para São Pau­lo e adqui­rir as ter­ras no bair­ro Capi­tu­ba, onde se ins­ta­lou, dan­do iní­cio à pro­du­ção de lei­te. Ati­vi­da­de que man­tém até hoje. No coman­do estão os irmãos Fábio e Mar­ce­lo Faria, a ter­cei­ra gera­ção da famí­lia, que assu­mi­ram o pos­to em 2010, quan­do fale­ceu o pai deles, José Geral­do Cal­ta­bi­a­no de Faria, que assu­mi­ra a fazen­da em 1958, quan­do ain­da tinha 15 anos.

Fábio Faria: “Se não tivesse reflorestado, protegendo as nascentes e adotado medidas de proteção ambiental, hoje estaria enfrentando dificuldades com o abastecimento de água no sistema de produção. Com certeza faltaria água”

Moti­va­ções – O obje­ti­vo do pro­gra­ma Pro­du­tor de Água é fomen­tar a qua­li­da­de e a dis­po­ni­bi­li­da­de de água para o abas­te­ci­men­to huma­no, mas, no caso da Fazen­da San­ta Tere­zi­nha, as ações desen­vol­vi­das nes­se sen­ti­do vão além dis­so e foram fun­da­men­tais para a pro­du­ção de leite. 

Fabio Faria con­ta que, ini­ci­al­men­te, o obje­ti­vo era “ape­nas” cum­prir as exi­gên­ci­as legais, advin­das com o novo Códi­go Flo­res­tal. “E, hoje, qual­quer tipo de finan­ci­a­men­to exi­ge que o pro­du­tor este­ja em dia com a legis­la­ção ambi­en­tal ou o dinhei­ro não é libe­ra­do. Esta foi uma for­ma de obri­gar o pro­du­tor a cum­prir a lei”, diz. 

Outra moti­va­ção é que, à épo­ca, a fazen­da já tinha pla­nos de ins­ta­lar o sis­te­ma de com­post barn, pas­san­do do semi­con­fi­na­men­to para o con­fi­na­men­to, con­for­me viria a acon­te­cer cer­ca de qua­tro anos atrás. “A gen­te pre­ci­sa de água por­que são 180 vacas que ‘moram’ no gal­pão e pre­ci­sam de água. Então, a segun­da ques­tão foi a quan­ti­da­de de água que seria neces­sá­ria e como iría­mos pro­du­zir essa água”, rela­ta o produtor. 

Em 2012 eles rece­be­ram a pri­mei­ra pro­pos­ta do Cor­re­dor Eco­ló­gi­co, uma Orga­ni­za­ção não Gover­na­men­tal (ONG) que dis­pu­nha de recur­sos para finan­ci­ar o reflo­res­ta­men­to de algu­mas áre­as da fazen­da. “Fica­mos rece­o­sos, assim como mui­tos outros pro­pri­e­tá­ri­os que não topa­ram, mas depois deci­di­mos par­ti­ci­par e aca­bou sen­do bom por­que faze­mos o reflo­res­ta­men­to sem cus­tos. Foi um segun­do pas­so.” Da área total da fazen­da, de 480 hec­ta­res, 80 hec­ta­res já foram recu­pe­ra­dos ao lon­go de dez anos. 

O melhor, no entan­to, segun­do Faria, foi cons­ta­tar, ao fim da pri­mei­ra eta­pa, após dois ou três anos do pri­mei­ro plan­tio, que a água esta­va mui­to mais abun­dan­te e já não fal­ta­va como nor­mal­men­te ocor­ria em anos ante­ri­o­res, prin­ci­pal­men­te no inver­no. “Come­ça­mos a ver que já não esta­va mais acon­te­cen­do isso”, recor­da. Hoje, a água uti­li­za­da no com­post barn vem de duas nas­cen­tes, sen­do uma de reserva. 

“O resul­ta­do foi uma sur­pre­sa, por­que na ver­da­de a gen­te não acre­di­ta­va. Hoje, depois de tudo, a gen­te real­men­te vê que não fal­ta mais água e, pelo con­trá­rio, tem aumen­ta­do.” Essa dis­po­ni­bi­li­da­de, segun­do Faria, tor­nou viá­vel o con­fi­na­men­to ado­ta­do na fazen­da, por­que em geral as vacas pre­ci­sam con­su­mir água na pro­por­ção do que pro­du­zem de leite. 

Hoje, na Fazenda Santa Terezinha, há água em abundância para atender às necessidades hídricas dos animais no compost barn e para a limpeza das instalações e dos equipamentos

“Para fazer um inves­ti­men­to des­se por­te e aumen­tar a pro­du­ti­vi­da­de, eu pre­ci­sa­va de água. Aqui, por onde as vacas andam, seja den­tro do gal­pão, seja no per­cur­so até orde­nha e na pró­pria sala de espe­ra, onde nor­mal­men­te elas são refres­ca­das, tem água à von­ta­de, pois é fun­da­men­tal, tan­to para a pro­du­ti­vi­da­de, quan­to para matar a sede.”

Cada vaca con­so­me em média 25 litros de água por dia, o que, soma­dos, resul­tam num total de 5 mil litros/dia para o reba­nho, mas se forem inclu­sas a lim­pe­za dos equi­pa­men­tos e a lava­gem dos está­bu­los, a deman­da pode dobrar. Por isso Faria reco­nhe­ce que, se não tives­se reflo­res­ta­do, pro­te­gen­do as nas­cen­tes e ado­ta­do medi­das de pro­te­ção ambi­en­tal, hoje esta­ria enfren­tan­do difi­cul­da­des com o abas­te­ci­men­to. “Hoje fal­ta­ria água, com cer­te­za”, afirma.

Além da far­tu­ra de nas­cen­tes – são 15 no total den­tro da pro­pri­e­da­de –, a fazen­da ain­da con­ta com a van­ta­gem de que toda a água uti­li­za­da em suas ins­ta­la­ções che­ga por gra­vi­da­de, o que reduz tam­bém o cus­to com ener­gia elé­tri­ca e con­se­quen­te­men­te o cus­to de pro­du­ção do leite.

Soma­das todas essas van­ta­gens, ain­da foi pos­sí­vel rece­ber um incen­ti­vo finan­cei­ro por meio do Paga­men­to por Ser­vi­ços Ambi­en­tais (PSA), rea­li­za­do anu­al­men­te pela pre­fei­tu­ra, con­for­me pre­vê a legis­la­ção que cri­ou o pro­gra­ma Pro­du­tor de Água. A últi­ma par­ce­la rece­bi­da foi em 2020. Outra van­ta­gem pre­vis­ta na lei é de que todos os even­tu­ais cré­di­tos de car­bo­no a serem gera­dos em decor­rên­cia do pro­gra­ma são de titu­la­ri­da­de do pro­pri­e­tá­rio e podem ser comer­ci­a­li­za­dos por ele, algo que ain­da não vem sen­do explo­ra­do por Faria.

O valor rece­bi­do é cal­cu­la­do por hec­ta­re e de acor­do com as ações desen­vol­vi­das na pro­pri­e­da­de, como prá­ti­cas e mane­jos con­ser­va­ci­o­nis­tas de solo, melho­ri­as e recom­po­si­ção da vege­ta­ção nati­va e pro­te­ção de nas­cen­tes e matas cili­a­res que con­tri­bu­am para o aumen­to da infil­tra­ção de água no solo, a dimi­nui­ção dos pro­ces­sos ero­si­vos e sedi­men­ta­ção e o aumen­to da bio­di­ver­si­da­de local, con­for­me a pon­tu­a­ção esta­be­le­ci­da pelo edi­tal. O limi­te de área por pro­du­tor é de 30 hec­ta­res por ano e o valor pago varia de 10 a 30 Uni­da­des Fis­cais do Esta­do de São Pau­lo (Ufesp) por hectare/ano, cer­ca de R$ 290,90 a R$ 872,70/ha/ano.

Mudan­ça de men­ta­li­da­de – Inde­pen­den­te­men­te des­se paga­men­to, Faria admi­te que a men­ta­li­da­de em rela­ção à ques­tão ambi­en­tal mudou mui­to. “No iní­cio era por obri­ga­ção, mas depois vimos o resul­ta­do e hoje, quan­do falo com alguém que este­ja inde­ci­so em rela­ção a essas prá­ti­cas, eu reco­men­do, por­que sei que o resul­ta­do apa­re­ce e o bene­fí­cio é mui­to mai­or do que a gen­te pen­sa.” O uso de áre­as para a pro­te­ção das nas­cen­tes e de reflo­res­ta­men­to, segun­do ele, não atra­pa­lhou em nada o anda­men­to da fazen­da, que, além do lei­te tam­bém tem gado cor­te e agri­cul­tu­ra, com o plan­tio de milho – 2,5 mil toneladas/ano para uso pró­prio – e de soja, que é comercializada. 

Dois outros pro­je­tos de sus­ten­ta­bi­li­da­de estão na mira da fazen­da para os pró­xi­mos dois anos, segun­do Faria. O pri­mei­ro é a uti­li­za­ção de resí­du­os orgâ­ni­cos para a gera­ção de bio­e­ner­gia, com a ins­ta­la­ção de um bio­di­ges­tor, apro­vei­tan­do o gás que é pro­du­zi­do; o segun­do é a ins­ta­la­ção de pla­cas foto­vol­tai­cas para a gera­ção de ener­gia solar, “zeran­do” a con­ta, que hoje é de R$ 11 mil por mês, amor­ti­zan­do o inves­ti­men­to num pra­zo de ape­nas cin­co anos. 

“Está fal­tan­do recur­so para via­bi­li­zar esses pro­je­tos por­que, no momen­to, as con­di­ções de finan­ci­a­men­to estão mui­to des­fa­vo­rá­veis, mas não vai pas­sar de um ano para que se tor­nem rea­li­da­de. Se isso for pos­sí­vel, vamos pra­ti­ca­men­te alcan­çar a con­di­ção total de autos­su­fi­ci­ên­cia, pois tería­mos supri­das as duas prin­ci­pais neces­si­da­des da fazen­da, ou seja, a água e a ener­gia”, finaliza.

Prá­ti­cas con­ser­va­ci­o­nis­tas do solo – Pou­co mais de três quilô­me­tros de dis­tân­cia da Fazen­da San­ta Tere­zi­nha, no bair­ro do Rio Aci­ma, fica o Sítio San­to Expe­di­to, con­tem­pla­do pelo edi­tal de 2018, ain­da em vigor, uma vez que os con­tra­tos têm dura­ção de cin­co anos. Com uma área de 19,5 hec­ta­res, mais cin­co arren­da­dos na vizi­nhan­ça, a pro­pri­e­da­de tem um reba­nho de gado Jer­sey PO for­ma­do por 50 vacas, sen­do 25 em lac­ta­ção, com pro­du­ção de 250 litros de leite/dia, e ado­ta boas prá­ti­cas ambi­en­tais prin­ci­pal­men­te no mane­jo de pas­ta­gens e con­ser­va­ção do solo. “Antes de entrar no pro­gra­ma a gen­te já vinha reflo­res­tan­do algu­mas áre­as”, afir­mam os pro­pri­e­tá­ri­os, Tati­a­na Car­do­so de Frei­tas e Mar­cio Sata­li­no Mes­qui­ta. Além dis­so, já havia sido fei­to o ter­ra­ce­a­men­to das áre­as mais incli­na­das do sítio, com a fina­li­da­de de evi­tar o des­lo­ca­men­to do solo e bar­rar a erosão.

A úni­ca nas­cen­te da pro­pri­e­da­de, segun­do Tati­a­na, já vinha sen­do cui­da­da des­de 2016 e, depois de pro­te­gi­da, teve o pro­ces­so de res­tau­ra­ção da vege­ta­ção nati­va oti­mi­za­do. Todo o mate­ri­al uti­li­za­do para o iso­la­men­to da área onde está loca­li­za­da foi finan­ci­a­do pelo pro­gra­ma Pro­du­tor de Água e, além dis­so, a pro­pri­e­da­de já rece­beu três par­ce­las do Paga­men­to por Ser­vi­ços Ambi­en­tais, refe­ren­tes aos anos de 2019, 2020 e 2021.

Tatiana Freitas: “Todo o material utilizado para o isolamento da área onde está localizada a nascente foi financiado pelo programa Produtor de Água e, além disso, a propriedade já recebeu três parcelas do Pagamento por Serviços Ambientais, referentes aos anos de 2019, 2020 e 2021”

No total, são 11 hec­ta­res inclu­sos no pro­gra­ma, sen­do meio hec­ta­re da nas­cen­te que foi pro­te­gi­da e áre­as de pas­ta­gens (10,5 hec­ta­res), nas quais algu­mas prá­ti­cas que já havi­am sido ado­ta­das, o que somou na hora da con­ces­são dos bene­fí­ci­os. Por enquan­to, a água uti­li­za­da no dia a dia da ati­vi­da­de lei­tei­ra ain­da é toda extraí­da de um poço arte­si­a­no, mas há pla­nos para que, futu­ra­men­te, a água da nas­cen­te seja usa­da pelo menos para a irri­ga­ção dos pique­tes do sis­te­ma de pro­du­ção e ali­men­ta­ção do rebanho.

Os cui­da­dos ado­ta­dos para a con­ser­va­ção do solo e a recu­pe­ra­ção das pas­ta­gens são evi­dên­ci­as de que o mane­jo das áre­as de pique­te é fei­to da for­ma mais ade­qua­da ambi­en­tal­men­te, o que inclui a cala­gem e a adu­ba­ção perió­di­ca, esti­mu­lan­do a fer­ti­li­da­de do solo. São três módu­los de pas­te­jo e 75 pique­tes, sen­do um com tif­ton e dois com bra­quiá­ria maran­du (bra­qui­a­rão).

“O pro­ces­so é con­tí­nuo e ter um mane­jo cor­re­to das pas­ta­gens para man­ter a água na área faz toda a dife­ren­ça tam­bém para a qua­li­da­de da pas­ta­gem e, por con­sequên­cia, influ­en­cia na pro­du­ção, pois, com boa ali­men­ta­ção, a pro­du­ti­vi­da­de tam­bém melho­ra e os cus­tos se redu­zem. No fim das con­tas, fecha­mos um ciclo”, afir­ma Tatiana.

Programa é uma parceria público-privada e paga mentos se tornam política pública municipal

 
Um balan­ço fei­to pela Secre­ta­ria de Agri­cul­tu­ra da Pre­fei­tu­ra de Gua­ra­tin­gue­tá no fim de 2021 apon­ta que 67 pro­pri­e­da­des já foram bene­fi­ci­a­das pelo Pro­gra­ma Pro­du­tor de Água, sen­do 23 no pri­mei­ro edi­tal, em 2011; mais 30, em 2012 e 14 no últi­mo edi­tal, rea­li­za­do em 2018.

Des­de o iní­cio, os cus­tos são divi­di­dos entre o Ser­vi­ço de Águas, Esgo­to e Resí­du­os de Gua­ra­tin­gue­tá, que já apor­tou um total de R$ 240 mil, ou R$ 80 mil para cada edi­tal, e a Basf, que des­ti­nou R$ 150 mil, em três par­ce­las de R$ 50 mil, soman­do um valor total de R$ 390 mil de inves­ti­men­tos, dos quais R$ 302,3 mil em Paga­men­tos por Ser­vi­ços Ambientais.

Como esses paga­men­tos se tor­na­ram uma polí­ti­ca públi­ca ampa­ra­da por lei muni­ci­pal, o pro­gra­ma tam­bém con­ta com recur­sos orça­men­tá­ri­os da pró­pria pre­fei­tu­ra, o que ele­va esse valor apli­ca­do para R$ 765 mil. Além da remu­ne­ra­ção aos pro­du­to­res, os recur­sos tam­bém ser­vem para a aqui­si­ção de equi­pa­men­tos, paga­men­to de mão de obra e ins­ta­la­ção de fos­sas, em ações de sane­a­men­to na bacia, que tam­bém fazem par­te do programa.

A enge­nhei­ra agrô­no­ma Melis­sa Biza­rel­li (foto), res­pon­sá­vel téc­ni­ca pela ini­ci­a­ti­va no âmbi­to da Secre­ta­ria de Agri­cul­tu­ra, afir­ma que o pro­gra­ma, que con­ta com o empe­nho do secre­tá­rio Júlio César Ramos da Sil­va, teve seu iní­cio em 2010, ten­do como um de seus prin­ci­pais men­to­res o enge­nhei­ro agrô­no­mo Mar­cos Mar­ti­nel­li, do Escri­tó­rio de Desen­vol­vi­men­to Rural de Gua­ra­tin­gue­tá (Cati/SAA), que pra­ti­ca­men­te fez todos os estu­dos e for­ma­tou o pro­je­to ao qual con­ti­nua se dedicando.

A esco­lha da bacia do Ribei­rão Gua­ra­tin­gue­tá, além de ser o manan­ci­al de abas­te­ci­men­to da cida­de, levou em con­ta o fato de já ter sido ante­ri­or­men­te obje­to de outros pro­je­tos, como o pro­gra­ma esta­du­al de micro­ba­ci­as hidro­grá­fi­cas e por ser o ribei­rão um aflu­en­te do Rio Paraí­ba do Sul.

Por isso, mui­tos dos par­ti­ci­pan­tes do pri­mei­ro edi­tal, em 2011, como a Fazen­da San­ta Tere­zi­nha, já havi­am pas­sa­do por essas ini­ci­a­ti­vas que esta­vam em anda­men­to ou já havi­am sido desen­vol­vi­das ante­ri­or­men­te, como o Cor­re­dor Eco­ló­gi­co, cita­do por Fábio Faria. A par­tir de 2012, quan­do um novo edi­tal foi lan­ça­do, as par­ce­ri­as foram sen­do esten­di­das para outros pro­je­tos, com recur­sos vin­dos de outras fon­tes, como o Fun­do Esta­du­al de Recur­sos Hídri­cos (Fehi­dro).

Mudan­ças e par­ti­ci­pa­ção – “Em 2017, come­ça­mos a mudar o foco, pois o con­se­lho ges­tor viu que era pre­ci­so ter mai­or par­ti­ci­pa­ção do pro­du­tor, per­ce­ben­do que esta­va haven­do um con­cei­to erra­do sobre a ini­ci­a­ti­va. Hoje o pro­du­tor tam­bém tem de ser par­cei­ro do pro­gra­ma e dar uma con­tra­par­ti­da, na mai­o­ria dos casos ofe­re­cen­do a mão de obra neces­sá­ria para a exe­cu­ção do pro­je­to, sob a ori­en­ta­ção da equi­pe téc­ni­ca”, afir­ma. Isso solu­ci­o­na um dos pro­ble­mas que é exa­ta­men­te a fal­ta de mão de obra. Outras con­di­ções exi­gi­das para par­ti­ci­par do pro­gra­ma é a apre­sen­ta­ção do Cadas­tro Ambi­en­tal Rural (CAR) e a nega­ti­va por par­te da Cetesb quan­to a pos­sí­veis infra­ções ambi­en­tais come­ti­das pelo produtor.

O pro­je­to tem vári­as eta­pas: na pri­mei­ra, que ocor­reu em 2018, foi fei­ta a recu­pe­ra­ção de nas­cen­tes e para isso o pro­du­tor rece­beu todo o mate­ri­al neces­sá­rio para iso­lar e pro­te­ger a área. “Só o fato de iso­lar a nas­cen­te, a mata já come­ça a se rege­ne­rar”, diz a agrô­no­ma. No segun­do ano, em 2019, o tra­ba­lho fei­to foi para a con­ser­va­ção do solo; em 2020 e 2021, as ações estão sen­do vol­ta­das para o sane­a­men­to e já foram ins­ta­la­das 44 fos­sas sép­ti­cas bio­di­ges­to­ras, em subs­ti­tui­ção às cha­ma­das “fos­sas negras”.

Resul­ta­dos – A men­su­ra­ção dos resul­ta­dos, segun­do Melis­sa, ain­da não foi fei­ta em ter­mos quan­ti­ta­ti­vos para medir o volu­me de água, mas a obser­va­ção e os rela­tos dos pro­du­to­res são sinais cla­ros de que hou­ve incre­men­to real na pro­du­ção de água. Um estu­do rea­li­za­do pela Fun­da­ção Eco, par­cei­ra do pro­gra­ma des­de 2014, tam­bém apon­ta o aumen­to de 3,4% da absor­ção de água pela bacia e redu­ção de 18,9% da taxa de ero­são do solo.

Segun­do o bió­lo­go Tia­go Egy­dio Bar­re­to (foto), coor­de­na­dor de Sus­ten­ta­bi­li­da­de Apli­ca­da da Fun­da­ção Espa­ço Eco, que é a res­pon­sá­vel pelo cor­po téc­ni­co que dá supor­te con­sul­ti­vo nas ati­vi­da­des de res­tau­ra­ção flo­res­tal, entre outras, e na ges­tão do pro­gra­ma, ao lon­go de dez anos a ini­ci­a­ti­va já pro­mo­veu impac­tos posi­ti­vos em cer­ca de 415 hec­ta­res, den­tre recu­pe­ra­ção e con­ser­va­ção de flo­res­tas e prá­ti­cas con­ser­va­ci­o­nis­tas de solo.

“Os fenô­me­nos cli­má­ti­cos podem afe­tar a quan­ti­da­de de chu­vas, mas nos­sas ações podem afe­tar nega­ti­va­men­te ou posi­ti­va­men­te a dis­po­ni­bi­li­da­de hídri­ca. Por isso, pla­ne­jar e desen­vol­ver ini­ci­a­ti­vas como esta, base­a­das em conhe­ci­men­to téc­ni­co-cien­tí­fi­co, pen­san­do em cau­sa e efei­to, traz mai­or pre­vi­si­bi­li­da­de sobre a ges­tão de pro­ces­sos, inclu­si­ve no abas­te­ci­men­to hídri­co”, afir­ma Barreto.