Flores do inverno - Digital Balde Branco

TENDÊNCIAS

Pedro Braga Arcuri 

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

“Essa tendência é irreversível: os consumidores – nós – valorizamos práticas e atitudes diárias que diminuam as causas que promovem alterações no clima”

Flores do inverno 

Na minha infân­cia, agos­to era o mês das man­guei­ras come­ça­rem a flo­ra­da, dos mulun­gus tin­gi­dos de ver­me­lho, ipês ama­re­los e do assa-pei­xe reple­to de abe­lhas. Era frio, e seco, mas não fal­ta­va água de mina. Hoje, no frio de agos­to, as flo­ra­das são irre­gu­la­res, nenhu­ma névoa mati­nal, o ribei­rão qua­se seco, a água vem de um poço. A seca bra­si­lei­ra des­te ano, segun­do espe­ci­a­lis­tas, será das mai­o­res da his­tó­ria. A TV e a Inter­net tra­zem notí­ci­as de incên­di­os enor­mes que cobrem as cida­des do Cen­tro-Oes­te de fuli­gem e fuma­ça. No calo­rão do Hemis­fé­rio Nor­te além dos incên­di­os ocor­rem chu­vas dilu­vi­a­nas, arras­tan­do his­tó­ri­as e vidas. São as mudan­ças climáticas. 

O cli­ma está menos con­fiá­vel. Para mim, essa é a defi­ni­ção para “mudan­ças cli­má­ti­cas”. Mais seca, mais frio, mais calor, mais tem­pes­ta­des, e tudo acon­te­cen­do em épo­cas ines­pe­ra­das, em inten­si­da­de nun­ca vis­ta. A natu­re­za tam­bém fica meio ton­ta. Man­guei­ras e jabu­ti­ca­bei­ras dão flo­res fora da épo­ca, o milho cres­ce, mas em segui­da não tem chu­va para encher fru­tos e espigas. 

O cli­ma menos con­fiá­vel aumen­ta mui­to o ris­co e os cus­tos de qual­quer ati­vi­da­de agro­pe­cuá­ria. Como pla­ne­jar o inves­ti­men­to para uma cul­tu­ra pro­du­ti­va e lucra­ti­va? Garan­tir for­ra­gem para o Gado? E os grãos? A indús­tria de segu­ros é hoje uma das que mais inves­te na ava­li­a­ção dos ris­cos que as mudan­ças cli­má­ti­cas podem tra­zer, tama­nho têm sido os pre­juí­zos cau­sa­dos por essas “catás­tro­fes natu­rais”, cuja inten­si­da­de e frequên­cia são aumen­ta­das pela inter­fe­rên­cia huma­na no ambiente. 

Para fazer fren­te às mudan­ças cli­má­ti­cas, toda a Huma­ni­da­de pre­ci­sa recon­si­de­rar como tra­ta­mos a Natu­re­za. Essa afir­ma­ti­va, de tão vaga, é pou­co útil. Por isso, as gran­des empre­sas estão se repo­si­ci­o­nan­do, se ade­quan­do rapi­da­men­te para con­ti­nu­a­rem a gerar pro­du­tos e terem lucro, mas de modo a dimi­nuí­rem o impac­to das suas ati­vi­da­des no ambi­en­te. O ter­mo “sus­ten­ta­bi­li­da­de” está sen­do cada vez mais vin­cu­la­do com ati­tu­des con­cre­tas para dimi­nuir o efei­to das mudan­ças cli­má­ti­cas. Na TV e outras mídi­as a sigla ASG é des­ta­que. Em inglês é ESG, para Ambi­en­te (Envi­ron­men­tal), Soci­al e Gover­nan­ce. Gover­nos e gran­des empre­sas, além de vári­os cien­tis­tas, sabem que o aumen­to dos fenô­me­nos natu­rais inten­sos e mais fre­quen­tes cau­sa aumen­to dos cus­tos, mui­tas vezes enor­mes pre­juí­zos. Vão acon­te­cer mais falên­ci­as. Gover­nos terão des­pe­sas mui­to mai­o­res para repa­ra­rem pos­tes, pon­tes, estra­das e, pior, arcar com vidas perdidas. 

É melhor e mais lucra­ti­vo tra­ba­lhar com prin­cí­pi­os ASG/ESG, ado­tar e divul­gar que são uti­li­za­dos pro­to­co­los e prá­ti­cas cer­ti­fi­ca­das. Assim, os con­su­mi­do­res vão con­ti­nu­ar com­pran­do seus pro­du­tos, sem se sen­ti­rem cul­pa­dos por con­tri­buir para “pio­rar o cli­ma”. Essa ten­dên­cia é irre­ver­sí­vel: os con­su­mi­do­res – nós — valo­ri­za­mos prá­ti­cas e ati­tu­des diá­ri­as que dimi­nu­am as cau­sas que pro­mo­vem alte­ra­ções no cli­ma. A empre­sa, indús­tria de lati­cí­ni­os ou pro­pri­e­da­de que tenha um cer­ti­fi­ca­do ASG/ESG tem como garan­tir que pre­ser­va o ambi­en­te. Tem como demons­trar que segue prin­cí­pi­os de jus­ti­ça soci­al, res­pei­tan­do mino­ri­as e dan­do con­di­ções de tra­ba­lho, tudo isso res­pei­tan­do leis e normas.

Como as gran­des empre­sas, que que­rem garan­tir sua exis­tên­cia e seus lucros, da mes­ma for­ma os Pro­du­to­res de Lei­te podem garan­tir sua ati­vi­da­de e dei­xar sua pro­pri­e­da­de melhor para seus suces­so­res. Pre­ser­var suas nas­cen­tes e reser­vas flo­res­tais, evi­tar quei­ma­das e o uso exces­si­vo de adu­bos e outros insu­mos, reci­clar emba­la­gens, tudo isso é fun­da­men­tal. Para a sus­ten­ta­bi­li­da­de da ati­vi­da­de lei­tei­ra, para pro­du­zir com lucro, o cli­ma pre­ci­sa ser pre­vi­sí­vel, ter esta­bi­li­da­de, já que não é con­tro­lá­vel. E no futu­ro, com chu­vas regu­la­res como há pou­cos anos, as flo­ra­das pode­rão colo­rir o inver­no, em agosto.

Rolar para cima