Fome no celeiro - Digital Balde Branco

OPINIÃO

Ciro Rosolem

vice-presidente de Comunicação do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)

Fome no celeiro

Em 7 de junho foi cele­bra­do o Dia Mun­di­al da Segu­ran­ça Ali­men­tar. A data foi esta­be­le­ci­da pela ONU em 2018, com o obje­ti­vo de ins­pi­rar ações que aju­dem a pre­ve­nir, detec­tar e geren­ci­ar ris­cos de ori­gem ali­men­tar, con­tri­buin­do para segu­ran­ça ali­men­tar, saú­de, direi­tos huma­nos, pros­pe­ri­da­de econô­mi­ca, agri­cul­tu­ra, aces­so a mer­ca­dos, turis­mo e desen­vol­vi­men­to sustentável.

Mas o Bra­sil é o celei­ro do mun­do. Pro­du­zi­mos o sufi­ci­en­te para 1 bilhão de pes­so­as, e temos pou­co mais de 200 milhões viven­do aqui. Mui­to se fala do cres­ci­men­to e suces­so da agri­cul­tu­ra bra­si­lei­ra. Afi­nal, somos top 5 no mun­do em 30 pro­du­tos agrí­co­las. Real­men­te está­va­mos indo mui­to bem. Em 2014 havía­mos, pela pri­mei­ra vez, saí­do do mapa da fome das Nações Uni­das. Foi uma con­quis­ta do desen­vol­vi­men­to agrí­co­la, pro­du­zin­do ali­men­tos mais bara­tos, em con­jun­ção com polí­ti­cas públi­cas de auxí­lio dire­to aos vul­ne­rá­veis. Entre­tan­to, a par­tir daí, segun­do o IBGE, a inse­gu­ran­ça ali­men­tar gra­ve vol­tou a cres­cer, e bas­tan­te, 8% ao ano. Con­sequên­cia da estag­na­ção econô­mi­ca, e não da fal­ta de comi­da. Entre 2011 e 2020 o setor de ser­vi­ços cres­ceu 1,5% e a indús­tria enco­lheu 12,8%. No mes­mo perío­do, a agro­pe­cuá­ria cres­ceu 25,4%.

Ago­ra, com os pro­ble­mas agra­va­dos pela pan­de­mia, segun­do a Rede Bra­si­lei­ra de Pes­qui­sa em Sobe­ra­nia e Segu­ran­ça Ali­men­tar e Nutri­ci­o­nal, ao fim de 2020 pra­ti­ca­men­te meta­de da popu­la­ção bra­si­lei­ra sofria algum grau de inse­gu­ran­ça ali­men­tar. Qua­se 20 milhões de bra­si­lei­ros pade­ci­am de inse­gu­ran­ça gra­ve, ou seja, fome mes­mo. O mais inte­res­san­te é que, tan­to no mun­do como no Bra­sil, a inse­gu­ran­ça ali­men­tar é bem mai­or no cam­po do que nas cida­des. Prin­ci­pal­men­te entre peque­nos agri­cul­to­res em ter­ras mar­gi­nais. A fome no celeiro.

Tudo isso apa­re­ce com mui­ta cla­re­za na gran­de vitri­ne que são os super­mer­ca­dos, pois a car­ne subiu, o fei­jão subiu, o arroz subiu, a ver­du­ra está pelo olho da cara, e assim por dian­te. Apa­ren­te­men­te a agri­cul­tu­ra é uma das vilãs da inse­gu­ran­ça ali­men­tar. Ora, se pro­du­zi­mos mui­to e expor­ta­mos bas­tan­te, por que os bra­si­lei­ros estão sofren­do essa inse­gu­ran­ça ali­men­tar? Cul­pa da agri­cul­tu­ra de expor­ta­ção? Do poder econô­mi­co? Não mes­mo! Só um exem­plo: nos últi­mos dez anos cres­ceu a ofer­ta de arroz, mes­mo com redu­ção de qua­se 50% na área cul­ti­va­da, pre­ser­van­do o ambi­en­te. Um estu­do recen­te do Ins­ti­tu­to Mil­le­nium deta­lhou diver­sos efei­tos posi­ti­vos do cres­ci­men­to da agro­pe­cuá­ria na gera­ção de empre­gos e ren­da, além de redu­ção das desigualdades.

Por diver­sos moti­vos, os pro­du­tos agrí­co­las estão mais caros ulti­ma­men­te. O pro­ble­ma é que pou­cos olham para trás e per­ce­bem quan­to tem­po os pre­ços cres­ce­ram menos que a infla­ção. Com todos os rea­jus­tes ocor­ri­dos, segun­do o Die­e­se, em 2000, um salá­rio míni­mo com­pra­va 1,28 ces­ta bási­ca, em 2021 com­pra 1,58. Ou seja, com todos esses aumen­tos, a agri­cul­tu­ra bra­si­lei­ra ain­da está pro­du­zin­do ali­men­tos rela­ti­va­men­te bara­tos. Os pre­ços dos ali­men­tos cres­ce­ram menos que o valor do salá­rio mínimo.

Então qual o pro­ble­ma real, e como resol­vê-lo? Não é sim­ples, mas já apren­de­mos algu­mas coi­sas. O prin­ci­pal moti­vo da inse­gu­ran­ça ali­men­tar é fal­ta de ren­da, não de ali­men­to. Embo­ra polí­ti­cas públi­cas de trans­fe­rên­cia dire­ta de ren­da sejam impor­tan­tes em deter­mi­na­dos momen­tos, ficou cla­ro que não se cons­ti­tu­em em solu­ção. Não dimi­nui a depen­dên­cia, é pali­a­ti­va. Onde a agri­cul­tu­ra tec­no­ló­gi­ca, orga­ni­za­da, cres­ceu, melho­rou o nível de empre­go e ren­da da popu­la­ção. Então, con­tra a inse­gu­ran­ça ali­men­tar o remé­dio é empre­go. No Bra­sil, quan­do a eco­no­mia parou, aumen­tou a insegurança.

Pas­mem, a inse­gu­ran­ça é mai­or entre os agri­cul­to­res fami­li­a­res, que rece­bem 70% das sub­ven­ções gover­na­men­tais para o setor agro­pe­cuá­rio. Algo não está fun­ci­o­nan­do bem, mais uma vez pare­ce que o dinhei­ro não está sen­do bem empre­ga­do. É que não bas­ta dar ter­ra. É pre­ci­so ensi­nar a pro­du­zir. Assis­tên­cia téc­ni­ca de qua­li­da­de, sem ide­o­lo­gi­as, sem polí­ti­ca. E, infe­liz­men­te, temos vis­to o setor de assis­tên­cia téc­ni­ca públi­ca enco­lher. Veja-se o exem­plo do Esta­do de São Pau­lo, com o des­man­te­la­men­to da Cati, que cui­da­va do assunto.

 

*Ciro Roso­lem tam­bém é pro­fes­sor titu­lar da Facul­da­de de Ciên­ci­as Agrí­co­las da Uni­ver­si­da­de Esta­du­al Pau­lis­ta “Júlio de Mes­qui­ta Filho” (FCA/Unesp Botucatu)

Rolar para cima