Fotossensibilização: prevenir é melhor que precisar tratar os animais - Digital Balde Branco
revista-balde-branco-fotossensibilização-01-ed682

O produtor deve estar atento aos primeiros sinais de problema na pele dos animais e tomar providências imediatamente

SAÚDE ANIMAL

Fotossensibilização:

prevenir é melhor que precisar tratar os animais

A fotossensibilização traz prejuízos importantes ao rebanho de bovinos de leite, refletidos na redução da produção leiteira e, em casos graves, causa a morte de animais

Gisele Dela Ricci*

A fotos­sen­si­bi­li­za­ção é conhe­ci­da popu­lar­men­te como sape­ca ou requei­ma. É cau­sa­da por um fun­go, que se pro­li­fe­ra em ervas dani­nhas de for­ra­gei­ras, espe­ci­al­men­te em pas­ta­gens de Bra­chi­a­ria decum­bens, mas outras espé­ci­es como Bra­chi­a­ria sp, como a Bri­zantha, podem oca­si­o­nar a doen­ça. Defi­ni­da como uma der­ma­ti­te, é cau­sa­da por uma res­pos­ta exa­ge­ra­da da sen­si­bi­li­da­de da pele dos ani­mais a rai­os sola­res. No Bra­sil, geral­men­te é obser­va­da em bovi­nos na ida­de que vai da des­ma­ma até os dois anos, em média, assim como em bovi­nos adul­tos. Ani­mais de pele cla­ra, sem pig­men­ta­ção, têm dis­po­si­ção a desen­vol­ver a fotossensibilização.

A fotos­sen­si­bi­li­za­ção é des­cri­ta como pri­má­ria e secun­dá­ria. Para a pri­má­ria, a plan­ta pos­sui um pig­men­to que é absor­vi­do pelo intes­ti­no do bovi­no, atra­ves­sa a bar­rei­ra do fíga­do e cai na cir­cu­la­ção san­guí­nea, se enca­mi­nhan­do para a pele. 

A secun­dá­ria é conhe­ci­da como a for­ma hepá­ti­ca (fíga­do) e é a de mai­or ocor­rên­cia. Acon­te­ce quan­do há inges­tão de subs­tân­ci­as tóxi­cas res­pon­sá­veis por lesões no fíga­do, cau­san­do difi­cul­da­de em fil­trar e desin­to­xi­car o orga­nis­mo dos ani­mais. Com a fal­ta de eli­mi­na­ção des­sas subs­tân­ci­as, elas se acu­mu­lam na pele e, em con­ta­to com o sol, geram a fotossensibilização.

Em um reba­nho, o núme­ro de ani­mais afe­ta­do é variá­vel, poden­do ser obser­va­dos pou­cos ou em qua­se a tota­li­da­de. A mor­ta­li­da­de é bai­xa, no entan­to, em casos de sur­tos, per­das sig­ni­fi­ca­ti­vas ocor­rem. Nor­mal­men­te, casos de fotos­sen­si­bi­li­da­de são esporádicos.

Pas­tos de B. decum­bens aos quais bovi­nos não têm aces­so por lon­gos perío­dos são cau­sas de fotos­sen­si­bi­li­da­de, poden­do cau­sar séri­os pro­ble­mas em ani­mais de qual­quer ida­de, inclu­si­ve casos de mor­ta­li­da­de. Impor­tan­te des­ta­car que a ocor­rên­cia da doen­ça no fim da esta­ção seca é gra­ve, tor­nan­do- se crí­ti­ca nas pri­mei­ras chu­vas, jun­ta­men­te com o iní­cio da bro­ta­ção da pas­ta­gem no solo.

Ao identificar a doença, deve-se colocar os animais em locais sombreados para evitar sua exposição ao sol

Sin­to­mas da doen­ça – A fotos­sen­si­bi­li­da­de é carac­te­ri­za­da por feri­das na pele, incha­ço da face, con­jun­ti­vi­te, inqui­e­ta­ção ou apa­tia, desi­dra­ta­ção, fal­ta de ape­ti­te, per­da de peso, aumen­to do volu­me de uri­na e enru­ga­men­to, com for­ma­ção de cros­tas em mui­tas exten­sões da pele. 

O diag­nós­ti­co deve ser fei­to por um médi­co vete­ri­ná­rio, por meio de sinais clí­ni­cos, detec­ção de foto­to­xi­nas, bióp­sia de pele e fíga­do e necropsia.

Após se iden­ti­fi­car a fotos­sen­si­bi­li­za­ção, a pri­mei­ra ação deve ser a reti­ra­da dos ani­mais da pas­ta­gem de bra­quiá­ria e da expo­si­ção ao sol, enca­mi­nhan­do os ani­mais a ambi­en­te bem som­bre­a­do, uma vez que não há tra­ta­men­to espe­cí­fi­co para a intoxicação.

Subs­tân­ci­as pro­te­to­ras do fíga­do devem ser uti­li­za­das em con­jun­to com a admi­nis­tra­ção de vita­mi­na A, bus­can­do esti­mu­lar a reno­va­ção da pele e dos pelos, asso­ci­a­da ain­da a cor­ti­coi­des, poma­das com ação cica­tri­zan­te e pro­te­to­res sola­res em regiões mui­to afe­ta­das pela doen­ça. Anti­bió­ti­cos podem ser uti­li­za­dos em casos de lesões cutâ­ne­as gra­ves, a fim de evi­tar infec­ções secun­dá­ri­as de bactérias. 

Os tra­ta­men­tos são efi­ci­en­tes na cura da doen­ça, no entan­to é pre­ci­so que haja inter­ven­ção rápi­da no iní­cio dos sinais clí­ni­cos, não per­mi­tin­do que a doen­ça evo­lua para qua­dros graves.

A pre­ven­ção da doen­ça se baseia na não uti­li­za­ção de bra­quiá­ria, espe­ci­al­men­te, a B. decum­bens para nutri­ção de bovi­nos jovens; em não des­ma­mar bezer­ros em Bra­chi­a­ria decum­bens e vari­ar as plan­tas no desen­vol­vi­men­to das pas­ta­gens (no ori­gi­nal, são lis­ta­das algu­mas refe­rên­ci­as bibli­o­grá­fi­cas. Os inte­res­sa­dos podem entrar con­ta­to com a Bal­de Branco).

Para evitar essa doença, é preciso cuidados para garantir sombreamento para os animais

*Gise­le Dela Ric­ci é Zoo­tec­nis­ta, mes­tra, dou­to­ra e pós-dou­to­ran­da pela USP. Atua no labo­ra­tó­rio de Eto­lo­gia, bio­cli­ma­to­lo­gia e nutri­ção de ani­mais de pro­du­ção (bovi­nos, suí­nos e ovinos)