Genoma tem bom indicador para fertilidade - Digital Balde Branco
revista-balde-branco-fertilidade-01-ed684

DPR é um indicador da habilidade genética de um animal em melhorar a eficiência reprodutiva, sendo calculado a partir da possibilidade que a filha de um touro tem para emprenhar

FERTILIDADE

Genoma tem bom indicador para

FERTILIDADE

É o que reforça recente estudo brasileiro sobre a taxa de prenhez das filhas (DPR) feito com mais de 3 mil vacas Holandesas de alta produção

Luiz H. Pitombo

Não faz mui­to tem­po que come­ça­ram a sur­gir as pri­mei­ras pes­qui­sas de cam­po asso­ci­an­do aspec­tos da fer­ti­li­da­de das fême­as ao mar­ca­dor mole­cu­lar DPR (daugh­ter preg­nancy rate, em inglês), des­per­tan­do mai­or inte­res­se no assun­to. As melho­res fazen­das que se uti­li­zam da geno­ti­pa­gem e rece­bem essa infor­ma­ção, além de outras a serem empre­ga­das na sele­ção, já estão aten­tas e uti­li­zam este índi­ce. Assim como as cen­trais de inse­mi­na­ção, os médi­cos vete­ri­ná­ri­os e aque­les que estão pre­o­cu­pa­dos com a esfe­ra reprodutiva.

“Nin­guém faz sele­ção por uma carac­te­rís­ti­ca iso­la­da, mas esta­mos cha­man­do a aten­ção com os dados que levan­ta­mos em nos­so estu­do que a DPR é um mar­ca­dor espe­cí­fi­co de gran­de impac­to na repro­du­ção e que gos­ta­ría­mos que fos­se obser­va­do com mais aten­ção”, ava­lia o médi­co vete­ri­ná­rio José Luiz Vas­con­ce­los, o pro­fes­sor Zequi­nha, da Uni­ver­si­da­de Esta­du­al Pau­lis­ta Júlio de Mes­qui­ta Filho (Unesp-Botu­ca­tu).

Ele par­ti­ci­pou do gru­po de tra­ba­lho que se debru­çou sobre o assun­to jun­to com mais outros qua­tro pes­qui­sa­do­res, três bra­si­lei­ros, sen­do dois resi­den­tes no Cana­dá, e mais um ori­gi­ná­rio daque­le país. O arti­go com esses resul­ta­dos foi enca­mi­nha­do ao reco­nhe­ci­do Jour­nal of Dairy Sci­en­ce, dos Esta­dos Uni­dos, onde foi elo­gi­a­do e deve­rá ser publi­ca­do em bre­ve, con­fir­man­do dados de pes­qui­sas ante­ri­o­res fei­tas no exte­ri­or e tra­zen­do outros iné­di­tos em âmbi­to mundial.

Uma mai­or aten­ção a esse índi­ce no Bra­sil deve­rá acon­te­cer, segun­do apos­ta Vas­con­ce­los, à medi­da que se melho­rar o enten­di­men­to a seu res­pei­to e uso. Resu­mi­da­men­te, a DPR é um indi­ca­dor da habi­li­da­de gené­ti­ca de um ani­mal em melho­rar a efi­ci­ên­cia repro­du­ti­va, sen­do cal­cu­la­do a par­tir da pos­si­bi­li­da­de que a filha de um tou­ro tem para empre­nhar. Assim, esco­lhen­do sêmen de um tou­ro com índi­ce mais ele­va­do se pode­rá con­se­guir fême­as com melhor DPR e mai­or fertilidade.

Prof. Zequinha: “Dados que levantamos em nosso estudo mostram que a DPR é um marcador específico de grande impacto na reprodução e que gostaríamos que fosse observado com mais atenção”

Augusto Madureira: “Num desses estudos foi identificado que a cada ponto a mais no índice foi reduzido em quatro o número de dias em aberto da fêmea”

Novi­da­des e usos – O zoo­tec­nis­ta Augus­to Madu­rei­ra, que tam­bém par­ti­ci­pou da pes­qui­sa e hoje leci­o­na na Uni­ver­si­da­de de Guelph, no Cana­dá, con­ta que estu­dos ante­ri­o­res mos­tra­ram os efei­tos da DPR na pre­nhez da pri­mei­ra inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al (IA), no cio de novi­lhas e na pre­nhez obti­da por IA. Num des­ses estu­dos foi iden­ti­fi­ca­do que a cada pon­to a mais no índi­ce foi redu­zi­do em qua­tro o núme­ro de dias em aber­to da fêmea.

No tra­ba­lho que rea­li­za­ram tam­bém foram apro­fun­da­das essas carac­te­rís­ti­cas, além de outras novas, como a asso­ci­a­ção da DPR com a per­da de ges­ta­ção, na expres­são do cio de todas as cate­go­ri­as e na trans­fe­rên­cia de embriões (TE).

Madu­rei­ra expli­ca que cada um des­ses aspec­tos tem sua influên­cia na fer­ti­li­da­de e, assim, na ren­ta­bi­li­da­de de uma fazen­da lei­tei­ra. Como esta depen­de da pro­du­ção de lei­te e de um bezer­ro nas­ci­do por ano, apon­ta que, se a fêmea empre­nhar logo na pri­mei­ra IA, mai­or será a pro­du­ti­vi­da­de atin­gi­da, redu­zin­do dias em aber­to e aumen­tan­do os ganhos. No caso de a fêmea não empre­nhar de pri­mei­ra, será pre­ci­so se espe­rar mais um ciclo de 21 dias a cada nova ten­ta­ti­va, com o ani­mal nos novos perío­dos que forem neces­sá­ri­os se aguar­dar somen­te se ali­men­tan­do e tra­zen­do uni­ca­men­te gas­tos, pois esta­rá vazio.

Como demons­tra­do em outras pes­qui­sas fei­tas pelo mes­mo gru­po, quan­to mai­or a demons­tra­ção de cio no dia da inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al em tem­po fixo (IATF) e no cio espon­tâ­neo (sem uso de hormô­ni­os), mai­or será a pro­ba­bi­li­da­de de a fêmea empre­nhar e menor será a per­da ges­ta­ci­o­nal. Além do pre­juí­zo cau­sa­do pelo embrião per­di­do, a demo­ra em se iden­ti­fi­car o ocor­ri­do tra­rá mais dias em aberto.

Con­si­de­ran­do que a pro­pri­e­da­de tenha boas ins­ta­la­ções e um bom mane­jo para que o ani­mal expres­se seu poten­ci­al livre de outros pro­ble­mas, a iden­ti­fi­ca­ção na geno­ti­pa­gem da DPR em bezer­ras e novi­lhas, ali­a­da a outros índi­ces de inte­res­se do pro­du­tor, pode ser­vir como linha de cor­te na sele­ção, des­car­tan­do, ou não, aque­las de menor índi­ce, evi­tan­do-se inves­tir na cri­a­ção e manu­ten­ção de fême­as com bai­xa fertilidade.

Outra pos­si­bi­li­da­de de apli­ca­ção é na defi­ni­ção da estra­té­gia repro­du­ti­va a ser uti­li­za­da em deter­mi­na­da fêmea, ou seja, a opção pelo tipo de sêmen (con­ven­ci­o­nal, sexa­do e de cor­te) ou a TE. Se esta tiver uma alta DPR pode-se uti­li­zar um sêmen sexa­do de um tou­ro de melhor qua­li­da­de, pois a chan­ce de ela empre­nhar e man­ter a ges­ta­ção será mai­or. Caso con­trá­rio, pode-se optar por um sêmen con­ven­ci­o­nal, de cor­te ou a TE, se alme­jar um mai­or ganho genético.

 

Fon­te da pes­qui­sa - Para sua rea­li­za­ção foi uti­li­za­do no estu­do o ban­co de dados do reba­nho Holan­dês da pro­pri­e­da­de lei­tei­ra da Seki­ta Agro­ne­gó­ci­os, em São Gotar­do (MG). As aná­li­ses englo­ba­ram infor­ma­ções refe­ren­tes ao perío­do de janei­ro de 2018 até mar­ço de 2020 per­ten­cen­tes a 3.499 fême­as, das quais 1.220 (34,9%) eram nulí­pa­ras, 1.314 (37,6%) pri­mí­pa­ras e 965 (27,5%) mul­tí­pa­ras. A pos­si­bi­li­da­de de se dis­por de tan­tos ani­mais e o bom volu­me de dados nor­mal­men­te cole­ta­dos pela fazen­da, como ava­lia o zoo­tec­nis­ta, foi impor­tan­te para via­bi­li­zar e dar peso ao trabalho.

O mane­jo da fazen­da não sofreu inter­fe­rên­cia, com as nulí­pa­ras fican­do ins­ta­la­das em com­post barn sen­do ali­men­ta­das duas vezes ao dia com ração total. As vacas em lac­ta­ção (pri­mí­pa­ras e mul­tí­pa­ras), man­ti­das em free stalls, tam­bém eram ali­men­ta­das com ração total, mas três vezes ao dia. Em 2018, a pro­du­ção média men­sal máxi­ma de lei­te atin­giu 38,7 kg/vaca/dia, em 2019 ela ficou em 38,3 kg/vaca/dia e em 2020 che­gou a 40,8 kg/vaca/dia.

A geno­ti­pa­gem dos ani­mais já era ado­ta­da na fazen­da por meio da aná­li­se de amos­tras do pelo da cau­da, na mai­or par­te das vezes cole­ta­da quan­do os ani­mais tinham em tor­no de dois meses de idade.

Antes de rea­li­za­da a inse­mi­na­ção, as vacas tinham seu ová­rio ava­li­a­do por meio de ultras­so­no­gra­fia trans­re­tal e entra­vam na lis­ta de pré-sin­cro­ni­za­ção em pro­to­co­lo de IATF à base de estra­di­ol e pro­ges­te­ro­na. Esses ani­mais (pri­mí­pa­ras e mul­tí­pa­ras) eram sele­ci­o­na­dos para rece­ber tan­to sêmen con­ven­ci­o­nal como sexa­do de repro­du­to­res que aten­di­am ao pro­gra­ma de cru­za­men­tos da propriedade.

As nulí­pa­ras, por sua vez, eram inse­mi­na­das com sêmen sexa­do, tam­bém sele­ci­o­na­do de acor­do a meta da fazen­da, com o cio espon­tâ­neo sen­do detec­ta­do com colar com sen­sor ou por indi­ca­dor ade­si­vo colo­ca­do na base da cau­da do ani­mal. Para o implan­te de embriões ou o uso de sêmen de cor­te, as vacas esco­lhi­das per­ten­ci­am ao gru­po das 10% infe­ri­o­res do reba­nho em qual­quer uma das seguin­tes carac­te­rís­ti­cas: GTPI (índi­ce com­bi­nan­do pro­du­ção, lon­ge­vi­da­de, saú­de e fer­ti­li­da­de) ou o méri­to líqui­do; pro­du­ção lei­te; dias em lac­ta­ção e vacas que pre­ci­sam de mais de qua­tro inse­mi­na­ções. Todos os embriões eram de fer­ti­li­za­ção in vitro (FIV).

O diag­nós­ti­co de pre­nhez para todas as cate­go­ri­as de fême­as foi rea­li­za­do por ultras­so­no­gra­fia trans­re­tal 32 dias após a IA e a con­fir­ma­ção aos 60 dias da IA. Já as per­das ges­ta­ci­o­nais foram con­si­de­ra­das nas fême­as diag­nos­ti­ca­das pre­nhas aos 32 dias da IA, mas que esta­vam vazi­as aos 60 dias da IA.

Considerando que a propriedade tenha boas instalações e um bom manejo para que o animal expresse seu potencial livre de outros problemas, a identificação na genotipagem da DPR em bezerras e novilhas, aliada a outros índices de interesse do produtor, pode servir como linha de corte na seleção

Se a fêmea tiver uma alta DPR pode-se utilizar um sêmen sexado de um touro de melhor qualidade, pois a chance de ela emprenhar e manter a gestação será maior

Índi­ces e asso­ci­a­ções – As aná­li­ses mos­tra­ram que a DPR dos ani­mais do reba­nho vari­ou numa fai­xa de ‑5,2 até 5,5. No ano de 2018 a média geral da DPR dos ani­mais atin­giu ‑0,98, para em 2019 ficar em ‑0,57 e no seguin­te ‑0,46. “Esta mudan­ça com o DPR che­gan­do cada vez mais per­to do zero mos­tra que um inves­ti­men­to gran­de foi sen­do rea­li­za­do, tra­zen­do uma melho­ra expres­si­va na gené­ti­ca da fazen­da”, ava­lia o zoo­tec­nis­ta Madu­rei­ra. Acom­pa­nhan­do esse movi­men­to, os índi­ces gerais de pre­nhez por IA foram de 36,8%, 42% e 44,2%, res­pec­ti­va­men­te nos anos de 2018, 2019 e 2020.

Cor­ro­bo­ran­do com os comen­tá­ri­os ante­ri­o­res, ele diz que, na pes­qui­sa, as nulí­pa­ras, ani­mais jovens, apre­sen­ta­ram uma DRP média de ‑0,14, enquan­to as pri­mí­pa­ras ‑0,72 e as mul­tí­pa­ras ‑0,89, mais velhas. Pelo fato de serem médi­as gerais, expli­ca que cer­tos ani­mais aca­bam puxan­do um pou­co para bai­xo os resul­ta­dos gerais. Mes­mo índi­ces nega­ti­vos, quan­to mais per­to do zero esti­ve­rem, se tra­du­zem em fême­as com mai­or fer­ti­li­da­de, embo­ra seja pre­ci­so res­sal­tar que os posi­ti­vos são os melhores.

As con­clu­sões, váli­das para todas as cate­go­ri­as de fême­as (nulí­pa­ras e vacas em lac­ta­ção), mos­tra­ram que as DPRs mais ele­va­das esta­vam asso­ci­a­das a mai­o­res chan­ces de pre­nhez na pri­mei­ra IA, na pre­nhez por IA e meno­res pos­si­bi­li­da­des de per­das ges­ta­ci­o­nais. Elas tam­bém reve­la­ram que, quan­to mais ele­va­das, mai­o­res as chan­ces de demons­tra­ção de cio no dia da IATF. Quan­to à demons­tra­ção do cio espon­tâ­neo, o zoo­tec­nis­ta acre­di­ta que tam­bém ocor­ra uma mai­or manifestação.

Um dado rele­van­te que foi igual­men­te iden­ti­fi­ca­do, e que se ali­nha a uma visão con­tem­po­râ­nea do assun­to, é a ques­tão envol­ven­do a alta pro­du­ção de lei­te e a fer­ti­li­da­de. No estu­do, foi apre­sen­ta­da uma peque­na cor­re­la­ção nega­ti­va entre esses dois aspec­tos, além do fato de se pode­rem encon­trar vacas alta­men­te fér­teis e pro­du­ti­vas. “Isso suge­re que se pos­sa sele­ci­o­nar ani­mais por esses dois genó­ti­pos”, comen­ta Madureira.

O médi­co vete­ri­ná­rio Thi­a­go Gui­da, tam­bém inte­gran­te do estu­do e que na oca­sião era o res­pon­sá­vel pela repro­du­ção da fazen­da, con­ta que já uti­li­za­vam na sele­ção do reba­nho as PTAs genô­mi­cas (habi­li­da­de de trans­mis­são pre­vis­ta, do inglês), incluin­do a DPR, mes­mo antes do estu­do, pois sem­pre acre­di­ta­ram na tec­no­lo­gia. “A pes­qui­sa com­pro­vou seus bene­fí­ci­os e ain­da nos sur­pre­en­deu quan­do demons­trou que vacas com mai­or DPR apre­sen­ta­vam menor per­da de ges­ta­ção, além da melhor fertilidade.” 

Ele infor­ma que a pro­pri­e­da­de con­ti­nua a uti­li­zar a geno­ti­pa­gem em todo reba­nho e que este deve estar entre os melho­res do País em fer­ti­li­da­de. Con­for­me enfa­ti­za, “numa fazen­da de lei­te cada deta­lhe impor­ta (ges­tão, bem-estar ani­mal, sani­da­de, mane­jo e outros) para se atin­gi­rem e se man­te­rem resul­ta­dos excelentes”.

Segun­do o zoo­tec­nis­ta Augus­to Madu­rei­ra, a DPR é um índi­ce tam­bém apli­cá­vel para outras raças como Giro­lan­do e Jer­sey, por exem­plo. Como nem todas as per­gun­tas que sur­gi­ram duran­te o tra­ba­lho obti­ve­ram res­pos­tas, diz que as pes­qui­sas deve­rão con­ti­nu­ar. Mas o estu­do, como afir­ma, “já demons­trou a impor­tân­cia da gené­ti­ca na fer­ti­li­da­de e na manu­ten­ção da gestação”.