Genotipagem embrionária é a nova fronteira do melhoramento genético - Digital Balde Branco
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SELEÇÃO GENÔMICA

Genotipagem embrionária é a

nova fronteira do

melhoramento genético

Já é possível fazer seleção genômica de embriões produzidos in vitro, segundo pesquisas da Embrapa Gado de Leite 

Clara Slade Oliveira, Luiz Sérgio A. Camargo e Marcos Vinícius G. B. Silva*

A sele­ção genô­mi­ca é uma pode­ro­sa fer­ra­men­ta para o melho­ra­men­to gené­ti­co dos reba­nhos bovi­nos. Ela per­mi­te a sele­ção pre­co­ce de ani­mais jovens de mai­or méri­to gené­ti­co, aumen­tan­do os ganhos gené­ti­cos anu­ais. Na últi­ma déca­da, essa prá­ti­ca dei­xou as ban­ca­das dos labo­ra­tó­ri­os para se incor­po­rar ple­na­men­te ao setor pro­du­ti­vo, trans­for­man­do-se em mais uma fer­ra­men­ta de desen­vol­vi­men­to da cadeia pro­du­ti­va do leite. 

Rea­li­za­da, a prin­cí­pio, com tou­ros e vacas jovens, antes que estes sejam incor­po­ra­dos aos tes­tes de pro­gê­nie, a sele­ção genô­mi­ca eco­no­mi­za tem­po e, prin­ci­pal­men­te, dinhei­ro. Só entram nos tes­tes os ani­mais que reve­lam, pre­vi­a­men­te, gran­de poten­ci­al. As fazen­das mais tec­ni­fi­ca­das uti­li­zam lar­ga­men­te essa fer­ra­men­ta e já se pre­pa­ram para dar um sal­to ain­da mai­or. Hoje, a ciên­cia já per­mi­te que essa ava­li­a­ção pos­sa ser adi­an­ta­da antes do nas­ci­men­to do ani­mal. Tra­ta-se da sele­ção genô­mi­ca fei­ta a par­tir de embriões.

Os pes­qui­sa­do­res que assi­nam este arti­go, em cola­bo­ra­ção com a Fazen­das do Basa, rea­li­za­ram estu­dos para ava­li­ar e vali­dar a bióp­sia embri­o­ná­ria no pro­ces­so de geno­ti­pa­gem. Em outras pala­vras, o que pre­ten­de­mos é esti­mar os valo­res genô­mi­cos não mais de tou­ri­nhos e novi­lhas, mas do embrião fecun­da­do in vitro, tor­nan­do o pro­ces­so de sele­ção ain­da mais precoce. 

A bióp­sia para a esti­ma­ti­va do valor genô­mi­co do embrião já é uma prá­ti­ca em alguns pou­cos paí­ses euro­peus, como Fran­ça e Holan­da, e nos Esta­dos Uni­dos, prin­ci­pal­men­te em embriões pro­du­zi­dos in vivo e de raças de ori­gem euro­peia. No entan­to, a apli­ca­ção da téc­ni­ca em embriões pro­du­zi­dos in vitro é um desa­fio, sobre­tu­do no Bra­sil, onde mais de 90% dos embriões são gera­dos pela pro­du­ção in vitro e com gran­de par­ti­ci­pa­ção das raças zebuínas. 

Mas, afi­nal, é pos­sí­vel esti­mar os valo­res genô­mi­cos em embriões pro­du­zi­dos in vitro com acu­rá­cia e sem pre­ju­di­car a ges­ta­ção? A res­pos­ta é sim! 

Embriões da raça Gir – Nos­sos tra­ba­lhos foram rea­li­za­dos com embriões da raça Gir, prin­ci­pal raça zebuí­na de apti­dão lei­tei­ra no Bra­sil e que é usa­da para a for­ma­ção do gado Giro­lan­do. Os estu­dos come­ça­ram em 2015, com os expe­ri­men­tos nos labo­ra­tó­ri­os e na fazen­da expe­ri­men­tal da Embra­pa Gado de Lei­te. Em segui­da, os resul­ta­dos foram vali­da­dos em roti­na comer­ci­al de pro­du­ção in vitro de embriões, com a impor­tan­te par­ti­ci­pa­ção da Fazen­das do Basa, que se mos­trou aber­ta à incor­po­ra­ção des­sa ino­va­ção em seu pro­gra­ma de sele­ção. Os resul­ta­dos demons­tra­ram que a bióp­sia dos embriões pro­du­zi­dos in vitro não inter­fe­re na taxa de pre­nhez (50,9% em nos­sos estu­dos) e pode, ain­da, con­tri­buir para a redu­ção das per­das gestacionais.

A pre­di­ção dos valo­res genô­mi­cos, asso­ci­a­da à impu­ta­ção de dados de geno­ti­pa­gem para os embriões biop­si­a­dos, apre­sen­tou cor­re­la­ção de 0,96 (96%) com os valo­res genô­mi­cos esti­ma­dos para os bezer­ros nas­ci­dos, com uma acu­rá­cia seme­lhan­te, mos­tran­do estrei­ta rela­ção entre a geno­ti­pa­gem do embrião e a do bezer­ro recém-nas­ci­do. Isso tor­na­rá a sele­ção genô­mi­ca embri­o­ná­ria mais uma fer­ra­men­ta para ace­le­rar o melho­ra­men­to do gado zebuí­no lei­tei­ro, per­mi­tin­do a sele­ção dos ani­mais antes mes­mo do par­to, ou até mes­mo a comer­ci­a­li­za­ção de embriões con­ge­la­dos já com valo­res genô­mi­cos calculados. 

OS RESULTADOS DEMONSTRARAM QUE A BIÓPSIA DOS EMBRIÕES PRODUZIDOS IN VITRO NÃO INTERFERE NA TAXA DE PRENHEZ (50,9% EM NOSSOS ESTUDOS) E PODE, AINDA, CONTRIBUIR PARA A REDUÇÃO DAS PERDAS GESTACIONAIS

Embo­ra nos­sos estu­dos não se esten­dam às ques­tões econô­mi­cas, o cus­to da geno­ti­pa­gem e da ava­li­a­ção genô­mi­ca é seme­lhan­te àque­le pago para ani­mais nas­ci­dos. Con­tu­do, devem ser soma­dos os cus­tos da bióp­sia no labo­ra­tó­rio, a qual pode ser fei­ta manu­al­men­te, e da ampli­fi­ca­ção do geno­ma embri­o­ná­rio pre­sen­te na bióp­sia. Toda­via, esses cus­tos podem ser com­pen­sa­dos pelo uso e pela manu­ten­ção de menor núme­ro de recep­to­ras, e per­mi­tem a diver­si­fi­ca­ção do mer­ca­do pelo ofe­re­ci­men­to do pro­du­to “embrião” com valor genômico.

O está­gio atu­al das pes­qui­sas demons­tra que a tec­no­lo­gia agre­ga valor aos embriões e às suas ges­ta­ções ao for­ne­cer o valor genô­mi­co esti­ma­do do futu­ro bezer­ro, ante­ci­pan­do o pro­ces­so sele­ti­vo em até sete meses antes do par­to ou até mes­mo antes da trans­fe­rên­cia caso a téc­ni­ca seja asso­ci­a­da ao con­ge­la­men­to do embrião. Isso per­mi­ti­rá uma melhor pro­gra­ma­ção para a fazen­da e para a comer­ci­a­li­za­ção de ges­ta­ções. A Embra­pa Gado de Lei­te já ini­ci­ou estu­dos para ava­li­ar a via­bi­li­da­de após cri­o­pre­ser­va­ção (con­ge­la­men­to) dos embriões biopsiados. 

Acre­di­ta­mos que os resul­ta­dos serão posi­ti­vos e per­mi­ti­rão que os embriões geno­ti­pa­dos sejam con­ser­va­dos e trans­fe­ri­dos para recep­to­ras de acor­do com o pla­ne­ja­men­to da fazen­da. A téc­ni­ca tam­bém abri­rá espa­ço para que os embriões, com o valor genô­mi­co já cal­cu­la­do, sejam comer­ci­a­li­za­dos, da mes­ma for­ma que o sêmen de tou­ros sele­ci­o­na­dos o são, abrin­do uma nova opor­tu­ni­da­de comer­ci­al para os cri­a­do­res. Acre­di­ta­mos ain­da que a sele­ção genô­mi­ca embri­o­ná­ria vai favo­re­cer tam­bém as empre­sas de pro­du­ção in vitro de embriões, ao agre­gar o ser­vi­ço de bióp­sia embri­o­ná­ria ao seu port­fó­lio de negócios.

Nos­sos estu­dos pros­se­guem numa pis­ta cujo hori­zon­te é cada vez mais pro­mis­sor. Essa pes­qui­sa tor­nou-se pos­sí­vel gra­ças aos recur­sos finan­cei­ros oriun­dos da Embra­pa, Fape­mig, Faperj e Fazen­das do Basa. É tam­bém impor­tan­te regis­trar a cola­bo­ra­ção dos pes­qui­sa­do­res Palo­ma Ita­ja­ra Otto (Uni­ver­si­da­de Fede­ral de San­ta Maria), Dar­le­ne Dal­tro (pós-dou­to­ran­da da Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Cri­a­do­res da Raça Giro­lan­do), Julia Medei­ros C. de Lima Mar­tins (Uni­ver­si­da­de Fede­ral Flu­mi­nen­se), Rodri­go Vito­rio Alon­so (Nelo­re Myo) e Luiz Fer­nan­do Féres (Fazen­das do Basa).

 

*Os auto­res são da Embra­pa Gado de Leite

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