Gestão: Como o produtor sabe melhor onde está o seu dinheiro - Digital Balde Branco
revista-balde-branco-gestao-01-ed670

O controle detalhado dos índices econômicos e financeiros está na base do sucesso da fazenda leiteira

GESTÃO

Com a gestão por resultados, 

o produtor sabe melhor onde está

O SEU DINHEIRO

Com essa metodologia, o pecuarista muda sua forma de gestão e tem maior domínio dos números, ao aprender a avaliar seus resultados 

João Antônio dos Santos

Mui­tos pro­du­to­res veem o dinhei­ro entran­do e sain­do da con­ta ban­cá­ria, mas não sabem ao cer­to para onde ele foi e quan­to foi gas­to duran­te o mês para pro­du­zir cada litro de lei­te. Para res­pon­der a essas e outras per­gun­tas exis­tem duas fer­ra­men­tas de extre­ma impor­tân­cia: o flu­xo de cai­xa e o cus­to de pro­du­ção, que demons­tram, res­pec­ti­va­men­te, os resul­ta­dos finan­cei­ros e econô­mi­cos do negó­cio, con­for­me assi­na­la o téc­ni­co Adri­a­no Bote­lho, do Núcleo Ges­tão do Lei­te do Reha­gro.

Antes de falar des­sas fer­ra­men­tas, ele expli­ca que há alguns pon­tos fun­da­men­tais para que sua ado­ção ocor­ra de manei­ra sóli­da. O pri­mei­ro deles é a estru­tu­ra­ção da cole­ta de dados para que os con­tro­les finan­cei­ro e econô­mi­co ocor­ram pos­te­ri­or­men­te. Por inter­mé­dio das defi­ni­ções do res­pon­sá­vel pelos lan­ça­men­tos de dados e da for­ma de regis­tro de todas as recei­tas e des­pe­sas, ini­cia-se o tra­ba­lho.

“Como o movi­men­to do dinhei­ro é mui­to dinâ­mi­co em uma fazen­da de lei­te, o flu­xo de cai­xa é sobe­ra­no nas toma­das de deci­sões. Ele mos­tra­rá o que a fazen­da pre­ci­sa pagar e deve­rá rece­ber no perío­do seguin­te”, nota ele. Ou seja, por meio do flu­xo de cai­xa, é pos­sí­vel então vis­lum­brar o sal­do num futu­ro pró­xi­mo, o que auxi­lia nas nego­ci­a­ções de pra­zos para paga­men­tos de for­ne­ce­do­res, nas defi­ni­ções de estra­té­gi­as de com­pras e tam­bém na neces­si­da­de de emprés­ti­mos ou ante­ci­pa­ção de ven­das de ani­mais, por exem­plo, com a inten­ção sem­pre de evi­tar o paga­men­to de juros ban­cá­ri­os.

Além de con­tri­buir para um melhor pla­ne­ja­men­to por meio da pre­vi­são de sal­do futu­ro, o flu­xo de cai­xa ser­ve tam­bém para evi­tar a ina­dim­plên­cia, tan­to de for­ne­ce­do­res quan­to de cli­en­tes. Além dis­so, per­mi­te ao pro­du­tor com­pre­en­der o movi­men­to do dinhei­ro, isto é, saber para onde foi o dinhei­ro. Este pode ter sido desem­bol­sa­do na ope­ra­ção da ati­vi­da­de, usa­do para pagar inves­ti­men­tos ou tam­bém para amor­ti­zar finan­ci­a­men­tos. “E enten­der esse des­ti­no de manei­ra deta­lha­da faz toda a dife­ren­ça na inter­pre­ta­ção do negó­cio e, con­se­quen­te­men­te, nas toma­das de deci­sões. Assim, essas aná­li­ses exi­gem um alto grau de con­fi­a­bi­li­da­de dos núme­ros gera­dos. Para isso, a con­ci­li­a­ção ban­cá­ria é fun­da­men­tal, ou seja, ter os sal­dos ban­cá­ri­os iguais aos valo­res apre­sen­ta­dos nos rela­tó­ri­os de cai­xa tra­zem uma tran­qui­li­da­de mui­to gran­de ao empre­sá­rio rural”, des­ta­ca Botelho.

Ape­sar de o flu­xo de cai­xa ser uma fer­ra­men­ta indis­pen­sá­vel para o pro­du­tor, ele não res­pon­de a todas as suas per­gun­tas acer­ca do desem­pe­nho de seu negó­cio, obser­va Bár­ba­ra Karo­li­na, tam­bém téc­ni­ca do Reha­gro. “Mui­tas vezes é pre­ci­so ava­li­ar o cus­to de pro­du­ção, pois por inter­mé­dio dele é pos­sí­vel medir a efi­ci­ên­cia do empre­en­di­men­to, pois ele demons­tra a apro­pri­a­ção dos cus­tos em rela­ção ao volu­me de lei­te pro­du­zi­do, con­si­de­ran­do o perío­do em que os recur­sos foram uti­li­za­dos”, expli­ca.

Des­sa manei­ra, é pos­sí­vel saber quan­to se gas­tou para pro­du­zir um litro de lei­te ao todo e tam­bém deta­lha­da­men­te com ali­men­ta­ção, sani­da­de, mão de obra e qual­quer outro com­po­nen­te do cus­to. “Como a ati­vi­da­de lei­tei­ra pos­sui ciclos de pro­du­ção men­sal e anu­al é inte­res­san­te que a aná­li­se do cus­to de pro­du­ção seja fei­ta men­sal e anu­al­men­te.”

Bote­lho e Bár­ba­ra res­sal­tam que não bas­ta visu­a­li­zar o cus­to de pro­du­ção em reais (R$) e por­cen­tu­al­men­te. É pre­ci­so sem­pre ter em men­te o seu resul­ta­do em reais por litro de lei­te pro­du­zi­do (R$/l). A ava­li­a­ção por uni­da­de pro­du­ti­va auxi­lia for­te­men­te na inter­pre­ta­ção dos resul­ta­dos. Um aumen­to abso­lu­to do cus­to ali­men­tar (em reais) pode não ser algo ruim, neces­sa­ri­a­men­te, caso este­ja aumen­tan­do tam­bém a pro­du­ção de lei­te. “Quan­do se ava­lia o resul­ta­do do cus­to ali­men­tar em R$/litro, é pos­sí­vel enten­der se hou­ve melho­ria ou não de efi­ci­ên­cia, bem como usar o mes­mo indi­ca­dor de outras fazen­das, o cha­ma­do ‘ben­ch­mar­king’, para enxer­gar pos­sí­veis opor­tu­ni­da­des de melho­ria”, diz Botelho.

Adriano Botelho: “Entender a destinação do dinheiro, de maneira detalhada, faz toda a diferença na interpretação do negócio, e, consequentemente, nas tomadas de decisões”

Cus­to de pro­du­ção – São diver­sos os aspec­tos econô­mi­cos e zoo­téc­ni­cos que têm efei­tos impor­tan­tes sobre o cus­to de pro­du­ção, como a vari­a­ção da média de pro­du­ção por vaca por dia, a vari­a­ção do núme­ro de ani­mais em lac­ta­ção, a ocor­rên­cia de des­per­dí­cio, os pre­ços dos prin­ci­pais insu­mos, entre outros itens. “Vale res­sal­tar que o per­fil com­por­ta­men­tal dos cus­tos influ­en­cia os resul­ta­dos de for­mas dife­ren­tes, já que os cus­tos variá­veis estão atre­la­dos dire­ta­men­te ao volu­me pro­du­zi­do, enquan­to os fixos não têm rela­ção dire­ta com a pro­du­ção”, expli­ca Bote­lho, obser­van­do que um cor­te de gas­tos com ali­men­ta­ção pode sig­ni­fi­car uma que­da de pro­du­ção e uma que­da nos resul­ta­dos econô­mi­cos. Cada caso é um caso e deve ser ava­li­a­do, con­si­de­ran­do-se o con­tex­to com­ple­to em que cada fazen­da está inserida.

Bár­ba­ra, por sua vez, nota que, além de ava­li­ar a efi­ci­ên­cia da fazen­da por meio da aná­li­se do cus­to de pro­du­ção, é pos­sí­vel com­pa­rar os resul­ta­dos dela com outras fazen­das que pos­su­em o mes­mo sis­te­ma. Com isso, con­se­gue-se saber em quais aspec­tos a fazen­da está melhor ou pior em rela­ção às demais, “o que per­mi­te ter a ideia do que elas fazem de dife­ren­te para obter deter­mi­na­do resul­ta­do que a fazen­da tam­bém pode­ria”. Essa fer­ra­men­ta cha­ma-se ben­ch­mar­king e, nele, por exem­plo, pode-se com­pa­rar os cus­tos de vacas e de recria.

Cri­ar cená­ri­os futu­ros – Até ago­ra, as fer­ra­men­tas apre­sen­ta­das por Bote­lho e Bár­ba­ra demons­tram o pas­sa­do rea­li­za­do, não apre­sen­tan­do cená­ri­os futu­ros de médio e lon­go pra­zos. Por isso, eles assi­na­lam que o flu­xo de cai­xa até pode con­ter infor­ma­ções futu­ras de cur­to pra­zo, mas é por meio da fase de “Pla­ne­ja­men­to Orça­men­tá­rio” que é pos­sí­vel tra­ba­lhar enxer­gan­do de for­ma ante­ci­pa­da cená­ri­os mais dis­tan­tes (veja Qua­dro).

O pro­ces­so de pla­ne­ja­men­to orça­men­tá­rio se ini­cia com o ques­ti­o­na­men­to dos obje­ti­vos dos pro­pri­e­tá­ri­os. “É neces­sá­rio que a fazen­da tenha um pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co pré­vio, ou seja, seus donos devem ter em men­te, de manei­ra cla­ra, aon­de que­rem che­gar em ter­mos de pro­du­ção, pro­du­ti­vi­da­de por ani­mal, resul­ta­dos espe­ra­dos. A par­tir da estra­té­gia defi­ni­da, par­ti­mos efe­ti­va­men­te para a ela­bo­ra­ção do orça­men­to anu­al”, diz Bote­lho.

Deta­lhan­do, Bár­ba­ra comen­ta que o orça­men­to se ini­cia pela defi­ni­ção de quan­tos ani­mais a fazen­da pos­sui­rá ao lon­go dos meses. Para isso, é pre­ci­so desen­vol­ver a evo­lu­ção de reba­nho, pro­je­tan­do men­sal­men­te o núme­ro de ani­mais em lac­ta­ção, no pré-par­to, vacas secas, bezer­ras em alei­ta­men­to, recria jovem e recria adul­ta. Em segui­da, é inclu­sa a meta men­sal de pro­du­ção de lei­te por vaca por dia, a meta do por­cen­tu­al de lei­te ven­di­do e a meta de pre­ço do lei­te, a par­tir do his­tó­ri­co do ano anterior.

“É impor­tan­te lem­brar que outras recei­tas, como ven­das de vacas de des­car­te, outras cate­go­ri­as ani­mais e outros pro­du­tos, caso a fazen­da tenha outros negó­ci­os, tam­bém são leva­das em con­si­de­ra­ção. Con­cluí­das as recei­tas, par­ti­mos para as des­pe­sas, sen­do a ali­men­ta­ção o mais impor­tan­te”, nota ela.

O orça­men­to da ali­men­ta­ção é fei­to por meio da defi­ni­ção das die­tas de cada cate­go­ria e dos pre­ços de cada insu­mo rela­ci­o­na­do com o núme­ro de ani­mais por cate­go­ria. Os outros itens, como medi­ca­men­tos, insu­mos des­ti­na­dos ao mane­jo repro­du­ti­vo dos ani­mais, entre outros, podem ser cal­cu­la­dos a par­tir do núme­ro de cabe­ças ou por litro de lei­te pro­du­zi­do. Os gas­tos fixos, como mão de obra, tele­fo­ne, inter­net, manu­ten­ções, mate­ri­al de escri­tó­rio, etc. devem ter suas metas esta­be­le­ci­das por meio do histórico.

Ela afir­ma ain­da que cus­tei­os, inves­ti­men­tos a serem fei­tos e os finan­ci­a­men­tos que a fazen­da paga tam­bém são con­si­de­ra­dos, já que esses itens, nor­mal­men­te, têm gran­de rele­vân­cia para o flu­xo de cai­xa.

Um pon­to fun­da­men­tal no pro­ces­so é que qual­quer melho­ria pro­pos­ta no orça­men­to deve ser acom­pa­nha­da de um pla­no de ação para que isso de fato acon­te­ça na prá­ti­ca. Não adi­an­ta colo­car no orça­men­to uma melho­ria, se na prá­ti­ca não hou­ver mudan­ças na fazen­da capa­zes de pro­por­ci­o­nar essa evo­lu­ção espe­ra­da.

Por sua vez, Bote­lho des­ta­ca que, fei­to o orça­men­to, é neces­sá­ria uma manei­ra prá­ti­ca e ágil de che­ca­gem dos resul­ta­dos alcan­ça­dos, para veri­fi­car se as metas de recei­tas e gas­tos foram atin­gi­das. “Com essa fina­li­da­de, foi desen­vol­vi­do pelo Reha­gro um rela­tó­rio dinâ­mi­co e auto­ma­ti­za­do, no qual é pos­sí­vel con­fron­tar o valor orça­do e o rea­li­za­do por mês e pelo perío­do acu­mu­la­do, fican­do bas­tan­te cla­ro o des­ti­no do dinhei­ro e em quais con­tas hou­ve desvios.”

Bárbara Karolina: “A metodologia, além de avaliar a eficiência da fazenda pela análise do custo de produção, torna possível comparar os resultados dela com outras fazendas que possuem o mesmo sistema”

Ele faz ques­tão de fri­sar que, a par­tir das expe­ri­ên­ci­as de pro­du­to­res com o tra­ba­lho de ges­tão por resul­ta­dos com foco finan­cei­ro e econô­mi­co, “per­ce­be-se uma for­te mudan­ça na for­ma de se fazer a ges­tão das pro­pri­e­da­des rurais. Os pro­du­to­res pas­sam a enxer­gar melhor seus núme­ros e apren­dem a ava­li­ar seus resul­ta­dos”.
Vale acres­cen­tar que o pro­je­to de ges­tão por resul­ta­dos é ape­nas um de três pila­res que sus­ten­tam o êxi­to de um negó­cio. “Os outros dois pila­res são a lide­ran­ça, repre­sen­ta­da pelo pro­du­tor rural, que é quem deci­de e faz as coi­sas acon­te­ce­rem, e a ges­tão téc­ni­ca, que vem dos téc­ni­cos de cam­po res­pon­sá­veis pelos aspec­tos de nutri­ção, repro­du­ção, sani­da­de, agri­cul­tu­ra, entre outros”, arre­ma­ta Botelho.

Infor­ma­ções: www.rehagro.com.br

Rolar para cima