Gir Leiteiro, como o próprio nome diz - Digital Balde Branco

Em entre­vis­ta exclu­si­va, Tati­a­ne Tetz­ner, a médi­ca vete­ri­ná­ria e geren­te de pro­du­to lei­te Zebu na cen­tral CRV Lagoa, des­cre­ve o poten­ci­al da raça na pecuá­ria lei­tei­ra do país

Por Nel­son Rentero

 O Gir Lei­tei­ro atu­al é fru­to de ações con­cre­tas de cri­a­do­res e sele­ci­o­na­do­res bra­si­lei­ros que res­ga­ta­ram a prin­ci­pal fun­ção da raça na Índia, seu ber­ço de ori­gem, que sem­pre foi pro­du­zir lei­te. Pro­gra­mas de melho­ra­men­to gené­ti­co inves­ti­ram em tal vir­tu­de e tem fei­to ani­mais moder­nos puros ou para cru­za­men­tos, segun­do Tati­a­na Tetz­ner, espe­ci­a­lis­ta na raça.

Recen­te­men­te lan­çou o livro Gir Lei­tei­ro: a Nos­sa Raça, reu­nin­do cer­ca de 15 anos de estu­do e conhe­ci­men­to envol­ven­do a raça zebuí­na. Tais pre­di­ca­dos têm lhe dado o cre­den­ci­a­men­to como jura­da de pis­ta, con­si­de­ra­da pio­nei­ra como mulher na fun­ção. Para isso ven­ceu resis­tên­cia com mui­ta com­pe­tên­cia e abriu a por­ta para outras pro­fis­si­o­nais. Já jul­gou cer­ca de 100 expo­si­ções no país e no Exte­ri­or, ava­li­an­do até hoje mais de 15 mil ani­mais, todos de raças de ori­gem zebuí­na, sua espe­ci­a­li­da­de e paixão.

Sobre essa expe­ri­ên­cia, o livro e a raça Gir Lei­tei­ro, Tati­a­ne con­ce­de esta entre­vis­ta exclu­si­va à Bal­de Bran­co. Com ple­no conhe­ci­men­to de cau­sa fala da impor­tân­cia da raça que tan­to admi­ra den­tro da pecuá­ria lei­tei­ra bra­si­lei­ra, como reba­nhos puros e como opção de cru­za­men­to. Dá des­ta­que espe­ci­al à recen­te evo­lu­ção gené­ti­ca da raça e os fato­res que con­tri­buí­ram para isso, como o pro­gra­ma de melho­ria gené­ti­ca ban­ca­do pela ABC­GIL-Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra dos Cri­a­do­res de Gir Lei­tei­ro e Embra­pa Gado de Leite.

Bal­de Bran­co — Você aca­ba de lan­çar o livro Gir Lei­tei­ro: a Nos­sa Raça. O que a levou a tal projeto?

Tati­a­ne Tetz­ner — Na rea­li­da­de o pro­je­to do livro sur­giu ao lon­go dos últi­mos anos em via­gens por paí­ses lati­no-ame­ri­ca­nos — daí a ver­são bilín­gue, por­tu­guês e espa­nhol. Escre­vi para aten­der tan­to aos pedi­dos de pecu­a­ris­tas e téc­ni­cos do Bra­sil, como de pecu­a­ris­tas e téc­ni­cos dos nos­sos paí­ses vizi­nhos, que mui­to me incen­ti­va­ram nos últi­mos anos para regis­trar o que apren­di sobre o Zebu Lei­tei­ro. Minha tra­je­tó­ria pro­fis­si­o­nal com a raça come­çou ain­da duran­te a gra­du­a­ção em medi­ci­na vete­ri­ná­ria na Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Uber­lân­dia e, prin­ci­pal­men­te, duran­te está­gio na Embra­pa Gado de Lei­te, quan­do conhe­ci o pes­qui­sa­dor Mário Luiz Mar­ti­nez e o médi­co vete­ri­ná­rio Luiz Ronal­do de Oli­vei­ra Pau­la, duas refe­rên­ci­as no Gir Lei­tei­ro e pro­fis­si­o­nais dedi­ca­dos, que mui­to fize­ram para que a raça con­quis­tas­se espa­ço na região tro­pi­cal de nos­so con­ti­nen­te. De lá para cá se pas­sa­ram 15 anos, um tem­po em que mui­to apren­di sobre o Gir, sua doci­li­da­de ímpar, seu olhar incom­pa­rá­vel, sua diver­si­da­de de pela­gem e sua apti­dão para pro­du­zir leite.

BB — Atri­buir tal títu­lo ao livro tem um sig­ni­fi­ca­do de mui­ta res­pon­sa­bi­li­da­de ao Gir Lei­tei­ro peran­te seu papel na pecuá­ria lei­tei­ra bra­si­lei­ra. A sra. pode­ria expli­car um pou­co des­ta sua crença?

TT - A pecuá­ria de lei­te no Bra­sil tem se moder­ni­za­do e atin­gi­do pata­ma­res excep­ci­o­nais nas últi­mas déca­das. No entan­to, vive­mos a rea­li­da­de de um país con­ti­nen­te e com isso temos diver­si­da­des eda­fo­cli­má­ti­cas, pre­do­mi­nan­do o cli­ma tro­pi­cal, quen­te e semiú­mi­do, com uma esta­ção chu­vo­sa no verão e outra seca no inver­no. Isso requer um gado que se adap­te às essas con­di­ções. Com isso, a pecuá­ria bra­si­lei­ra pre­ci­sa de raças que pos­sam con­tri­buir com sua gené­ti­ca para sis­te­ma de pro­du­ção a pas­to, não só como raça pura, mas tam­bém em cru­za­men­tos, pois oti­mi­zar os recur­sos exis­ten­tes, como as pas­ta­gens, pode ser o pon­to cha­ve para o suces­so na ati­vi­da­de. É o que tem pro­va­do as raças zebuí­nas, adap­ta­das às con­di­ções tro­pi­cais, em regi­mes de pro­du­ção de lei­te a pas­to, exten­si­vo ou semi exten­si­vo. O gado zebuí­no trans­for­ma mui­to bem a for­ra­gem em pro­teí­na ani­mal de ele­va­do valor bio­ló­gi­co. Digo tudo isso, para che­gar ao pon­to essen­ci­al: o Gir Lei­tei­ro tem papel fun­da­men­tal na pecuá­ria lei­tei­ra bra­si­lei­ra. Se ana­li­sar­mos os his­tó­ri­cos pro­du­ti­vos e de per­sis­tên­cia de lac­ta­ção das vacas Giro­lan­do nas déca­das de 70, 80 e 90 e com­pa­rar­mos com os atu­ais, após a evo­lu­ção e sele­ção do Gir Lei­tei­ro, vamos con­cluir que temos um gado Giro­lan­do moder­no, com exce­len­te con­for­ma­ção fun­ci­o­nal, capa­ci­da­de cor­po­ral, sis­te­ma mamá­rio com excep­ci­o­nal for­ma e volu­me, apa­ra­to sus­pen­sor for­te e tetos cor­ri­gi­dos ao lon­go das gerações.

BB – Qual o papel do Pro­gra­ma Naci­o­nal de Melho­ra­men­to Gené­ti­co nes­se avanço?

TT — O pro­gra­ma, atra­vés do tes­te de pro­gê­nie, auxi­li­ou os sele­ci­o­na­do­res a defi­ni­rem seus obje­ti­vos de sele­ção. E com a iden­ti­fi­ca­ção de tou­ros melho­ra­do­res em pro­du­ção de lei­te e de carac­te­rís­ti­cas de con­for­ma­ção fun­ci­o­nal line­ar, ganha­ram pre­ci­são os aca­sa­la­men­tos diri­gi­dos, jun­ta­men­te com a sele­ção de doa­do­ras e cru­za­men­tos. Todos esses pas­sos resul­ta­ram no Giro­lan­do atu­al, fru­to do cru­za­men­to do melhor do Gir Lei­tei­ro com o melhor do Holan­dês mun­di­al. A con­tri­bui­ção do Gir Lei­tei­ro para com o Giro­lan­do é notó­ria. No pas­sa­do, a raça Gir somen­te con­tri­buía nos cru­za­men­tos com carac­te­rís­ti­cas de rus­ti­ci­da­de, lon­ge­vi­da­de, resis­tên­cia a endo e ecto­pa­ra­si­tas e adap­ta­ção a con­di­ções cli­má­ti­cas adver­sas; hoje, o Gir Lei­tei­ro con­tri­bui tam­bém com carac­te­rís­ti­cas de con­for­ma­ção fun­ci­o­nal, como capa­ci­da­de cor­po­ral, for­ça lei­tei­ra, carac­te­rís­ti­cas evo­lu­ti­vas em sis­te­ma mamá­rio, bons apru­mos e, cla­ro, com mai­or pro­du­ção de lei­te e per­sis­tên­cia de lactação.

BB – Sabe­mos, então, que o Gir Lei­tei­ro é uma das raças que mais tem se des­ta­ca­do em evo­lu­ção gené­ti­ca no país. Quais fato­res que a leva­ram ao atu­al status?

TT — O Gir Lei­tei­ro atu­al é fru­to de ações con­cre­tas de cri­a­do­res e sele­ci­o­na­do­res bra­si­lei­ros que res­ga­ta­ram a prin­ci­pal fun­ção do Gir na Índia, seu ber­ço de ori­gem, que sem­pre foi pro­du­zir lei­te. No Bra­sil, por déca­das, alguns cri­a­do­res des­vir­tu­a­ram um pou­co e sele­ci­o­na­ram para pro­du­ção de car­ne ou para dupla apti­dão. No entan­to, está no DNA da raça Gir pro­du­zir lei­te, des­de os pri­mór­di­os já apre­sen­ta­va apti­dão lei­tei­ra, segun­do rela­tos de indi­a­nos. Acre­di­to que os prin­ci­pais fato­res que leva­ram o Gir Lei­tei­ro ao seu atu­al está­gio é a soma­tó­ria de esfor­ços de cri­a­do­res, pes­qui­sa­do­res e téc­ni­cos em tra­ça­rem cla­ra­men­te os obje­ti­vos de sele­ção, o iní­cio do tes­te de pro­gê­nie e desen­vol­vi­men­to do pro­gra­ma de melho­ra­men­to gené­ti­co com foco em pro­du­ção de lei­te e o con­tro­le lei­tei­ro ofi­ci­al dos reba­nhos. Esse conhe­ci­men­to dos tou­ros melho­ra­do­res soma­do aos cri­te­ri­o­sos pro­gra­mas de sele­ção de doa­do­ras e aca­sa­la­men­tos diri­gi­dos resul­tam em pro­gê­ni­es supe­ri­o­res, e com isso a bus­ca cons­tan­te da evo­lu­ção em tipo fun­ci­o­nal e produtividade.

BB —  Na pro­du­ção de lei­te comer­ci­al, o Gir Lei­tei­ro deve pre­va­le­cer mes­mo como matriz pro­du­to­ra ou como opção para cruzamento?

TT — Depen­den­do do sis­te­ma de pro­du­ção, a matriz pro­du­to­ra de lei­te pode ser a fêmea Gir Lei­tei­ro mes­mo. Ou, então, essa fêmea pode ain­da con­tri­buir com sua gené­ti­ca para os cru­za­men­tos e a obten­ção da fêmea F1, que vai pro­du­zir lei­te em mai­or quan­ti­da­de em fun­ção da hete­ro­se ou vigor híbri­do. No entan­to, estão sur­gin­do nichos de mer­ca­do inte­res­san­tes quan­to à qua­li­da­de do lei­te e deri­va­dos lác­te­os que podem inse­rir as matri­zes Gir Lei­tei­ro como pro­du­to­ras de um lei­te não aler­gê­ni­co, espe­ci­al para pes­so­as into­le­ran­tes ao lei­te de uma for­ma geral, o lei­te A2. Estu­dos rea­li­za­dos com ani­mais Gir Lei­tei­ro apon­ta­ram que a raça apre­sen­ta uma mai­or frequên­cia do ale­lo A2, em tor­no de 90%, em com­pa­ra­ção com outras raças lei­tei­ras. A Embra­pa Gado de Lei­te rea­li­zou a geno­ti­pa­gem dos tou­ros pro­va­dos e tou­ros em tes­te de pro­gê­nie, com pre­vi­são de resul­ta­dos para os pró­xi­mos anos. A sele­ção de tou­ros e matri­zes geno­ti­pa­dos beta caseí­na A2A2 irá garan­tir a melhor uti­li­za­ção nos aca­sa­la­men­tos em reba­nhos que visam a pro­du­ção de lei­te com mai­or valor agregado.

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Leia a ínte­gra des­ta entre­vis­ta na edi­ção Bal­de Bran­co 626, de dezem­bro 2016. 

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