Hiperqueratose: perdas na produtividade - Digital Balde Branco
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SANIDADE

Hiperqueratose:

perdas na produtividade 

A lesão nos tetos da vaca possui até quatro estágios; as causas envolvem maquinário desregulado e aumento da mastite, que comprometerão a produção de leite 

Erick Henrique

A hiper­que­ra­to­se da pon­ta de teto das vacas lei­tei­ras é o espes­sa­men­to da pele que for­ma o canal do teto e cir­cun­da o exte­ri­or do ori­fí­cio, num cres­ci­men­to exa­ge­ra­do da cre­a­ti­na. Segun­do espe­ci­a­lis­tas em sani­da­de bovi­na, é uma res­pos­ta fisi­o­ló­gi­ca às for­ças apli­ca­das à pele do teto duran­te a orde­nha, tan­to pela tetei­ra do equi­pa­men­to, pela mai­or pres­são na orde­nha manu­al, ou por um bezer­ro com mama­das vigorosas.

A con­di­ção dos tetos com hiper­que­ra­to­se é des­cri­ta de vári­as manei­ras como anel, flor, ero­são, for­ma­ção de calo, calo­si­da­de ou aspe­re­za da pon­ta do teto. “Quan­do a hiper­que­ra­to­se leva ao fecha­men­to incom­ple­to da por­ção exter­na do canal do teto, dei­xa ‘a por­ta aber­ta’ para a inva­são do úbe­re por pató­ge­nos que podem cau­sar mas­ti­te clí­ni­ca e sub­clí­ni­ca. As lesões na pon­ta do teto podem aumen­tar a ocor­rên­cia da mas­ti­te no reba­nho em até sete vezes. Sabe­mos que a mas­ti­te tem impac­to tan­to na pro­du­ção de lei­te da matriz como na qua­li­da­de do lei­te pro­du­zi­do”, diz a médi­ca vete­ri­ná­ria e dire­to­ra exe­cu­ti­va do Ide­a­gri, Heloi­se Duarte.

Em rela­ção à per­cep­ção dos produtores/clientes do Ide­a­gri quan­to a este pro­ble­ma, a exe­cu­ti­va afir­ma que a pre­o­cu­pa­ção exis­te nas mais de 900 pro­pri­e­da­des lei­tei­ras aten­di­das. Esta ocor­re, espe­ci­al­men­te, em fazen­das com con­tro­les mais com­ple­tos, pois é fei­ta a ava­li­a­ção dos tetos, que é lan­ça­da no pro­gra­ma de ges­tão do reba­nho, no item acom­pa­nha­men­to da evo­lu­ção das lesões.

Escala de 1 a 4 no escore de tetos

Diag­nós­ti­co é uma neces­si­da­de – O diag­nós­ti­co é visu­al, sen­do fei­to por meio do regis­tro do “esco­re de tetos”. As lesões são clas­si­fi­ca­das em uma esca­la de 1 a 4. Quan­to mai­or o esco­re, mais gra­ve a lesão. No esco­re 1, obser­va-se a hiper­que­ra­to­se em uma for­ma menos pro­nun­ci­a­da, repre­sen­ta­da pelo espes­sa­men­to da pele que for­ma e cir­cun­da o canal do teto. No esco­re 2, já é pos­sí­vel notar a for­ma­ção de anel na extre­mi­da­de do teto. No esco­re 3, o anel já se apre­sen­ta mais rugo­so, com a dobra de que­ra­ti­na no ori­fí­cio do teto. No esco­re 4, o anel é mui­to pro­e­mi­nen­te, com aspec­to de “flor”, expli­ca Heloi­se Duar­te, acres­cen­tan­do que os pro­du­to­res devem ava­li­ar a con­di­ção do teto ime­di­a­ta­men­te após o con­jun­to de tetei­ras ser remo­vi­do e antes de o desin­fe­tan­te ser aplicado.

Ela assi­na­la que a mai­or pro­pen­são para a ocor­rên­cia de hiper­que­ra­to­se está, entre outros fato­res, liga­da às carac­te­rís­ti­cas anatô­mi­cas do teto, como for­ma­to e diâ­me­tro da pon­ta do teto, posi­ção e com­pri­men­to do teto. O diâ­me­tro e o com­pri­men­to dos tetos aumen­tam de acor­do com o núme­ro de lac­ta­ções das vacas.

Assim, vacas com mai­or núme­ro de par­tos podem ter mai­or pro­pen­são, mas os fato­res anatô­mi­cos não devem ser ava­li­a­dos iso­la­da­men­te. Tam­bém é pre­ci­so con­si­de­rar o nível da pro­du­ção de lei­te, a taxa de pico de flu­xo de lei­te, o está­gio da lac­ta­ção, as con­di­ções cli­má­ti­cas, sazo­nais e ambi­en­tais e a gené­ti­ca das vacas.

Heloise Duarte: “Para atuar no controle da hiperqueratose, primeiro precisamos conhecer a situação. Fazer uma avaliação inicial da condição das pontas dos tetos do rebanho é o primeiro passo”

É pos­sí­vel evi­tar essas lesões? – Evi­tar com­ple­ta­men­te não, vis­to que algu­ma hiper­que­ra­to­se da pon­ta do teto é espe­ra­da como uma rea­ção à orde­nha. No entan­to, com algu­mas prá­ti­cas pode-se con­tro­lar ou redu­zir o agra­va­men­to das lesões. “Como para qual­quer outro parâ­me­tro para atu­ar, pri­mei­ro pre­ci­sa­mos conhe­cer a situ­a­ção. Fazer uma ava­li­a­ção ini­ci­al da con­di­ção das pon­tas dos tetos do reba­nho é o pri­mei­ro pas­so”, ori­en­ta a médi­ca veterinária.Ela des­ta­ca que o ide­al é que se faça o exa­me de todos os tetos em pelo menos 80% dos ani­mais. Assim, obtém-se uma amos­tra repre­sen­ta­ti­va das vacas de todos os gru­pos de ali­men­ta­ção e mane­jo, levan­do em con­ta o está­gio de lactação.

O esco­re de tetos é ava­li­a­do peri­o­di­ca­men­te, uma vez por mês, por exem­plo, nas fazen­das que uti­li­zam o soft­ware Ide­a­gri. Os dados vão para o pro­gra­ma e, das aná­li­ses des­ses dados, tira-se um rela­tó­rio, com tabe­las e grá­fi­cos, dos valo­res con­so­li­da­dos men­sal­men­te do total de tetos ava­li­a­dos e do por­cen­tu­al de aná­li­ses por esco­re. “Se mais de 20% dos tetos tive­rem esco­res 3 ou 4, ou mais de 10% tive­rem esco­re 4, inves­ti­gar o equi­pa­men­to e o mane­jo de orde­nha é bas­tan­te reco­men­dá­vel. Além dis­so, mes­mo que não sejam obser­va­dos os por­cen­tu­ais cita­dos, acom­pa­nhar a ocor­rên­cia de lesões nos tetos, entre as ava­li­a­ções, per­mi­te diag­nos­ti­car pro­ble­mas no mane­jo antes de afe­ta­rem mais matri­zes”, fri­sa Heloise.

Foto­te­ra­pia para pre­ven­ção e tra­ta­men­to – Um expe­ri­men­to rea­li­za­do em 2014, pelos pes­qui­sa­do­res da UFMG Pedro Lage, Angé­li­ca Araú­jo, Ale­xan­dre Tei­xei­ra, Mar­cos Pinot­ti e Rafa­el Falei­ros, uti­li­zou um dis­po­si­ti­vo foto­bi­o­mu­la­dor de LED para pre­ven­ção e tra­ta­men­to de hiper­que­ra­to­se de teto e pre­ven­ção da mas­ti­te sub­clí­ni­ca em um reba­nho de lei­te com alta taxa de pre­va­lên­cia de hiper­que­ra­to­se (35,5% de casos graves).

Foram uti­li­za­das 60 pri­mí­pa­ras para o expe­ri­men­to de pre­ven­ção e 30 vacas com hiper­que­ra­to­se para expe­ri­men­to tera­pêu­ti­co. Em ambos os casos, meta­de dos ani­mais foi tra­ta­da com o dis­po­si­ti­vo foto­bi­o­mu­la­dor três vezes por sema­na, duran­te seis semanas.

O pro­to­co­lo tera­pêu­ti­co com uso de irra­di­a­ção com LED na extre­mi­da­de do teto tes­ta­do pelos pes­qui­sa­do­res da UFMG não foi efe­ti­vo em pre­ve­nir o desen­vol­vi­men­to ou redu­zir lesões ins­ta­la­das de hiper­que­ra­to­se em vacas lei­tei­ras, em regi­me de três orde­nhas diá­ri­as e com alta pre­va­lên­cia da afec­ção. Con­tu­do, o uso do pro­tó­ti­po de foto­bi­o­mo­du­la­ção se mos­trou útil e pro­mis­sor como adju­van­te na pre­ven­ção do aumen­to de tama­nho das lesões de hiper­que­ra­to­se de teto de pri­mí­pa­ras e como for­ma de redu­zir inci­dên­cia de mas­ti­te sub­clí­ni­ca em vacas lei­tei­ras já acometidas.

“Já tive a opor­tu­ni­da­de de ler alguns tra­ba­lhos sobre o assun­to. Um deles, inclu­si­ve, foi rea­li­za­do na Fazen­da São João/TrueType, em Inhaú­ma (MG), que é uma das pri­mei­ras cli­en­tes nos­sas. Alguns estu­dos indi­cam poten­ci­al para a foto­te­ra­pia. Entre­tan­to, não conhe­ço o uso ou os resul­ta­dos da foto­te­ra­pia em con­di­ções de cam­po”, diz Heloi­se Duarte.

Na ava­li­a­ção da espe­ci­a­lis­ta, ape­sar de a hiper­que­ra­to­se não ser uma ocor­rên­cia pas­sí­vel de eli­mi­na­ção total, rea­li­zar as ava­li­a­ções perió­di­cas, regis­trar ade­qua­da­men­te as infor­ma­ções e ana­li­sar os dados obti­dos são fun­da­men­tais. “Pode­re­mos, então, atu­ar de for­ma cor­re­ti­va ou pre­ven­ti­va, com ações que não neces­sa­ri­a­men­te envol­vem gran­des inves­ti­men­tos. Assim, evi­ta­mos pre­juí­zos, man­te­mos a pro­du­ti­vi­da­de, cau­sa­mos impac­tos posi­ti­vos rele­van­tes na qua­li­da­de do lei­te, na ren­ta­bi­li­da­de da ati­vi­da­de lei­tei­ra e, por últi­mo, mas não menos impor­tan­te, no bem-estar dos ani­mais”, conclui.

CON­DI­ÇÕES DE FOR­MA­ÇÃO DA HIPER­QUE­RA­TO­SE E COMO EVITÁ-LA

Heloi­se obser­va que a hiper­que­ra­to­se da pon­ta do teto está rela­ci­o­na­da às con­di­ções de orde­nha apli­ca­das ao teto e ao perío­do de tem­po em que as tetei­ras ficam aco­pla­das, poden­do se desen­vol­ver em lon­go pra­zo (2 a 8 sema­nas). Ela des­ta­ca alguns pon­tos que mere­cem a aten­ção do pro­du­tor:
• Duran­te a orde­nha, a pon­ta do teto é com­pri­mi­da pela pres­são exer­ci­da pela tetei­ra fecha­da. Essa pres­são local resul­ta do uso da tetei­ra mon­ta­da sob ten­são e for­ça­da a envol­ver a pon­ta do teto.
• A aspe­re­za da pon­ta do teto é cau­sa­da pela pres­são da tetei­ra inco­mu­men­te alta, gera­da, por exem­plo, por alto vácuo ou alta ten­são da tetei­ra, ou por apli­ca­ção duran­te um tem­po lon­go e com gran­de pres­são (asso­ci­a­da com sobre­or­de­nha, por exem­plo). Uma cau­sa mui­to comum da hiper­que­ra­to­se é a tetei­ra aco­pla­da ao teto do ani­mal após o tér­mi­no de flu­xo do lei­te. Com isso, o equi­pa­men­to con­ti­nua exer­cen­do pres­são sobre o teto, sem que haja flu­xo e reti­ra­da de lei­te.
• Essa “sobre­pres­são” exer­ci­da no teto pelo equi­pa­men­to, mais pre­ci­sa­men­te, pelo aumen­to do nível de vácuo, pode levar à ocor­rên­cia de lesões na pon­ta do teto, entre elas, a hiperqueratose.

Como evi­tar – A sobre­or­de­nha tam­bém pode acon­te­cer no iní­cio da orde­nha. Veja as dicas do pro­ce­di­men­to cor­re­to:
• O pri­mei­ro pas­so da pre­pa­ra­ção da vaca para a orde­nha é rea­li­zar o tes­te da cane­ca de fun­do escu­ro bem fei­to, com pos­te­ri­or desin­fec­ção do teto e seca­gem deles após 30 segun­dos de atu­a­ção do desin­fe­tan­te.
• A colo­ca­ção da tetei­ra e iní­cio da orde­nha devem ser rea­li­za­dos entre 60 e 90 segun­dos após o tes­te da cane­ca, pois, nes­se perío­do, a vaca esta­rá bem esti­mu­la­da.
• Vacas bem pre­pa­ra­das antes da colo­ca­ção do con­jun­to têm melhor des­ci­da de lei­te e com isso, menor ris­co de ocor­re­rem lesões no teto. É pos­sí­vel sobre­or­de­nhar uma vaca no come­ço da ses­são de orde­nha se ela for mal pre­pa­ra­da, pou­co esti­mu­la­da, pois have­rá bai­xo flu­xo de lei­te e nível de vácuo ele­va­do na pon­ta do teto, o que pode oca­si­o­nar lesões.

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