Inflação no leite: do produtor até o consumidor - Digital Balde Branco

LEITE EM NÚMEROS

Glauco Rodrigues Carvalho 

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

“Os desafios continuam e a cadeia produtiva do leite vai necessitar seguir com mais repasses ao consumidor, a despeito da queda nas vendas”

Inflação no leite: do produtor até o consumidor

Os últi­mos dois anos foram bas­tan­te com­pli­ca­dos em diver­sos aspec­tos. A pan­de­mia de covid-19 impôs res­tri­ções até então não obser­va­das em tama­nha esca­la, geran­do rup­tu­ras em diver­sas cadei­as de abas­te­ci­men­to. Para ate­nu­ar os efei­tos nega­ti­vos, como reces­são econô­mi­ca, desem­pre­go e lock­down, diver­sos paí­ses irri­ga­ram suas eco­no­mi­as com estí­mu­los finan­cei­ros e de con­su­mo. Quan­do o mun­do come­ça­va a supe­rar, de for­ma mais con­sis­ten­te, a pan­de­mia, veio a guer­ra entre Rús­sia e Ucrâ­nia, que nova­men­te cau­sou pres­sões e vola­ti­li­da­de de pre­ços em vári­as com­mo­di­ti­es, como milho, tri­go, petró­leo e fertilizantes. 

Isso por­que essas com­mo­di­ti­es têm Rús­sia ou Ucrâ­nia como impor­tan­tes expor­ta­do­res mun­di­ais. Por exem­plo, no mer­ca­do de fer­ti­li­zan­tes esses paí­ses detêm 23% das expor­ta­ções glo­bais de amô­nia, 21% de potás­sio e 14% de ureia. Nos ali­men­tos, eles par­ti­ci­pam com 28% das expor­ta­ções de tri­go e 15% das ven­das de milho. A Ucrâ­nia é o quar­to mai­or expor­ta­dor mun­di­al de milho, com volu­me equi­va­len­te ao expor­ta­do pelo Bra­sil e, nes­te momen­to, encon­tra-se com difi­cul­da­de para rea­li­zar o plan­tio da safra 2022/23.

Em tal con­tex­to, todos esses desa­jus­tes nos mer­ca­dos glo­bais leva­ram a uma esca­la­da de pre­ços nas diver­sas cadei­as pro­du­ti­vas, pro­vo­can­do um pro­ces­so infla­ci­o­ná­rio gene­ra­li­za­do. Em mui­tas eco­no­mi­as, temos a cha­ma­da estag­fla­ção, ou seja, infla­ção com estag­na­ção econô­mi­ca. É o caso bra­si­lei­ro, com infla­ção em 12 meses em tor­no de 10–11% e cres­ci­men­to do Pro­du­to Inter­no Bru­to (PIB) pró­xi­mo de zero. Esse é um cená­rio mui­to ruim, pois o con­su­mo é afe­ta­do de duas for­mas: 1) bai­xo cres­ci­men­to econô­mi­co e de ren­da; 2) pre­ços mais altos. 

No lei­te, os desa­fi­os não param. Aliás, são his­tó­ri­cos os desa­fi­os viven­ci­a­dos pela cadeia pro­du­ti­va do lei­te no Bra­sil, pas­san­do pelo tabe­la­men­to de pre­ços até o fim dos anos 1980, a aber­tu­ra econô­mi­ca nos anos 1990, o Pla­no Real em 1994, o anti­dum­ping em 2001, entre vári­os outros acon­te­ci­men­tos mar­can­tes. Fora os perío­dos de sur­to de impor­ta­ção e alguns momen­tos céle­bres de expor­ta­ções ele­va­das. Mas é impor­tan­te des­ta­car que a cadeia pro­du­ti­va seguiu em expan­são, com cres­ci­men­to da pro­du­ção e do con­su­mo de lei­te e deri­va­dos. O lei­te é, sem dúvi­da, um setor com empre­en­de­do­res resi­li­en­tes, que atu­am em uma cadeia pro­du­ti­va com limi­ta­dos meca­nis­mos dis­po­ní­veis para ges­tão de ris­co no negócio.

Mas os desa­fi­os recen­tes têm colo­ca­do limi­ta­ções ao cres­ci­men­to do setor. Em 2021, a pro­du­ção ins­pe­ci­o­na­da recu­ou 2,2%, com o segun­do semes­tre fican­do 4,9% abai­xo do que foi obser­va­do em igual perío­do de 2020. Em resu­mo, o setor enco­lheu. A esca­la­da nos cus­tos de pro­du­ção, a pres­são por esca­la e a com­pe­ti­ção por ter­ra no cam­po, dian­te de um setor de grãos capi­ta­li­za­do, têm desa­fi­a­do os pro­du­to­res e lati­cí­ni­os. Mas o pon­to aqui é falar sobre os pre­ços e custos. 

Nas últi­mas sema­nas, o des­ta­que dos diver­sos canais de mídia em rela­ção aos lác­te­os tem sido a alta nos pre­ços do lei­te e seus deri­va­dos ao con­su­mi­dor. Nos últi­mos 12 meses até março/2022, a infla­ção, medi­da pelo IPCA, foi de 11,3%, enquan­to os lác­te­os subi­ram 13,5%. Mas a mai­or ele­va­ção ocor­reu no últi­mo mês, com o lei­te UHT subin­do 9,34% em março/2022, o que cha­mou a aten­ção dos con­su­mi­do­res. Em acom­pa­nha­men­to da Embra­pa, via Obser­va­tó­rio do Consumidor/CILeite, a ques­tão do pre­ço do lei­te e seus deri­va­dos foi um dos itens mais comen­ta­dos no Twit­ter ao lon­go de mar­ço. De fato, a alta de pre­ços pre­o­cu­pa, pois pode pre­ju­di­car ain­da mais o con­su­mo. Por outro lado, é neces­sá­rio haver algum repas­se de pre­ços em fun­ção da pres­são de cus­tos que vem ocor­ren­do na cadeia produtiva. 

Ao ana­li­sar o com­por­ta­men­to do pre­ço do lei­te ao con­su­mi­dor e do seu cus­to de pro­du­ção de janei­ro de 2020 (pré-pan­de­mia) a mar­ço de 2022, veri­fi­ca-se que, enquan­to os deri­va­dos lác­te­os subi­ram 31% ao con­su­mi­dor, o cus­to de pro­du­ção de lei­te subiu 64% ao pro­du­tor (Figu­ra 1). E esse com­por­ta­men­to de pre­ços ao con­su­mi­dor foi geral entre os deri­va­dos lác­te­os. O lei­te UHT subiu 36%, os quei­jos 30%, o lei­te em pó, 27%. Esses núme­ros mos­tram como tem sido com­pli­ca­do man­ter uma estru­tu­ra pro­du­ti­va ren­tá­vel na cadeia do lei­te. Pro­du­to­res e lati­cí­ni­os têm se des­do­bra­do para seguir com a pro­du­ção e a que­da de bra­ço mui­tas vezes gera des­gas­tes entre as par­tes, já que para um o lei­te é cus­to e para o outro é recei­ta. Na mes­ma linha, lati­cí­ni­os e vare­jis­tas estão em cons­tan­te emba­te na nego­ci­a­ção de pre­ços. Os lati­cí­ni­os bus­can­do um repas­se mai­or de pre­ços e os vare­jis­tas ten­tan­do segu­rar, com o argu­men­to de que a ren­da e o con­su­mo estão fracos. 

Mas o fato prin­ci­pal foi que nes­se perío­do de dois anos a ren­ta­bi­li­da­de pio­rou na cadeia do lei­te como um todo, moti­vo que tem cau­sa­do recuo na pro­du­ção. Geral­men­te tais pres­sões de cus­to são ate­nu­a­das com ganhos de pro­du­ti­vi­da­de e efi­ci­ên­cia, seja na pro­du­ção de lei­te, no pro­ces­sa­men­to indus­tri­al ou na dis­tri­bui­ção. Mas uma ele­va­ção tão inten­sa e em cur­to espa­ço de tem­po tor­na-se difí­cil de ser absor­vi­da sem per­da de ren­ta­bi­li­da­de. Os itens rela­ci­o­na­dos à ali­men­ta­ção dos ani­mais, que são os que mais pesam em um sis­te­ma de pro­du­ção de lei­te, tam­bém foram os que mais subi­ram. Volu­mo­sos enca­re­ce­ram 104% entre janei­ro de 2020 e mar­ço de 2022. Con­cen­tra­do e mine­rais tam­bém regis­tra­ram valo­ri­za­ções mui­to acen­tu­a­das (Figu­ra 2). 

No mer­ca­do ata­ca­dis­ta os repas­ses vari­a­ram, com mai­or ele­va­ção no lei­te UHT, segui­do do quei­jo muça­re­la. Já o lei­te em pó regis­trou aumen­to mais fra­co, pro­vo­can­do recuo nas mar­gens indus­tri­ais. Por­tan­to, o momen­to segue sen­do de cau­te­la e mui­to ajus­te inter­no nas empre­sas e fazen­das. Pro­du­to­res e lati­cí­ni­os meno­res têm enfren­ta­do mais difi­cul­da­des nes­te momen­to. Os deri­va­dos do lei­te com menor valor agre­ga­do estão sen­do mais afe­ta­dos. Por outro lado, os pro­du­tos des­ti­na­dos às clas­ses de ren­da mais alta con­se­guem um melhor posi­ci­o­na­men­to e mar­gens. Os desa­fi­os con­ti­nu­am e a cadeia pro­du­ti­va vai neces­si­tar seguir com mais repas­ses ao con­su­mi­dor, a des­pei­to de que­da nas ven­das. Pos­si­vel­men­te o setor vai seguir enco­lhen­do, mas este ajus­te nega­ti­vo na ofer­ta é uma das saí­das para mai­or ele­va­ção nos pre­ços e ree­qui­lí­brio das margens. 

Coau­tor: Denis Tei­xei­ra da Rocha, che­fe-adjun­to de Trans­fe­rên­cia de Tec­no­lo­gia da Embra­pa Gado de Leite