Laboratório móvel leva tecnologia e inovação para as propriedades - Digital Balde Branco
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QUALIDADE DO LEITE 

Laboratório móvel

leva tecnologia e inovação para dentro das propriedades

São iniciativas que visam levar aos produtores de leite o acesso à análise do leite, bem como conhecimentos e orientação sobre as boas práticas de produção 

João Carlos de Faria

O anti­go pro­vér­bio que diz sobre Mao­mé ir à mon­ta­nha, caso a mon­ta­nha não venha até ele, pode ser apli­ca­do per­fei­ta­men­te à pro­pos­ta do Ins­ti­tu­to Bio­Sis­tê­mi­co (IBS), lan­ça­da em 2008, o “Vaca Móvel”. Tra­ta-se de um veí­cu­lo equi­pa­do para aná­li­se do lei­te que vai às pro­pri­e­da­des rurais, levan­do até os pro­du­to­res, prin­ci­pal­men­te da agri­cul­tu­ra fami­li­ar, tec­no­lo­gia à qual antes eles não teri­am aces­so, caso tives­sem que bus­car por con­ta pró­pria os labo­ra­tó­ri­os especializados.

Outra ini­ci­a­ti­va de levar conhe­ci­men­to e tec­no­lo­gi­as aos pro­du­to­res é a do Ins­ti­tu­to de Zootecnia/Apta, com o Labo­ra­tó­rio Móvel. No local em que ele esti­ver, faz aná­li­ses de amos­tras de lei­te, enquan­to os pro­du­to­res assis­tem a pales­tras téc­ni­cas impor­tan­tes para incre­men­tar a qua­li­da­de da sua produção.

O lan­ça­men­to do Vaca Móvel ocor­reu no muni­cí­pio de Votu­po­ran­ga, no inte­ri­or de São Pau­lo, região onde o IBS – orga­ni­za­ção da soci­e­da­de civil sem fins lucra­ti­vos sedi­a­da em Pira­ci­ca­ba – exe­cu­ta­va um pro­je­to com o Sebrae/SP, vol­ta­do ao desen­vol­vi­men­to da pecuá­ria lei­tei­ra. Hoje a “inven­ção” já se espa­lhou pelo País, ampli­an­do par­ce­ri­as com pre­fei­tu­ras, asso­ci­a­ções, coo­pe­ra­ti­vas e órgãos como o Ser­vi­ço Naci­o­nal de Apren­di­za­gem Rural (Senar).

Ini­ci­al­men­te, as pro­pri­e­da­des rece­bi­am a visi­ta de um con­sul­tor espe­ci­a­li­za­do (médi­co vete­ri­ná­rio, zoo­tec­nis­ta ou enge­nhei­ro agrô­no­mo) que fazia o tes­te de qua­li­da­de do lei­te num labo­ra­tó­rio móvel. A mai­or par­te do resul­ta­do dos tes­tes era entre­gue no momen­to da visi­ta, quan­do o pro­du­tor tam­bém já rece­bia as reco­men­da­ções para os ajus­tes necessários.

Luís Henrichsen: “A grande inovação promovida pelo Vaca Móvel foi levar para dentro da propriedade de leite algo que o produtor nunca teve, ou seja, alguém fazendo a análise e imprimindo um extrato na hora, com os resultados”

Além da aná­li­se do lei­te, os téc­ni­cos tam­bém veri­fi­ca­vam a infra­es­tru­tu­ra para o mane­jo nutri­ci­o­nal e de orde­nha e, após a visi­ta, fazi­am as reco­men­da­ções téc­ni­cas para que o pro­du­tor pudes­se melho­rar a qua­li­da­de do lei­te e a sani­da­de do rebanho.

Hoje, o pro­je­to expan­diu-se para outras solu­ções ino­va­do­ras, com vis­tas ao melho­ra­men­to gené­ti­co, à nutri­ção do reba­nho e às boas prá­ti­cas. “Per­ce­be­mos que os pro­du­to­res tinham mui­to pou­ca infor­ma­ção sobre a qua­li­da­de do lei­te, mas não inven­ta­mos nada. O que fize­mos foi colo­car ins­tru­men­tos e equi­pa­men­tos den­tro de um veí­cu­lo e levá-los para fazer a aná­li­se do lei­te den­tro da pro­pri­e­da­de. Aca­bou viran­do o Vaca Móvel por­que o car­ro tinha umas ‘man­chi­nhas’ e uma buzi­na que imi­ta­va o mugi­do das vacas e che­ga­va buzi­nan­do”, con­ta o dire­tor cor­po­ra­ti­vo do IBS, Luís Henrichsen. 

E não parou aí. Com o tem­po, a equi­pe do IBS per­ce­beu que só a qua­li­da­de do lei­te não era sufi­ci­en­te, mas que era pre­ci­so adi­ci­o­nar outros ele­men­tos de supor­te ao produtor.

“A nutri­ção já tra­zia ori­en­ta­ções sobre mane­jo de pas­ta­gens, balan­ce­a­men­to de die­tas e for­ma­ção de pique­tes. Daí, intro­du­zi­mos a repro­du­ção, o que deu um ‘boom’ e aumen­tou mui­to a ade­são. O pro­gra­ma, que a gen­te cha­mou de ‘Cria IATF’, faz todo o mape­a­men­to repro­du­ti­vo, tam­bém como uma uni­da­de móvel bati­za­da de ‘Rufião’, equi­pa­da para a veri­fi­ca­ção das vacas, per­mi­tin­do que seja rea­li­za­do um diag­nós­ti­co ime­di­a­to sobre a situação.”

Outra tec­no­lo­gia imple­men­ta­da a par­tir das Ins­tru­ções Nor­ma­ti­vas 76/2018 e 77/2018 foi o Check­Milk, pla­ta­for­ma digi­tal de Boas Prá­ti­cas de Pro­du­ção Pecuá­ria, estru­tu­ra­da e base­a­da nas ori­en­ta­ções do Guia de Boas Prá­ti­cas da Pecuá­ria de Lei­te, pro­du­zi­do pela FAO e pelo FIL/IDF (Fede­ra­ção Inter­na­ci­o­nal do Lei­te), publi­ca­do em 2013. Esse guia pro­põe a apli­ca­ção de 22 obje­ti­vos de boas prá­ti­cas nas pro­pri­e­da­des, orga­ni­za­dos em seis pila­res: Nutri­ção Ani­mal, Sani­da­de Ani­mal, Higi­e­ne da Orde­nha, Bem- Estar Ani­mal, Meio Ambi­en­te e Ges­tão Socioeconômica.

Para con­tem­plar esses obje­ti­vos da FIL/FAO e tam­bém os cri­té­ri­os de boas prá­ti­cas, esta­be­le­ci­dos na IN 77/2018 do Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, o Check­Milk ori­en­ta a obser­va­ção de 160 que­si­tos e a ava­li­a­ção auto­má­ti­ca do grau de con­for­mi­da­de com as normativas.

Técnicos do IBS vão às propriedades e realizam os testes para verificar a qualidade do leite e avaliam na hora, com o produtor, quais medidas a serem adotadas para melhorar o resultado

Aces­so remo­to – A pla­ta­for­ma pode ser aces­sa­da remo­ta­men­te pelo pro­du­tor, o que lhe per­mi­te, a par­tir de uma expe­ri­ên­cia de auto­a­va­li­a­ção, rece­ber um rela­tó­rio com­ple­to, com a indi­ca­ção de um pla­no de ação e com as ori­en­ta­ções de melho­ri­as apon­ta­das a par­tir de um diag­nós­ti­co inicial. 

“Com isso, a gen­te fechou o paco­te de melho­ri­as e ino­va­ções, fazen­do os rea­jus­tes e cor­re­ções neces­sá­ri­os para que as pro­pri­e­da­des obte­nham mai­or pro­du­ti­vi­da­de e melhor qua­li­da­de, nos diver­sos aspec­tos do sis­te­ma de pro­du­ção”, assi­na­la Henrichsen. 

A “gran­de ino­va­ção” pro­mo­vi­da pelo Vaca Móvel, segun­do ele, foi levar, des­de o iní­cio, para den­tro da pro­pri­e­da­de de lei­te algo que o pro­du­tor nun­ca teve, ou seja, alguém fazen­do a aná­li­se e impri­min­do um extra­to na hora, com os resul­ta­dos. Em 90% dos casos, o pro­du­tor não paga nada por isso, pois o cus­to bási­co do aten­di­men­to, que fica em tor­no de R$ 600, é pago pelo projeto.

Odemir Capello: “Lidar com a melhoria de qualidade exige transformação, mudança de comportamento e um trabalho que não se faz da noite para o dia”

Nor­te Pio­nei­ro no Para­ná, um bom exem­plo – A ado­ção des­se “paco­te”, ao qual se refe­re o dire­tor do IBS, tem se esten­di­do por vári­os Esta­dos do Bra­sil, como ocor­re no nor­te pio­nei­ro do Para­ná há cer­ca de qua­tro anos, em con­jun­to com a agên­cia do Sebrae/PR de Jaca­re­zi­nho, den­tro do pro­gra­ma Sebra­e­tec. Segun­do dados do IBGE de 2018, o reba­nho lei­tei­ro des­sa região é de 45.111 vacas em lac­ta­ção, com pro­du­ção total de 129.100 litros de leite/dia e pro­du­ti­vi­da­de de 9,39 litros/dia por vaca. 

“É uma par­ce­ria com os muni­cí­pi­os para melho­rar a qua­li­fi­ca­ção dos seus pro­du­to­res, para que con­si­gam boa pro­du­ti­vi­da­de, aumen­to do volu­me e mai­or pre­ço para o seu pro­du­to, ven­den­do mais e melhor”, obser­va o geren­te da agên­cia, Ode­mir Capel­lo. As melho­ri­as para o lei­te, segun­do ele, fazem par­te de um pro­ces­so que pre­ten­de levar a região a se des­ta­car por ofe­re­cer pro­du­tos dife­ren­ci­a­dos ao mercado. 

O pri­mei­ro muni­cí­pio da região que ado­tou o pro­je­to foi Car­ló­po­lis, onde, segun­do Capel­lo, os pro­du­to­res anda­vam desa­ni­ma­dos e deso­ri­en­ta­dos e mui­tos deles pen­sa­vam em desis­tir da ati­vi­da­de. Ele ava­lia que, embo­ra ao lon­go do tem­po mui­tos pro­du­to­res tenham desis­ti­do da ati­vi­da­de, “os que fica­ram estão se dan­do mui­to bem”, con­se­guin­do inclu­si­ve cer­ti­fi­ca­ções e premiações. 

Os resul­ta­dos obti­dos por esses pro­du­to­res tor­na­ram o muni­cí­pio refe­rên­cia para toda a região. Capel­lo apon­ta vári­as jus­ti­fi­ca­ti­vas para esse desem­pe­nho, como a efe­ti­va par­ti­ci­pa­ção dos pro­du­to­res e a par­ce­ria da pre­fei­tu­ra, que cus­teia par­te do pro­je­to, garan­tin­do o aces­so gra­tui­to aos pro­du­to­res e a pres­ta­ção de ser­vi­ços de qua­li­da­de. O cus­to anu­al é de cer­ca de R$ 100 mil, sen­do 70% ban­ca­dos pelo Sebra­e­tec e 30% pela prefeitura. 

“Ape­sar do gran­de envol­vi­men­to dos pro­du­to­res, lidar com a melho­ria da qua­li­da­de do lei­te exi­ge trans­for­ma­ção e mudan­ça de com­por­ta­men­to e um tra­ba­lho que não se faz da noi­te para o dia”, res­sal­ta. Por isso tam­bém o res­pal­do da Asso­ci­a­ção dos Pro­du­to­res de Lei­te de Car­ló­po­lis (Apro­leic), que é cita­do por Capel­lo como “um fator fundamental”. 

Para o produtor Nivaldo Nascimento (de camisa branca), proprietário do Sítio Dois Irmãos, que migrou do café para a produção de leite, a ajuda dos técnicos trouxe muito aprendizado e tranquilidade 

Nova men­ta­li­da­de – O Sítio Dois Irmãos foi um dos pri­mei­ros a ade­ri­rem ao Vaca Móvel, o que trou­xe mui­tas mudan­ças e novas pers­pec­ti­vas ao pro­pri­e­tá­rio, Nival­do do Nas­ci­men­to, que é pre­si­den­te da Apro­leic. A asso­ci­a­ção con­ta com 19 asso­ci­a­dos, dos quais 16 fazem par­te do gru­po que rece­be assis­tên­cia téc­ni­ca. “Apren­de­mos mui­to e o pro­je­to reno­vou a men­ta­li­da­de dos nos­sos pro­du­to­res, que pas­sa­ram a enten­der o que real­men­te é o negó­cio do lei­te”, avalia. 

Com o apren­di­za­do, Nas­ci­men­to já con­quis­tou três cer­ti­fi­ca­dos de qua­li­da­de da Capal, coo­pe­ra­ti­va sedi­a­da em Ara­po­ti, que com­pra e nego­cia a pro­du­ção do gru­po com a Usi­na de Lati­cí­ni­os Jus­sa­ra, loca­li­za­da em Patro­cí­nio Pau­lis­ta. Sua pro­du­ção diá­ria é de 500 litros e o reba­nho tem 30 vacas em lac­ta­ção, entre as raças Jer­sey e Jer­so­lan­do, com média de 18 litros/dia/vaca, o que refle­te a rea­li­da­de dos demais pro­du­to­res, cujas pro­pri­e­da­des em geral são peque­nas e fami­li­a­res, com áre­as de apro­xi­ma­da­men­te 30 hec­ta­res e reba­nhos com 20 a 30 vacas. 

“Sen­do móvel, o labo­ra­tó­rio aju­da mui­to e a aná­li­se é com­ple­ta e con­fiá­vel. Além dis­so, a gen­te apren­deu mui­to sobre lim­pe­za e ges­tão de cus­tos, sem­pre man­ten­do o olho na qua­li­da­de e absor­ven­do posi­ti­va­men­te tec­no­lo­gi­as de repro­du­ção e os cui­da­dos mais impor­tan­tes”, afir­ma Nascimento. 

Uma das van­ta­gens que ele obser­va é a pos­si­bi­li­da­de de ter o ultras­som na pro­pri­e­da­de, eco­no­mi­zan­do tem­po. “Isso nos traz tran­qui­li­da­de, pois já não acon­te­ce mais de per­der a hora cer­ta de inse­mi­nar”, diz. Impor­tan­te tam­bém são as ori­en­ta­ções sobre bem-estar ani­mal, fator essen­ci­al para evi­tar o estres­se das vacas, que tam­bém influ­en­cia na produtividade. 

Depois de tra­ba­lhar com café por mui­tos anos, Nas­ci­men­to encon­trou no lei­te uma óti­ma fon­te de ren­da, des­de que com­prou a pri­mei­ra vaca, há 21 anos, para garan­tir o lei­te na mama­dei­ra do filho pri­mo­gê­ni­to, Ever­ton Augus­to, que hoje o aju­da na pro­du­ção, jun­ta­men­te com a mãe, Solan­ge Mes­si­as do Nas­ci­men­to. Como a sobra do lei­te come­çou a lhe ren­der um bom tro­ca­do, aumen­tou aos pou­cos o reba­nho e a pro­du­ção de lei­te, enquan­to foi dimi­nuin­do o café. “Este ano aca­bei com o que res­ta­va de café no sítio”, revela.

 

Resul­ta­dos pro­mis­so­res – Os resul­ta­dos obser­va­dos em Car­ló­po­lis são pro­mis­so­res e con­fir­mam a con­so­li­da­ção do pro­je­to, con­for­me balan­ço rea­li­za­do em 2019, que apon­tou uma pro­du­ção anu­al de 1.179.604 litros de lei­te, supe­ran­do a mar­ca de 2018, que havia sido de 888.601 litros. Isso cor­res­pon­de a 254.000 litros pro­du­zi­dos a mais, advin­dos da ado­ção de prá­ti­cas como ajus­te de die­tas, balan­ce­a­men­to e equi­lí­brio da ração, aumen­tan­do tam­bém a ren­ta­bi­li­da­de em cer­ca de 40%, segun­do Henrichsen. 

“Além dis­so, quan­do come­ça­mos, ape­nas a meta­de das amos­tras esta­va em con­for­mi­da­de com a nor­ma­ti­va, mas, nos últi­mos três anos, ele­va­mos esse índi­ce para cer­ca de 95% do padrão exi­gi­do. Se ana­li­sar­mos a qua­li­da­de pela média geo­mé­tri­ca, que é o indi­ca­dor do gover­no, todos os pro­du­to­res aten­dem a 100% de conformidade.” 

Quan­to ao índi­ce de vacas pre­nhes, o cená­rio é de cer­ca de 80% de pre­nhez posi­ti­va, índi­ce que se repe­te no núme­ro de vacas em lac­ta­ção em rela­ção ao reba­nho lei­tei­ro. “Obvi­a­men­te que o resul­ta­do se deve ao empe­nho dos pro­du­to­res, por­que o que fize­mos foi só aju­dar. Mas nos ale­gra mui­to ver o lei­te deles sen­do dis­pu­ta­do pela qua­li­da­de e pro­du­ti­vi­da­de e vê-los con­se­guir ven­der a pro­du­ção conjuntamente.” 

De acor­do com os dados do IBS, entre julho e dezem­bro de 2021, a recei­ta gera­da pelo gru­po foi de R$ 2.351.478,16, sen­do 98,2% com a ven­da de lei­te, enquan­to a des­pe­sa foi cal­cu­la­da em R$ 1.584.271,45, geran­do um lucro médio de 33% por litro produzido.

PREFEITURA APONTA “PARCERIA POSITIVA”

 

“A expe­ri­ên­cia tem sido mui­to posi­ti­va nes­ses anos de par­ce­ria com o Sebrae, pois temos ape­nas um téc­ni­co agro­pe­cuá­rio na equi­pe e a par­ce­ria com o Vaca Móvel vem refor­çar nos­so tra­ba­lho, tra­zen­do uma equi­pe mul­ti­dis­ci­pli­nar para aten­der aos pro­du­to­res”, ava­lia Fran­cis­la­ne Luz Bohrz, secre­tá­ria de Agri­cul­tu­ra de Carlópolis. 

Em ter­mos prá­ti­cos, segun­do ela, logo no pri­mei­ro ano já se obser­vou uma melho­ria sig­ni­fi­ca­ti­va da qua­li­da­de da pro­du­ção, o que influ­en­ci­ou dire­ta­men­te na ren­da das pro­pri­e­da­des e trou­xe pre­mi­a­ções aos pro­du­to­res. A recep­ti­vi­da­de foi mui­to boa em fun­ção des­ses resul­ta­dos per­ce­bi­dos de ime­di­a­to e da rapi­dez com que as pro­pri­e­da­des se ade­qua­ram às exi­gên­ci­as de qua­li­da­de e prá­ti­cas de ges­tão tra­zi­das pelo projeto. 

Fran­cis­la­ne ava­lia que a pecuá­ria de lei­te tem um peso impor­tan­te na eco­no­mia local, por­que pro­por­ci­o­na ren­da men­sal ao pro­du­tor e repre­sen­ta 4% do Valor Bru­to da Pro­du­ção (VBP) do muni­cí­pio, com fatu­ra­men­to de R$ 8,174 milhões (2019). “Em cer­tos perío­dos do ano, alguns desis­tem do lei­te, mas esse gru­po de 16 pro­du­to­res tem se man­ti­do fir­me, tra­ba­lhan­do de for­ma coo­pe­ra­ti­va”, diz. 

Um dos prin­ci­pais impac­tos do Vaca Móvel, como apon­ta ela, foi fazer com que o pro­du­tor per­ma­ne­ces­se na ati­vi­da­de, com uma boa estru­tu­ra e mais expe­ri­ên­cia, além da garan­tia de uma ren­da fami­li­ar recor­ren­te. “Isso faz com que ele fique no cam­po, geran­do empre­go e ren­da, algo de extre­ma impor­tân­cia nes­se momen­to de cri­se, por­que dei­xa o recur­so na pró­pria cidade.” 

Com inves­ti­men­to da pre­fei­tu­ra, que paga uma par­te dos cus­tos do pro­je­to, o aten­di­men­to sai total­men­te gra­tui­to ao pro­du­tor, fomen­tan­do ain­da mais a ati­vi­da­de e refor­çan­do o espí­ri­to de asso­ci­a­ti­vis­mo que impe­ra no muni­cí­pio, fato que levou o muni­cí­pio a rece­ber, em 2019, o prê­mio naci­o­nal do Sebrae de “Pre­fei­to Empre­en­de­dor”, con­ce­di­do ao pre­fei­to Hiroshi Kubo, pelo incen­ti­vo à orga­ni­za­ção dos produtores.

Para o produtor Nivaldo Nascimento (de camisa branca), proprietário do Sítio Dois Irmãos, que migrou do café para a produção de leite, a ajuda dos técnicos trouxe muito aprendizado e tranquilidade 

LABORATÓRIO MÓVEL DO IZ LEVA AO PRODUTOR CONHECIMENTO E NOVAS TECNOLOGIAS

 
No Esta­do de São Pau­lo, o Labo­ra­tó­rio Móvel de Aná­li­se da Qua­li­da­de do Lei­te do Ins­ti­tu­to de Zoo­tec­nia (IZ-Apta) tam­bém foi a for­ma encon­tra­da para levar até o pro­du­tor a tec­no­lo­gia e as infor­ma­ções impor­tan­tes para incre­men­tar a qua­li­da­de da sua pro­du­ção. A pro­pos­ta, segun­do o pes­qui­sa­dor Luiz Car­los Roma Júni­or (foto), é aumen­tar a área de abran­gên­cia das pes­qui­sas e auxi­li­ar na divul­ga­ção dos resul­ta­dos e das novas tec­no­lo­gi­as desen­vol­vi­das pelo Instituto. 

O labo­ra­tó­rio fun­ci­o­na há qua­tro anos num trai­ler, que nor­mal­men­te fica esta­ci­o­na­do em locais onde este­ja sen­do rea­li­za­do algum even­to agro­pe­cuá­rio, ou em outros locais, de acor­do com a neces­si­da­de e dis­po­ni­bi­li­da­de. A ideia é que os resul­ta­dos das aná­li­ses sejam “tra­du­zi­dos” de ime­di­a­to para o pro­du­tor. “Ele pre­ci­sa saber que esses núme­ros são uma gran­de fer­ra­men­ta em suas mãos. Por isso, a equi­pe do labo­ra­tó­rio dia­lo­ga com os pro­du­to­res e expli­ca o que sig­ni­fi­cam os núme­ros, levan­do a infor­ma­ção da for­ma mais dire­ta pos­sí­vel”, explica. 

Depois de rece­ber os resul­ta­dos, os pro­du­to­res são con­vi­da­dos a con­ver­sar de for­ma indi­vi­du­a­li­za­da sobre sua situ­a­ção. As rea­ções, segun­do Roma, são diver­sas. “No come­ço, mui­tos acha­ram que está­va­mos ali para fis­ca­li­zar, mas quan­do per­ce­be­ram que só que­re­mos aju­dar a res­pos­ta foi mui­to boa”, diz.

Dicas bási­cas tam­bém foram reu­ni­das para escla­re­cer as dúvi­das, incluin­do infor­ma­ções sobre o tra­ta­men­to ani­mal com fito­te­ra­pia, tema que sur­giu numa des­sas con­ver­sas e que vem sen­do tra­ba­lha­do des­de 2015. Aliás, sem­pre que há algu­ma pes­qui­sa do pró­prio IZ a ser divul­ga­da e que pos­sa aju­dar, ela é leva­da aos pro­du­to­res por inter­mé­dio do projeto.

Com­ple­men­tar­men­te, são rea­li­za­dos trei­na­men­tos com a trans­fe­rên­cia de tec­no­lo­gi­as por meio de dias de cam­po com os pro­du­to­res, nos quais Roma minis­tra uma pales­tra, enquan­to as amos­tras de lei­te são ana­li­sa­das no labo­ra­tó­rio móvel. Os trei­na­men­tos tam­bém são ofe­re­ci­dos a téc­ni­cos de asso­ci­a­ções, coo­pe­ra­ti­vas e prefeituras.

Como resul­ta­do prá­ti­co, Roma apon­ta como exem­plo o tra­ba­lho rea­li­za­do na região de Ribei­rão Pre­to, onde num pra­zo de 12 meses se con­se­guiu redu­zir pela meta­de os índi­ces de Con­ta­gem Bac­te­ri­a­na Total (CBT) e em 20% os núme­ros de Con­ta­gem de Célu­las Somá­ti­cas (CCS).

Recen­te­men­te, o labo­ra­tó­rio rece­beu ver­ba de R$ 30 mil, entre recur­sos do gover­no do Esta­do de São Pau­lo e da Fun­da­ção de Ampa­ro à Pes­qui­sa do Esta­do de São Pau­lo (Fapesp) para ampli­ar sua atu­a­ção em par­ce­ri­as com a Coor­de­na­do­ria de Assis­tên­cia Téc­ni­ca Inte­gral (Cati), asso­ci­a­ções, coo­pe­ra­ti­vas e fei­ras agro­pe­cuá­ri­as. O trai­ler tam­bém ganhou uma nova rou­pa­gem para ir às ruas, ago­ra que a pan­de­mia foi em par­te supe­ra­da, levan­do ao pro­du­tor o conhe­ci­men­to, a tec­no­lo­gia, as pes­qui­sas e parcerias.