Leite Instável Não Ácido (LINA): Influência da restrição alimentar - Digital Balde Branco
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São vários os fatores que podem afetar a estabilidade do leite, entre outros, estágio de lactação, fatores climáticos, restrição alimentar e desequilíbrio nutricional

PESQUISA

Influência da restrição alimentar sobre a ocorrência de

LEITE INSTÁVEL NÃO-ÁCIDO (LINA)

O leite nessa condição pode prejudicar a industrialização, especialmente no caso do produto em pó e de queijos 

Vivian Fischer*

O perío­do de seca é con­si­de­ra­do crí­ti­co para a pro­du­ção lei­tei­ra. Ele nor­mal­men­te é asso­ci­a­do à bai­xa dis­po­ni­bi­li­da­de de pas­to e, con­se­quen­te­men­te, a uma escas­sez natu­ral de ali­men­to, ao bai­xo esco­re de con­di­ção cor­po­ral e a mudan­ças drás­ti­cas na ali­men­ta­ção das vacas. Nes­se perío­do, tam­bém ocor­re mai­or inci­dên­cia de ins­ta­bi­li­da­de no lei­te sem, no entan­to, que este este­ja neces­sa­ri­a­men­te áci­do, ou impró­prio para o con­su­mo.

O lei­te ins­tá­vel não áci­do (Lina) carac­te­ri­za-se pela per­da da esta­bi­li­da­de das caseí­nas, resul­tan­do na pre­ci­pi­ta­ção posi­ti­va ao tes­te do álco­ol 72% (ou supe­ri­or), apre­sen­tan­do, porém, aci­dez nor­mal nos tes­tes que ava­li­am pH entre 6,6 e 6,8 e aci­dez titu­lá­vel entre 14 e 18°D, com resul­ta­do nega­ti­vo ao tes­te de fer­vu­ra. No entan­to, para deci­dir sobre a cole­ta do lei­te nas pro­pri­e­da­des, o tes­te deter­mi­nan­te é o do álco­ol. A gra­du­a­ção de 72% de eta­nol na solu­ção-tes­te é o valor míni­mo ofi­ci­al, IN 76 e 77 (Mapa, 2019), mas fre­quen­te­men­te a indús­tria uti­li­za con­cen­tra­ções ain­da mais altas como 76%, 78% e 80%.

O tes­te do álco­ol (Figu­ra ao lado) ava­lia a esta­bi­li­da­de e a resis­tên­cia do lei­te ao pro­ces­sa­men­to tér­mi­co na indús­tria. Após tra­ta­men­to tér­mi­co, a maté­ria-pri­ma pode ser des­ti­na­da ao lei­te flui­do (pas­teu­ri­za­do ou UHT) ou à fabri­ca­ção de deri­va­dos, como quei­jos, iogur­te e lei­te em pó, entre outros. O lei­te com bai­xa esta­bi­li­da­de pode pre­ju­di­car a indus­tri­a­li­za­ção, espe­ci­al­men­te no caso do pro­du­to em pó e quei­jos.

De for­ma geral o Lina é resul­ta­do de alte­ra­ções nas pro­pri­e­da­des físi­co-quí­mi­cas do lei­te, cau­sa­das por trans­tor­nos fisi­o­ló­gi­cos, meta­bó­li­cos e nutri­ci­o­nais com impli­ca­ções nos meca­nis­mos de sín­te­se e secre­ção lác­tea. Mas o que cau­sa essa ins­ta­bi­li­da­de na caseí­na do lei­te? São vári­os os fato­res que podem afe­tar a esta­bi­li­da­de. Entre eles, pode­mos citar está­gio de lac­ta­ção, fato­res cli­má­ti­cos, res­tri­ção ali­men­tar e dese­qui­lí­brio nutri­ci­o­nal, entre outros.

Nes­se arti­go, abor­da­re­mos a res­tri­ção ali­men­tar e o apor­te nutri­ci­o­nal dese­qui­li­bra­do (Figu­ra ao lado).

A res­tri­ção ali­men­tar ou o apor­te nutri­ci­o­nal dese­qui­li­bra­do podem pre­ju­di­car o equi­lí­brio do ambi­en­te rumi­nal e o meta­bo­lis­mo como um todo, modi­fi­can­do o flu­xo de san­gue e de nutri­en­tes para a glân­du­la mamá­ria e alte­ran­do a pas­sa­gem de nutri­en­tes do san­gue para as célu­las mamá­ri­as, o que alte­ra a com­po­si­ção do lei­te.

A lac­to­se, jun­ta­men­te com o sódio, o potás­sio e o clo­ro, são os res­pon­sá­veis pelo equi­lí­brio osmó­ti­co do lei­te com o san­gue. Em vacas que rece­bem die­tas com apor­te nutri­ci­o­nal insu­fi­ci­en­te ou com dese­qui­lí­brio nutri­ci­o­nal (exces­so ou defi­ci­ên­cia de pro­teí­na e ener­gia), ocor­re mai­or pas­sa­gem de sais para o lei­te.

O equi­lí­brio iôni­co entre os sais do lei­te nas fases difu­sas e coloi­dal inter­fe­re na esta­bi­li­da­de do lei­te. Quan­do esse equi­lí­brio é rom­pi­do, prin­ci­pal­men­te pelo aumen­to de cál­cio na fase difu­sa e pela dimi­nui­ção de fos­fa­tos e citra­tos, a esta­bi­li­da­de das mice­las é redu­zi­da.

A res­tri­ção ali­men­tar de 40% ou 50% redu­ziu a esta­bi­li­da­de do lei­te de 76 para 69 (Frus­cal­so et al., 2013; Stumpf et al., 2016). Res­tri­ções mais leves (30%) têm impac­to menor, mas redu­zem a esta­bi­li­da­de (Bar­bo­sa et al., 2012).

O dese­qui­lí­brio nutri­ci­o­nal, como exces­so de pro­teí­na bru­ta (Mar­ques et al., 2010), exces­so de pro­teí­na bru­ta e ener­gia (Sch­midt, 2014) ou exces­so de pro­teí­na degra­dá­vel for­ne­ci­da com milho seco moí­do (Mar­tins et al.,2019), reduz a esta­bi­li­da­de.


Segun­do Fis­cher et al. (2012), para cor­ri­gir a ins­ta­bi­li­da­de do lei­te, quan­do a cau­sa é a res­tri­ção ali­men­tar, os pro­du­to­res podem aumen­tar o apor­te de ali­men­to, usan­do uma ampla vari­e­da­de de die­tas:

1) Vari­an­do a pro­por­ção de con­cen­tra­do e sila­gem entre 35:65%, 45:55% e 55:45% des­de que estas aten­dam às exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais dos ani­mais sem cau­sar aci­do­se rumi­nal;
2) É pre­ci­so ajus­tar as quan­ti­da­des de todos os nutri­en­tes, con­si­de­ran­do as neces­si­da­des ener­gé­ti­cas, pro­tei­cas e em mine­rais;
3) A seve­ri­da­de da res­tri­ção, em ter­mos da pri­va­ção dos nutri­en­tes e sua dura­ção, influ­en­cia a redu­ção da esta­bi­li­da­de e o tem­po neces­sá­rio para cor­ri­gir o problema.

*Professora titular do Departamento de Zootecnia da UFRGS, doutora em Zootecnia.

Co-auto­res: Ali­ne Car­do­so Viei­ra e Gui­lher­me Heis­ler, dou­to­ran­dos do Pro­gra­ma de Pós-Gra­du­a­ção em Zoo­tec­nia da UFRGS.

(No ori­gi­nal dos auto­res, são cita­das vári­as refe­rên­ci­as bibli­o­grá­fi­cas. Os inte­res­sa­dos podem soli­ci­tá-lo à reda­ção da Bal­de Bran­co: editor@baldebranco.com.br)

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