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A ferramenta é instalada na tampa dos tanques de resfriamento e sua principal função é substituir as réguas de medição de volume

GESTÃO

Leite medido com mais precisão

é a aposta de jovens empreendedores mineiros

Equipe que ganhou desafio de startups da Embrapa com aparelho que mede volume do leite nos tanques resfriadores chama a atenção do setor 

Rubens Neiva*

Volu­te­ch, equi­pa­men­to que mede, com pre­ci­são, o volu­me de lei­te arma­ze­na­do nos tan­ques de res­fri­a­men­to das pro­pri­e­da­des lei­tei­ras, esta­rá dis­po­ní­vel no mer­ca­do no segun­do semes­tre des­te ano. O equi­pa­men­to foi desen­vol­vi­do pela star­tup minei­ra de mes­mo nome, situ­a­da em Viço­sa (MG), e sur­giu das ações da Embra­pa Gado de Lei­te para incre­men­tar o cha­ma­do “Lei­te 4.0”. “A ideia de cri­ar­mos o pro­du­to sur­giu duran­te o hac­kathon (cha­ma­do de Vacathon) pro­mo­vi­do pela Embra­pa em 2018”, diz Sávio Filho, dire­tor de ven­das da Volu­te­ch. Os estu­dan­tes apos­ta­ram no pro­je­to e, já no ano seguin­te, o equi­pa­men­to esta­va pron­to para par­ti­ci­par do Desa­fio de Star­tups da Embra­pa Gado de Lei­te.

Com cer­ca de 20 cen­tí­me­tros de com­pri­men­to, o equi­pa­men­to pos­sui sen­so­res que envi­am infor­ma­ções para um ser­vi­dor remo­to com aces­so a lati­cí­ni­os e pro­du­to­res. A fer­ra­men­ta é ins­ta­la­da na tam­pa dos tan­ques de res­fri­a­men­to e sua prin­ci­pal fun­ção é subs­ti­tuir as réguas de medi­ção de volu­me. Tam­bém é capaz de regis­trar a tem­pe­ra­tu­ra do lei­te em diver­sos perío­dos do dia, os momen­tos em que o tan­que foi aber­to e se ocor­re­ram picos de ener­gia duran­te o res­fri­a­men­to – o que pode fazer com que a tem­pe­ra­tu­ra varie, com­pro­me­ten­do a qua­li­da­de do lei­te. Segun­do a star­tup, o Volu­te­ch terá bai­xo cus­to e os lati­cí­ni­os serão os prin­ci­pais cli­en­tes.

O super­vi­sor dos cam­pos expe­ri­men­tais da Embra­pa Gado de Lei­te, Arman­do Car­va­lho, diz que o equi­pa­men­to é uma fer­ra­men­ta útil tan­to para os pro­du­to­res quan­to para as indús­tri­as de lati­cí­ni­os e tem um gran­de ape­lo mer­ca­do­ló­gi­co. “A medi­ção com a régua con­ven­ci­o­nal é um pro­ble­ma gra­ve para a indús­tria e para o pro­du­tor, já que ambos têm inte­res­se em saber o volu­me real do lei­te que será cap­ta­do”, diz Car­va­lho, que com­ple­ta: “Se o tan­que não esti­ver nive­la­do ade­qua­da­men­te, a medi­ção com a régua tor­na-se impre­ci­sa (veja no box)”.

Para Gus­ta­vo Duque, dire­tor da Volu­te­ch e estu­dan­te de Agro­no­mia na UFV, o erro de um cen­tí­me­tro na régua pode equi­va­ler, em média, a três litros de lei­te por tan­que. “Con­si­de­ran­do que o País tenha 500 mil pro­du­to­res com tan­que de expan­são, isso equi­va­le a 1,5 milhão de litros de lei­te que podem estar sen­do con­ta­bi­li­za­dos pelos lati­cí­ni­os sem ter sido de fato reco­lhi­dos dos tan­ques.” Duque brin­ca: “O mai­or pro­du­tor de lei­te do Bra­sil pode ser o erro da régua”.

Tan­ques de gran­de capa­ci­da­de já pos­su­em a medi­ção ele­trô­ni­ca, mas, segun­do Car­va­lho, estão fora do alcan­ce dos peque­nos e médi­os pro­du­to­res, além de não pos­suí­rem o mes­mo nível de conec­ti­vi­da­de e inte­ra­ti­vi­da­de. “O Volu­te­ch será o pri­mei­ro pro­du­to a entrar no mer­ca­do ten­do esse públi­co como foco.” Sávio Filho, que con­clui no pró­xi­mo ano o cur­so de Medi­ci­na Vete­ri­ná­ria da Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Viço­sa (UFV), infor­ma que o equi­pa­men­to está em fase de tes­tes, “para entrar no mer­ca­do for­ta­le­ci­do e com todos os ajus­tes con­cluí­dos”. Os expe­ri­men­tos estão sen­do rea­li­za­dos em qua­tro fazen­das. Três delas estão em Minas Gerais e for­ne­cem lei­te para o lati­cí­nio da UFV, onde a mai­or par­te dos mem­bros da equi­pe estu­da ou se for­mou. Par­te da equi­pe, inclu­si­ve, faz par­te da Famí­lia do Lei­te, pro­gra­ma da UFV.

Equipe da startup recebe prêmio do Ideas for milk

VOLUTECH SERÁ O PRIMEIRO PRODUTO A ENTRAR NO MERCADO TENDO COMO FOCO ATENDER AO PEQUENO E MÉDIO PRODUTOR DE LEITE

Ide­as for Milk – Ao se ins­cre­ver no Vacathon, a equi­pe não tinha noção algu­ma de qual pro­je­to apre­sen­ta­ria. “Foi na visi­ta ao cam­po expe­ri­men­tal da Embra­pa Gado de Lei­te que a ideia sur­giu”, diz Lucas San­ders, estu­dan­te de Enge­nha­ria Elé­tri­ca da UFV, um dos mem­bros da star­tup. “Ao ver o fun­ci­o­na­men­to do tan­que de expan­são, a gen­te se per­gun­tou sobre como um equi­pa­men­to tão caro pode­ria ser tão vul­ne­rá­vel na apu­ra­ção do volu­me de lei­te”, rela­ta Sanders.

Com o apoio do gru­po de men­to­res do Vacathon, for­ma­do por pes­qui­sa­do­res e ana­lis­tas da Embra­pa, a ideia foi ganhan­do cor­po. No quin­to dia de hac­kathon, a equi­pe já tinha o pro­je­to desen­vol­vi­do e o nome do pro­du­to. “Não fomos os ven­ce­do­res, mas fica­mos sele­ci­o­na­dos entre os melho­res pro­je­tos e saí­mos do even­to da Embra­pa moti­va­dos a tor­nar a fer­ra­men­ta uma rea­li­da­de”, con­ta Sanders.

Sávio Filho e Lucas Sanders, membros da startup

Para Sávio Filho, o even­to da Embra­pa foi fun­da­men­tal: “Come­ça­mos no Vacathon e ter­mi­na­mos ven­cen­do o Desa­fio de Star­tups; a Embra­pa Gado de Lei­te este­ve pre­sen­te em todo o pro­ces­so, do nas­ci­men­to da star­tup à apre­sen­ta­ção do pro­du­to para a cadeia pro­du­ti­va”. Após o Vacathon, a equi­pe pas­sou por uma pré-incu­ba­ção no Cen­tev (Cen­tro Tec­no­ló­gi­co de Desen­vol­vi­men­to Regi­o­nal de Viço­sa – incu­ba­do­ra de empre­sas da UFV). Ago­ra, os empre­en­de­do­res estão fina­li­zan­do o pro­ces­so de paten­te­a­men­to do Volu­te­ch no Ins­ti­tu­to Naci­o­nal de Pro­pri­e­da­de Indus­tri­al (Inpi).

A apro­xi­ma­ção entre a pes­qui­sa agro­pe­cuá­ria e as uni­ver­si­da­des é um dos prin­ci­pais obje­ti­vos do Ide­as for Milk, cuja pri­mei­ra edi­ção ocor­reu em 2016. Além do hac­kathon e do Desa­fio de Star­tups, o even­to con­ta com a Cara­va­na 4.0, quan­do pes­qui­sa­do­res e ana­lis­tas da Embra­pa Gado de Lei­te per­cor­rem uni­ver­si­da­des em todo o País minis­tran­do pales­tras sobre a impor­tân­cia das novas tec­no­lo­gi­as no agronegócio.

O che­fe-adjun­to de Trans­fe­rên­cia de Tec­no­lo­gi­as da Embra­pa Gado de Lei­te, Bru­no Car­va­lho, diz que exis­te mui­to espa­ço para as novas tec­no­lo­gi­as no agro­ne­gó­cio do lei­te. “A cadeia pro­du­ti­va do lei­te está aber­ta ao dina­mis­mo des­ta gera­ção que nas­ceu no con­tex­to das ino­va­ções digi­tais, com gran­de capa­ci­da­de de apre­sen­tar novas solu­ções para os velhos pro­ble­mas do agro”, con­clui Carvalho.

*Rubens Nei­va é jor­na­lis­ta na Embra­pa Gado de Leite

O que muda com o volutech instalado nos tanques de expansão

Para enten­der como o Volu­te­ch fun­ci­o­na, é pre­ci­so saber como o lei­te é arma­ze­na­do e de que for­ma é fei­ta a cole­ta nos tan­ques de res­fri­a­men­to pelos lati­cí­ni­os. Acom­pa­nhe a seguir como é fei­to o trabalho.

Cole­ta do lei­te em cin­co passos:

1º – Depois de orde­nha­do (com orde­nha­dei­ra mecâ­ni­ca), o lei­te é bom­be­a­do por meio de dutos até o tan­que. Lá, o pro­du­to é refri­ge­ra­do a cer­ca de 4° Cel­sius;
2º – A cada um ou dois dias, o cami­nhão do lati­cí­nio, que pos­sui um tan­que iso­tér­mi­co para pre­ser­var a tem­pe­ra­tu­ra do lei­te, vai à fazen­da fazer a cole­ta do lei­te;
3º – O moto­ris­ta do cami­nhão faz as aná­li­ses neces­sá­ri­as e cal­cu­la, por meio da régua do tan­que, a altu­ra da colu­na do lei­te;
4º – Cál­cu­los fei­tos a par­tir de uma tabe­la pró­pria darão como resul­ta­do o volu­me a ser cole­ta­do, que será ano­ta­do e infor­ma­do ao lati­cí­nio;
5º – Com o pro­du­to trans­fe­ri­do para o tan­que iso­tér­mi­co do cami­nhão, mis­tu­ra­do ao lei­te de outras fazen­das, o cami­nhão segue sua rota.

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