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No Recanto SS, a implementação do sistema de produção de leite orgânico foi feita gradualmente e com todo o critério

ESPECIAL: LEITE ORGÂNICO

Mapeamento do perfil do leite orgânico

aponta para futuro promissor

Para atingir esse futuro, o caminho deve ser o da eficiência, aliado a uma visão empreendedora para agregar valor à atividade

João Carlos de Faria

Dados do Observatório do Leite, projeto da Embrapa Gado de Leite, apontam um crescimento de 26% no número de unidades de produção de leite orgânico no Brasil, no período entre 2018 e 2020, centralizado principalmente nos Estados de São Paulo, onde cresceu 300%, passando de 11 para 45 unidades; Minas Gerais, que passou de 6 para 11 unidades (85%), e Rio de Janeiro, de uma para oito unidades (800%).

No total, em 2020, eram 152 unidades de produção de leite orgânico, espalhadas por várias regiões. Outra pesquisa realizada pela Organis – associação sediada em Curitiba, que trabalha para dar visibilidade aos orgânicos – aponta que, em 2021, houve um aumento de 63% no consumo desses produtos em geral, se comparado a 2019, e de 106% em relação a 2017.

“Houve um crescimento significativo nos Estados de São Paulo, Minas e Rio de Janeiro, por causa das multinacionais que passaram a comprar leite orgânico”, afirma o analista da Embrapa Gado de Leite Fabio Homero Diniz, um dos idealizadores do Observatório do Leite Orgânico.

A produção de leite, que deve ser certificada por instituições credenciadas, exige uma série de mudanças no sistema de produção, do solo ao manejo dos animais. Ou seja, o processo de transição da produção convencional para a orgânica requer cuidados e um passo a passo para programar as medidas necessárias e se obter sucesso. “Inicialmente, as maiores dificuldades estão relacionadas à nutrição. A legislação não permite o uso da adubação química e de insumos de origem geneticamente modificada (transgênicos). Além disso, os insumos orgânicos ainda não são amplamente produzidos e seus custos são mais altos do que os convencionais”, afirma o engenheiro agrícola Andrew Jones, sócio-diretor da Ajagro, empresa de consultoria especializada em pecuária leiteira, sediada em Canoas (RS).

Outros desafios, segundo ele, é o fator biológico, em função do clima tropical, que favorece a ocorrência de pragas, como cigarrinhas e carrapatos, além da incidência de algumas doenças nos animais leiteiros, fatos que não ocorrem na Europa, por exemplo.

Fabio Homero Diniz: “O potencial de consumo de orgânicos tem atraído pequenos e médios produtores de leite, que vislumbram agregar mais valor e melhorar a remuneração de seu produto”

O especialista observa que o produtor que pretende fazer a transição deve ter aptidão e perfil para se adequar ao novo sistema de produção. “Se ele quer entrar só porque vai ser mais bem remunerado, as dificuldades de adoção de um projeto orgânico serão muito maiores. Ele deve entrar pelo objetivo, por amor à causa e não só pela remuneração.”

Entender a unidade produtiva como um todo é outro pilar importante, mesmo que nem todas as áreas venham a ser envolvidas diretamente na produção. “Ele precisa enxergar tudo o que está inserido internamente no seu sistema de produção, mas também no dos vizinhos.” Dependendo da localização da propriedade, do que é produzido e da forma como se produz na vizinhança, os impactos podem até inviabilizar a atividade. “O ambiente interno e externo tem que ser muito bem avaliado antes de começar qualquer projeto”, alerta Jones.

Pesa ainda em sua avaliação o investimento inicial, necessário para obter os resultados desejados. “Certamente será preciso dispender algum recurso para fazer a reposição daqueles animais descartados por não se adequarem ao sistema e até mesmo para atravessar o período que leva até que a transição seja concluída”, explica. Em geral, esse prazo é de 12 meses para a parte agrícola e mais seis meses para a parte pecuária.

Andrew Jones: “A eficiência é um fator que deve estar acima de tudo. O desafio é ser eficiente sempre, em qualquer sistema de produção, seja orgânico, seja convencional”

O engenheiro agrícola Andrews Jones ratifica a importância da eficiência, em consonância com produtores e demais elos da cadeia. “É um fator que deve estar acima de tudo. O desafio é ser eficiente sempre, em qualquer sistema de produção, seja orgânico, seja convencional.”

Ele aponta ainda que a neutralização de carbono é uma forte tendência para agregar mais valor ao leite orgânico. “As empresas estão cada vez mais correndo atrás disso porque o consumidor se interessa em saber como está sendo produzido o leite que ele consome. É uma demanda que vem de cima para baixo.” Para aproveitar essa oportunidade, no entanto, o produtor precisa mensurar, quantificar e adequar o seu sistema.

Para Fabio Homero Diniz, da Embrapa Gado de Leite, o perfil ideal do produtor orgânico é daquele que realmente acredita na sustentabilidade do sistema, na menor emissão de carbono e no bem-estar animal e se baseia no tripé econômico, social e ambiental, sempre atento ao meio ambiente, à geração de renda e à qualidade de vida, tanto dele como do consumidor. “Se ele tem isso como filosofia de produção e de vida, ele se adapta melhor”, afirma.

Pioneirismo e alta eficiência – A cadeia de leite orgânico no País ainda não é uma atividade de grande escala. A média de produção oscila entre 800 e 1.000 litros/dia, mas a adoção de práticas baseadas nos conceitos do projeto Balde Cheio de produção a pasto a torna altamente tecnificada, com excepcionais índices de produtividade.

Nesse aspecto, há propriedades que se destacam como referências para as demais, além do pioneirismo de ter desbravado caminhos até então inexplorados. Em Serra Negra, a Fazenda Nata da Serra, uma unidade de demonstração da Embrapa, que abriga pesquisas e desenvolve tecnologias de produção que são multiplicadas para outros produtores, iniciou seu processo de transição para o leite orgânico no ano 2000.

A história começa quando o proprietário, Ricardo Schiavinato, assumiu as atividades da fazenda em 1990, ano em que se formou engenheiro agrônomo pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), campus de Jaboticabal, passando a cultivar hortaliças e morango no sistema convencional, até passar por uma crise no período pós-plano real, quando chegou a pensar em desistir.

Ricardo Schiavinato: “A produtividade por área saiu de 2.000 litros/hectare/ano para a incrível média de 23.000 litros/hectare/ano”

“Já tirava um pouco de leite naquela época e fazia alguns queijos, mas o manejo ainda era convencional”, afirma. O processo de conversão viria a partir de 1997, como uma alternativa para reverter a situação, que era desfavorável. A certificação veio em meados do ano 2000.

A partir da decisão, que foi estimulada pelo próprio mercado, aconteceu uma “revolução” na propriedade, conforme conta Schiavinato, que se considerava um bom produtor de olerícolas orgânicas, com conhecimentos que facilitariam o processo de conversão. Outra vantagem à época era o fato de ele também já ter o laticínio certificado e inspecionado, criando assim um diferencial.

No início, o rebanho era formado por vacas Holandesas vermelho e branco, com média de 20 litros/dia e produção em torno de 900 litros, numa área de 45 hectares. Em pouco tempo a produção sofreu uma queda brusca, caindo para 300 litros/dia. “Apesar de ter sido uma catástrofe, percebi que não estava tendo prejuízo, mas empatava e eu parei de sangrar”, afirma. A entrada para o projeto Balde Cheio, em 2006, foi o marco da verdadeira mudança e de uma “nova revolução.

Na Fazenda Nata da Serra, graças às pastagens de altíssima qualidade, com teor de proteína acima de 20%, consegue-se fechar uma dieta com menos ração, reduzindo expressivamente o custo da comida

Hoje a fazenda produz 1.500 litros por dia, numa área de 25 hectares, dividida em 270 piquetes com forragens diversificadas e índices zootécnicos que fizeram uma curva ascendente em todos os sentidos. Com isso, a produtividade por área saiu de 2.000 litros/hectare/ano para a incrível média de 23.000 litros/hectare/ano, superior à de produtores da Nova Zelândia.

“Isso aconteceu porque fizemos mudanças nas pastagens, com correção de solo, adubação verde e todos os insumos que a produção orgânica permite. Introduzimos o pastejo rotacionado, com piquetes sendo roçados todos os dias, para que ficasse um resíduo que retorna para o solo e se transforma em matéria orgânica, cujo índice hoje chega a até 5% em algumas áreas.”

A genética também foi evoluindo, com cruzamentos de raças como o Girolando, a Holandesa, a Jersey e um pouco de Gir Leiteiro. “Fomos criando heterose, com animais de aptidão leiteira, mas ao mesmo tempo mais rústicos. Trouxemos outras raças e chegamos a animais de porte menor, mas fortes, compactos e ágeis para se alimentarem a pasto. Com isso a média de produção diminuiu, levando em conta que o uso de rações na produção orgânica é muito restritivo, tanto pelo custo quanto por questões normativas, o que representa um impeditivo para se ter maior volume de produção”, explica.

No entanto, com animais menores e pastejo que supre a maior parte de suas necessidades nutritivas e com maior densidade de cabeças por área, a produtividade será muito maior. No seu caso, como as pastagens são de altíssima qualidade, com teor de proteína acima de 20%, ele consegue fechar uma dieta com menos ração, apenas com milho, reduzindo a quase zero a dependência desse insumo.

“Com isso, o custo é pelo menos 20% abaixo do que a média e em 2021 fechamos em R$ 2,24 por litro. Se considerarmos o preço pago no mercado, cerca de R$ 3,50 em média, a nossa margem atinge um ótimo nível”, afirma. E se for calculado em termos de equivalência/leite, considerando a venda de animais, esse custo baixa ainda mais, chegando a R$ 1,76 o litro, o que permitiria a sobrevivência da fazenda mesmo vendendo no mercado convencional. A Fazenda Nata da Serra verticaliza sua produção, apresentando ao mercado um mix de mais de 30 produtos, vendidos diretamente ao consumidor, entre queijos, iogurte e o próprio leite.

A integração na prática, na Fazenda Malunga: o que sobra da horta vai para a alimentação dos animais e o resíduo dos animais vira material orgânico para guarnecer a horta

Fazenda Malunga – Outra boa referência de alto desempenho no sistema de produção de leite orgânico é a Fazenda Malunga, que fica a 70 km de Brasília, no Distrito Federal. Esse projeto pioneiro foi iniciado há mais de 30 anos, depois que o proprietário, Joe Valle, engenheiro florestal formado pela Universidade de Brasília (UnB), passou por um problema sério de intoxicação e de quase falência. Era uma época em que pouco se falava em sustentabilidade e produção orgânica.

“Eu praticamente já tinha desistido de produzir, mas conheci um grupo na universidade que estudava a agricultura alternativa e voltei a me animar”, relembra o produtor, que começou a estudar e visitar locais onde já havia produção orgânica em busca de experiências que fossem sustentáveis economicamente. A Fazenda Malunga passou então a abrigar o projeto do grupo e as mudanças foram sendo adotadas aos poucos. “Fomos estudando, buscando saber o porquê das coisas, olhando para a ciência”, diz.

Nos primeiros tempos, a comercialização era feita em feiras de Brasília e a fazenda se associou a outros agricultores para criar a Associação de Agricultura Ecológica (AGE), que existe até hoje.

Joe Valle, da Fazenda Malunga: “É um erro o produtor pensar que vai fazer mais dinheiro só mudando o sistema, pois, se não se der bem num sistema, provavelmente não vai dar certo também no outro. Faça primeiro o dever de casa”

Em 1995, Valle conheceu a esposa, a engenheira agrônoma Clevane Ribeiro Pereira Valle, mineira que trabalhava com café no sul de Minas, e iniciou com ela o projeto, aproveitando sua experiência. Depois das feiras, vieram os supermercados e, posteriormente, a decisão de abrir uma loja própria, que já forma uma rede que hoje tem cinco unidades, operando inclusive em Goiânia.

A fazenda, que nasceu sob a visão de que tudo deve ser integrado, começou com a atividade leiteira apenas com o objetivo de ter material orgânico para a parte vegetal, situação que evoluiu para um negócio até chegar aos padrões atuais.

Nessa trajetória, passou por todo o processo de adaptação e reestruturação do sistema, incluindo manejo, adequação do solo, nutrição e demais passos necessários para alcançar o equilíbrio e se tornar realmente sustentável. “Tivemos certa facilidade na implantação do projeto de leite, porque a fazenda já era orgânica e já tinha um canal de comercialização”, afirma Valle.

A integração com a horta acabou sendo um processo natural e, hoje, todas as manhãs, as vacas consomem cerca de duas toneladas da sobra de verduras não comercializadas. “É uma interação interessante, ou seja, o que sobra da horta vai para a alimentação dos animais e o resíduo dos animais vira material orgânico para guarnecer a horta.”

A produção da fazenda é toda destinada ao laticínio para a fabricação de 14 diferentes produtos lácteos com selo próprio e soma 1.500 litros de leite A2A2 por dia, com um rebanho formado por vacas cruzadas das raças Jersey, Holandesa e Gir Leiteiro. São 80 animais em lactação e média de 16 litros por cabeça, mas o objetivo é chegar em maio próximo a 100 vacas, com média de 25 litros, atingindo assim a meta de 2.500 litros/dia até o fim de 2023.

A pastagem é dividida em piquetes, para onde as vacas são levadas sempre por volta das 21 horas para passar a noite, muito mais para a produção de material orgânico que para se alimentar. A comida é fornecida aos animais a cocho, com silagem de milho para os lotes de pré e pós-parto e vacas de alta lactação e silagem de capiaçu para animais secos, jovens ou de baixa lactação.

A complementação da dieta das vacas é feita com silagem de milho orgânica. Em um vídeo divulgado na Internet, em fevereiro último, Joe Valle comenta sua produção de silagem, em que ensilou 1.450 toneladas de material, colhidas em 40 ha. “Foi um trabalho duro, numa jornada de 2 horas por dia, utilizando a máquina JF C 192, na qual adaptamos um inoculador. Foram duas semanas e meia de trabalho, que encerramos em ritmo de festa, como sempre fazemos”.

Na porta da gôndola, a história de qualidade e cuidados na produção dos produtos da Fazenda Malunga

Eficiência em primeiro lugar – Aos muitos produtores de várias regiões do País, que visitam a propriedade em busca de informações, a primeira recomendação é para que “façam bem feito, não importando se é convencional ou orgânico”. E que, antes de fazer a transição achando que ao vender o leite mais caro seus problemas estarão resolvidos, faça uma gestão bem feita e produza de forma eficiente.

“Se o leite convencional estiver dando certo é uma boa hora para migrar para o orgânico, desde que seja por uma questão conceitual e para agregar valor ao seu produto. É um erro pensar que vai fazer mais dinheiro só mudando o sistema, pois, se não se der bem num sistema, provavelmente não vai dar certo também no outro. Faça primeiro o dever de casa”, ensina Valle.

A produção orgânica, segundo ele, é um negócio que tem como base conceitual a sustentabilidade, mas que envolve também um pensamento sistêmico e uma filosofia de trabalho e não apenas uma filosofia de vida.

“Há uma consequência desse modelo sobre o qual a gente tem a responsabilidade de manter a produção de forma integrada e sustentável, com recursos controlados e a gestão de pessoas bem feita para que a equipe se comporte e se integre ao sistema”, ressalta. Por isso a sua propriedade praticamente se tornou uma escola, onde diariamente os cerca de 300 colaboradores recebem novas informações.

Fundamental também, segundo ele, é manter custos sempre ajustados para melhorar a margem de lucro. Com seu custo de produção em R$ 2,74 o litro e preço de venda que pode chegar a R$ 8 por litro, considerando o valor médio alcançado pelo mix de mais de 14 produtos fabricados com o leite e comercializados pela própria fazenda, sua margem acaba sendo ampliada.

Valle aponta que houve uma oscilação positiva no consumo durante a pandemia, com alta de até 30% em 2020, chegando ao fim de 2021 com média de 15% em relação a igual período de 2019. A tendência, segundo ele, é a valorização cada vez maior dos extratos veganos e seus derivados, realidade que precisa ser entendida e superada pelo segmento, com estratégias de marketing que valorizem o leite orgânico, mostrando ao consumidor as suas qualidades.

Recanto SS: transição gradual e eficiência – Essa propriedade, localizada em Itirapina (SP), tem 29 hectares e produz leite desde 2005. Iniciou seu processo de conversão em 2013 e obteve a certificação em 2014. “O produtor que decidir mudar para o leite orgânico deve converter sua produção de forma gradual. Na hora em que tiver o domínio das técnicas, aí sim ele faz o marco zero e começa a conversão”, aconselha Claudinei Saldanha Júnior, que é sócio-proprietário do Recanto SS e também coordenador da Comissão Nacional de Leite e Derivados Orgânicos da Abraleite.

Ele produz 1.350 litros/dia, com média de 18.000 litros/hectare/ano e conta que a sua passagem para o leite orgânico ocorreu num momento de descontentamento com a lucratividade da fazenda, paralelamente a uma oportunidade oferecida pela Fazenda da Toca, também localizada em Itirapina. Posteriormente firmou parceria com a Nestlé, que apostou na sua proposta que envolvia outros produtores e foi assumida pela multinacional.

“Hoje minha propriedade vira no azul, porque é eficiente”, afirma. Mas para isso não basta, segundo ele, apenas que a margem do leite orgânico seja maior que a do convencional, mas a gestão precisa ser bem feita. “Esse é o ponto crucial para qualquer propriedade leiteira”, arremata.

Claudinei Saldanha Júnior: O produtor deve converter sua produção de forma gradual. Na hora em que tiver o domínio das técnicas, aí sim ele faz o marco zero e começa a conversão

Apoio da Abraleite – A Associação Brasileira dos Produtores de Leite (Abraleite) não só apoia a iniciativa da Embrapa, como também pretende fomentar cada vez mais ações de fortalecimento da cadeia do leite orgânico, por meio da Comissão Nacional de Leite e Derivados Orgânicos, criada em 2020 e coordenada pelo produtor Claudinei Saldanha Junior, que iniciou essa parceria institucional com a Embrapa, visando à criação da plataforma.

“O mercado não é homogêneo, nem na sua concentração e nem na forma de comercialização, pois a produção nacional ainda não é em grande escala”, avalia, quando se refere ao mercado para os produtos lácteos orgânicos. Hoje, a maior concentração da demanda, segundo Saldanha, está nos grandes centros, onde o poder de compra é maior. Porém, esse quadro pode mudar futuramente se o produto deixar de ser voltado apenas para o topo da pirâmide e se estender e tornar-se acessível à classe C.

“Falta marketing para aumentar o consumo e com isso reduzir custos e tornar o preço mais acessível, pois, havendo demanda, haverá mais venda e se chega a um preço mais adequado a uma parcela maior de consumidores.”

DADOS PARA A CADEIA DO LEITE ORGÂNICO

 
O Observatório do Leite Orgânico é um projeto da Embrapa iniciado em março de 2021, com a proposta de desenvolver uma plataforma para reunir e divulgar dados sistematizados sobre a cadeia do leite orgânico no Brasil.

A expectativa é ter um amplo banco de dados com a caracterização das propriedades, tamanho do rebanho, produtividade e eficiência dos sistemas, informações sobre fornecedores de insumos e medicamentos e, futuramente, sobre canais de distribuição e circuitos de comercialização. “A plataforma vem como um suporte à cadeia produtiva do leite orgânico”, afirma o analista Fabio Homero Diniz, da Embrapa Gado de Leite, responsável pelo projeto.

A demanda surgiu a partir da necessidade de gerar, coletar e organizar dados para apoiar o planejamento estratégico do setor produtivo, somando esforços ao projeto Balde Cheio Orgânico, desenvolvido pela Embrapa Pecuária Sudeste especificamente para o setor. “As informações estão muito isoladas, em diferentes fontes, e há dificuldade em entender o processo de produção e para se obterem esses números”, explica o analista.

Em estudo realizado em agosto de 2021 pela pesquisadora Fernanda Samarini Machado (foto), atual coordenadora do Observatório, a partir de planilhas do Cadastro Nacional de Produtores Orgânicos (CNPO) do Ministério da Agricultura, foi detectado o registro de 144 produtores, em um total de 89 unidades de produção, e o cadastro de 36 unidades de processamento de leite orgânico em diversas regiões.

O Observatório de Leite Orgânico já contava, desde 2018, com um banco de dados com a caracterização das unidades de produção, a partir da aplicação de questionário junto aos produtores, com informações primárias sobre rebanho, área, produtividade, manejo e desafios enfrentados pelo setor (vide tabela).

Numa nova fase do projeto, prevista para este ano, foram definidas 14 propriedades em várias partes do País, com diferentes sistemas de produção, a serem visitadas para um diagnóstico mais aprofundado, incluindo indicadores de sustentabilidade, como ISA e Avaliação do Ciclo de Vida, além de coletar amostras de leite para determinação de compostos bioativos e do solo para avaliação a partir de atributos físicos, químicos e biológicos, como a nova técnica desenvolvida pela Embrapa (BioAs) que permite estimar a atividade microbiológica a partir da quantificação de enzimas.

“A plataforma deve ser entregue em 2023, passando a ser referência para pesquisadores, empresas e órgãos que necessitarem dessas informações”, afirma Diniz.

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