Mapeamento do perfil do leite orgânico aponta para futuro promissor - Digital Balde Branco
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No Recanto SS, a implementação do sistema de produção de leite orgânico foi feita gradualmente e com todo o critério

ESPECIAL: LEITE ORGÂNICO

Mapeamento do perfil do leite orgânico

aponta para futuro promissor

Para atingir esse futuro, o caminho deve ser o da eficiência, aliado a uma visão empreendedora para agregar valor à atividade

João Carlos de Faria

Dados do Obser­va­tó­rio do Lei­te, pro­je­to da Embra­pa Gado de Lei­te, apon­tam um cres­ci­men­to de 26% no núme­ro de uni­da­des de pro­du­ção de lei­te orgâ­ni­co no Bra­sil, no perío­do entre 2018 e 2020, cen­tra­li­za­do prin­ci­pal­men­te nos Esta­dos de São Pau­lo, onde cres­ceu 300%, pas­san­do de 11 para 45 uni­da­des; Minas Gerais, que pas­sou de 6 para 11 uni­da­des (85%), e Rio de Janei­ro, de uma para oito uni­da­des (800%).

No total, em 2020, eram 152 uni­da­des de pro­du­ção de lei­te orgâ­ni­co, espa­lha­das por vári­as regiões. Outra pes­qui­sa rea­li­za­da pela Orga­nis – asso­ci­a­ção sedi­a­da em Curi­ti­ba, que tra­ba­lha para dar visi­bi­li­da­de aos orgâ­ni­cos – apon­ta que, em 2021, hou­ve um aumen­to de 63% no con­su­mo des­ses pro­du­tos em geral, se com­pa­ra­do a 2019, e de 106% em rela­ção a 2017. 

“Hou­ve um cres­ci­men­to sig­ni­fi­ca­ti­vo nos Esta­dos de São Pau­lo, Minas e Rio de Janei­ro, por cau­sa das mul­ti­na­ci­o­nais que pas­sa­ram a com­prar lei­te orgâ­ni­co”, afir­ma o ana­lis­ta da Embra­pa Gado de Lei­te Fabio Home­ro Diniz, um dos ide­a­li­za­do­res do Obser­va­tó­rio do Lei­te Orgânico. 

A pro­du­ção de lei­te, que deve ser cer­ti­fi­ca­da por ins­ti­tui­ções cre­den­ci­a­das, exi­ge uma série de mudan­ças no sis­te­ma de pro­du­ção, do solo ao mane­jo dos ani­mais. Ou seja, o pro­ces­so de tran­si­ção da pro­du­ção con­ven­ci­o­nal para a orgâ­ni­ca requer cui­da­dos e um pas­so a pas­so para pro­gra­mar as medi­das neces­sá­ri­as e se obter suces­so. “Ini­ci­al­men­te, as mai­o­res difi­cul­da­des estão rela­ci­o­na­das à nutri­ção. A legis­la­ção não per­mi­te o uso da adu­ba­ção quí­mi­ca e de insu­mos de ori­gem gene­ti­ca­men­te modi­fi­ca­da (trans­gê­ni­cos). Além dis­so, os insu­mos orgâ­ni­cos ain­da não são ampla­men­te pro­du­zi­dos e seus cus­tos são mais altos do que os con­ven­ci­o­nais”, afir­ma o enge­nhei­ro agrí­co­la Andrew Jones, sócio-dire­tor da Aja­gro, empre­sa de con­sul­to­ria espe­ci­a­li­za­da em pecuá­ria lei­tei­ra, sedi­a­da em Cano­as (RS).

Outros desa­fi­os, segun­do ele, é o fator bio­ló­gi­co, em fun­ção do cli­ma tro­pi­cal, que favo­re­ce a ocor­rên­cia de pra­gas, como cigar­ri­nhas e car­ra­pa­tos, além da inci­dên­cia de algu­mas doen­ças nos ani­mais lei­tei­ros, fatos que não ocor­rem na Euro­pa, por exemplo. 

Fabio Homero Diniz: “O potencial de consumo de orgânicos tem atraído pequenos e médios produtores de leite, que vislumbram agregar mais valor e melhorar a remuneração de seu produto”

O espe­ci­a­lis­ta obser­va que o pro­du­tor que pre­ten­de fazer a tran­si­ção deve ter apti­dão e per­fil para se ade­quar ao novo sis­te­ma de pro­du­ção. “Se ele quer entrar só por­que vai ser mais bem remu­ne­ra­do, as difi­cul­da­des de ado­ção de um pro­je­to orgâ­ni­co serão mui­to mai­o­res. Ele deve entrar pelo obje­ti­vo, por amor à cau­sa e não só pela remuneração.”

Enten­der a uni­da­de pro­du­ti­va como um todo é outro pilar impor­tan­te, mes­mo que nem todas as áre­as venham a ser envol­vi­das dire­ta­men­te na pro­du­ção. “Ele pre­ci­sa enxer­gar tudo o que está inse­ri­do inter­na­men­te no seu sis­te­ma de pro­du­ção, mas tam­bém no dos vizi­nhos.” Depen­den­do da loca­li­za­ção da pro­pri­e­da­de, do que é pro­du­zi­do e da for­ma como se pro­duz na vizi­nhan­ça, os impac­tos podem até invi­a­bi­li­zar a ati­vi­da­de. “O ambi­en­te inter­no e exter­no tem que ser mui­to bem ava­li­a­do antes de come­çar qual­quer pro­je­to”, aler­ta Jones.

Pesa ain­da em sua ava­li­a­ção o inves­ti­men­to ini­ci­al, neces­sá­rio para obter os resul­ta­dos dese­ja­dos. “Cer­ta­men­te será pre­ci­so dis­pen­der algum recur­so para fazer a repo­si­ção daque­les ani­mais des­car­ta­dos por não se ade­qua­rem ao sis­te­ma e até mes­mo para atra­ves­sar o perío­do que leva até que a tran­si­ção seja con­cluí­da”, expli­ca. Em geral, esse pra­zo é de 12 meses para a par­te agrí­co­la e mais seis meses para a par­te pecuária.

Andrew Jones: “A eficiência é um fator que deve estar acima de tudo. O desafio é ser eficiente sempre, em qualquer sistema de produção, seja orgânico, seja convencional”

O enge­nhei­ro agrí­co­la Andrews Jones rati­fi­ca a impor­tân­cia da efi­ci­ên­cia, em con­so­nân­cia com pro­du­to­res e demais elos da cadeia. “É um fator que deve estar aci­ma de tudo. O desa­fio é ser efi­ci­en­te sem­pre, em qual­quer sis­te­ma de pro­du­ção, seja orgâ­ni­co, seja convencional.” 

Ele apon­ta ain­da que a neu­tra­li­za­ção de car­bo­no é uma for­te ten­dên­cia para agre­gar mais valor ao lei­te orgâ­ni­co. “As empre­sas estão cada vez mais cor­ren­do atrás dis­so por­que o con­su­mi­dor se inte­res­sa em saber como está sen­do pro­du­zi­do o lei­te que ele con­so­me. É uma deman­da que vem de cima para bai­xo.” Para apro­vei­tar essa opor­tu­ni­da­de, no entan­to, o pro­du­tor pre­ci­sa men­su­rar, quan­ti­fi­car e ade­quar o seu sistema. 

Para Fabio Home­ro Diniz, da Embra­pa Gado de Lei­te, o per­fil ide­al do pro­du­tor orgâ­ni­co é daque­le que real­men­te acre­di­ta na sus­ten­ta­bi­li­da­de do sis­te­ma, na menor emis­são de car­bo­no e no bem-estar ani­mal e se baseia no tri­pé econô­mi­co, soci­al e ambi­en­tal, sem­pre aten­to ao meio ambi­en­te, à gera­ção de ren­da e à qua­li­da­de de vida, tan­to dele como do con­su­mi­dor. “Se ele tem isso como filo­so­fia de pro­du­ção e de vida, ele se adap­ta melhor”, afirma. 

Pio­nei­ris­mo e alta efi­ci­ên­cia – A cadeia de lei­te orgâ­ni­co no País ain­da não é uma ati­vi­da­de de gran­de esca­la. A média de pro­du­ção osci­la entre 800 e 1.000 litros/dia, mas a ado­ção de prá­ti­cas base­a­das nos con­cei­tos do pro­je­to Bal­de Cheio de pro­du­ção a pas­to a tor­na alta­men­te tec­ni­fi­ca­da, com excep­ci­o­nais índi­ces de produtividade.

Nes­se aspec­to, há pro­pri­e­da­des que se des­ta­cam como refe­rên­ci­as para as demais, além do pio­nei­ris­mo de ter des­bra­va­do cami­nhos até então inex­plo­ra­dos. Em Ser­ra Negra, a Fazen­da Nata da Ser­ra, uma uni­da­de de demons­tra­ção da Embra­pa, que abri­ga pes­qui­sas e desen­vol­ve tec­no­lo­gi­as de pro­du­ção que são mul­ti­pli­ca­das para outros pro­du­to­res, ini­ci­ou seu pro­ces­so de tran­si­ção para o lei­te orgâ­ni­co no ano 2000.

A his­tó­ria come­ça quan­do o pro­pri­e­tá­rio, Ricar­do Schi­a­vi­na­to, assu­miu as ati­vi­da­des da fazen­da em 1990, ano em que se for­mou enge­nhei­ro agrô­no­mo pela Uni­ver­si­da­de Esta­du­al Pau­lis­ta (Unesp), cam­pus de Jabo­ti­ca­bal, pas­san­do a cul­ti­var hor­ta­li­ças e moran­go no sis­te­ma con­ven­ci­o­nal, até pas­sar por uma cri­se no perío­do pós-pla­no real, quan­do che­gou a pen­sar em desistir.

Ricardo Schiavinato: “A produtividade por área saiu de 2.000 litros/hectare/ano para a incrível média de 23.000 litros/hectare/ano”

“Já tira­va um pou­co de lei­te naque­la épo­ca e fazia alguns quei­jos, mas o mane­jo ain­da era con­ven­ci­o­nal”, afir­ma. O pro­ces­so de con­ver­são viria a par­tir de 1997, como uma alter­na­ti­va para rever­ter a situ­a­ção, que era des­fa­vo­rá­vel. A cer­ti­fi­ca­ção veio em mea­dos do ano 2000. 

A par­tir da deci­são, que foi esti­mu­la­da pelo pró­prio mer­ca­do, acon­te­ceu uma “revo­lu­ção” na pro­pri­e­da­de, con­for­me con­ta Schi­a­vi­na­to, que se con­si­de­ra­va um bom pro­du­tor de ole­rí­co­las orgâ­ni­cas, com conhe­ci­men­tos que faci­li­ta­ri­am o pro­ces­so de con­ver­são. Outra van­ta­gem à épo­ca era o fato de ele tam­bém já ter o lati­cí­nio cer­ti­fi­ca­do e ins­pe­ci­o­na­do, cri­an­do assim um diferencial.

No iní­cio, o reba­nho era for­ma­do por vacas Holan­de­sas ver­me­lho e bran­co, com média de 20 litros/dia e pro­du­ção em tor­no de 900 litros, numa área de 45 hec­ta­res. Em pou­co tem­po a pro­du­ção sofreu uma que­da brus­ca, cain­do para 300 litros/dia. “Ape­sar de ter sido uma catás­tro­fe, per­ce­bi que não esta­va ten­do pre­juí­zo, mas empa­ta­va e eu parei de san­grar”, afir­ma. A entra­da para o pro­je­to Bal­de Cheio, em 2006, foi o mar­co da ver­da­dei­ra mudan­ça e de uma “nova revolução.

Na Fazenda Nata da Serra, graças às pastagens de altíssima qualidade, com teor de proteína acima de 20%, consegue-se fechar uma dieta com menos ração, reduzindo expressivamente o custo da comida

Hoje a fazen­da pro­duz 1.500 litros por dia, numa área de 25 hec­ta­res, divi­di­da em 270 pique­tes com for­ra­gens diver­si­fi­ca­das e índi­ces zoo­téc­ni­cos que fize­ram uma cur­va ascen­den­te em todos os sen­ti­dos. Com isso, a pro­du­ti­vi­da­de por área saiu de 2.000 litros/hectare/ano para a incrí­vel média de 23.000 litros/hectare/ano, supe­ri­or à de pro­du­to­res da Nova Zelândia. 

“Isso acon­te­ceu por­que fize­mos mudan­ças nas pas­ta­gens, com cor­re­ção de solo, adu­ba­ção ver­de e todos os insu­mos que a pro­du­ção orgâ­ni­ca per­mi­te. Intro­du­zi­mos o pas­te­jo rota­ci­o­na­do, com pique­tes sen­do roça­dos todos os dias, para que ficas­se um resí­duo que retor­na para o solo e se trans­for­ma em maté­ria orgâ­ni­ca, cujo índi­ce hoje che­ga a até 5% em algu­mas áreas.” 

A gené­ti­ca tam­bém foi evo­luin­do, com cru­za­men­tos de raças como o Giro­lan­do, a Holan­de­sa, a Jer­sey e um pou­co de Gir Lei­tei­ro. “Fomos cri­an­do hete­ro­se, com ani­mais de apti­dão lei­tei­ra, mas ao mes­mo tem­po mais rús­ti­cos. Trou­xe­mos outras raças e che­ga­mos a ani­mais de por­te menor, mas for­tes, com­pac­tos e ágeis para se ali­men­ta­rem a pas­to. Com isso a média de pro­du­ção dimi­nuiu, levan­do em con­ta que o uso de rações na pro­du­ção orgâ­ni­ca é mui­to res­tri­ti­vo, tan­to pelo cus­to quan­to por ques­tões nor­ma­ti­vas, o que repre­sen­ta um impe­di­ti­vo para se ter mai­or volu­me de pro­du­ção”, explica. 

No entan­to, com ani­mais meno­res e pas­te­jo que supre a mai­or par­te de suas neces­si­da­des nutri­ti­vas e com mai­or den­si­da­de de cabe­ças por área, a pro­du­ti­vi­da­de será mui­to mai­or. No seu caso, como as pas­ta­gens são de altís­si­ma qua­li­da­de, com teor de pro­teí­na aci­ma de 20%, ele con­se­gue fechar uma die­ta com menos ração, ape­nas com milho, redu­zin­do a qua­se zero a depen­dên­cia des­se insumo. 

“Com isso, o cus­to é pelo menos 20% abai­xo do que a média e em 2021 fecha­mos em R$ 2,24 por litro. Se con­si­de­rar­mos o pre­ço pago no mer­ca­do, cer­ca de R$ 3,50 em média, a nos­sa mar­gem atin­ge um óti­mo nível”, afir­ma. E se for cal­cu­la­do em ter­mos de equivalência/leite, con­si­de­ran­do a ven­da de ani­mais, esse cus­to bai­xa ain­da mais, che­gan­do a R$ 1,76 o litro, o que per­mi­ti­ria a sobre­vi­vên­cia da fazen­da mes­mo ven­den­do no mer­ca­do con­ven­ci­o­nal. A Fazen­da Nata da Ser­ra ver­ti­ca­li­za sua pro­du­ção, apre­sen­tan­do ao mer­ca­do um mix de mais de 30 pro­du­tos, ven­di­dos dire­ta­men­te ao con­su­mi­dor, entre quei­jos, iogur­te e o pró­prio leite.

A integração na prática, na Fazenda Malunga: o que sobra da horta vai para a alimentação dos animais e o resíduo dos animais vira material orgânico para guarnecer a horta

Fazen­da Malun­ga – Outra boa refe­rên­cia de alto desem­pe­nho no sis­te­ma de pro­du­ção de lei­te orgâ­ni­co é a Fazen­da Malun­ga, que fica a 70 km de Bra­sí­lia, no Dis­tri­to Fede­ral. Esse pro­je­to pio­nei­ro foi ini­ci­a­do há mais de 30 anos, depois que o pro­pri­e­tá­rio, Joe Val­le, enge­nhei­ro flo­res­tal for­ma­do pela Uni­ver­si­da­de de Bra­sí­lia (UnB), pas­sou por um pro­ble­ma sério de into­xi­ca­ção e de qua­se falên­cia. Era uma épo­ca em que pou­co se fala­va em sus­ten­ta­bi­li­da­de e pro­du­ção orgânica.

“Eu pra­ti­ca­men­te já tinha desis­ti­do de pro­du­zir, mas conhe­ci um gru­po na uni­ver­si­da­de que estu­da­va a agri­cul­tu­ra alter­na­ti­va e vol­tei a me ani­mar”, relem­bra o pro­du­tor, que come­çou a estu­dar e visi­tar locais onde já havia pro­du­ção orgâ­ni­ca em bus­ca de expe­ri­ên­ci­as que fos­sem sus­ten­tá­veis eco­no­mi­ca­men­te. A Fazen­da Malun­ga pas­sou então a abri­gar o pro­je­to do gru­po e as mudan­ças foram sen­do ado­ta­das aos pou­cos. “Fomos estu­dan­do, bus­can­do saber o porquê das coi­sas, olhan­do para a ciên­cia”, diz. 

Nos pri­mei­ros tem­pos, a comer­ci­a­li­za­ção era fei­ta em fei­ras de Bra­sí­lia e a fazen­da se asso­ci­ou a outros agri­cul­to­res para cri­ar a Asso­ci­a­ção de Agri­cul­tu­ra Eco­ló­gi­ca (AGE), que exis­te até hoje.

Joe Valle, da Fazenda Malunga: “É um erro o produtor pensar que vai fazer mais dinheiro só mudando o sistema, pois, se não se der bem num sistema, provavelmente não vai dar certo também no outro. Faça primeiro o dever de casa”

Em 1995, Val­le conhe­ceu a espo­sa, a enge­nhei­ra agrô­no­ma Cle­va­ne Ribei­ro Perei­ra Val­le, minei­ra que tra­ba­lha­va com café no sul de Minas, e ini­ci­ou com ela o pro­je­to, apro­vei­tan­do sua expe­ri­ên­cia. Depois das fei­ras, vie­ram os super­mer­ca­dos e, pos­te­ri­or­men­te, a deci­são de abrir uma loja pró­pria, que já for­ma uma rede que hoje tem cin­co uni­da­des, ope­ran­do inclu­si­ve em Goiânia. 

A fazen­da, que nas­ceu sob a visão de que tudo deve ser inte­gra­do, come­çou com a ati­vi­da­de lei­tei­ra ape­nas com o obje­ti­vo de ter mate­ri­al orgâ­ni­co para a par­te vege­tal, situ­a­ção que evo­luiu para um negó­cio até che­gar aos padrões atuais. 

Nes­sa tra­je­tó­ria, pas­sou por todo o pro­ces­so de adap­ta­ção e rees­tru­tu­ra­ção do sis­te­ma, incluin­do mane­jo, ade­qua­ção do solo, nutri­ção e demais pas­sos neces­sá­ri­os para alcan­çar o equi­lí­brio e se tor­nar real­men­te sus­ten­tá­vel. “Tive­mos cer­ta faci­li­da­de na implan­ta­ção do pro­je­to de lei­te, por­que a fazen­da já era orgâ­ni­ca e já tinha um canal de comer­ci­a­li­za­ção”, afir­ma Valle. 

A inte­gra­ção com a hor­ta aca­bou sen­do um pro­ces­so natu­ral e, hoje, todas as manhãs, as vacas con­so­mem cer­ca de duas tone­la­das da sobra de ver­du­ras não comer­ci­a­li­za­das. “É uma inte­ra­ção inte­res­san­te, ou seja, o que sobra da hor­ta vai para a ali­men­ta­ção dos ani­mais e o resí­duo dos ani­mais vira mate­ri­al orgâ­ni­co para guar­ne­cer a horta.” 

A pro­du­ção da fazen­da é toda des­ti­na­da ao lati­cí­nio para a fabri­ca­ção de 14 dife­ren­tes pro­du­tos lác­te­os com selo pró­prio e soma 1.500 litros de lei­te A2A2 por dia, com um reba­nho for­ma­do por vacas cru­za­das das raças Jer­sey, Holan­de­sa e Gir Lei­tei­ro. São 80 ani­mais em lac­ta­ção e média de 16 litros por cabe­ça, mas o obje­ti­vo é che­gar em maio pró­xi­mo a 100 vacas, com média de 25 litros, atin­gin­do assim a meta de 2.500 litros/dia até o fim de 2023. 

A pas­ta­gem é divi­di­da em pique­tes, para onde as vacas são leva­das sem­pre por vol­ta das 21 horas para pas­sar a noi­te, mui­to mais para a pro­du­ção de mate­ri­al orgâ­ni­co que para se ali­men­tar. A comi­da é for­ne­ci­da aos ani­mais a cocho, com sila­gem de milho para os lotes de pré e pós-par­to e vacas de alta lac­ta­ção e sila­gem de capi­a­çu para ani­mais secos, jovens ou de bai­xa lactação. 

A com­ple­men­ta­ção da die­ta das vacas é fei­ta com sila­gem de milho orgâ­ni­ca. Em um vídeo divul­ga­do na Inter­net, em feve­rei­ro últi­mo, Joe Val­le comen­ta sua pro­du­ção de sila­gem, em que ensi­lou 1.450 tone­la­das de mate­ri­al, colhi­das em 40 ha. “Foi um tra­ba­lho duro, numa jor­na­da de 2 horas por dia, uti­li­zan­do a máqui­na JF C 192, na qual adap­ta­mos um ino­cu­la­dor. Foram duas sema­nas e meia de tra­ba­lho, que encer­ra­mos em rit­mo de fes­ta, como sem­pre fazemos”.

Na porta da gôndola, a história de qualidade e cuidados na produção dos produtos da Fazenda Malunga

Efi­ci­ên­cia em pri­mei­ro lugar – Aos mui­tos pro­du­to­res de vári­as regiões do País, que visi­tam a pro­pri­e­da­de em bus­ca de infor­ma­ções, a pri­mei­ra reco­men­da­ção é para que “façam bem fei­to, não impor­tan­do se é con­ven­ci­o­nal ou orgâ­ni­co”. E que, antes de fazer a tran­si­ção achan­do que ao ven­der o lei­te mais caro seus pro­ble­mas esta­rão resol­vi­dos, faça uma ges­tão bem fei­ta e pro­du­za de for­ma eficiente. 

“Se o lei­te con­ven­ci­o­nal esti­ver dan­do cer­to é uma boa hora para migrar para o orgâ­ni­co, des­de que seja por uma ques­tão con­cei­tu­al e para agre­gar valor ao seu pro­du­to. É um erro pen­sar que vai fazer mais dinhei­ro só mudan­do o sis­te­ma, pois, se não se der bem num sis­te­ma, pro­va­vel­men­te não vai dar cer­to tam­bém no outro. Faça pri­mei­ro o dever de casa”, ensi­na Valle. 

A pro­du­ção orgâ­ni­ca, segun­do ele, é um negó­cio que tem como base con­cei­tu­al a sus­ten­ta­bi­li­da­de, mas que envol­ve tam­bém um pen­sa­men­to sis­tê­mi­co e uma filo­so­fia de tra­ba­lho e não ape­nas uma filo­so­fia de vida. 

“Há uma con­sequên­cia des­se mode­lo sobre o qual a gen­te tem a res­pon­sa­bi­li­da­de de man­ter a pro­du­ção de for­ma inte­gra­da e sus­ten­tá­vel, com recur­sos con­tro­la­dos e a ges­tão de pes­so­as bem fei­ta para que a equi­pe se com­por­te e se inte­gre ao sis­te­ma”, res­sal­ta. Por isso a sua pro­pri­e­da­de pra­ti­ca­men­te se tor­nou uma esco­la, onde dia­ri­a­men­te os cer­ca de 300 cola­bo­ra­do­res rece­bem novas informações. 

Fun­da­men­tal tam­bém, segun­do ele, é man­ter cus­tos sem­pre ajus­ta­dos para melho­rar a mar­gem de lucro. Com seu cus­to de pro­du­ção em R$ 2,74 o litro e pre­ço de ven­da que pode che­gar a R$ 8 por litro, con­si­de­ran­do o valor médio alcan­ça­do pelo mix de mais de 14 pro­du­tos fabri­ca­dos com o lei­te e comer­ci­a­li­za­dos pela pró­pria fazen­da, sua mar­gem aca­ba sen­do ampliada. 

Val­le apon­ta que hou­ve uma osci­la­ção posi­ti­va no con­su­mo duran­te a pan­de­mia, com alta de até 30% em 2020, che­gan­do ao fim de 2021 com média de 15% em rela­ção a igual perío­do de 2019. A ten­dên­cia, segun­do ele, é a valo­ri­za­ção cada vez mai­or dos extra­tos vega­nos e seus deri­va­dos, rea­li­da­de que pre­ci­sa ser enten­di­da e supe­ra­da pelo seg­men­to, com estra­té­gi­as de mar­ke­ting que valo­ri­zem o lei­te orgâ­ni­co, mos­tran­do ao con­su­mi­dor as suas qualidades. 

Recan­to SS: tran­si­ção gra­du­al e efi­ci­ên­cia – Essa pro­pri­e­da­de, loca­li­za­da em Iti­ra­pi­na (SP), tem 29 hec­ta­res e pro­duz lei­te des­de 2005. Ini­ci­ou seu pro­ces­so de con­ver­são em 2013 e obte­ve a cer­ti­fi­ca­ção em 2014. “O pro­du­tor que deci­dir mudar para o lei­te orgâ­ni­co deve con­ver­ter sua pro­du­ção de for­ma gra­du­al. Na hora em que tiver o domí­nio das téc­ni­cas, aí sim ele faz o mar­co zero e come­ça a con­ver­são”, acon­se­lha Clau­di­nei Sal­da­nha Júni­or, que é sócio-pro­pri­e­tá­rio do Recan­to SS e tam­bém coor­de­na­dor da Comis­são Naci­o­nal de Lei­te e Deri­va­dos Orgâ­ni­cos da Abraleite. 

Ele pro­duz 1.350 litros/dia, com média de 18.000 litros/hectare/ano e con­ta que a sua pas­sa­gem para o lei­te orgâ­ni­co ocor­reu num momen­to de des­con­ten­ta­men­to com a lucra­ti­vi­da­de da fazen­da, para­le­la­men­te a uma opor­tu­ni­da­de ofe­re­ci­da pela Fazen­da da Toca, tam­bém loca­li­za­da em Iti­ra­pi­na. Pos­te­ri­or­men­te fir­mou par­ce­ria com a Nes­tlé, que apos­tou na sua pro­pos­ta que envol­via outros pro­du­to­res e foi assu­mi­da pela multinacional. 

“Hoje minha pro­pri­e­da­de vira no azul, por­que é efi­ci­en­te”, afir­ma. Mas para isso não bas­ta, segun­do ele, ape­nas que a mar­gem do lei­te orgâ­ni­co seja mai­or que a do con­ven­ci­o­nal, mas a ges­tão pre­ci­sa ser bem fei­ta. “Esse é o pon­to cru­ci­al para qual­quer pro­pri­e­da­de lei­tei­ra”, arremata.

Claudinei Saldanha Júnior: O produtor deve converter sua produção de forma gradual. Na hora em que tiver o domínio das técnicas, aí sim ele faz o marco zero e começa a conversão

Apoio da Abra­lei­te – A Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra dos Pro­du­to­res de Lei­te (Abra­lei­te) não só apoia a ini­ci­a­ti­va da Embra­pa, como tam­bém pre­ten­de fomen­tar cada vez mais ações de for­ta­le­ci­men­to da cadeia do lei­te orgâ­ni­co, por meio da Comis­são Naci­o­nal de Lei­te e Deri­va­dos Orgâ­ni­cos, cri­a­da em 2020 e coor­de­na­da pelo pro­du­tor Clau­di­nei Sal­da­nha Juni­or, que ini­ci­ou essa par­ce­ria ins­ti­tu­ci­o­nal com a Embra­pa, visan­do à cri­a­ção da plataforma. 

“O mer­ca­do não é homo­gê­neo, nem na sua con­cen­tra­ção e nem na for­ma de comer­ci­a­li­za­ção, pois a pro­du­ção naci­o­nal ain­da não é em gran­de esca­la”, ava­lia, quan­do se refe­re ao mer­ca­do para os pro­du­tos lác­te­os orgâ­ni­cos. Hoje, a mai­or con­cen­tra­ção da deman­da, segun­do Sal­da­nha, está nos gran­des cen­tros, onde o poder de com­pra é mai­or. Porém, esse qua­dro pode mudar futu­ra­men­te se o pro­du­to dei­xar de ser vol­ta­do ape­nas para o topo da pirâ­mi­de e se esten­der e tor­nar-se aces­sí­vel à clas­se C. 

“Fal­ta mar­ke­ting para aumen­tar o con­su­mo e com isso redu­zir cus­tos e tor­nar o pre­ço mais aces­sí­vel, pois, haven­do deman­da, have­rá mais ven­da e se che­ga a um pre­ço mais ade­qua­do a uma par­ce­la mai­or de consumidores.”

DADOS PARA A CADEIA DO LEITE ORGÂNICO

 
O Obser­va­tó­rio do Lei­te Orgâ­ni­co é um pro­je­to da Embra­pa ini­ci­a­do em mar­ço de 2021, com a pro­pos­ta de desen­vol­ver uma pla­ta­for­ma para reu­nir e divul­gar dados sis­te­ma­ti­za­dos sobre a cadeia do lei­te orgâ­ni­co no Brasil. 

A expec­ta­ti­va é ter um amplo ban­co de dados com a carac­te­ri­za­ção das pro­pri­e­da­des, tama­nho do reba­nho, pro­du­ti­vi­da­de e efi­ci­ên­cia dos sis­te­mas, infor­ma­ções sobre for­ne­ce­do­res de insu­mos e medi­ca­men­tos e, futu­ra­men­te, sobre canais de dis­tri­bui­ção e cir­cui­tos de comer­ci­a­li­za­ção. “A pla­ta­for­ma vem como um supor­te à cadeia pro­du­ti­va do lei­te orgâ­ni­co”, afir­ma o ana­lis­ta Fabio Home­ro Diniz, da Embra­pa Gado de Lei­te, res­pon­sá­vel pelo projeto.

A deman­da sur­giu a par­tir da neces­si­da­de de gerar, cole­tar e orga­ni­zar dados para apoi­ar o pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co do setor pro­du­ti­vo, soman­do esfor­ços ao pro­je­to Bal­de Cheio Orgâ­ni­co, desen­vol­vi­do pela Embra­pa Pecuá­ria Sudes­te espe­ci­fi­ca­men­te para o setor. “As infor­ma­ções estão mui­to iso­la­das, em dife­ren­tes fon­tes, e há difi­cul­da­de em enten­der o pro­ces­so de pro­du­ção e para se obte­rem esses núme­ros”, expli­ca o analista. 

Em estu­do rea­li­za­do em agos­to de 2021 pela pes­qui­sa­do­ra Fer­nan­da Sama­ri­ni Macha­do (foto), atu­al coor­de­na­do­ra do Obser­va­tó­rio, a par­tir de pla­ni­lhas do Cadas­tro Naci­o­nal de Pro­du­to­res Orgâ­ni­cos (CNPO) do Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra, foi detec­ta­do o regis­tro de 144 pro­du­to­res, em um total de 89 uni­da­des de pro­du­ção, e o cadas­tro de 36 uni­da­des de pro­ces­sa­men­to de lei­te orgâ­ni­co em diver­sas regiões. 

O Obser­va­tó­rio de Lei­te Orgâ­ni­co já con­ta­va, des­de 2018, com um ban­co de dados com a carac­te­ri­za­ção das uni­da­des de pro­du­ção, a par­tir da apli­ca­ção de ques­ti­o­ná­rio jun­to aos pro­du­to­res, com infor­ma­ções pri­má­ri­as sobre reba­nho, área, pro­du­ti­vi­da­de, mane­jo e desa­fi­os enfren­ta­dos pelo setor (vide tabela). 

Numa nova fase do pro­je­to, pre­vis­ta para este ano, foram defi­ni­das 14 pro­pri­e­da­des em vári­as par­tes do País, com dife­ren­tes sis­te­mas de pro­du­ção, a serem visi­ta­das para um diag­nós­ti­co mais apro­fun­da­do, incluin­do indi­ca­do­res de sus­ten­ta­bi­li­da­de, como ISA e Ava­li­a­ção do Ciclo de Vida, além de cole­tar amos­tras de lei­te para deter­mi­na­ção de com­pos­tos bio­a­ti­vos e do solo para ava­li­a­ção a par­tir de atri­bu­tos físi­cos, quí­mi­cos e bio­ló­gi­cos, como a nova téc­ni­ca desen­vol­vi­da pela Embra­pa (Bio­As) que per­mi­te esti­mar a ati­vi­da­de micro­bi­o­ló­gi­ca a par­tir da quan­ti­fi­ca­ção de enzimas.

“A pla­ta­for­ma deve ser entre­gue em 2023, pas­san­do a ser refe­rên­cia para pes­qui­sa­do­res, empre­sas e órgãos que neces­si­ta­rem des­sas infor­ma­ções”, afir­ma Diniz.