Mulheres na pecuária leiteira mostram o quanto podem ir longe - Digital Balde Branco
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Dieta especial para vacas no periparto é a primeira providência que o produtor deve tomar para evitar problemas com o rebanho

PERÍODO DE TRANSIÇÃO

Mulheres na pecuária leiteira

mostram o quanto podem ir longe

Presença cada vez maior na pecuária, dando um toque especial que faz da produção leiteira uma atividade ainda mais nobre. Às mulheres, nossas colaboradoras e leitoras, a homenagem da equipe Balde Branco 

João Antônio dos Santos

Dia 8 de mar­ço. Uma data que mere­ce todas as come­mo­ra­ções, pois é o Dia Inter­na­ci­o­nal da Mulher. A Bal­de Bran­co esco­lheu, entre mui­tos e mui­tos exem­plos de mulhe­res aguer­ri­das e de suces­so na cadeia pro­du­ti­va do lei­te, qua­tro pro­fis­si­o­nais – da pro­du­ção, da pes­qui­sa (Leni­ra F. Zadra, na Entre­vis­ta, p. 12), do ensi­no e de con­sul­to­ria – que, por suas tra­je­tó­ri­as edi­fi­can­tes, sin­te­ti­zam aqui­lo que pode­mos carac­te­ri­zar como o per­fil das ações da mulher envol­vi­da com a atividade. 

Empreendedora do queijo artesanal

Marly Leite: “Hoje, como meus filhos já assumiram também a fabricação, completamos cinco gerações de produtores de queijos artesanais.”

No que­si­to empre­en­de­do­ris­mo não há empe­ci­lhos que as mulhe­res não con­si­gam supe­rar, como há exem­plos e exem­plos daque­las que foram à luta e se des­ta­ca­ram pelo suces­so obti­do. Den­tre mui­tos casos, vamos falar de Marly Lei­te, que está à fren­te da empre­sa Quei­jos Arte­sa­nais Sen­za­la, que cor­rem o mun­do depois de ven­ce­rem o con­cur­so Mon­di­al du Fro­ma­ge 2017, em Tours/França, con­quis­tan­do as Meda­lhas Ouro e Superouro.

Com cur­so supe­ri­or em enfer­ma­gem, Marly não exer­ceu a pro­fis­são, optan­do pela pro­du­ção de lei­te e fabri­ca­ção de quei­jo, na qual tra­ba­lha des­de os 17 anos de ida­de, seguin­do a ati­vi­da­de da família.

Ela con­ta que todo esse amor pelo que faz come­çou lá atrás, no tem­po em que seus avós che­ga­ram a Sacra­men­to (MG), região bai­xa da Ser­ra da Canas­tra, em 1954, vin­dos de São Roque de Minas. Eles sem­pre pro­du­zi­ram quei­jo minei­ro. Suas lem­bran­ças a levam aos 7 anos de ida­de, quan­do pas­sou uns tem­pos com a avó e a acom­pa­nha­va na lida da quei­ja­ria. “Pos­so dizer que des­de então fabri­co quei­jos”, conta.

“Naque­la épo­ca, a quei­ja­ria fica­va numa anti­ga sen­za­la, onde os quei­jos fica­vam curan­do. Dava aque­le mofo bran­co neles, aí minha avó pedia pra pas­sar sal e lavá-los. Lavá­va­mos o que o quei­jo tinha de melhor!”, recorda-se.

A pro­du­ção de quei­jos con­ti­nu­ou com seus pais. E, quan­do Marly se casou, em 1992, ela e o mari­do se man­ti­ve­ram na ati­vi­da­de. “Hoje, como meus filhos já assu­mi­ram tam­bém a fabri­ca­ção, com­ple­ta­mos cin­co gera­ções de pro­du­to­res de quei­jos arte­sa­nais aqui em Sacra­men­to, região de Caxambu.”

O negó­cio da famí­lia come­çou a tomar um novo rumo quan­do ela per­ce­beu que pode­ria agre­gar mai­or valor ain­da a seus quei­jos e tor­ná-los pro­du­tos dife­ren­ci­a­dos por meio da matu­ra­ção. “Aí, para me apro­fun­dar nes­sa téc­ni­ca, fiz um cur­so pela Ser­Tão­Bras. Deu super cer­to e come­cei a entrar num uni­ver­so novo e de ricas pos­si­bi­li­da­des para cri­ar quei­jos espe­ci­ais e úni­cos. Pro­du­zi­mos nos­sos quei­jos com sete tipos de matu­ra­ção, num mes­mo pro­ces­so de fabri­ca­ção”, con­ta, acres­cen­tan­do que tam­bém fez espe­ci­a­li­za­ção nes­sa área, na Fran­ça, e está apta a minis­trar cur­sos para repas­sar suas téc­ni­cas de fabri­ca­ção e maturação.

Hoje, Marly pro­duz lei­te de vaca na Fazen­da Caxam­bu (em Sacra­men­to), onde fica a quei­ja­ria, e lei­te de búfa­la na Fazen­da Búfa­la, em Fru­tal (MG). Há um ano fabri­ca quei­jos de búfa­la, um novo empre­en­di­men­to. “Tra­ta-se de quei­jo arte­sa­nal de lei­te cru de búfa­la, com o mes­mo pro­ces­so do quei­jo Sen­za­la, tan­to na fabri­ca­ção quan­to na matu­ra­ção, e o dife­ren­ci­al é que o lei­te de búfa­la é A2A2. Essa fazen­da de búfa­la é arren­da­da, assim como as búfa­las e a queijaria.”

Como a qua­li­da­de do lei­te é de extre­ma impor­tân­cia, já par­ti­ci­pa do negó­cio sua filha, que é zoo­tec­nis­ta e cui­da de todo o pro­ces­so de sani­da­de do ani­mal e ali­men­ta­ção balan­ce­a­da, e tam­bém das búfa­las. Todo o pro­ces­so de pro­du­ção de lei­te nas fazen­das é o mais natu­ral pos­sí­vel, assi­na­la a empresária.

“Come­ça­mos lá atrás, com meus avós, a agre­gar mai­or valor ao lei­te com a pro­du­ção de quei­jos; nas gera­ções seguin­tes, vimos apri­mo­ran­do e, com o cui­da­do mai­or na matu­ra­ção, agre­ga­mos mais valor aos pró­pri­os quei­jos. Para nos­sa famí­lia, pro­du­zir lei­te e quei­jos sem­pre foi bom, e ago­ra está óti­mo!”, comen­ta, infor­man­do que está desen­vol­ven­do novos pro­je­tos para incre­men­tar o negó­cio que, pela pri­mei­ra vez, está uti­li­zan­do mão de obra não familiar.

“Ten­do che­ga­do até aqui, jun­ta­men­te com minha famí­lia, me sin­to com o papel cum­pri­do, depois de mui­to tra­ba­lho e dedi­ca­ção. Acre­di­to que, com humil­da­de, pos­so ser­vir de exem­plo para outras mulhe­res irem em bus­ca de seus sonhos, pois, com tra­ba­lho, dedi­ca­ção e per­se­ve­ran­ça, é pos­sí­vel tor­ná-los realidade.”

As mulheres se destacam também no ensino do agro


Na área do ensi­no liga­do ao agro­ne­gó­cio, entre uni­ver­si­da­des e outras ins­ti­tui­ções de ensi­no, a pre­sen­ça da mulher como docen­te é cres­cen­te. Exem­plos ins­pi­ra­do­res não fal­tam, de reno­ma­das pro­fes­so­ras nas áre­as de Medi­ci­na Vete­ri­ná­ria, Zoo­tec­nia, Agro­no­mia, Eco­no­mia Rural, Eco­lo­gia e Meio Ambi­en­te. E, na área espe­cí­fi­ca de pecuá­ria de lei­te, mui­tas des­sas pro­fes­so­ras já foram entre­vis­ta­das ou tive­ram arti­gos téc­ni­cos divul­ga­dos na Bal­de Bran­co, sobre os mais diver­sos temas liga­dos ao setor.

Como home­na­gem – e que seja exten­si­va a todas as mulhe­res que mili­tam no ensi­no das dis­ci­pli­nas rela­ci­o­na­das à bovi­no­cul­tu­ra de lei­te –, tra­ze­mos o exem­plo da pro­fes­so­ra Polya­na Piz­zi Rot­ta, com dou­to­ra­do em Nutri­ção de Rumi­nan­tes pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Viço­sa (MG) e pela Colo­ra­do Sta­te Uni­ver­sity. Atu­al­men­te, é pro­fes­so­ra de Nutri­ção e Pro­du­ção de Bovi­nos de Lei­te da UFV, coor­de­na­do­ra do Pro­gra­ma Famí­lia do Lei­te e che­fe da Uni­da­de de Ensi­no, Pes­qui­sa e Exten­são em Gado de Lei­te da UFV.

Polya­na sem­pre foi fas­ci­na­da pelas coi­sas do cam­po. Seus avós tinham uma pro­pri­e­da­de de café e des­de cri­an­ça ela pro­cu­ra­va enten­der o que acon­te­cia ali, mas as plan­tas lhe des­per­ta­vam menos inte­res­se do que os ani­mais. “Esco­lhi zoo­tec­nia sem ter cer­te­za de que gos­ta­ria ou se segui­ria a pro­fis­são. Mas conhe­ci um pro­fes­sor na gra­du­a­ção que foi um gran­de men­tor e me intro­du­ziu no mun­do da ciên­cia, des­per­tan­do em mim uma gran­de von­ta­de em ser pes­qui­sa­do­ra e professora.”

Nes­sa tra­je­tó­ria foram mui­tos anos de estu­do, esfor­ço e dedi­ca­ção. Ela relem­bra que abriu mão de fes­tas e de estar sem­pre per­to da famí­lia. “Ape­sar de jovem, foram minhas esco­lhas. O prin­ci­pal desa­fio foi ter fica­do em Minas Gerais e minha famí­lia no Para­ná”, situ­a­ção que con­se­guiu supe­rar, focan­do em seus objetivos.

Refle­tin­do sobre o papel da mulher nes­sa ati­vi­da­de, ela não hesi­ta em dar sua opi­nião: “As mulhe­res desem­pe­nham melhor que os homens de for­ma geral na ati­vi­da­de lei­tei­ra. Como é uma ati­vi­da­de cheia de deta­lhes, cada pro­ces­so deve ser cui­da­do­sa­men­te fei­to e acho que a mulher con­se­gue fazer melhor. Vejo isso com minhas alu­nas. No total, ori­en­to mais de 100 alu­nos do Pro­gra­ma Famí­lia do Lei­te, sen­do 60% mulhe­res. O desem­pe­nho delas é visi­vel­men­te supe­ri­or, pois são mais aten­tas, deter­mi­na­das, aten­ci­o­sas e isso se refle­te em melho­res resultados.”

Ela cons­ta­ta ain­da que a agro­pe­cuá­ria sem­pre foi domi­na­da por homens, mas cada vez mais se encon­tram mulhe­res em papel de des­ta­que. “O empo­de­ra­men­to está pre­sen­te em todas as ati­vi­da­des e na pecuá­ria lei­tei­ra não é dife­ren­te. Só não con­cor­do em tra­var uma ‘bata­lha’ de sexos. Acre­di­to que tan­to homens como mulhe­res podem tra­ba­lhar jun­tos e em prol da melho­ria da ati­vi­da­de lei­tei­ra. Defen­do o tra­ta­men­to igua­li­tá­rio, mas isso tam­bém deve che­gar ao salá­rio das mulhe­res, que ain­da é inferior.”

Em sua visão, a mani­fes­ta­ção machis­ta está sim, mui­tas vezes pre­sen­te, mas hoje é mais dis­cre­ta, até mes­mo camu­fla­da, num comen­tá­rio “ino­cen­te” ou numa pia­di­nha… Polya­na lem­bra que isso está pre­sen­te nes­ses “novos tem­pos”, com os recur­sos das redes digi­tais. “Esta­mos viven­do uma era em que as pes­so­as pre­ci­sam ter mais cui­da­do com o que dizem por­que sabem que as redes soci­ais têm gran­de poder e uma fra­se mal colo­ca­da pode pre­ju­di­car sua car­rei­ra e repu­ta­ção. “Porém, é cla­ro que o machis­mo está nas entre­li­nhas. Par­ti­cu­lar­men­te, não me ofen­do com isso, pois enten­do que esta­mos num pro­ces­so de evo­lu­ção e que é nor­mal algu­mas pes­so­as ain­da duvi­da­rem do nos­so poten­ci­al. Quan­do isso acon­te­ce, fin­jo que não per­ce­bi e con­ti­nuo fazen­do meu tra­ba­lho. Com tra­ba­lho bem fei­to, você mos­tra sua com­pe­tên­cia e em pou­co tem­po a pes­soa machis­ta bai­xa a guarda.”

Polya­na tem cons­ta­ta­do, a par­tir de seu con­ta­to dire­to com vári­as gran­des fazen­das e com os alu­nos que fazem está­gi­os nes­sas pro­pri­e­da­des, que não há pre­fe­rên­cia por esta­giá­ri­os do sexo mas­cu­li­no ou femi­ni­no. “Para falar a ver­da­de, 70% dos estu­dan­tes que saem para está­gi­os nes­sas fazen­das são mulhe­res e nun­ca hou­ve pro­ble­ma, pelo con­trá­rio, ape­nas elo­gi­os”, diz, acres­cen­tan­do que, para as vagas de empre­go, tem obser­va­do que as mulhe­res estão sen­do empre­ga­das tão rapi­da­men­te quan­to os homens. “Há o desa­fio na ques­tão fami­li­ar. Conhe­ço vári­as mulhe­res que pre­ci­sa­ram inter­rom­per sua pro­fis­são para se dedi­car à famí­lia e depois tive­ram difi­cul­da­de em vol­tar para o mer­ca­do de tra­ba­lho. Essa é, sim, uma rea­li­da­de que com cer­te­za pre­ju­di­ca a nos­sa car­rei­ra”, menciona.

Polya­na nota que seu obje­ti­vo pro­fis­si­o­nal é melho­rar mais ain­da o Pro­gra­ma Famí­lia do Lei­te para aju­dar não ape­nas os pro­du­to­res que aten­de, mas tam­bém os estu­dan­tes que que­rem se pro­fis­si­o­na­li­zar na ati­vi­da­de lei­tei­ra. “Para os pró­xi­mos anos, dese­jo con­ti­nu­ar minhas pes­qui­sas cien­tí­fi­cas para aju­dar cada vez mais a bovi­no­cul­tu­ra de lei­te no Brasil.”

Consultorias técnicas às fazendas de leite


Alguns anos atrás, encon­trar uma mulher – médi­ca vete­ri­ná­ria, zoo­tec­nis­ta ou enge­nhei­ra agrô­no­ma – indo de fazen­da em fazen­da para aten­der ocor­rên­ci­as ou ori­en­tar os pro­du­to­res era algo mui­to raro e até ina­cei­tá­vel para alguns, sobre­tu­do os homens. Mui­tos tor­ci­am o nariz ou che­ga­vam a se recu­sar a rece­ber “ordens” de uma mulher. Feliz­men­te, isso mudou bas­tan­te e já come­ça a fazer par­te do pas­sa­do. Haja vis­ta o gran­de núme­ro de mulhe­res que estão liga­das a pro­gra­mas de assis­tên­cia téc­ni­ca e con­sul­to­ri­as às fazen­das pro­du­to­ras de lei­te.

Um exem­plo des­sas bata­lha­do­ras é Tami­res Soa­res, médi­ca vete­ri­ná­ria, mes­tre em Pro­du­ção Ani­mal e, atu­al­men­te, dou­to­ran­da em Saú­de Ani­mal. É pro­fes­so­ra uni­ver­si­tá­ria e tra­ba­lha na Cia do Lei­te como res­pon­sá­vel pelo aten­di­men­to téc­ni­co geren­ci­al, e aten­de diver­sas fazen­das no Alto Para­naí­ba, mais espe­ci­fi­ca­men­te em Patro­cí­nio (MG) e região.

Des­de a ten­ra ida­de sem­pre demons­trou uma liga­ção espe­ci­al com os ani­mais. Tan­to que seus pais con­tam que, aos três anos de ida­de, ela já fala­va em ser vete­ri­ná­ria. “Sem dúvi­da, minha prin­ci­pal ins­pi­ra­ção foi meu avô Geral­do. Ele era pro­du­tor de lei­te e des­de peque­na eu pas­sa­va fins de sema­na, féri­as e feri­a­dos na fazen­da. Lá ele me ensi­nou a gos­tar de cui­dar da fazen­da, a amar as vacas e, prin­ci­pal­men­te, me esti­mu­lou a tra­ba­lhar no que tra­ba­lho hoje.”

Assim come­çou sua his­tó­ria no lei­te, que se tor­nou pro­fis­são, quan­do se for­mou em 2011, pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Goiás, em Jataí, pois já naque­le momen­to tinha cer­te­za de que que­ria tra­ba­lhar com bovi­nos de lei­te. “Sem­pre sou­be que meu lugar era no cur­ral e esse foi meu mai­or desa­fio na pro­fis­são: ser acei­ta como médi­ca vete­ri­ná­ria espe­ci­a­li­za­da em gran­des ani­mais.” Porém, antes de che­gar aí, por um tem­po ela acei­tou o desa­fio de tra­ba­lhar em ven­das téc­ni­cas, no iní­cio da car­rei­ra. “E, sem des­vi­ar de meus obje­ti­vos, tra­ba­lhei e me esfor­cei mui­to mais, nos três anos dedi­ca­dos às ven­das.”

Até que, em 2014, foi con­tra­ta­da por uma coo­pe­ra­ti­va, na região onde nas­ceu, no Alto Para­naí­ba, para atu­ar com assis­tên­cia téc­ni­ca de gran­des ani­mais. Era sua chan­ce de se aper­fei­ço­ar na prá­ti­ca, ten­do a fun­ção de aten­der emer­gên­ci­as e cui­dar da vaci­na­ção dos reba­nhos da região. Essa opor­tu­ni­da­de mudou sua vida, colocando‑a no rumo de seus obje­ti­vos.

“Tudo ia bem na minha vida. Porém, três meses depois, sofri um gra­vís­si­mo aci­den­te de car­ro, que me dei­xou com séri­as seque­las moto­ras que me impe­di­ram de tra­ba­lhar por dois anos, perío­do em que me dedi­quei exclu­si­va­men­te à rea­bi­li­ta­ção físi­ca. Che­guei a pen­sar que tal­vez meu des­ti­no não fos­se tra­ba­lhar no cam­po e que nun­ca mais seria vete­ri­ná­ria de gran­des ani­mais”, recor­da-se ela que, em 2016, deci­diu dar novo rumo à sua vida.

Naque­le mes­mo ano, resol­veu ten­tar a vida aca­dê­mi­ca. Afi­nal, seria uma manei­ra de con­ti­nu­ar em con­ta­to com o que ama­va. Em 2017, foi apro­va­da no mes­tra­do pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Uber­lân­dia. “Foi um ver­da­dei­ro reco­me­ço, recon­quis­tan­do minha auto­es­ti­ma. Me via sen­do a mes­ma pro­fis­si­o­nal dedi­ca­da de gran­des ani­mais, ao mes­mo tem­po que esta­be­le­cia uma série de cone­xões e de con­ta­tos que me leva­ri­am aon­de estou hoje: dou­to­ran­da, pro­fes­so­ra uni­ver­si­tá­ria e médi­ca vete­ri­ná­ria espe­ci­a­li­za­da em saú­de e repro­du­ção bovi­na.”

Tami­res faz ques­tão de assi­na­lar que cons­ta­ta no dia a dia que a mulher está pro­van­do sua com­pe­tên­cia e poder de trans­for­ma­ção, seja no meio aca­dê­mi­co, de pes­qui­sa, seja dire­ta­men­te no cam­po como ges­to­ra, pro­du­to­ra e con­sul­to­ra téc­ni­ca. “A cada exem­plo que vejo da luta des­sas mulhe­res mais me ins­pi­ro e apren­do”, e cla­ro, assi­na­la ela, há ain­da mui­to machis­mo, vela­do, dis­far­ça­do.

“Porém, apren­di mui­to cedo como fun­ci­o­na o machis­mo no meio rural. Quan­do peque­na, sem­pre ouvia que ‘cur­ral não era lugar de meni­na’. Alguns anos depois, já na facul­da­de, ao bus­car opor­tu­ni­da­des de está­gio em fazen­das de gran­des ani­mais, sem­pre me dizi­am que não havia vaga, por­que não havia alo­ja­men­tos para mulhe­res.” Para ela, é mui­to pro­mis­sor ver que as mulhe­res estão cada vez mais pre­sen­tes no mer­ca­do de tra­ba­lho, ganhan­do des­ta­que, ocu­pan­do car­gos de che­fia e coman­do. “As mulhe­res estão se espe­ci­a­li­zan­do e estão mais pre­pa­ra­das e, nes­te pon­to, eu não acre­di­to que exis­ta tra­ba­lho de homem e tra­ba­lho de mulher, exis­te pro­fis­si­o­nal com­pe­ten­te e pro­fis­si­o­nal que não sabe tra­ba­lhar. Fim da história!”

A mulher na comunicação do agronegócio


Tam­bém na área de comu­ni­ca­ção, jor­na­lis­mo impres­so, tele­vi­si­o­na­do, cada vez mais está pre­sen­te o toque da mulher, com sua pers­pi­cá­cia, com­pe­tên­cia e dedi­ca­ção, tra­zen­do um novo olhar às ques­tões do setor do agro­ne­gó­cio. Con­ver­sa­mos com Môni­ca Salo­mão, jor­na­lis­ta há 12 anos na área do agro, dos quais nove espe­ci­fi­ca­men­te liga­dos à pecuá­ria lei­tei­ra. Inclu­si­ve, já cola­bo­rou com a revis­ta Bal­de Bran­co.

Ela con­ta que esco­lheu o jor­na­lis­mo por gos­tar de escre­ver e pelo dese­jo de pres­tar sua con­tri­bui­ção à soci­e­da­de por meio des­se tra­ba­lho. A “espe­ci­a­li­za­ção” na agro­pe­cuá­ria veio com a prá­ti­ca do dia a dia, não foi algo que bus­cou ou que tives­se como meta. Tudo come­çou quan­do tra­ba­lha­va em asses­so­ria de impren­sa, se can­di­da­tou e foi con­tra­ta­da para uma vaga de jor­na­lis­ta na Itam­bé, mar­ca da Coo­pe­ra­ti­va Cen­tral dos Pro­du­to­res Rurais de Minas Gerais (CCPR), em Belo Hori­zon­te.

“Não foi fácil ini­ci­ar na ati­vi­da­de, pois reque­ria um gran­de esfor­ço tra­ba­lhar com um con­teú­do téc­ni­co-espe­ci­a­li­za­do tão com­ple­xo. O pri­mei­ro desa­fio foi estu­dar e ler bas­tan­te, mui­tas vezes sem enten­der algum con­teú­do”, relem­bra Môni­ca, que nota ter tido o apoio de toda a equi­pe téc­ni­ca que a auxi­li­a­va com infor­ma­ções e aju­da­va a escla­re­cer suas dúvi­das.

Para se apri­mo­rar, fez o cur­so de Atu­a­li­za­ção em Pecuá­ria Lei­tei­ra, na Embra­pa Gado de Lei­te, em Juiz de Fora (MG), que lhe trou­xe a noção do todo que é a cadeia pro­du­ti­va do lei­te. “Foi mui­to desa­fi­a­dor e por vári­as vezes me ques­ti­o­nei, achan­do que não daria con­ta, che­gan­do até a pen­sar em desis­tir. Mas aca­bei enca­ran­do com toda a gar­ra e estou até hoje no seg­men­to do agro.”

Espe­ci­fi­ca­men­te na pecuá­ria de lei­te, ela diz que teve a opor­tu­ni­da­de de acom­pa­nhar um cres­ci­men­to mui­to sig­ni­fi­ca­ti­vo da mulher nes­se setor. “Falo da mulher enquan­to pro­du­to­ra, empre­sá­ria rural, pes­qui­sa­do­ra, con­sul­to­ra téc­ni­ca e docen­te, nas mais diver­sas dis­ci­pli­nas rela­ci­o­na­das à bovi­no­cul­tu­ra de lei­te. Ela tem con­se­gui­do ocu­par mais espa­ço num setor que é mui­to tra­di­ci­o­nal, cul­tu­ral­men­te falan­do, em que as atri­bui­ções eram pre­do­mi­nan­te­men­te ocu­pa­das por homens.”

Na ati­vi­da­de agro­pe­cuá­ria, veem-se mulhe­res bem colo­ca­das, ocu­pan­do altos car­gos, inclu­si­ve em empre­sas for­ne­ce­do­ras de insu­mos agro­pe­cuá­ri­os e em ins­ti­tui­ções gover­na­men­tais, de manei­ra geral. Ela cita o caso da enge­nhei­ra agrô­no­ma e empre­sá­ria rural Tere­za Cris­ti­na, minis­tra da Agri­cul­tu­ra. Em Minas Gerais, a secre­tá­ria de Agri­cul­tu­ra é Ana Maria Soa­res Valen­ti­ni, enge­nhei­ra flo­res­tal, que é a pri­mei­ra mulher a ocu­par o car­go, nos 110 anos de exis­tên­cia da pas­ta. “As mulhe­res do agro têm mos­tra­do exce­lên­cia em seus tra­ba­lhos e com mui­ta exce­lên­cia nas suas entre­gas.”

No caso da pro­du­ção de lei­te, Môni­ca tam­bém des­ta­ca que já per­ce­bia o desem­pe­nho lou­vá­vel das mulhe­res que estão na linha de fren­te, pelas repor­ta­gens que pro­du­ziu. “Os melho­res resul­ta­dos, por exem­plo, na qua­li­da­de do lei­te (CBT, CCS), quan­do a orde­nha era admi­nis­tra­da por mulhe­res. Assim como na cri­a­ção das bezer­ras, pelos cui­da­dos, dedi­ca­ção e cari­nho, que são par­ti­cu­la­ri­da­des da mulher”, refor­ça.

Pelo lado de sua ati­vi­da­de, comu­ni­ca­ção no agro­ne­gó­cio, Môni­ca obser­va que há cada vez mais jor­na­lis­tas em repor­ta­gens, dire­ção de revis­tas espe­ci­a­li­za­das, apre­sen­ta­do­ras de pro­gra­mas de tele­vi­são, que estão fazen­do um tra­ba­lho com exce­lên­cia e com­pe­tên­cia. “Come­cei a tra­ba­lhar como jor­na­lis­ta há 12 anos e tenho acom­pa­nha­do as opor­tu­ni­da­des para as mulhe­res na comu­ni­ca­ção liga­da ao agro­ne­gó­cio, que se ampli­a­ram bas­tan­te. Mulhe­res atu­an­do em asses­so­ri­as de impren­sa, na pro­mo­ção de even­tos e, com a pan­de­mia, na pro­du­ção de even­tos vir­tu­ais, para levar infor­ma­ções ao setor. Do que eu via, quan­do ini­ci­ei, e do que vejo hoje, a mulher avan­çou mui­to em ocu­par seu mere­ci­do espa­ço. Não tem nem comparação.”

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