NASEM: a versão 2021 do NRC, com muitas novidades - Digital Balde Branco

Essa atualização vai ajudar muito o produtor de leite, assim como os técnicos nutricionistas, na formulação da dieta, na composição dos nutrientes, o que permite estimar mais acuradamente a produção de leite quanto à produtividade, assim como na parte de bezerras e novilhas para estimar o ganho de peso

ENTREVISTA

VERIDIANA DALEY

NASEM

A versão 2021 do NRC, com muitas novidades

Veri­di­a­na L. Daley (Sou­za) cola­bo­rou na pro­du­ção de alguns capí­tu­los do Nasem 2021. Pos­sui gra­du­a­ção em Zoo­tec­nia pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral do Para­ná e mes­tra­do em Ciên­ci­as Vete­ri­ná­ri­as pela mes­ma uni­ver­si­da­de. É dou­to­ra em Ciên­ci­as pela Uni­ver­si­da­de de São Pau­lo (Esalq — USP), na área de mode­la­gem das exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais de vacas e bezer­ras lei­tei­ras. Coau­to­ra do RLM Lei­te da Esalq-USP. Dou­to­ra­do san­duí­che no Depar­ta­men­to de Ani­mal Sci­en­ce da Uni­ver­sity of Illi­nois at Urba­na na área de mode­la­gem do cres­ci­men­to de bezer­ras lei­tei­ras na fase de alei­ta­men­to pela Fapesp. Tra­ba­lha, des­de 2019, no Cen­tro de Pes­qui­sa em Nutri­ção Ani­mal da Puri­na, no Mis­sou­ri (EUA).


João Antô­nio dos Santos

Balde Branco – Gostaria que você fizesse uma breve introdução sobre o conceito do NRC e o que significa essa nova versão/revisão para a nutrição de bovinos leiteiros, com a nova denominação, “Nasem”.

Veri­di­a­na Daley - Com essa revi­são do NRC, que pas­sa ago­ra a ter a sigla Nasem, tem havi­do mui­ta pro­cu­ra de espe­ci­a­lis­tas, nutri­ci­o­nis­tas e pro­du­to­res liga­dos à bovi­no­cul­tu­ra de lei­te, do mun­do todo, sobre o que há de novo com essa refor­mu­la­ção. O NRC tem sido, há mui­tos anos, refe­rên­cia no Bra­sil para a for­mu­la­ção de die­ta para vacas lei­tei­ras, assim como a ver­são para ori­en­tar no for­ne­ci­men­to de nutri­en­tes e exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais de bezer­ras. Duran­te meu dou­to­ra­do na Esalq-USP, ava­li­ei o mode­lo de inges­tão das vacas pelo NRC e tam­bém o mode­lo das bezer­ras, para esti­mar o ganho de peso delas. Então, o que é o NRC? Basi­ca­men­te é um padrão, uma refe­rên­cia inter­na­ci­o­nal em ter­mos de exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais e for­ne­ci­men­to de nutri­en­tes pela die­ta, no nos­so caso, para vacas lei­tei­ras. Vale notar que há o padrão espe­cí­fi­co para as dife­ren­tes espé­ci­es, aves, suí­nos, etc. Des­de dezem­bro últi­mo, está dis­po­ní­vel para o públi­co a nova ver­são, que ganhou a deno­mi­na­ção Nasem (Nati­o­nal Aca­de­mi­es of Sci­en­ces, Enge­ne­ring and Medi­ci­ne), da qual o NRC se tor­nou um comi­tê, o Nutri­ent Reque­ri­ments Coun­cil, ten­do a seção “of dairy cattle”.

BB – Fale um pouco sobre sua participação nesse trabalho. 

VD - Bem, fiz pós-dou­to­ra­do em Mode­la­gem no Nati­o­nal Ani­mal Nutri­ti­on Pro­gram (NANP, https://animalnutrition.org/), Uni­ver­sity of Ken­tucky and Vir­gi­nia Tech. Des­de 2019, tra­ba­lho como pes­qui­sa­do­ra na área de vacas adul­tas e mode­la­gem no Cen­tro de Pes­qui­sas em Nutri­ção Ani­mal da Puri­na no Mis­sou­ri, nos Esta­dos Uni­dos. Par­ti­ci­po do Mul­tis­ta­te Rese­ar­ch Pro­ject – NC2040 Rela­ções meta­bó­li­cas no for­ne­ci­men­to de nutri­en­tes para vacas em lac­ta­ção nos Esta­dos Uni­dos des­de 2021. Cola­bo­rei no desen­vol­vi­men­to e na ava­li­a­ção de mode­los para o 2021 Nutri­ent Requi­re­ments of Dairy Cat­tle, Eighth Revi­sed Edi­ti­on atra­vés do Nati­o­nal Ani­mal Nutri­ti­on Pro­gra­ma, Esta­dos Uni­dos. Minha con­tri­bui­ção se deu nos capí­tu­los de gor­du­ra (diges­ti­bi­li­da­de), pro­teí­na (kp e ban­co de dados), bezer­ros (con­cen­tra­do ini­ci­al e outros), aná­li­ses de ali­men­tos (áci­dos gra­xos de for­ra­gem), e mode­la­gem (gor­du­ra do lei­te, ava­li­a­ção de mode­los, e equa­ções no R), entre outras atividades. 

BB – Ao longo dos anos, esse padrão passou por alguma reformulação e revisões? 

VD - O pri­mei­ro NRC foi lan­ça­do em 1944, ori­gi­na­ri­a­men­te para aves e suí­nos, depois para vacas lei­tei­ras (em 1945). A últi­ma ver­são revi­sa­da é de 2001 e, ago­ra, 20 anos depois, sai o Nasem, total­men­te atu­a­li­za­do, tra­zen­do uma gama enor­me de dados levan­ta­dos nes­sas duas últi­mas déca­das. Essa atu­a­li­za­ção vai aju­dar mui­to o pro­du­tor de lei­te, assim como os téc­ni­cos nutri­ci­o­nis­tas, na for­mu­la­ção da die­ta, na com­po­si­ção dos nutri­en­tes, o que per­mi­te esti­mar mais acu­ra­da­men­te a pro­du­ção de lei­te quan­to à pro­du­ti­vi­da­de, assim como na par­te de bezer­ras e novi­lhas para esti­mar o ganho de peso. Sabe-se que a gené­ti­ca das plan­tas usa­das na ali­men­ta­ção dos bovi­nos mudou mui­to nes­ses 20 anos. Isso sig­ni­fi­ca que con­ta­mos com uma nova bibli­o­te­ca sobre esses ali­men­tos, que nos per­mi­te esti­mar melhor o que­si­to for­ne­ci­men­to de nutri­en­tes da dieta. 

BB – No Brasil, como você disse, o NRC sempre foi muito utilizado. O que os especialistas em nutrição de bovinos e produtores de leite podem esperar dessa nova versão? 

VD - Sim, há mui­tos anos tem sido o padrão na for­mu­la­ção de die­tas, sen­do a base de mui­tos softwa­res que os nutri­ci­o­nis­tas usam para reba­nhos lei­tei­ros, nos mais dife­ren­tes sis­te­mas de pro­du­ção e situ­a­ções pecu­li­a­res de cada pro­pri­e­da­de. Cito, por exem­plo, o LRM-Lei­te, que é da Esalq-USP, que tem o NRC incor­po­ra­do, o qual foi tro­pi­ca­li­za­do. É um soft­ware mui­to prá­ti­co para ser apli­ca­do na fazen­da. O que os nutri­ci­o­nis­tas devem espe­rar é mui­ta infor­ma­ção nova, a par­tir de dados e pes­qui­sas recen­tes, que vai gerar die­tas melho­res e mais pre­ci­sas para os ani­mais. Já o que o pro­du­tor pode espe­rar é melhor esti­ma­ti­va da pro­du­ção de lei­te. Assim, o Nasem aten­de a três ins­tân­ci­as da área da pecuá­ria lei­tei­ra: a da nutri­ção, que per­mi­te ao nutri­ci­o­nis­ta for­mu­lar e melho­rar a die­ta; pro­du­ção, que visa obter os melho­res resul­ta­dos tan­to na pro­du­ção de lei­te, quan­to no ganho de peso das bezer­ras, e a ciên­cia, já que as uni­ver­si­da­des e cen­tros de pes­qui­sas bra­si­lei­ros con­tam, ago­ra, com novas infor­ma­ções, o que vai abrir novos cam­pos de pesquisas.

BB – Quais os principais pontos que você destacaria nessas mudanças e novas informações? 

VD - Vim para os EUA tra­ba­lhar no Nati­o­nal Ani­mal Nutri­ti­on Pro­gram, par­ti­ci­pan­do do desen­vol­vi­men­to de mode­los e vári­as equa­ções des­se novo padrão. Ele tem vári­os capí­tu­los e um dos quais des­ta­co é o que tra­ta da inges­tão de ali­men­tos pelas vacas lei­tei­ras. Ou seja, quan­to essa vaca vai comer e, no Nasem, há duas equa­ções para esti­mar o con­su­mo, o que é uma atu­a­li­za­ção do ante­ri­or (de 2001), em que havia uma úni­ca equa­ção para esti­mar o con­su­mo do ani­mal. Temos ago­ra duas equa­ções para for­mu­lar a die­ta da vaca. A pri­mei­ra equa­ção é base­a­da nas carac­te­rís­ti­cas do ani­mal, enquan­to a segun­da con­si­de­ra a die­ta dele – por exem­plo, o quan­to de fibra (mais espe­cí­fi­co, fibra em deter­gen­te neu­tro da for­ra­gem) ele está comendo.

BB – E também foram acrescentados padrões e equações, entre outros itens, para a nutrição das bezerras? 

VD - Quan­to às bezer­ras, pela pri­mei­ra vez tem-se equa­ção para esti­mar o con­su­mo de con­cen­tra­do ini­ci­al, na fase de alei­ta­men­to. E essa equa­ção é inte­res­san­te pelo fato de que foram uti­li­za­dos dados de dife­ren­tes uni­ver­si­da­des, sen­do que uma delas é a Esalq-USP, com a pro­fes­so­ra Car­la Bit­tar, o que é uma hon­ra para nós. São dados rela­ci­o­na­dos à cri­a­ção de bezer­ras em cli­ma tro­pi­cal. Esse é um pon­to mui­to rele­van­te, pois temos duas equa­ções para bezer­ras, uma para as cri­a­das em cli­ma tro­pi­cal e outra para cli­ma tem­pe­ra­do. E tam­bém há equa­ção para esti­mar o con­su­mo nutri­ci­o­nal das novi­lhas. O nutri­ci­o­nis­ta, ao uti­li­zar tais equa­ções, terá uma esti­ma­ti­va mais acu­ra­da sobre quan­to o ani­mal vai comer. Isso é impor­tan­te tam­bém por­que o pro­du­tor vai poder cal­cu­lar, com mais pre­ci­são, o quan­to de comi­da pre­ci­sa­rá para suprir as neces­si­da­des de ali­men­tos para o rebanho.

BB – Ainda nesse quesito de demanda nutricional, há outros aspectos importantes, como a ingestão de gordura, não? 

VD - Sim, e é um pon­to mui­to impor­tan­te, no qual tra­ba­lhei no desen­vol­vi­men­to de um modelo/equação para esti­mar áci­dos gra­xos de for­ra­gem. de inges­tão de gor­du­ra. No NRC 2001, fala­va-se de extra­to eté­reo, que é a gor­du­ra total. Ago­ra, no Nasem 2021, fala-se de áci­dos gra­xos. Esse novo mode­lo vai esti­mar o quan­to o ani­mal inge­re de áci­dos gra­xos e qual a diges­tão, depen­den­do da fon­te de gor­du­ra. Então, melho­rou mui­to a pre­di­ção de diges­tão de áci­dos gra­xos base­a­do na fon­te de gor­du­ra que essa vaca vai comer, pois há dife­ren­tes coe­fi­ci­en­tes, de acor­do com o suple­men­to for­ne­ci­do. Isso sig­ni­fi­ca uma boa opor­tu­ni­da­de para a indús­tria, já que sabe­mos que os suple­men­tos têm dife­ren­tes diges­ti­bi­li­da­des. Se, por exem­plo, uti­li­zar um suple­men­to de mai­or diges­ti­bi­li­da­de, con­se­quen­te­men­te have­rá mai­or for­ne­ci­men­to de ener­gia para o ani­mal. Esse é um capí­tu­lo mui­to rico em infor­ma­ções, pois con­ta com a revi­são de ampla lite­ra­tu­ra sobre os áci­dos gra­xos, expli­can­do as atu­a­li­za­ções dos últi­mos anos. E tam­bém a dis­cus­são sobre o per­fil dos áci­dos gra­xos no leite. 

Para os nutri­ci­o­nis­tas há mui­ta infor­ma­ção nova, a par­tir de dados e pes­qui­sas recen­tes, que vai gerar die­tas melho­res e mais pre­ci­sas para os ani­mais. Já o pro­du­tor terá melhor esti­ma­ti­va da pro­du­ção de leite”

BB – Você mencionou a questão dos componentes do leite. Qual a importância dessas equações? 

VD - O Nasem traz um capí­tu­lo de mode­la­gem que vai esti­mar a pro­du­ção de gor­du­ra no lei­te. Essa equa­ção é mui­to impor­tan­te e tive a hon­ra de tra­ba­lhar com o comi­tê para desen­vol­ver e ava­li­ar essa equa­ção. E tam­bém é a pri­mei­ra vez que esse tema é abor­da­do. Há, ain­da, a equa­ção para esti­mar a pro­du­ção de pro­teí­na no lei­te. Essas duas equa­ções vão auxi­li­ar mui­to os pro­du­to­res para saber o quan­to vão pre­ci­sar modi­fi­car a die­ta e o quan­to isso vai influ­en­ci­ar no teor de gor­du­ra e pro­teí­na no lei­te. Enfim, é mais um indi­ca­dor fun­da­men­tal para a for­mu­la­ção de die­tas das vacas lei­tei­ras, sobre­tu­do numa épo­ca em que se dis­cu­te o paga­men­to por sóli­dos do lei­te. Por exem­plo, se a pro­teí­na no lei­te de uma fazen­da está bai­xa, o pro­du­tor pode­rá con­tar com mais essa fer­ra­men­ta para esti­mar a pro­teí­na, base­a­do no quan­to o ani­mal vai comer e nos ingre­di­en­tes da die­ta. A mes­ma coi­sa vale para a gor­du­ra, com a res­pec­ti­va equa­ção espe­cí­fi­ca. Vale lem­brar que o mode­lo para pro­teí­na aca­ba sen­do mais acu­ra­do, pelo fato de que a gor­du­ra tem sem­pre mai­or vari­a­ção. Daí ser impor­tan­te o nutri­ci­o­nis­ta estar sem­pre com o olho na vaca, ao for­mu­lar a dieta.

BB – Você mencionou que o capítulo relativo à proteína do NRC 2001 foi totalmente reescrito. Fale mais sobre isso e o que significa. 

VD - Sim, no Nasem 2021 mudou total­men­te. No NRC 2001, fala­va-se em for­mu­lar a die­ta con­si­de­ran­do a pro­por­ção de alguns ami­noá­ci­dos, como lisi­na e meti­o­ni­na, para mexer nos dois e aumen­tar a pro­teí­na do lei­te. No Nasem, par­te-se do prin­cí­pio de que não exis­te mais um ami­noá­ci­do limi­tan­te, mas sim um con­jun­to de ami­noá­ci­dos que são neces­sá­ri­os para pro­du­zir a pro­teí­na do lei­te. Ou seja, fala-se então em for­mu­lar con­si­de­ran­do-se cin­co ami­noá­ci­dos que entra­ram na equa­ção para esti­mar a pro­teí­na. Antes se for­mu­la­va mais para a pro­teí­na meta­bo­li­zá­vel e ago­ra se for­mu­la a par­tir do sis­te­ma de pro­teí­na líqui­da (net pro­tein) e da efi­ci­ên­cia de uso de cada ami­noá­ci­do. Esse con­cei­to de efi­ci­ên­cia é novo, com base nas pes­qui­sas dos últi­mos dez, quin­ze anos, e mos­tra que, para aumen­tar a pro­teí­na do lei­te, não são um ou dois ami­noá­ci­dos que deve(m) ser suplementado(s), mas se deve for­mu­lar para outros ami­noá­ci­dos con­si­de­ran­do a die­ta basal, fon­tes pro­te­gi­das de AAs, e cus­tos da die­ta. Depen­den­do da die­ta, a indi­ca­ção é que deve(m) ser suple­men­ta­dos, até cin­co ami­noá­ci­dos que entra­ram na equa­ção e que são fun­da­men­tais para a sín­te­se da pro­teí­na do lei­te. Enfim, esse capí­tu­lo rela­ti­vo à pro­teí­na tem mui­tos dados do meta­bo­lis­mo dos aminoácidos. 

BB – A partir dessas questões que você destacou (e há muitas outras), podemos dizer que elas sinalizam a necessidade de os produtores contarem com um técnico nutricionista para formular a dieta adequada ao rebanho? 

VD - Com cer­te­za. E mais ain­da: o pro­du­tor deve ficar aten­to se o nutri­ci­o­nis­ta está atu­a­li­za­do com os dados das novas pes­qui­sas. Por que isso é fun­da­men­tal? Por­que a evo­lu­ção gené­ti­ca dos ani­mais avan­çou mui­to nos últi­mos 20 anos, as exi­gên­ci­as de ener­gia deles aumen­ta­ram mui­to em com­pa­ra­ção com as exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais ante­ri­o­res. Isso sig­ni­fi­ca que os mode­los nutri­ci­o­nais devem se atu­a­li­zar para aten­der à for­mu­la­ção da die­ta ade­qua­da à deman­da dos ani­mais, para que eles pos­sam expres­sar todo seu poten­ci­al pro­du­ti­vo. Qual o pro­ble­ma se o nutri­ci­o­nis­ta esti­ver uti­li­zan­do um mode­lo que não foi atu­a­li­za­do nos últi­mos 15 anos, por exem­plo? É que essa die­ta não será tão acu­ra­da e não se con­se­gui­rá aumen­tar a efi­ci­ên­cia ali­men­tar do ani­mal na fazen­da, pois pro­va­vel­men­te a die­ta não está aten­den­do às exi­gên­ci­as atu­ais que o ani­mal tem. E, ao man­ter uma bai­xa (ou não maxi­mi­zar) efi­ci­ên­cia ali­men­tar do ani­mal, sig­ni­fi­ca que o pro­du­tor está pagan­do mais para pro­du­zir simi­lar ou menor quan­ti­da­de de lei­te e com­po­nen­tes, redu­zin­do sua lucra­ti­vi­da­de. Se uti­li­zar o mode­lo atu­al terá mais chan­ce de con­se­guir mai­or efi­ci­ên­cia e pro­du­ti­vi­da­de do ani­mal e melho­rar sua mar­gem de lucro, mas sem­pre man­ter o olho nas vacas e no mane­jo da fazenda.

BB – Aponte alguns detalhes para esclarecer bem o que citou acima. 

VD - Há dois pon­tos ain­da na for­mu­la­ção da die­ta que gos­ta­ria de des­ta­car tam­bém. Um é quan­do se está for­ne­cen­do mui­ta pro­teí­na aos ani­mais, por exem­plo, achan­do que assim vai melho­rar seu desem­pe­nho pro­du­ti­vo. Só que a vaca não tem exi­gên­cia por pro­teí­na, mas sim por ami­noá­ci­dos. E, se se for­ne­ce mui­to, o cus­to da die­ta se ele­va sig­ni­fi­ca­ti­va­men­te e toda essa pro­teí­na está sen­do des­car­ta­da na uri­na e nas fezes. Então, ele gas­ta mui­to com esse nutri­en­te para trans­for­má-lo em fezes e uri­na. E há tam­bém a ques­tão ambi­en­tal, que está mui­to exi­gen­te. Por isso, o Nasem 2021 traz um capí­tu­lo espe­cí­fi­co sobre a ques­tão ambi­en­tal, ten­do equa­ções para esti­mar a quan­ti­da­de de nitro­gê­nio, fós­fo­ro, potás­sio, entre outros, que são excre­ta­dos pelos ani­mais no meio ambi­en­te. Aqui nos EUA há vári­os regu­la­men­tos para essa ques­tão nas fazen­das. E é algo que tam­bém no Bra­sil já come­ça acon­te­cer. Resu­min­do: é pre­ci­so for­ne­cer a quan­ti­da­de exa­ta de nutri­en­tes que o ani­mal pre­ci­sa, nem mais nem menos.

BB – No caso das bezerras, quais são as principais novidades? 

VD - O capí­tu­lo sobre bezer­ras, sob a res­pon­sa­bi­li­da­de do pro­fes­sor James Dre­kle­ley, da Uni­ver­si­da­de de Illi­nois, traz vári­as novi­da­des impor­tan­tes. Ele é um reno­ma­do espe­ci­a­lis­ta no assun­to e foi meu pri­mei­ro pro­fes­sor aqui nos EUA e com quem tra­ba­lhei em 2014 e duran­te o desen­vol­vi­men­to do Nasem. Essa par­te de bezer­ros mudou mui­to. Vale dizer que a NRC 2001 usa­va dados que não eram de bezer­ras, mas de novi­lhos cri­a­dos para pro­du­ção de vite­los ali­men­ta­dos somen­te com lei­te. Por­tan­to, não aten­dia às exi­gên­ci­as dife­ren­tes da bezer­ra lei­tei­ra, que tem sua espe­ci­fi­ci­da­de e atu­al gené­ti­ca, e acres­cen­te-se a isso que já há alguns anos se dis­põem de suce­dâ­ne­os do lei­te, com diver­sas for­mu­la­ções. Assim, o Nasem 2021 traz todas as exi­gên­ci­as base­a­das em bezer­ras, com as equa­ções que foram desen­vol­vi­dos e ava­li­a­das com dados de dife­ren­tes uni­ver­si­da­des. Isso vai melho­rar mui­to a nutri­ção e pre­di­ção do desem­pe­nho (ganho de peso) das bezerras. 

BB – No quesito consumo inicial do concentrado pelas bezerras houve também mudanças? 

VD - Com rela­ção a essa ques­tão, a equa­ção de con­cen­tra­do para bezer­ras pela pri­mei­ra vez está dis­po­ní­vel no Nasem 2021. O con­su­mo de con­cen­tra­do ini­ci­al nos pri­mei­ros dias do ani­mal é mui­to bai­xo, pois, quan­do a bezer­ra nas­ce, o pro­du­tor for­ne­ce o colos­tro, depois dis­so vai come­çan­do a con­su­mir um pou­qui­nho até a ter­cei­ra sema­na de vida. A par­tir des­se perío­do, o con­su­mo de con­cen­tra­do aumen­ta expo­nen­ci­al­men­te. Quan­do fize­mos a mode­la­gem, a cor­re­la­ci­o­na­mos com a quan­ti­da­de de ener­gia meta­bo­li­zá­vel oriun­da do lei­te ou do suce­dâ­neo do lei­te. Então, há vári­os fato­res que afe­tam o con­su­mo de con­cen­tra­do ini­ci­al das bezer­ras. Por isso, quan­to antes for­ne­cer a ração, mai­or quan­ti­da­de o ani­mal vai con­su­mir ante­ci­pa­da­men­te. Há fazen­das que come­çam a ofe­re­cer só depois da quar­ta sema­na de vida, depen­den­do do mane­jo. O que temos vis­to é que, se for­ne­cer antes, já na pri­mei­ra sema­na de vida da bezer­ra, ela vai aumen­tar o con­su­mo mui­to mais rápi­do. Com­pa­rei alguns dados de dife­ren­tes uni­ver­si­da­des e cen­tros de pes­qui­sas sobre o for­ne­ci­men­to de con­cen­tra­do para bezer­ras, e a con­clu­são mos­tra que é melhor dis­po­ni­bi­li­zar o quan­to antes o con­cen­tra­do ini­ci­al. O segun­do aspec­to refe­re-se à com­po­si­ção do suce­dâ­neo ou do lei­te, ali­men­to que for­ne­ce mai­or ener­gia gra­ças à gor­du­ra e à pro­teí­na, sen­do a quan­ti­da­de mui­to impor­tan­te. Lem­bre-se que anti­ga­men­te eram for­ne­ci­dos cer­ca de 4 litros de lei­te, no mane­jo tra­di­ci­o­nal, e a gen­te via que essas bezer­ras esta­vam, na ver­da­de, pas­san­do fome. Hoje, sabe­mos que 4 litros não são sufi­ci­en­tes para suprir as exi­gên­ci­as des­ses ani­mais. Com isso, a quan­ti­da­de de ener­gia que é for­ne­ci­da pelo suce­dâ­neo ou pelo lei­te vai afe­tar o con­su­mo do con­cen­tra­do tam­bém. Então, essa nova equa­ção é base­a­da na ener­gia do suce­dâ­neo ou do lei­te, que cor­res­pon­de à quan­ti­da­de de pro­teí­na e de gor­du­ra con­ti­da nes­se ali­men­to. Vale lem­brar que essa equa­ção fun­ci­o­na com mai­or acu­rá­cia depois da ter­cei­ra sema­na de vida da bezer­ra, por­que nas pri­mei­ras sema­nas a vari­a­ção era tão gran­de, que mode­lar tais dados é bem difícil.

BB – Outro ponto interessante do Nasem 2021 diz respeito ao ambiente em que as bezerras são criadas. Pode detalhar um pouco mais esse tema? 

VD - Sim. Quan­to à ques­tão ambi­en­tal, fize­mos duas equa­ções: uma para o cli­ma tem­pe­ra­do e outra para o cli­ma tro­pi­cal. O ani­mal que está sob estres­se caló­ri­co, natu­ral­men­te, vai comer menos con­cen­tra­do ini­ci­al, em com­pa­ra­ção com uma bezer­ra cri­a­da num cli­ma sem estres­se caló­ri­co. Quan­do o ani­mal fica doen­te, tam­bém vai parar de comer con­cen­tra­do e optar por uma die­ta líqui­da, então há toda a par­te de saú­de do ani­mal que afe­ta o con­su­mo de con­cen­tra­do. Isso não está na equa­ção, con­tu­do é dis­cu­ti­do no capí­tu­lo. Nes­se mate­ri­al há vári­as dis­cus­sões sobre os fato­res que afe­tam o con­su­mo de con­cen­tra­do ini­ci­al para essas bezer­ras. Além dis­so, des­ta­ca­mos tam­bém dis­cus­sões a res­pei­to do suce­dâ­neo e da suple­men­ta­ção com ami­noá­ci­dos e seus impac­tos no cres­ci­men­to dos ani­mais ou não. Isso é mui­to impor­tan­te por­que só ago­ra que esta­mos tra­zen­do esses ami­noá­ci­dos para o mun­do das bezer­ras tam­bém, por­que, no NRC 2001, dava-se mais ênfa­se para as vacas. Porém, nos últi­mos 20 anos, hou­ve tam­bém mui­tas pes­qui­sas com bezer­ras ela­bo­ra­das no Bra­sil, por exem­plo, pelas pro­fes­so­ras Car­la Bit­tar, San­dra Ges­tei­ra Coe­lho e outros, além de empre­sas pri­va­das. Essas novi­da­des con­tri­buí­ram para dei­xar o Nasem 2021 mais acu­ra­do, prin­ci­pal­men­te para as bezer­ras duran­te o aleitamento.