Nossa filosofia cooperativista é o que nos faz ir tão longe - Digital Balde Branco

Estar presente em todas as etapas da cadeia produtiva é o que traz segurança ao nosso produtor. Assim, nosso cooperado tem a garantia de que aquilo que é produzido dentro da sua propriedade vai chegar ao consumidor final com a mesma qualidade com que foi feito

ENTREVISTA

Willem Berend Bouwman

Nossa filosofia cooperativista

é o que nos faz ir tão longe 

Wil­lem Berend Bouw­man é natu­ral de Cas­tro, no Para­ná. Enge­nhei­ro agrô­no­mo, for­ma­do pela Uni­ver­si­da­de Esta­du­al do Nor­te do Para­ná (UENP), de Ban­dei­ran­tes, é agri­cul­tor e dire­tor-pre­si­den­te da coo­pe­ra­ti­va Cas­tro­lan­da. Atua tam­bém como con­se­lhei­ro da Ele­tro­ge­ra­ção e pre­si­den­te da Esco­la Holan­de­sa PWA, de Cas­tro­lan­da. Seus prin­ci­pais ramos de ati­vi­da­de são a agri­cul­tu­ra e a ovi­no­cul­tu­ra. Os pri­mei­ros con­ta­tos com a Cas­tro­lan­da e o coo­pe­ra­ti­vis­mo tive­ram iní­cio ain­da com cin­co ou seis anos, quan­do acom­pa­nha­va o pai até a sede, para bus­car ração e insu­mos agrí­co­las para a pro­pri­e­da­de. Antes de assu­mir a pre­si­dên­cia da Cas­tro­lan­da, em 2020, Wil­lem atu­ou ati­va­men­te por 12 anos nos con­se­lhos inter­nos da cooperativa.

João Antô­nio dos Santos

Balde Branco – Ao chegar aos 71 anos de sua criação, qual o número de cooperados da Castrolanda; áreas de atuação; captação diária de leite; perfil dos produtores de leite; produtividade média geral das propriedades leiteiras?

Wil­lem Berend Bouw­man - A Cas­tro­lan­da entrou no ano de 2022 com 1.052 coo­pe­ra­dos ati­vos, sen­do a mai­o­ria liga­da à ati­vi­da­de de pecuá­ria lei­tei­ra. Atu­al­men­te, são mais de 1 milhão de litros de lei­te pro­du­zi­dos por dia pelos nos­sos coo­pe­ra­dos, em média. Ao fim do ano pas­sa­do, atin­gi­mos a mar­ca de 435,5 milhões de litros de lei­te produzidos.

BB — Qual foi o balanço da Castrolanda em relação ao faturamento anual de 2021, resultado líquido e projeções da cooperativa para seguir, em 2022, crescendo de forma sustentável?

WBB - Ape­sar das difi­cul­da­des impos­tas pela pan­de­mia, 2021 foi um ano his­tó­ri­co para a Cas­tro­lan­da. No ano em que come­mo­ra­mos sete déca­das de fun­da­ção, atin­gi­mos a mar­ca de R$ 5,9 bilhões de fatu­ra­men­to e um resul­ta­do líqui­do de R$ 145,7 milhões, que são, em par­te, devol­vi­dos aos nos­sos coo­pe­ra­dos – gran­des res­pon­sá­veis pelo nos­so desen­vol­vi­men­to. Sabe­mos, no entan­to, que o mer­ca­do inter­na­ci­o­nal é cheio de osci­la­ções que inter­fe­rem dire­ta­men­te no nos­so ramo de atu­a­ção. É por isso que a Cas­tro­lan­da con­ta com o Hori­zon­te – nome dado ao nos­so pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co – para nor­te­ar nos­so cres­ci­men­to sus­ten­tá­vel ao lon­go dos anos. O for­ta­le­ci­men­to da cadeia pro­du­ti­va e o inves­ti­men­to na indus­tri­a­li­za­ção, de manei­ra geral, são os gran­des trun­fos da coo­pe­ra­ti­va para seguir o rit­mo de desen­vol­vi­men­to: con­ti­nu­ar­mos pre­sen­tes em todas as eta­pas do pro­ces­so de produção.

BB — Quais as principais ações da Castrolanda no mercado consumidor nacional, bem como no mercado internacional, de se fortalecer e poder oferecer mais a seus cooperados? 

WBB - Como dis­se ante­ri­or­men­te, estar pre­sen­te em todas as eta­pas da cadeia pro­du­ti­va é o que traz segu­ran­ça ao nos­so pro­du­tor. Da por­tei­ra para den­tro, esta­mos ao lado de quem pro­duz com os ser­vi­ços de assis­tên­cia téc­ni­ca, capa­ci­ta­ção e pro­gra­mas de desen­vol­vi­men­to de pro­pri­e­da­des com os mais altos níveis de tec­no­lo­gia e ino­va­ção. Da por­tei­ra para fora, inves­ti­mos em pro­ces­sos indus­tri­ais e apro­xi­ma­ção com o con­su­mi­dor. Assim, nos­so coo­pe­ra­do tem a garan­tia de que aqui­lo que é pro­du­zi­do den­tro da sua pro­pri­e­da­de vai che­gar ao con­su­mi­dor final com a mes­ma qua­li­da­de com que foi fei­to. Inves­tin­do em diver­sas eta­pas da cadeia pro­du­ti­va, agre­ga­mos valor ao tra­ba­lho do pro­du­tor e leva­mos mais garan­tia e tran­qui­li­da­de para que ele pos­sa con­cen­trar os esfor­ços somen­te nas suas atividades.

BB — Poderíamos dizer, grosso modo, que há uma estratégia de fortalecimento da atividade dos cooperados e outra da cooperativa no mercado. Como se articulam essas estratégias para o fortalecimento da Castrolanda como um todo? 

WBB - Sabe­mos que é impos­sí­vel con­tro­lar o mer­ca­do e os pre­ços que envol­vem a nos­sa ati­vi­da­de. Não pode­mos mexer no pre­ço dos insu­mos, no valor do dólar ou nas con­di­ções de com­pra do con­su­mi­dor. Por cau­sa dis­so, é neces­sá­rio inves­tir naqui­lo que pode­mos con­tro­lar: nos­sa for­ma de gerir os negó­ci­os. Base­a­do no pla­ne­ja­men­to estra­té­gi­co, a Cas­tro­lan­da tem con­so­li­da­do pro­ce­di­men­tos inter­nos e inten­si­fi­ca­do o pro­ces­so de aten­di­men­to ao coo­pe­ra­do, de manei­ra geral. Atu­an­do des­ta for­ma, acre­di­to que esta­mos con­se­guin­do diluir os ris­cos e solu­ci­o­nar os even­tu­ais pro­ble­mas do negó­cio da manei­ra mais rápi­da possível.

BB — Detalhando um pouco mais, quanto ao foco da estratégia nos produtores, quais as principais ações/programas de assistência técnica, segundo os princípios da sustentabilidade, bem-estar animal, segurança do alimento? 

WBB - Além da alta pro­du­ti­vi­da­de, o com­pro­mis­so com a qua­li­da­de do lei­te é um dos dife­ren­ci­ais da Cas­tro­lan­da. Um exem­plo é o Pro­gra­ma Mais Lei­te Sau­dá­vel, do Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra. Base­a­do na arre­ca­da­ção de PIS/Cofins, par­te dos recur­sos é empre­ga­da nas pro­pri­e­da­des para melho­rar a qua­li­da­de do lei­te e ques­tões rela­ci­o­na­das à par­te sani­tá­ria da cadeia. Nes­se pro­ces­so, a coo­pe­ra­ti­va ofer­ta um mini­la­bo­ra­tó­rio de aná­li­se micro­bi­o­ló­gi­ca do lei­te nas fazen­das e na matriz, pas­teu­ri­za­do­res de lei­te e colos­tro e apli­ca­ti­vo de ges­tão, que vem sen­do imple­men­ta­do nas pro­pri­e­da­des. A assis­tên­cia téc­ni­ca espe­ci­a­li­za­da e pró­xi­ma do pro­du­tor pres­ta­da pela Área de Negó­ci­os Lei­te da Cas­tro­lan­da tam­bém atua dire­ta­men­te nos altos índi­ces de qua­li­da­de do lei­te e, mais do que isso, auxi­lia para que os coo­pe­ra­dos tenham cada vez mais faci­li­da­des nas toma­das de deci­são e na ges­tão da pro­pri­e­da­de. Com os per­fis exten­si­o­nis­ta e espe­ci­a­lis­ta, a assis­tên­cia con­se­gue aten­der tan­to às deman­das dos gran­des, como dos médi­os e dos peque­nos produtores. 

BB — Uma novidade é o software Milk Four. Fale um pouco sobre essa tecnologia e seus benefícios os produtores. 

WBB - A Área de Negó­ci­os Lei­te da Cas­tro­lan­da tam­bém lan­çou, recen­te­men­te, o soft­ware Milk Four, mais conhe­ci­do como Agri­ness M4, que traz em tem­po real os indi­ca­do­res téc­ni­cos e econô­mi­cos, e está em fase de imple­men­ta­ção nas pro­pri­e­da­des. Com a pos­si­bi­li­da­de de gerar um amplo ban­co de dados, que per­mi­ti­rá aos pro­du­to­res ana­li­sa­rem des­de os índi­ces de qua­li­da­de do lei­te até as recei­tas e os cus­tos de cada eta­pa da pro­du­ção, o M4 foi desen­vol­vi­do, como o nome já diz, a par­tir de qua­tro rela­ções na estru­tu­ra de infor­ma­ção: o vín­cu­lo téc­ni­co; a uti­li­za­ção da pla­ta­for­ma pelo pro­du­tor; a pos­si­bi­li­da­de de inter­fa­ce com outros equi­pa­men­tos das pro­pri­e­da­des e uma pla­ta­for­ma web para visão geren­ci­al e estra­té­gi­ca da cooperativa.

Esti­mu­la­mos a cul­tu­ra coo­pe­ra­ti­vis­ta por meio de ações pra­ti­ca­men­te diá­ri­as, com base em nos­sos valores”

BB — Aliás, para garantir certa previsibilidade na compra de insumos, melhorar a gestão da fazenda, entre outros benefícios, há também o aplicativo Ágil Castrolanda. Fale resumidamente sobre esse aplicativo. 

WBB - O Ágil Cas­tro­lan­da é uma das nos­sas prin­ci­pais fer­ra­men­tas no pro­ces­so de trans­for­ma­ção digi­tal da coo­pe­ra­ti­va no que diz res­pei­to ao aten­di­men­to ao coo­pe­ra­do. Com o apli­ca­ti­vo, o pro­du­tor tem con­di­ções de adqui­rir rações e demais insu­mos, acom­pa­nhar o catá­lo­go de tou­ros e adqui­rir mate­ri­al gené­ti­co de qua­li­da­de, além de acom­pa­nhar, pelo pró­prio celu­lar, todas as movi­men­ta­ções do mer­ca­do agrí­co­la e da pró­pria Cas­tro­lan­da. Aos pou­cos, a ideia é que ali este­jam con­cen­tra­dos todos os nos­sos ser­vi­ços digi­tais refe­ren­tes ao aten­di­men­to dos cooperados.

BB — Quanto ao pagamento por sólidos, que é uma prática comum em países importantes na produção de leite, a Castrolanda desenvolve algum programa para elevar o teor sólidos e remunerar o produtor? 

WBB - Com a assis­tên­cia téc­ni­ca nas pro­pri­e­da­des, con­se­gui­mos pas­sar aos pro­du­to­res ins­tru­ções rela­ci­o­na­das à nutri­ção dos reba­nhos com foco em aumen­tar o volu­me da pro­du­ção de sóli­dos. Assim, melho­ran­do a die­ta das vacas, ele pode aumen­tar a sua remuneração.

BB — Um ponto de destaque da Castrolanda, assim como de diversas cooperativas do Sul, é o nível de participação dos cooperados. Qual a importância disso? É fundamental a gestão estimular essa participação? 

WBB - O coo­pe­ra­do é o gran­de pro­ta­go­nis­ta da Cas­tro­lan­da. Afi­nal, a coo­pe­ra­ti­va sur­giu a par­tir do pio­nei­ris­mo de alguns deles, que cru­za­ram o mun­do em bus­ca de opor­tu­ni­da­des aqui na nos­sa região. Esse prin­cí­pio está até hoje enrai­za­do na coo­pe­ra­ti­va: nos­sa estru­tu­ra orga­ni­za­ci­o­nal foi desen­vol­vi­da para que os coo­pe­ra­dos tomem as deci­sões, sem­pre res­pal­da­dos por infor­ma­ções rele­van­tes e apoio dos nos­sos cola­bo­ra­do­res. Isso é fei­to por meio dos nos­sos con­se­lhos inter­nos, comi­tês e assem­blei­as. A deci­são pre­ci­sa vir do coo­pe­ra­do, por­que ele é o prin­ci­pal afe­ta­do por tudo o que rea­li­za­mos por aqui.

BB — Para haver essa sinergia entre gestão e participação dos cooperados, é importante estimular a Cultura Cooperativista, a Educação e o Conhecimento, tornando a cooperativa uma grande família? 

WBB - Gos­to mui­to de uma fra­se que uti­li­za­mos recen­te­men­te em alguns dos nos­sos mate­ri­ais ins­ti­tu­ci­o­nais e que refle­te bas­tan­te a nos­sa atu­a­ção na Cas­tro­lan­da: “Nos­sa filo­so­fia coo­pe­ra­ti­vis­ta é o que nos faz ir tão lon­ge”. São pala­vras sim­ples, mas que expli­cam mui­to bem o nos­so tra­ba­lho. Esti­mu­la­mos a cul­tu­ra coo­pe­ra­ti­vis­ta por meio de ações pra­ti­ca­men­te diá­ri­as, com base em nos­sos valo­res. Essas ações são inten­si­fi­ca­das por meio de even­tos e ati­vi­da­des fomen­ta­das pela Cas­tro­lan­da. Em rela­ção à pecuá­ria lei­tei­ra, a mais famo­sa é o Clu­be das Bezer­ras. Nele, incen­ti­va­mos cri­an­ças e jovens das mais vari­a­das ida­des na prá­ti­ca da pecuá­ria lei­tei­ra, levan­do conhe­ci­men­to aos par­ti­ci­pan­tes e garan­tin­do uma suces­são fami­li­ar das pro­pri­e­da­des rurais. Além dis­so, outro des­ta­que é o Agro­lei­te. O even­to é um dos mais tra­di­ci­o­nais do agro­ne­gó­cio e a prin­ci­pal vitri­ne da cadeia lei­tei­ra na Amé­ri­ca Lati­na. Com ele, leva­mos aos coo­pe­ra­dos o que há de mais moder­no e ino­va­dor no pro­ces­so de pro­du­ção, além de gerar conhe­ci­men­to, tro­ca de infor­ma­ções, e gran­des negó­ci­os. Mas o tra­ba­lho com o coo­pe­ra­ti­vis­mo não para por aí. Pos­so pas­sar o dia todo citan­do vári­os, mas des­ta­co nos­sas ações do pro­gra­ma Cres­cer e Coo­pe­rar, com o qual incen­ti­va­mos cri­an­ças de esco­las da região a conhe­cer e pra­ti­car o coo­pe­ra­ti­vis­mo por meio de ati­vi­da­des escolares.

BB — Como você definiria aquilo que está na base do sucesso da Castrolanda e que poderia servir de exemplo para o cooperativismo brasileiro, especificamente na cadeia do leite? 

WBB - Nós, da região do Gru­po ABC, já somos conhe­ci­dos por estar bus­can­do sem­pre novas tec­no­lo­gi­as e novos conhe­ci­men­tos. Isso tam­bém fez com que cres­cês­se­mos tan­to na pro­du­ção de lei­te. Por outro lado, temos o pro­du­tor, que tam­bém gos­ta des­sa tec­no­lo­gia e, jun­to com eles, a coo­pe­ra­ti­va e a Fun­da­ção ABC traz conhe­ci­men­to. O lei­te é uma ati­vi­da­de extre­ma­men­te inte­res­san­te, por­que um pro­du­tor que tem uma peque­na área, uma área limi­ta­da, con­se­gue ala­van­car a pro­du­ção na sua pro­pri­e­da­de. Então, por meio da ati­vi­da­de do lei­te, damos opor­tu­ni­da­de para que peque­nos, médi­os e gran­des pro­du­to­res evo­lu­am. Toda uma cadeia que hoje está mui­to bem con­so­li­da­da, mui­to bem estru­tu­ra­da, bus­can­do, em pri­mei­ro lugar, a garan­tia e a sus­ten­ta­bi­li­da­de para todos os nos­sos pro­du­to­res: peque­no, médio ou gran­de, opor­tu­ni­zar para que ele tenha essa ren­da. E tam­bém é um sus­ten­to para a coo­pe­ra­ti­va, por­que tam­bém gera ren­da e resul­ta­do para ela e para os pro­du­to­res de leite.