Nova chefe da Embrapa Gado de Leite - Digital Balde Branco

Minha mensagem à cadeia produtiva do leite é que contem sempre com a Embrapa como parceira essencial na geração e no uso de conhecimentos para o desenvolvimento sustentável da cadeia do leite. Juntos, podemos elevar ainda mais a competitividade e a sustentabilidade da cadeia produtiva do leite no Brasil.

ENTREVISTA

Elizabeth Nogueira Fernandes 

Nova chefe

da Embrapa Gado de Leite

Elizabeth Nogueira Fernandes é graduada em Engenharia Florestal (1979), com mestrado em Ciência Florestal (1993) e doutorado em Ciência Florestal pela Universidade Federal de Viçosa (1997), além de pós-doutorado em Economia do Meio Ambiente pela Unicamp (2004). Desde 1994 é pesquisadora da Embrapa Gado de Leite, unidade da qual foi chefe-adjunta de Transferência de Tecnologia de 2009 a 2014. Antes de se candidatar ao cargo de chefe geral, foi gestora do Núcleo Avançado de Transferência de Tecnologia da Embrapa Gado de Leite no Nordeste, lotada na Embrapa Tabuleiros Costeiros, em Aracaju-SE..


João Antô­nio dos Santos

Balde Branco — Quais os principais gargalos que a sra. destacaria na cadeia produtiva do leite, inclusive os impactos da pandemia e na pós-pandemia? 

Eli­za­beth Noguei­ra Fer­nan­des - A cadeia do lei­te bra­si­lei­ra vem pas­san­do por uma gran­de trans­for­ma­ção, que nos per­mi­tiu sair de déci­mo para ter­cei­ro mai­or pro­du­tor mun­di­al em qua­tro déca­das. Ape­sar des­ses avan­ços, ain­da temos diver­sos gar­ga­los para tor­ná-la mais com­pe­ti­ti­va. Isso se deve à com­ple­xi­da­de des­ta cadeia, que é uma das mais impor­tan­tes para o Bra­sil em ter­mos econô­mi­cos e soci­ais. Um gran­de desa­fio que esta­mos viven­ci­an­do atu­al­men­te refe­re-se às bai­xas mar­gens de ren­ta­bi­li­da­de e à difi­cul­da­de para a agre­ga­ção de valor no setor. Isso tem leva­do à saí­da de mui­tos pro­du­to­res da ati­vi­da­de, além de pre­ju­di­car novos inves­ti­men­tos, o que ini­be a cri­a­ção de um cír­cu­lo vir­tu­o­so na cadeia. Outro pon­to diz res­pei­to à com­pe­ti­ti­vi­da­de inter­na­ci­o­nal. Ape­sar de nos­sa gran­de pro­du­ção inter­na, ain­da somos impor­ta­do­res líqui­dos de lei­te. Isso está rela­ci­o­na­do a diver­sos pro­ble­mas estru­tu­rais do País, que ele­vam nos­so cus­to de pro­du­ção e redu­zem a qua­li­da­de do pro­du­to, prin­ci­pal­men­te em ter­mos de quan­ti­da­de de sóli­dos (pro­teí­na e gor­du­ra), difi­cul­tan­do nos­sa inser­ção de for­ma mais estru­tu­ra­da no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal de lác­te­os. Além des­ses pon­tos, a pan­de­mia refor­çou algu­mas ten­dên­ci­as rela­ci­o­na­das à segu­ran­ça dos ali­men­tos, sau­da­bi­li­da­de, meio ambi­en­te e res­pon­sa­bi­li­da­de soci­al, todos temas que tam­bém pre­ci­sam estar na agen­da do setor.

BB — Quais os principais avanços que destacaria nos últimos anos?

ENF - A cadeia do lei­te vem avan­çan­do mui­to. Nes­ses 45 anos de his­tó­ria da Embra­pa Gado de Lei­te, que vamos com­ple­tar em 26 de outu­bro des­te ano, a pro­du­ção de lei­te cres­ceu mais de qua­tro vezes, pas­san­do de 8 bilhões para pró­xi­mo de 35 bilhões de litros, enquan­to o reba­nho de vacas orde­nha­das subiu ape­nas 32%. O prin­ci­pal fator des­ta expan­são foi a ele­va­ção da pro­du­ti­vi­da­de ani­mal, que é resul­ta­do da ado­ção de tec­no­lo­gi­as, como a melho­ria gené­ti­ca do reba­nho e a ado­ção de téc­ni­cas de ges­tão e de mane­jo ade­qua­do, envol­ven­do nutri­ção, con­for­to ani­mal, saú­de e repro­du­ção. E essa evo­lu­ção tem se tor­na­do mais inten­sa nos últi­mos anos, com o aumen­to de sis­te­mas de pro­du­ção mais inten­si­vos e pro­du­ti­vos. Outro des­ta­que deve-se à qua­li­da­de do lei­te, que avan­çou mui­to, prin­ci­pal­men­te em ter­mos micro­bi­o­ló­gi­cos. Tam­bém temos avan­ços pro­por­ci­o­na­dos pela era digi­tal, com mai­or conec­ti­vi­da­de e uso de sen­so­res para diver­sos fins, além da expan­são da auto­ma­ção de pro­ces­sos den­tro da cadeia. Mas não pode­mos esque­cer que mui­tos des­ses avan­ços são tam­bém fato­res de exclu­são den­tro da cadeia e neces­si­tam de nos­sa aten­ção, no sen­ti­do de pro­por­ci­o­nar mai­or inclu­são de pro­du­to­res com gera­ção de ren­da que garan­ta qua­li­da­de de vida no cam­po e per­mi­ta a suces­são fami­li­ar com inser­ção dos jovens na atividade.

BB — Dentro desta situação que a sra. resumiu, qual é o papel da Embrapa Gado Leite (EGL) no âmbito da pesquisa, inovação, divulgação de conhecimentos e capacitação de técnicos e produtores? 

ENF - A Embra­pa se con­so­li­dou ao lon­go de sua his­tó­ria pelas entre­gas rele­van­tes para a cadeia do lei­te, sem­pre pau­ta­das em ciên­cia e ino­va­ção de pon­ta e apli­ca­das à rea­li­da­de da cadeia. Isso refle­te uma de nos­sas fina­li­da­des, que é desen­vol­ver solu­ções tec­no­ló­gi­cas que garan­tam a com­pe­ti­ti­vi­da­de e sus­ten­ta­bi­li­da­de da cadeia pro­du­ti­va do lei­te. Em rela­ção à capa­ci­ta­ção, temos uma lon­ga his­tó­ria na trans­fe­rên­cia de conhe­ci­men­tos e tec­no­lo­gi­as e que­re­mos for­ta­le­cer ain­da mais essas ações, sem­pre em sin­to­nia com as prin­ci­pais deman­das do setor e em par­ce­ria com ins­ti­tui­ções públi­cas e pri­va­das, no sen­ti­do de somar esfor­ços para o avan­ço da cadeia do lei­te no Brasil. 

BB — Em relação aos pequenos e médios produtores (ante o fato de que muitos vêm desistindo da atividade), em que a sua gestão poderá contribuir para reduzir essa desistência e dar a eles as perspectivas de que o leite pode ser um negócio satisfatório?

ENF - Sabe­mos que a saí­da de pro­du­to­res da ati­vi­da­de tem sido recor­ren­te e por diver­sos moti­vos, como bai­xa ren­ta­bi­li­da­de, fal­ta de recur­sos para inves­ti­men­tos e ado­ção de novas tec­no­lo­gi­as, pro­ble­mas com mão de obra e difi­cul­da­des no pro­ces­so de suces­são fami­li­ar. A Embra­pa pre­ci­sa con­ti­nu­ar a pro­ver conhe­ci­men­to e tec­no­lo­gia para esses pro­du­to­res, inde­pen­den­te­men­te de seu per­fil, de modo a tor­ná-los mais efi­ci­en­tes em seus mode­los de negó­ci­os, geran­do, con­se­quen­te­men­te, mai­or ren­da. E fare­mos isso jun­to com nos­sos par­cei­ros públi­cos e pri­va­dos, como uni­ver­si­da­des, ins­ti­tu­tos de pes­qui­sa e empre­sas, para gera­ção de solu­ções, e ins­ti­tui­ções de assis­tên­cia téc­ni­ca e exten­são rural para per­mi­tir que essas solu­ções che­guem a quem pre­ci­sa na pon­ta da cadeia, e do gover­no e das enti­da­des de repre­sen­ta­ção dos pro­du­to­res. Hoje em dia, nin­guém faz mais nada sozi­nho e, em tem­pos de recur­sos escas­sos, essa coo­pe­ra­ção com todos os que atu­am no setor é ain­da mais impor­tan­te, de modo a somar­mos esfor­ços em favor da cadeia do lei­te. Mas é impor­tan­te dizer que nem todos vão ado­tar as tec­no­lo­gi­as dis­po­ní­veis e seguir cres­cen­do no lei­te. É assim em qual­quer ati­vi­da­de econô­mi­ca e este fato é ain­da mais ver­da­dei­ro no lei­te, devi­do à com­ple­xi­da­de da pro­du­ção lei­tei­ra com­pa­ra­da com outras ati­vi­da­des agro­pe­cuá­ri­as. Ago­ra, para os pro­du­to­res que dese­jam per­ma­ne­cer na ati­vi­da­de, prin­ci­pal­men­te aque­les de menor volu­me de pro­du­ção, é mui­to impor­tan­te o pro­ces­so de coo­pe­ra­ção via coo­pe­ra­ti­vas e/ou asso­ci­a­ções. Bus­car boas par­ce­ri­as no negó­cio é fun­da­men­tal para lidar com a com­ple­xi­da­de do mun­do atu­al. São as par­ce­ri­as que vão aju­dar o pro­du­tor a pro­du­zir com mais efi­ci­ên­cia, a rea­li­zar melho­res com­pras de insu­mos, melho­rar a comer­ci­a­li­za­ção e agre­gar mais valor. Por­tan­to, pre­ci­sa­re­mos de mui­ta ação e coo­pe­ra­ção e a Embra­pa esta­rá sem­pre jun­to com os demais ato­res da cadeia para tor­ná-la mais com­pe­ti­ti­va e atra­en­te para os produtores. 

BB — Quais são os principais eixos de sua gestão e, por favor, faça um breve resumo de cada um deles e dos objetivos a serem alcançados ao término de sua gestão.

ENF - Para gui­ar nos­sa ges­tão à fren­te da Embra­pa Gado de Lei­te ela­bo­ra­mos um pla­no de tra­ba­lho que apre­sen­ta ações estra­té­gi­cas agru­pa­dos em três eixos: 1) Desen­vol­vi­men­to Ins­ti­tu­ci­o­nal e de Com­pe­tên­ci­as; 2) Ges­tão de Pes­qui­sa, Desen­vol­vi­men­to e Ino­va­ção (PD&I); 3) Visão Estra­té­gi­ca de Ino­va­ção e Negó­ci­os. No âmbi­to inter­no, vamos mape­ar nos­sas com­pe­tên­ci­as e valo­ri­zar as pes­so­as para for­ma­ção de um time de alta per­for­man­ce. Isso por­que acre­di­to que as pes­so­as são nos­so prin­ci­pal patrimô­nio. Tam­bém nos pro­po­mos a esta­be­le­cer um pro­ces­so de pri­o­ri­za­ção de temas estra­té­gi­cos de PD&I de for­ma a ali­nhar nos­sos esfor­ços e os das orga­ni­za­ções par­cei­ras às dire­tri­zes ins­ti­tu­ci­o­nais e polí­ti­cas públi­cas exis­ten­tes. Para isso é fun­da­men­tal que nos­sa equi­pe este­ja mais pró­xi­ma do setor pro­du­ti­vo, enten­den­do “in loco” os pro­ble­mas e deman­das da cadeia, além de par­ti­ci­pa­rem de redes naci­o­nais e inter­na­ci­o­nais de pes­qui­sa e ino­va­ção. Com o ali­nha­men­to das ações, asso­ci­a­das aos nos­sos dife­ren­ci­ais em ter­mos de infra­es­tru­tu­ra ins­ta­la­da, que englo­ba 13 labo­ra­tó­ri­os na sede da Embra­pa em Juiz de Fora, além de dois Cam­pos Expe­ri­men­tais com dife­ren­tes sis­te­mas de pro­du­ção com reba­nhos das raças Gir, Giro­lan­do e Holan­de­sa, e o Com­ple­xo Mul­tiu­suá­rio de Bio­e­fi­ci­ên­cia e Sus­ten­ta­bi­li­da­de, uma estru­tu­ra úni­ca para pes­qui­sa no mun­do tro­pi­cal, vamos dire­ci­o­nar esfor­ços para a cap­ta­ção ati­va de recur­sos, esti­mu­lar pes­qui­sas com­par­ti­lha­das e dire­ci­o­nar ações para ampli­ar as fron­tei­ras físi­cas de atu­a­ção da uni­da­de, de modo a ser­mos capa­zes de aten­der às deman­das de dife­ren­tes públi­cos de inte­res­se. Para que pos­sa­mos ser efe­ti­vos no aten­di­men­to des­sas deman­das tam­bém vamos estru­tu­rar um pro­ces­so de ges­tão e comu­ni­ca­ção do nos­so port­fó­lio de ati­vos tec­no­ló­gi­cos ori­en­ta­dos para as deman­das e pro­ble­mas existentes.

Nos­sa aten­ção tam­bém é no sen­ti­do de pro­por­ci­o­nar mai­or inclu­são de pro­du­to­res com gera­ção de ren­da que pro­por­ci­o­ne qua­li­da­de de vida no cam­po e per­mi­ta a suces­são fami­li­ar com inser­ção dos jovens na atividade”

BB — Com sua carreira ligada aos “sistemas agroflorestais”, como vê a questão da sustentabilidade na pecuária leiteira, que é uma demanda do mercado? Será dado um foco maior a essa questão? Se sim, já há algum projeto? Pode sintetizá-lo? 

ENF - O con­su­mi­dor de hoje está cada vez mais cons­ci­en­te e exi­ge cada vez mais saber de onde vem o ali­men­to que con­so­me e como ele é pro­du­zi­do. Por isso é pre­ci­so demons­trar que a pro­du­ção de lei­te pode ser fei­ta de for­ma sus­ten­tá­vel, em todas as dimen­sões, seja econô­mi­ca, soci­al e ambi­en­tal. Des­ta for­ma, o uso de prá­ti­cas agrí­co­las sus­ten­tá­veis, que maxi­mi­zam a efi­ci­ên­cia e pro­du­zem ali­men­tos com menos recur­sos, é fun­da­men­tal para se alcan­çar um equi­lí­brio entre as neces­si­da­des das gera­ções pre­sen­tes e futu­ras. Para isso, a Embra­pa Gado de Lei­te já vem tra­ba­lhan­do, jun­ta­men­te com diver­sas par­cei­ras, por exem­plo, no apri­mo­ra­men­to de fer­ra­men­tas para a ava­li­a­ção da sus­ten­ta­bi­li­da­de em pro­pri­e­da­des lei­tei­ras, no desen­vol­vi­men­to de sis­te­mas de pro­du­ção mais inten­si­vos em rela­ção ao uso do solo e na orga­ni­za­ção da pro­du­ção de lei­te em sis­te­mas orgâ­ni­cos. As mudan­ças cli­má­ti­cas têm leva­do ris­cos a todas as cadei­as agro­a­li­men­ta­res e a ado­ção de sis­te­mas inte­gra­dos mais inten­si­vos, por par­te dos pecu­a­ris­tas, além de redu­zir as emis­sões de gases de efei­to estu­fa, por uni­da­de de pro­du­to, con­tri­bui para dimi­nuir a pres­são por des­ma­ta­men­tos, aju­dan­do a man­ter nos­sas flo­res­tas em pé. O balan­ço de car­bo­no hoje é a mais impor­tan­te pau­ta do agro­ne­gó­cio e uma gran­de opor­tu­ni­da­de para o mer­ca­do. Con­tu­do, temos um desa­fio impor­tan­te, que é des­mis­ti­fi­car que a ado­ção de prá­ti­cas sus­ten­tá­veis seja con­trá­ria ao desem­pe­nho finan­cei­ro da pro­pri­e­da­de, e mos­trar os resul­ta­dos em ganhos de pro­du­ção e pro­du­ti­vi­da­de, obti­das prin­ci­pal­men­te pelo bem-estar ani­mal. Em ter­mos mais abran­gen­tes da cadeia agro­a­li­men­tar do lei­te, o con­cei­to ESG já vem sen­do incor­po­ra­do por diver­sas empre­sas e a Embra­pa Gado de Lei­te está à dis­po­si­ção para con­tri­buir e agre­gar conhe­ci­men­to para a imple­men­ta­ção de prá­ti­cas sus­ten­tá­veis, con­si­de­ran­do o ambi­en­te, o soci­al e a governança.

BB — Uma saída para pequenos e médios produtores tem sido agregar valor ao leite com a produção artesanal de derivados lácteos (sobretudo queijos, alguns tipos com premiações internacionais). Como a sra. vê esta questão e se pretende levar a cabo alguma ação para o fortalecimento desse segmento? 

ENF - A trans­for­ma­ção do lei­te in natu­ra em pro­du­tos lác­te­os pelos pro­du­to­res com peque­no e médio volu­mes de pro­du­ção é uma alter­na­ti­va mui­to inte­res­san­te para o incre­men­to da ren­da. A Embra­pa Gado de Lei­te, em par­ce­ria com ins­ti­tui­ções públi­cas e pri­va­das e com asso­ci­a­ções de pro­du­to­res, já vem tra­ba­lhan­do no apoio a esta ati­vi­da­de há algum tem­po. Par­ti­ci­pa­mos de pro­je­tos de apoio à qua­li­da­de sani­tá­ria dos quei­jos Canas­tra e Ser­ro em Minas Gerais, com foco em pro­gra­mas de boas prá­ti­cas de pro­du­ção agro­pe­cuá­ria (BPA) e de fabri­ca­ção (BPF) para a pro­du­ção de um quei­jo arte­sa­nal segu­ro, na ava­li­a­ção micro­bi­o­ló­gi­ca e na iden­ti­fi­ca­ção de bac­té­ri­as lác­te­as. Tam­bém atu­a­mos de manei­ra deci­si­va, jun­to com Ema­ter-MG, IMA e ILCT/Epamig, na carac­te­ri­za­ção dos quei­jos de Ala­goa e Man­ti­quei­ra de Minas, pro­du­zi­dos na Ser­ra da Man­ti­quei­ra, na região sul de Minas. Gra­ças a este tra­ba­lho, o quei­jo foi reco­nhe­ci­do pelo Esta­do, ten­do seus res­pec­ti­vos regu­la­men­tos téc­ni­cos de pro­du­ção publi­ca­dos em abril des­te ano. Impor­tan­te des­ta­car que diver­sos pro­du­to­res de Ala­goa foram recen­te­men­te pre­mi­a­dos no Con­cur­so Mun­di­al do Quei­jo rea­li­za­do na Fran­ça. Os tra­ba­lhos ago­ra se con­cen­tram “da por­tei­ra pra fora”, com um pro­je­to recen­te­men­te apro­va­do que auxi­li­a­rá na comer­ci­a­li­za­ção dos quei­jos pelos pro­du­to­res (ago­ra já orga­ni­za­dos em uma asso­ci­a­ção – Apro­la­goa), por meio da iden­ti­fi­ca­ção dos canais de comer­ci­a­li­za­ção e dos mer­ca­dos aces­sa­dos por eles. O pro­je­to tam­bém cri­a­rá uma pla­ta­for­ma ele­trô­ni­ca “e‑commerce” para faci­li­tar a ven­da dos quei­jos bem como uma inte­ra­ção mai­or com os con­su­mi­do­res, sen­do con­si­de­ra­do pro­je­to pilo­to a ser repli­ca­do futu­ra­men­te em outras regiões pro­du­to­ras. Outros pro­je­tos tam­bém deve­rão ser desen­vol­vi­dos pelas equi­pes nos pró­xi­mos anos para apoi­ar a pro­du­ção de quei­jos arte­sa­nais com ciên­cia, tec­no­lo­gia e inovação.

BB — Destaque, resumidamente, algumas das principais linhas de pesquisas que terão maior foco em sua gestão. 

ENF - Nos­so foco é atu­ar nos reais pro­ble­mas da cadeia pro­du­ti­va do lei­te. Mas para ser­mos efe­ti­vos pre­ci­sa­mos pri­o­ri­zar nos­sas ações. Para isso, a Embra­pa tem seu Pla­no Dire­tor, como uma agen­da bem conec­ta­da ao setor e com metas a serem cum­pri­das até 2030. Esse pla­no base­ou-se em evi­dên­ci­as e per­cep­ções extraí­das de uma ampla fon­te de dados e estu­dos, além de con­sul­ta a diver­sos ato­res do setor pro­du­ti­vo, da aca­de­mia, do gover­no e da pró­pria Embra­pa. Falan­do em linhas de atu­a­ção, a Embra­pa Gado de Lei­te detém exper­ti­ses já con­so­li­da­das nos seus 45 anos de exis­tên­cia e que con­ti­nu­a­rão sen­do for­ta­le­ci­das. Como exem­plos, pode­mos citar os pro­gra­mas naci­o­nais de melho­ra­men­to das prin­ci­pais raças lei­tei­ras, sen­do pio­nei­ra na uti­li­za­ção da sele­ção genô­mi­ca, no desen­vol­vi­men­to de cul­ti­va­res for­ra­gei­ras para a pecuá­ria naci­o­nal, como a BRS Capi­a­çu, nas con­tri­bui­ções no desen­vol­vi­men­to das prin­ci­pais bio­téc­ni­cas da repro­du­ção (IA, IATF, FIV e Clo­na­gem), além de pes­qui­sas rela­ci­o­na­das à nutri­ção ani­mal, que con­tri­buí­ram para o esta­be­le­ci­men­to das exi­gên­ci­as nutri­ci­o­nais de bovi­nos lei­tei­ros cri­a­dos em con­di­ções tro­pi­cais e mode­los de pre­di­ção e miti­ga­ção de gases de efei­to estu­fa. A uni­da­de tam­bém tem for­te atu­a­ção na gera­ção de conhe­ci­men­tos para melho­ria da qua­li­da­de do lei­te e deri­va­dos, no desen­vol­vi­men­to de sis­te­mas de ILPF e em estu­dos liga­dos à com­pe­ti­ti­vi­da­de da cadeia e de inte­li­gên­cia para o mer­ca­do. Mas tam­bém exis­tem novas fren­tes de pes­qui­sa em temas estra­té­gi­cos na fron­tei­ra do conhe­ci­men­to, que tam­bém terão aten­ção espe­ci­al, como con­tro­le do car­ra­pa­to bovi­no por meio de sele­ção genô­mi­ca, farmacogenética/imunologia apli­ca­da; desen­vol­vi­men­to de fár­ma­cos e vaci­nas por meio de nano­tec­no­lo­gia; segu­ran­ça e cer­ti­fi­ca­ção de lác­te­os arte­sa­nais; desen­vol­vi­men­to de pro­du­tos lác­te­os dife­ren­ci­a­dos com valor agre­ga­do (nutra­cêu­ti­cos, A2A2, orgâ­ni­cos, car­bo­no neu­tro, ras­treá­veis, den­tre outros); pecuá­ria digi­tal e 4.0 (ava­li­a­ção de tec­no­lo­gi­as, mane­jo de pre­ci­são e apli­ca­ção de inte­li­gên­cia arti­fi­ci­al); moni­to­ra­men­to de pas­ta­gens e zone­a­men­to pecuá­rio com empre­go de geo­tec­no­lo­gi­as. Tam­bém deve­mos estar aten­tos às prin­ci­pais ten­dên­ci­as apli­ca­das ao cam­po de atu­a­ção da uni­da­de, a exem­plo das temá­ti­cas de sus­ten­ta­bi­li­da­de, saú­de úni­ca, smart farms e automação. 

BB — Assumindo esses desafios, frente ao contexto da cadeia produtiva do leite, qual o principal objetivo que pretende realizar ao chegar no fim de sua gestão?

ENF - Nos­so pla­no de ges­tão bus­ca gerar uma série de impac­tos posi­ti­vos que são alta­men­te cor­re­la­ci­o­na­dos, pen­san­do na nos­sa orga­ni­za­ção inter­na e nos resul­ta­dos de nos­sas ações para a cadeia do lei­te e toda a soci­e­da­de. Nes­se con­tex­to, vamos bus­car cons­truir uma equi­pe moti­va­da com cul­tu­ra orga­ni­za­ci­o­nal for­ta­le­ci­da; esta­be­le­cer uma car­tei­ra de pro­je­tos e ati­vos tec­no­ló­gi­cos ali­nha­da às prin­ci­pais deman­das e desa­fi­os do setor pro­du­ti­vo e con­so­li­dar nos­sa ima­gem por meio de comu­ni­ca­ção efe­ti­va com os dife­ren­tes públi­cos. Outro pon­to impor­tan­te diz res­pei­to à obten­ção de orça­men­to equi­li­bra­do com menor depen­dên­cia de recur­sos públi­cos, devi­do à já conhe­ci­da redu­ção dos recur­sos públi­cos dis­po­ní­veis nos últi­mos anos. Tudo isso para que a Embra­pa pos­sa ter ati­vos tec­no­ló­gi­cos posi­ci­o­na­dos estra­te­gi­ca­men­te jun­to ao setor pro­du­ti­vo e que resul­tem em impac­tos posi­ti­vos para toda a sociedade.

BB — Qual recado gostaria de deixar para a cadeia produtiva do leite? 

ENF - Minha men­sa­gem final é que con­tem sem­pre com a Embra­pa como par­cei­ra essen­ci­al na gera­ção e no uso de conhe­ci­men­tos para o desen­vol­vi­men­to sus­ten­tá­vel da cadeia do lei­te. Jun­tos, pode­mos ele­var ain­da mais a com­pe­ti­ti­vi­da­de e a sus­ten­ta­bi­li­da­de da cadeia pro­du­ti­va do lei­te no Brasil.

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