Nova gestão com foco no índex da ia por município - Digital Balde Branco
ENTRE­VIS­TA
MÁR­CIO NERY

NOVA GES­TÃO com foco no ÍNDEX DA IA POR MUNICÍPIO

Foi elei­ta recen­te­men­te a nova dire­to­ria da Asso­ci­a­ção Bra­si­lei­ra de Inse­mi­na­ção Arti­fi­ci­al (Asbia), que coman­da­rá a enti­da­de pelos pró­xi­mos três anos. Quem assu­me a pre­si­dên­cia ago­ra é o enge­nhei­ro agrô­no­mo, for­ma­do pela Uni­ver­si­da­de Fede­ral de Viço­sa (MG), Már­cio Nery. Com duas déca­das de atu­a­ção no mer­ca­do de gené­ti­ca. Nery res­sal­ta a muni­ci­pa­li­za­ção dos índi­ces da Asbia, as ações para impul­si­o­nar a uti­li­za­ção da IA nas fazen­das lei­tei­ras, assim como os prin­ci­pais obje­ti­vos da sua gestão 
Bal­de Bran­co – Antes de abor­dar os pla­nos da sua ges­tão para o tri­ê­nio, fale sobre o com­por­ta­men­to do mer­ca­do de inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al em 2019.
Már­cio Nery – O resul­ta­do total de cres­ci­men­to não nos sur­pre­en­deu, por­que o rela­tó­rio da Asbia é tri­mes­tral e já dava sinais de uma evo­lu­ção robus­ta. Para o mer­ca­do de IA, o quar­to tri­mes­tre de 2019 foi melhor ain­da. Assim, fecha­mos o últi­mo ano com 19% de cres­ci­men­to total (corte/leite), sen­do que no cor­te regis­trou uma alta de 23%, e, no lei­te, fechou em 10%. 
BB – A que o senhor atri­bui esse cres­ci­men­to significativo?
MN – Acre­di­to que a pecuá­ria de lei­te e de cor­te acor­dou para o melho­ra­men­to gené­ti­co. Os pro­du­to­res final­men­te per­ce­be­ram o efei­to posi­ti­vo que a gené­ti­ca melho­ra­do­ra traz para a sua ati­vi­da­de. Para tan­to, três fato­res são fun­da­men­tais: a come­çar pelo cus­to, já que ape­nas 2% do cus­to de pro­du­ção de um litro de lei­te ou de uma arro­ba bovi­na são refe­ren­tes à inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al. O segun­do aspec­to que o pro­du­tor per­ce­beu é que, de todos os insu­mos que ele põe den­tro da fazen­da, a gené­ti­ca é um úni­co ele­men­to per­ma­nen­te, pois con­ti­nua atu­an­do sobre vári­as gera­ções. Outro moti­vo deter­mi­nan­te foi que o pecu­a­ris­ta cons­ta­tou que a gené­ti­ca não tra­ba­lha só na pon­ta do sis­te­ma, atre­la­da ao aumen­to do ren­di­men­to (mais litros de leite/vaca), mas atua tam­bém na outra pon­ta, a da redu­ção de cus­to. Bas­ta usar, por exem­plo, uma gené­ti­ca que melho­re a efi­ci­ên­cia ali­men­tar, que o pro­du­tor já vai gas­tar menos com comi­da e pro­du­zir a mes­ma quan­ti­da­de de lei­te ou até mais. Além de ser uma alter­na­ti­va de cri­ar ani­mais mais resis­ten­tes a doen­ças, o que sig­ni­fi­ca menor gas­to com medi­ca­men­tos, e, con­se­quen­te­men­te, redu­ção na taxa de mor­ta­li­da­de do reba­nho. Soma-se a tudo isso a melho­ria na fer­ti­li­da­de dos ani­mais, tan­to para pre­co­ci­da­de, com os bovi­nos pro­du­zin­do mais cedo, quan­to na rein­se­mi­na­ção das vacas. Des­sa manei­ra, sobre a pro­du­ção e redu­ção de cus­tos, a gené­ti­ca tem um impac­to finan­cei­ro na pro­pri­e­da­de mui­to grande. .
BB – Qual foi a par­ti­ci­pa­ção das prin­ci­pais raças lei­tei­ras nas ven­das de sêmen no acu­mu­la­do de 2019?
MN – O cres­ci­men­to de 10% das raças lei­tei­ras pare­ce que foi pou­co, prin­ci­pal­men­te quan­do com­pa­ra­mos com cor­te, mas o setor vinha de anos tur­bu­len­tos de cres­ci­men­to, em tor­no de 2% a 3%. Logo, deve­mos come­mo­rar tal resul­ta­do. No lei­te, foram comer­ci­a­li­za­dos cer­ca de 5 milhões de doses de sêmen. Acer­ca da par­ti­ci­pa­ção, temos um menor núme­ro de raças den­tro do cená­rio, em com­pa­ra­ção com o cor­te. Enca­be­çam a lis­ta as raças Giro­lan­do, Holan­dês, Jer­sey e Gir Lei­tei­ro, com 98% do mer­ca­do de IA. 
Os pro­to­co­los de IATF são fun­da­men­tais, pois con­tri­bu­em para aumen­tar a taxa de ser­vi­ço e redu­zem o inter­va­lo entre par­tos. O uso des­sa tec­no­lo­gia tem cres­ci­do mui­to tam­bém na pecuá­ria lei­tei­ra, alcan­çan­do algo em tor­no de 30% do reba­nho inseminado 

Erick Hen­ri­que

BB – Em paí­ses como Esta­dos Uni­dos, Fran­ça, Ale­ma­nha, Cana­dá e Holan­da, a inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al é rea­li­za­da na gran­de mai­o­ria dos reba­nhos lei­tei­ros. No entan­to, no Bra­sil, o uso da IA ain­da é mui­to limi­ta­do. Como con­ven­cer os pro­du­tor a apli­car, de fato, essa tecnologia? 
MN – Segun­do o Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da (Cepe­a/E­salq-USP), que rece­be, orga­ni­za e con­so­li­da os dados da Asbia, pas­sa­mos de 11% para 16% do reba­nho inse­mi­na­do, ou seja, um cres­ci­men­to mui­to inte­res­san­te em um ano. Acho que o fim do obs­tá­cu­lo em rela­ção ao cus­to-bene­fí­cio da IA, o uso da Inse­mi­na­ção Arti­fi­ci­al em Tem­po Fixo (IATF) – que já é mui­to comum no cor­te, mas não no lei­te –, e a capa­ci­ta­ção da mão de obra, vão fazer com que inse­mi­na­ção arti­fi­ci­al cres­ça no lei­te. Mas, real­men­te, esta­mos mui­to dis­tan­tes dos paí­ses mais desen­vol­vi­dos quan­to total de ani­mais inse­mi­na­dos. Um dos fato­res do bai­xo con­su­mo está rela­ci­o­na­do ao com­po­nen­te cul­tu­ral. Tan­to é que os três esta­dos região Sul (Para­ná, San­ta Cata­ri­na e Rio Gran­de do Sul), que pos­su­em uma for­te influên­cia euro­peia, são os que têm o mai­or índi­ce de vacas lei­tei­ras inseminadas. 
BB – Apro­vei­tan­do o gan­cho, o que as com­pa­nhi­as de IA e as enti­da­des podem fazer para mudar esse panorama?
MN – As empre­sas já estão atu­an­do nes­se sen­ti­do, pres­tan­do con­sul­to­ria ao mer­ca­do. Seja ao cri­a­dor, que dese­ja ini­ci­ar um pro­gra­ma de melho­ra­men­to gené­ti­co, seja levan­do ori­en­ta­ção e mos­tran­do os cami­nhos para uti­li­za­ção cor­re­ta da gené­ti­ca, esses já são pas­sos mui­to gran­des em ter­mos de ser­vi­ço que essas com­pa­nhi­as ofe­re­cem ao pro­du­tor. Algu­mas enti­da­des pro­mo­vem cur­sos de IA, aju­dan­do no fomen­to e trei­na­men­to da mão de obra nas fazen­das. E a Asbia, sob este aspec­to, tem a mis­são de con­gre­gar as ações desen­vol­vi­das pelas 28 empre­sas asso­ci­a­das, mais algu­mas orga­ni­za­ções que são exclu­si­vas de pres­ta­ção de ser­vi­ços, que comer­ci­a­li­zam hormô­ni­os, boti­jões, mate­ri­ais para IA e IATF. Toda­via, acho que o pas­so mais impor­tan­te que a Asbia vai dar é a iden­ti­fi­ca­ção de onde deve­mos con­cen­trar esfor­ços. Por exem­plo, o novo Index-Asbia, que será lan­ça­do nes­te ano, tra­rá a estra­ti­fi­ca­ção dos dados de IA por município.   

A gené­ti­ca não tra­ba­lha só na pon­ta do sis­te­ma, somen­te atre­la­da ao aumen­to do ren­di­men­to (mais litros de leite/vaca), mas atua tam­bém na outra pon­ta, a da redu­ção de custo”

BB – Quais resul­ta­dos o senhor espe­ra obter com esse projeto?
MN –  A estra­ti­fi­ca­ção das infor­ma­ções do Index-Asbia, atu­al­men­te, está sen­do fei­ta por esta­do, e ago­ra esta­mos tra­ba­lhan­do for­te para seg­men­tar por muni­cí­pio. Por­tan­to, ima­gi­ne que a asso­ci­a­ção terá em mãos os dados do uso da inse­mi­na­ção por muni­cí­pio, logo já pode­mos men­ta­li­zar o poten­ci­al des­sa fer­ra­men­ta, sobre­tu­do quan­do cru­zar­mos as infor­ma­ções de IA com o núme­ro de cabe­ças bovi­nas de cada muni­cí­pio. Quer dizer, vamos aju­dar as pre­fei­tu­ras, os gover­nos esta­du­ais e até o pró­prio Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra a enten­der onde os esfor­ços deve­rão ser con­cen­tra­dos para pro­mo­ver o aumen­to do uso da IA. Resu­min­do, o nos­so obje­ti­vo com esse pro­je­to é entre­gar ao mer­ca­do, às empre­sas asso­ci­a­das, bem como às pre­fei­tu­ras que tive­rem inte­res­se e ao minis­té­rio, uma fer­ra­men­ta de iden­ti­fi­ca­ção de áre­as de sobra, onde há cida­des com mui­to reba­nho e pou­co uso da tec­no­lo­gia de inse­mi­na­ção artificial. 
BB – No últi­mo ano, pude­mos acom­pa­nhar vári­os acor­dos fir­ma­dos entre o Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra e diver­sos paí­ses. Des­se modo, pode­mos acre­di­tar que o mer­ca­do de inse­mi­na­ção deve­rá des­lan­char nas expor­ta­ções de mate­ri­al gené­ti­co das raças lei­tei­ras nos pró­xi­mos anos?
MN –  A deman­da pela gené­ti­ca zebuí­na bra­si­lei­ra é impres­si­o­nan­te. No ano pas­sa­do, hou­ve um incre­men­to de 16% nas expor­ta­ções, con­ta­bi­li­zan­do 500 mil doses nego­ci­a­das (cor­te e lei­te). Os mai­o­res des­ti­nos ain­da são a Amé­ri­ca do Sul (Para­guai, Bolí­via, Equa­dor, Colôm­bia) e alguns paí­ses da Amé­ri­ca Cen­tral. Além dis­so, temos uma deman­da for­te na Índia, demais paí­ses asiá­ti­cos e na Áfri­ca. Mas real­men­te o que fal­ta para des­lan­char as expor­ta­ções é a fal­ta dos pro­to­co­los sani­tá­ri­os bila­te­rais entre os paí­ses. O Minis­té­rio da Agri­cul­tu­ra tem fei­to a sua par­te, a Asbia está em cons­tan­te con­ta­to com o gover­no e sem­pre somos cha­ma­dos para aju­dar a orga­ni­zar visi­tas de comi­ti­vas inter­na­ci­o­nais que pla­ne­jam rea­li­zar vis­to­ri­as nos cen­tros de produção. 
BB – Com rela­ção ao cus­to-bene­fí­cio da IA, o uso de pro­to­co­lo de IATF para vaca lei­tei­ra é uma estra­té­gia que pode aumen­tar a remu­ne­ra­ção do produtor?
MN –  Com cer­te­za, a IATF é uma exce­len­te alter­na­ti­va. Em um pri­mei­ro momen­to, o pecu­a­ris­ta pode ava­li­ar de que manei­ra ele redu­zi­rá os cus­tos, adi­ci­o­nan­do mais um com­po­nen­te na repro­du­ção, que são os pro­to­co­los de IATF. Ele per­ce­be que o inves­ti­men­to em gené­ti­ca é mui­to bai­xo, prin­ci­pal­men­te quan­do ana­li­sa que o obje­ti­vo de qual­quer fazen­da lei­tei­ra é con­se­guir que a vaca retor­ne à repro­du­ção depois do par­to o mais rápi­do pos­sí­vel. Por isso, os pro­to­co­los de IATF são fun­da­men­tais, uma vez que o pro­du­tor con­se­gue aumen­tar a taxa de ser­vi­ço e redu­zir o inter­va­lo entre par­tos. Des­se modo, no fim das con­tas, essa tec­no­lo­gia é extre­ma­men­te favo­rá­vel e o uso da IATF em gado de lei­te tem cres­ci­do mui­to tam­bém, algo em tor­no de 30% do reba­nho inse­mi­na­do. Vale des­ta­car que o Bra­sil entrou na era das gran­des fazen­das lei­tei­ras, com mais de 1.000 vacas, que tra­ba­lham 100% com IATF.   
BB – Qual o balan­ço que a asso­ci­a­ção faz sobre os qua­tro anos de par­ce­ria com o Cepea?
MN –   O resul­ta­do é extre­ma­men­te posi­ti­vo. Anti­ga­men­te, tínha­mos empre­sas que fazi­am a com­pi­la­ção dos dados, mas não entre­ga­vam com a qua­li­da­de que o rela­tó­rio da Asbia pre­ci­sa ter. Des­de que o Cepea entrou nes­se pro­ces­so, a enti­da­de asse­gu­rou a con­fi­den­ci­a­li­da­de das infor­ma­ções emi­ti­das pelas com­pa­nhi­as, além de pro­du­zir rela­tó­ri­os bri­lhan­tes. Ou seja, infor­ma­ti­vos que nos aju­dam a enten­der como cami­nha o mer­ca­do, faci­li­tan­do a vida dos ges­to­res das empre­sas asso­ci­a­das. Além do mais, é bom tra­ba­lhar com o Cepea, por­que eles tam­bém se enga­ja­ram para aumen­tar o índi­ce de inse­mi­na­ção. E quan­do leva­mos a deman­da de estra­ti­fi­car por muni­cí­pio, eles ade­ri­ram pron­ta­men­te a essa mis­são e já estão tra­ba­lhan­do no for­ma­to do rela­tó­rio, bem como na cap­ta­ção dos números. 
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