Novidade nas fazendas - Digital Balde Branco

CRÔNICA

Paulo do Carmo Martins 

Chefe-geral da Embrapa Gado de Leite

 Com a bios­se­gu­ri­da­de, os ganhos ocor­rem de ime­di­a­to, com a oti­mi­za­ção dos pro­ces­sos. Redu­ção de uso de mão-de-obra, que será trei­na­da, e de medi­ca­men­tos ocor­re­rão naturalmente”

Novidade nas fazendas 

No outo­no de 2001, há exa­ta­men­te vin­te anos, pela pri­mei­ra vez visi­tei uma pro­pri­e­da­de lei­tei­ra no Rio Gran­de do Sul. Foi em Ijuí. Fazia um grau cen­tí­gra­do posi­ti­vo e caía uma garoa finís­si­ma, com um ven­to gela­do de cor­tar até a alma. O cha­ma­do minu­a­no, o ven­to que vem do Polo Sul, bai­xa­va ain­da mais a sen­sa­ção tér­mi­ca. Eu esta­va estu­dan­do efi­ci­ên­cia e com­pe­ti­ti­vi­da­de do lei­te em dez cor­re­do­res logís­ti­cos, assun­to da minha tese de dou­to­ra­men­to e bus­ca­va dados de desem­pe­nho econô­mi­co de 150 pro­pri­e­da­des e 10 fábri­cas de lei­te do RS, além do PR, SP, MG e GO.

Pas­sa­dos vin­te anos, lem­bro-me como se fos­se hoje, daque­la manhã em Ijuí. O pro­du­tor me aguar­da­va na por­ta de sua casa e con­vi­dou-me para entrar, o que fiz, natu­ral­men­te. Em segui­da veio o téc­ni­co da Par­ma­lat, que tirou o sapa­to e cal­çou um chi­ne­lo, esco­lhen­do um que lhe cabia, den­tre alguns que des­can­sa­vam ao lado da por­ta de entra­da. Estra­nho!!! O pro­du­tor fez o mes­mo. Foi então que des­co­bri que entrar com sapa­to sujo da rua não é ati­tu­de natu­ral em pro­pri­e­da­de lei­tei­ra no Rio Gran­de do Sul! Fiquei envergonhado.

Quan­do pas­sar a fase da Covid-19 tere­mos incor­po­ra­dos novos hábi­tos no nos­so coti­di­a­no, como não entrar em casa com sapa­to sujo, infec­ta­do das ruas. Man­te­re­mos o hábi­to mile­nar dos japo­ne­ses, e que eu apren­di com os gaú­chos pro­du­to­res de lei­te. Con­ti­nu­a­re­mos a ter chi­ne­los para os que che­gam da rua. Desin­fe­tar as mãos mais vezes ao dia e não somen­te antes das refei­ções e na ida ao banhei­ro tam­bém é prá­ti­ca que veio para se incor­po­rar ao nos­so coti­di­a­no. Por­tan­to, melho­ra­re­mos o nos­so padrão de biosseguridade. 

Tam­bém nas pro­pri­e­da­des lei­tei­ras a Covid-19 trou­xe mudan­ças na roti­na. Nos cam­pos expe­ri­men­tais da Embra­pa, por exem­plo, esta­mos desin­fe­tan­do todos os veí­cu­los que che­gam, deli­mi­ta­mos até onde os for­ne­ce­do­res podem cir­cu­lar, esta­be­le­ce­mos um rito cla­ro a ser segui­do por tra­ba­lha­do­res, estu­dan­tes e visi­tan­tes. Mas isso ain­da é pou­co. Pre­ci­sa­mos ado­tar medi­das mais rígi­das, incor­po­ran­do-as em nos­sas prá­ti­cas e con­tri­buin­do para dis­se­mi­ná-las para todo o setor. Pre­ci­sa­mos che­gar no padrão de bios­se­gu­ri­da­de das gran­jas de suí­nos e da avicultura. 

Nós, da Embra­pa Gado de Lei­te nos uni­mos à Boeh­rin­ger Inge­lheim e às Fazen­das San­ta Luzia e Colo­ra­do, que são refe­rên­ci­as no setor em ter­mos de con­du­ção de boas prá­ti­cas, para acor­dar a cri­a­ção de um con­jun­to de pro­to­co­los visan­do mudar a for­ma de orga­ni­zar o pro­ces­so de pro­du­ção de lei­te nas pro­pri­e­da­des, sob a óti­ca sani­tá­ria. A par­tir de ago­ra, esta­mos reu­nin­do nos­sas com­pe­tên­ci­as para defi­nir cri­té­ri­os que envol­vam prá­ti­cas de iso­la­men­to do local de pro­du­ção, con­tro­le de trân­si­to inter­no, moni­to­ra­men­to labo­ra­to­ri­al quan­to a pre­sen­ça de pató­ge­nos, roti­na de higi­e­ni­za­ção e tra­ta­men­to e des­ti­na­ção de resí­du­os, pro­gra­ma de vaci­na­ção e erra­di­ca­ção de doen­ças, audi­to­ria sani­tá­ria e um pla­no de con­tin­gên­cia para emergências. 

Vamos intro­du­zir uma cer­ti­fi­ca­ção ain­da ine­xis­ten­te para as pro­pri­e­da­des que ade­ri­rem aos pro­to­co­los que ire­mos cri­ar. E, natu­ral­men­te, as pri­mei­ras fazen­das a serem cer­ti­fi­ca­das serão a Colo­ra­do e a San­ta Luzia. Como toda cer­ti­fi­ca­ção acre­di­ta­da, não serão a Embra­pa e a Boeh­rin­ger quem cer­ti­fi­ca­rão as fazen­das, mas uma empre­sa espe­ci­a­li­za­da em cer­ti­fi­ca­ção, inde­pen­den­te e com total cre­di­bi­li­da­de. E, é impor­tan­te regis­trar, será uma cer­ti­fi­ca­ção pri­va­da. Por­tan­to, as fazen­das irão se volun­ta­ri­ar, bus­can­do ade­rir aos pro­to­co­los, para que rece­bam o selo de cer­ti­fi­ca­ção, após pro­ces­so de audi­to­ria das prá­ti­cas imple­men­ta­das em seu pro­ces­so produtivo.

Espe­ra­mos o lan­ça­men­to de um selo de bios­se­gu­ri­da­de. Quan­do isso ocor­rer, nós da Embra­pa e da Boeh­rin­ger, vamos ini­ci­ar um pro­ces­so edu­ca­ti­vo, de dis­se­mi­na­ção das prá­ti­cas reco­men­da­das. Ire­mos trei­nar téc­ni­cos, pro­du­to­res, estu­dan­tes e quem se mos­trar inte­res­sa­do. Mes­mo que nem todos par­ti­ci­pem do pro­ces­so visan­do à cer­ti­fi­ca­ção ime­di­a­ta, o que bus­ca­re­mos é a melho­ria na ado­ção de pro­ces­sos cada vez mais segu­ros na pro­du­ção de lei­te. Que­re­mos redu­zir o uso de medi­ca­men­tos, por exem­plo, o que inclui evi­den­te­men­te os antibióticos.

Para os pro­du­to­res que ade­ri­rem, natu­ral­men­te have­rá no iní­cio um cus­to de adap­ta­ção. É o cus­to da apren­di­za­gem, pre­vis­to em qual­quer mudan­ça tec­no­ló­gi­ca e com­por­ta­men­tal. É o cus­to de adap­ta­ção a novas prá­ti­cas. Mas os ganhos tam­bém ocor­rem de ime­di­a­to, com a oti­mi­za­ção dos pro­ces­sos. Redu­ção de uso de mão-de-obra, que será trei­na­da, e redu­ção de uso de medi­ca­men­tos ocor­re­rão natu­ral­men­te. E é de se espe­rar que ocor­ra paga­men­to dife­ren­ci­a­do para este lei­te pro­du­zi­do. Redu­ção de cus­tos e ele­va­ção de recei­ta tra­du­zi­rão em melhor desem­pe­nho finan­cei­ro da propriedade.

Embra­pa e Boeh­rin­ger dis­pen­sa­rão a remu­ne­ra­ção de auto­ria dos pro­to­co­los, exa­ta­men­te para redu­zir os cus­tos de ade­são das fazen­das e para que ocor­ra mais rapi­da­men­te a dis­se­mi­na­ção des­te novo modo de pro­du­zir. Ganha­rão os tra­ba­lha­do­res que fica­rão menos expos­tos a ris­cos e ganha­rão os con­su­mi­do­res, por terem aces­so a lei­te seguro.

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