OPINIÃO: O leite e a segurança alimentar - Digital Balde Branco

OPINIÃO

José Zeferino Pedrozo

presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de SC (Faesc) e do Senar-SC

O leite e a segurança alimentar

Apro­du­ção de lei­te é uma ati­vi­da­de que se ins­ta­lou em ter­ri­tó­rio cata­ri­nen­se na pri­mei­ra meta­de do sécu­lo pas­sa­do, mas foi a par­tir da déca­da de 1960 que come­çou a incor­po­rar melho­ri­as com a impor­ta­ção de vacas puras de ori­gem da Ale­ma­nha. A par­tir de então, se desen­vol­veu uma (ini­ci­al­men­te) len­ta e con­tí­nua incor­po­ra­ção de tec­no­lo­gi­as em gené­ti­ca, nutri­ção ani­mal, mane­jo, pro­fi­la­xia, higi­e­ne, cul­ti­vo de pas­ta­gens, ges­tão e con­tro­le de cus­tos.

A cadeia pro­du­ti­va do lei­te é essen­ci­al para a segu­ran­ça ali­men­tar de qual­quer país. Tam­bém é mui­to sen­sí­vel em razão de fato­res cli­má­ti­cos e mer­ca­do­ló­gi­cos, o que exi­ge polí­ti­cas públi­cas de apoio e pro­te­ção. Infe­liz­men­te, essas polí­ti­cas não tive­ram êxi­to e as cri­ses cícli­cas que afe­tam o setor expul­sa­ram da ati­vi­da­de mui­tos peque­nos pro­du­to­res. Há 20 anos, pra­ti­ca­men­te todos os cer­ca de 200 mil esta­be­le­ci­men­tos rurais pro­du­zi­am lei­te; hoje são ape­nas 33 mil.

O IBGE iden­ti­fi­cou que, a cada ano, entre 1 mil e 1,5 mil pro­du­to­res rurais desis­tem da pecuá­ria lei­tei­ra comer­ci­al, ou seja, aque­la que gera exce­den­te. Mes­mo assim, o lei­te ain­da tem gran­de impor­tân­cia soci­al e econô­mi­ca para San­ta Cata­ri­na. O Esta­do é o quar­to pro­du­tor naci­o­nal, com 3,059 bilhões de litros ao ano. Pro­por­ci­o­na ren­da men­sal às famí­li­as rurais e con­tri­bui para o con­tro­le do êxo­do rural. O oes­te cata­ri­nen­se con­tri­bui com 75% da pro­du­ção.

A prin­ci­pal quei­xa de quem pro­duz é que o mer­ca­do de lác­te­os, no Bra­sil, é uma gan­gor­ra: alter­na perío­dos de exces­so de ofer­ta e pre­ços raquí­ti­cos que não repõem os cus­tos de pro­du­ção com épo­cas de escas­sez e pre­ços ele­va­dos. É ilu­só­rio pen­sar que em alguns perío­dos quem ganha é o con­su­mi­dor e, em outros, o pro­du­tor ou a indús­tria. Na ver­da­de, todos per­dem.

Ape­sar do regi­me de livre mer­ca­do em que vive o Bra­sil, a Faesc sem­pre defen­deu que pre­ser­var e via­bi­li­zar a cadeia pro­du­ti­va do lei­te é uma ques­tão de segu­ran­ça ali­men­tar para o País. Boa par­te dos paí­ses desen­vol­vi­dos age nes­sa dire­ção.

O futu­ro da pecuá­ria lei­tei­ra é seguir o cami­nho da avi­cul­tu­ra e da sui­no­cul­tu­ra cata­ri­nen­se: con­quis­tar o mer­ca­do inter­na­ci­o­nal. Para expor­tar é neces­sá­rio melho­rar a com­pe­ti­ti­vi­da­de do pro­du­to lác­teo “bar­ri­ga ver­de” den­tro e fora da por­tei­ra. Nas últi­mas déca­das, a cadeia pro­du­ti­va vem inves­tin­do for­te na qua­li­fi­ca­ção do pro­du­tor e na per­ma­nen­te bus­ca da qua­li­da­de do pro­du­to final.

É isso o que o sis­te­ma sin­di­cal patro­nal rural está pri­o­ri­zan­do com trei­na­men­tos, capa­ci­ta­ção e o Pro­gra­ma de Assis­tên­cia Téc­ni­ca e Geren­ci­al (ATeG) em Bovi­no­cul­tu­ra Lei­tei­ra. Ao lado da melho­ria da com­pe­ti­ti­vi­da­de é impe­ri­o­so, simul­ta­ne­a­men­te, con­tem­plar a cor­re­ção das dis­tor­ções tri­bu­tá­ri­as, a redu­ção de impos­tos e os estí­mu­los às expor­ta­ções. Tor­nar o Bra­sil um expor­ta­dor de pro­du­tos lác­te­os deve ser uma meta per­ma­nen­te. Para isso, devem ser ado­ta­das medi­das que esti­mu­lem o con­su­mo inter­no e opor­tu­ni­zem as ven­das exter­nas.

“Fora da por­tei­ra” urgem os inves­ti­men­tos em infra­es­tru­tu­ra e polí­ti­cas macro­e­conô­mi­cas, ini­ci­a­ti­vas que devem ser pro­ta­go­ni­za­das pelo gover­no fede­ral. A situ­a­ção das rodo­vi­as, por­tos, arma­zéns, a atu­a­ção dos orga­nis­mos de con­tro­le sani­tá­rio e estru­tu­ra fis­cal que dis­ci­pli­na o comér­cio inter­na­ci­o­nal afe­tam dire­ta­men­te a com­pe­ti­ti­vi­da­de.

San­ta Cata­ri­na tem con­di­ções natu­rais favo­rá­veis para a ati­vi­da­de lei­tei­ra em razão da con­cen­tra­ção da pro­du­ção e da exclu­são de pro­du­to­res de outras cadei­as pro­du­ti­vas, da ado­ção de sis­te­mas efi­ci­en­tes de pro­du­ção e da pro­fis­si­o­na­li­za­ção dos cri­a­do­res. Entre­tan­to, é pre­ci­so res­ga­tar a via­bi­li­da­de da ati­vi­da­de para que o pro­du­tor tenha ren­da e, a soci­e­da­de, maté­ria-pri­ma de pri­mei­ra necessidade.

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