Pagamento por serviços ambientais - Digital Balde Branco
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MEIO AMBIENTE

Pagamento por

serviços ambientais

A natureza pode ser preservada, aprimorada ou restaurada pela ação humana, na busca pela manutenção de condições ambientais adequadas para a vida no Planeta. A valoração e a remuneração dessas ações positivas passaram a ser chamadas de “pagamento por serviços ambientais” 

José Luiz Fontes*

É pre­ci­so sem­pre con­si­de­rar que a natu­re­za desem­pe­nha, gra­tui­ta­men­te, fun­ções que inter­fe­rem em nos­sas vidas de for­ma posi­ti­va, des­de o iní­cio dos tem­pos, e que são res­pon­sá­veis pela vida, como a conhe­ce­mos, no Pla­ne­ta. São fun­ções de supor­te à vida, como a for­ma­ção do solo e a cicla­gem de nutri­en­tes, de pro­vi­são de recur­sos e mate­ri­ais como água, ali­men­tos, com­bus­tí­vel e ener­gia essen­ci­ais para nos­so con­su­mo. E mais: pro­pi­ci­ar lazer e turis­mo, por exem­plo, fato­res cul­tu­rais impor­tan­tís­si­mos. Além da inte­ra­ção des­ses fato­res e fun­ções que resul­tam nas águas ali­men­tan­do as flo­res­tas e nutrin­do o solo; nas árvo­res arma­ze­nan­do car­bo­no e for­ne­cen­do oxi­gê­nio; nas flo­res­tas regu­lan­do o cli­ma e os nutri­en­tes do solo e o regi­me de chu­vas que cul­mi­nam, final­men­te, no ambi­en­te sau­dá­vel e na esca­la­da huma­na, econô­mi­ca e soci­al, que só pode ser cha­ma­da desen­vol­vi­men­to se for, de fato, sustentável.

No entan­to, essas fun­ções, ofe­re­ci­das natu­ral­men­te pelos ecos­sis­te­mas, podem ser pre­ser­va­das, apri­mo­ra­das ou res­tau­ra­das pela ação huma­na, na bus­ca pela con­ser­va­ção de con­di­ções ambi­en­tais ade­qua­das para a vida no Pla­ne­ta. A valo­ra­ção e a remu­ne­ra­ção des­sas ações posi­ti­vas pas­sa­ram a ser cha­ma­das de “paga­men­to por ser­vi­ços ambientais”.

Na medi­da em que as polí­ti­cas con­ven­ci­o­nais de coman­do e con­tro­le se mos­tram insu­fi­ci­en­tes para enfren­tar desa­fi­os com­ple­xos, como polui­ção do ar, con­ta­mi­na­ção das águas e escas­sez de água doce, gera­ção de resí­du­os sóli­dos e lixo químico/tóxico, refu­gi­a­dos ambi­en­tais, extin­ção das espé­ci­es, aque­ci­men­to glo­bal e as mudan­ças cli­má­ti­cas, sur­ge a impres­cin­dí­vel bus­ca por ins­tru­men­tos econô­mi­cos efi­ca­zes de incen­ti­vo à con­ser­va­ção ambi­en­tal. E esse incen­ti­vo deve ser fei­to por meio de estí­mu­los finan­cei­ros ou não a quem pro­mo­ver esses ser­vi­ços ambi­en­tais e, des­sa for­ma, pro­mo­ver o sane­a­men­to bási­co, a ener­gia lim­pa, a pre­ser­va­ção da bio­di­ver­si­da­de e, por fim, o desen­vol­vi­men­to sustentável.

Nas últi­mas déca­das, veri­fi­ca­mos esfor­ços na pro­po­si­ção de pro­je­tos base­a­dos em Paga­men­to por Ser­vi­ços Ambi­en­tais. No entan­to, as ins­ti­tui­ções que ousa­ram imple­men­tar ações com esse esco­po encon­tra­ram séri­as difi­cul­da­des, pela ausên­cia de um arca­bou­ço legal que lhes con­fe­ris­se a indis­pen­sá­vel segu­ran­ça jurí­di­ca. Des­ta for­ma, ao dis­por sobre a auto­ri­za­ção para o Poder Exe­cu­ti­vo fede­ral “ins­ti­tuir pro­gra­ma de apoio e incen­ti­vo à con­ser­va­ção do meio ambi­en­te, bem como para ado­ção de tec­no­lo­gi­as e boas prá­ti­cas que con­ci­li­em a pro­du­ti­vi­da­de agro­pe­cuá­ria e flo­res­tal” por inter­mé­dio de “paga­men­to ou incen­ti­vo a ser­vi­ços ambi­en­tais como retri­bui­ção, mone­tá­ria ou não, às ati­vi­da­des de con­ser­va­ção e melho­ria dos ecos­sis­te­mas e que gerem ser­vi­ços ambi­en­tais”, trans­for­mou o Novo Códi­go Flo­res­tal de 2012 em um mar­co impor­tan­tís­si­mo, tam­bém, ao dei­xar explí­ci­ta a neces­si­da­de de ações obje­ti­vas para a con­ser­va­ção e a pre­ser­va­ção ambi­en­tal como requi­si­tos para a efe­ti­vi­da­de da polí­ti­ca públi­ca ali proposta. 

Nos últi­mos anos foram esta­be­le­ci­das polí­ti­cas de Paga­men­to por Ser­vi­ços Ambi­en­tais em diver­sos esta­dos e muni­cí­pi­os e assis­ti­mos ao pro­ces­so que se con­so­li­da com a ins­ti­tui­ção da Polí­ti­ca Naci­o­nal de Paga­men­to por Ser­vi­ços Ambi­en­tais (Lei nº 14.119, de 13 de janei­ro de 2021). Esta reco­nhe­ce o valor econô­mi­co do ambi­en­te e bus­ca esta­be­le­cer incen­ti­vos capa­zes de tor­nar eco­no­mi­ca­men­te atra­ti­va a pro­te­ção ambi­en­tal, con­fe­rin­do mai­or segu­ran­ça jurí­di­ca para os pro­gra­mas de paga­men­to por ser­vi­ços ambi­en­tais exis­ten­tes. Ou seja, per­mi­te o paga­men­to de ser­vi­ços ambi­en­tais para as ati­vi­da­des de con­ser­va­ção e recu­pe­ra­ção da vege­ta­ção nati­va, da vida sil­ves­tre e do ambi­en­te natu­ral em áre­as rurais, con­ser­va­ção de rema­nes­cen­tes vege­tais em áre­as urba­nas e periur­ba­nas, con­ser­va­ção e melho­ria da quan­ti­da­de e da qua­li­da­de da água, recu­pe­ra­ção e manu­ten­ção das áre­as cober­tas por vege­ta­ção nativa. 

Assim as ações vol­ta­das ao apoio e incen­ti­vo à pre­ser­va­ção e recu­pe­ra­ção do meio ambi­en­te, espe­ci­al­men­te nas áre­as rurais, pas­sa­ram a con­tar com a tão neces­sá­ria regu­la­men­ta­ção e um for­te ins­tru­men­to que tem por obje­ti­vo ori­en­tar a atu­a­ção do poder públi­co, das orga­ni­za­ções da soci­e­da­de civil e dos agen­tes pri­va­dos em rela­ção ao paga­men­to por ser­vi­ços ambi­en­tais, de for­ma a man­ter, recu­pe­rar ou melho­rar os ser­vi­ços ecos­sis­tê­mi­cos em todo o ter­ri­tó­rio nacional. 

Cabe des­ta­car tam­bém o obje­ti­vo da Polí­ti­ca Naci­o­nal de Paga­men­to por Ser­vi­ços Ambi­en­tais (PNP­SA), de esti­mu­lar a ela­bo­ra­ção e a exe­cu­ção de pro­je­tos pri­va­dos volun­tá­ri­os de pro­vi­men­to e paga­men­to por ser­vi­ços ambi­en­tais, que envol­vam ini­ci­a­ti­vas de empre­sas, de Orga­ni­za­ções da Soci­e­da­de Civil de Inte­res­se Públi­co (Oscip) e de outras orga­ni­za­ções não gover­na­men­tais. Isso aten­de à defi­ni­ção de PSA, defen­di­da pelo setor empre­sa­ri­al, de um pro­ces­so volun­tá­rio para incen­ti­var a pro­vi­são e a con­ser­va­ção de ser­vi­ços ambi­en­tais nos quais aque­les que pro­pi­ci­em a pro­vi­são dos ser­vi­ços sejam pagos (pro­ve­do­res) e aque­les que se bene­fi­ci­am paguem (usuá­ri­os).

Uma impor­tan­te rei­vin­di­ca­ção do setor pro­du­ti­vo, aten­di­da na PNP­SA, é escla­re­cer que são ele­gí­veis para paga­men­to por ser­vi­ços ambi­en­tais com uso de recur­sos públi­cos, con­for­me regu­la­men­to, as Áre­as de Pre­ser­va­ção Per­ma­nen­te, Reser­va Legal, com pre­fe­rên­cia para aque­las loca­li­za­das em baci­as hidro­grá­fi­cas con­si­de­ra­das crí­ti­cas para o abas­te­ci­men­to públi­co de água, assim defi­ni­das pelo órgão com­pe­ten­te, ou em áre­as pri­o­ri­tá­ri­as para con­ser­va­ção da diver­si­da­de bio­ló­gi­ca em pro­ces­so de deser­ti­fi­ca­ção ou avan­ça­da frag­men­ta­ção. Esta defi­ni­ção é de gran­de impor­tân­cia para a efe­ti­va imple­men­ta­ção do Códi­go Florestal.

Na mes­ma nor­ma foi cri­a­do o Pro­gra­ma Fede­ral de Paga­men­to por Ser­vi­ços Ambi­en­tais (PFP­SA), com o obje­ti­vo de efe­ti­var a PNP­SA, nas ações de manu­ten­ção, de recu­pe­ra­ção ou de melho­ria da cober­tu­ra vege­tal nas áre­as pri­o­ri­tá­ri­as para a con­ser­va­ção, de com­ba­te à frag­men­ta­ção de habi­tats, de for­ma­ção de cor­re­do­res de bio­di­ver­si­da­de e de con­ser­va­ção dos recur­sos hídri­cos. Na estei­ra da regu­la­men­ta­ção da PNP­SA foi publi­ca­do o decre­to fede­ral nº 10.288, de outu­bro de 2021, que tra­ta da emis­são de Cédu­la de Pro­du­to Rural rela­ci­o­na­da às ati­vi­da­des de con­ser­va­ção e recu­pe­ra­ção de flo­res­tas nati­vas e de seus bio­mas, cha­ma­da “CPR Ver­de”, que é um ins­tru­men­to para comer­ci­a­li­za­ção dos ser­vi­ços ambi­en­tais entre os agen­tes pri­va­dos do setor produtivo. 

Os pro­du­to­res rurais são, por­tan­to, gran­des bene­fi­ciá­ri­os dos pro­gra­mas de PSA, na medi­da em que podem, final­men­te, ser recom­pen­sa­dos por seus inves­ti­men­tos em recu­pe­ra­ção de áre­as degra­da­das, con­ser­va­ção do solo e água, pre­ser­va­ção da bio­di­ver­si­da­de, redu­ção das emis­sões de gases de efei­to estu­fa e outros requi­si­tos de sus­ten­ta­bi­li­da­de da pro­du­ção agro­pe­cuá­ria que repre­sen­tam, por­tan­to, enor­me con­tri­bui­ção do setor para o cum­pri­men­to dos com­pro­mis­sos ambi­en­tais assu­mi­dos pelo País e para a qua­li­da­de de vida dos brasileiros.

*José Luiz Fon­tes é Enge­nhei­ro agrô­no­mo, apo­sen­ta­do pela Cati/SAA Cam­pi­nas, São Pau­lo, e dire­tor da JLF Con­sul­to­ria e Pro­je­tos Agro-Ambientais