Papel e vivência da mulher no âmbito da pesquisa científica na área de leite - Digital Balde Branco

A cada dia penso que preciso estudar mais e aprender mais. Nem todo resultado de pesquisa é aplicado imediatamente, mas ele faz parte de um degrau numa escada íngreme. E mesmo um trabalho teórico ajudou alguém a se desenvolver e a pensar. É muito prazeroso formar alunos de mestrado ou falar para criadores, que se empolgam com o conhecimento que muitos achavam teórico, mas que pode ser traduzido em resultados práticos. 

ENTREVISTA

Lenira El Faro Zadra 

Papel e vivência da mulher

no âmbito da pesquisa científica na área de leite

Lenira El Faro Zadra ocupa, desde 1994, o cargo de pesquisadora científica da área de Melhoramento Genético de Bovinos Leiteiros no Instituto de Zootecnia, órgão da Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. Nesta entrevista exclusiva, ela relata sua trajetória como pesquisadora científica, com o olhar de mulher comprometida com a ciência. Formada na oitava turma de Zootecnia pela FMVZ/USP, em dezembro 1989, ela concluiu o mestrado em 1996, na área de Melhoramento Genético Animal pela FCAV/Unesp, campus de Jaboticabal, e o doutorado em 2002, na área de Produção Animal, com ênfase em melhoramento genético, na mesma instituição.

BALDE BRANCO – O que levou você a essa escolha profissional, de trabalho e especialização?

Leni­ra El Faro Zadra - Sem­pre gos­tei do ambi­en­te do cam­po, embo­ra minhas ori­gens ára­bes sejam vol­ta­das ao comér­cio. Fiquei na dúvi­da entre zoo­tec­nia e agro­no­mia e, por fim, me deci­di pela zoo­tec­nia. Na facul­da­de sem­pre tive mui­ta afi­ni­da­de com a bovi­no­cul­tu­ra lei­tei­ra e dire­ci­o­nei meus está­gi­os para essa área. A prin­cí­pio, acha­va que o zoo­tec­nis­ta tinha de tra­ba­lhar em fazen­das ou em empre­sas liga­das à área. Tra­ba­lhei pou­co tem­po em uma fazen­da lei­tei­ra, mas depois fui bol­sis­ta de aper­fei­ço­a­men­to téc­ni­co na Embra­pa Suí­nos e Aves. Lá foi o local onde me depa­rei com o tra­ba­lho de um pes­qui­sa­dor da área de melho­ra­men­to, mas a minha apti­dão mai­or era a bovi­no­cul­tu­ra de lei­te. Tra­ba­lhei tam­bém na Asso­ci­a­ção de Cri­a­do­res de Gado Par­do Suí­ço. Foi bom enxer­gar mui­tos lados da pro­fis­são, mas resol­vi me aper­fei­ço­ar na área de melho­ra­men­to e segui para a pós-gra­du­a­ção. Foi por meio da pós que eu con­quis­tei minha vaga de pes­qui­sa­do­ra na área de melho­ra­men­to gené­ti­co de bovi­nos lei­tei­ros. Uma área bem com­ple­xa e que cres­ceu mui­to nos últi­mos anos.

BB – Foi tranquilo você se iniciar nessa atividade ou teve que enfrentar desafios? Quais você destacaria? Enfim, conte a sua história.

LFZ - Quan­do ini­ci­ei o meu mes­tra­do não ima­gi­na­va o quão com­ple­xo seria a minha área de atu­a­ção. Como eu dis­se, a área de melho­ra­men­to gené­ti­co é mui­to com­ple­xa. Naque­la épo­ca, os com­pu­ta­do­res não eram tão poten­tes e nem os pro­gra­mas de aná­li­se de dados tão efi­ci­en­tes. Mer­gu­lhei no apren­di­za­do de pro­gra­ma­ção, gené­ti­ca, mate­má­ti­ca (algo que eu sem­pre evi­tei me embre­nhar), mode­los mate­má­ti­cos. Quan­do saí­mos da gra­du­a­ção, temos uma bre­ve noção de um todo, mas sem a pro­fun­di­da­de de conhe­ci­men­to neces­sá­ria. Mui­tas horas de estu­do e dedi­ca­ção, tan­to no mes­tra­do quan­to no dou­to­ra­do. Mas só após o dou­to­ra­do a gen­te rece­be os méri­tos da dedi­ca­ção: seja com pro­je­tos finan­ci­a­dos, par­ti­ci­pa­ção em con­gres­sos, seja com a par­ti­ci­pa­ção em gru­pos de pes­qui­sa. No iní­cio do mes­tra­do fui admi­ti­da no con­cur­so para pes­qui­sa­dor cien­tí­fi­co no Ins­ti­tu­to de Zoo­tec­nia e pas­sei a exer­cer o car­go ao mes­mo tem­po em que ter­mi­na­va o mes­tra­do. Ter­mi­nei o dou­to­ra­do e defen­di a tese ama­men­tan­do meu pri­mei­ro filho. Os car­gos que con­quis­tei e meus pro­je­tos apro­va­dos foram fru­to de mui­ta dedi­ca­ção e estu­do. Hoje, sou pes­qui­sa­do­ra nível VI do IZ, pes­qui­sa­do­ra bol­sis­ta de pro­du­ti­vi­da­de do CNPq, atuo na pós-gra­du­a­ção da ins­ti­tui­ção (Pro­du­ção Ani­mal Sus­ten­tá­vel) e estou me cre­den­ci­an­do no pro­gra­ma de pós-gra­du­a­ção da Uni­ver­si­da­de Fede­ral do Paraná.

BB – Esse aperfeiçoamento contínuo é sempre uma exigência de todas as áreas de pesquisa, sobretudo na bovinocultura de leite, que é tão complexa, não?

LFZ - Sem dúvi­da! E a cada dia pen­so que pre­ci­so estu­dar mais e apren­der mais, pois há gera­ção de conhe­ci­men­to numa velo­ci­da­de enor­me e em quan­ti­da­de, em todas as áre­as. A con­cor­rên­cia por finan­ci­a­men­to para as pes­qui­sas é enor­me e a cada dia somos cobra­dos por inter­na­ci­o­na­li­za­ção dos pro­je­tos, par­ti­ci­pa­ção em gru­pos de pes­qui­sa de vári­as ins­ti­tui­ções, for­ma­ção de recur­sos huma­nos e publi­ca­ções de arti­gos cien­tí­fi­cos. Com a cri­se finan­cei­ra que o País atra­ves­sa, há menos dinhei­ro e mai­or nível de exi­gên­cia. Se aco­mo­dar sig­ni­fi­ca ficar para trás bem rápi­do na área científica.

BB – E qual foi a sua estratégia para vencer tais desafios e mesmo dificuldades?

LFZ - Estu­dar, se dedi­car e ser oti­mis­ta. Mui­tas vezes, o tra­ba­lho de um pes­qui­sa­dor não é valo­ri­za­do, por pare­cer mui­to teó­ri­co. Por exem­plo, para que saber o sequen­ci­a­men­to gené­ti­co de um vírus, conhe­cer o seu DNA, falar de muta­ção? Quer coi­sa mais teó­ri­ca? Porém, no últi­mo ano esse assun­to foi ampla­men­te dis­cu­ti­do na mídia! Nem todo resul­ta­do de pes­qui­sa é apli­ca­do ime­di­a­ta­men­te, mas ele faz par­te de um degrau numa esca­da íngre­me. E mes­mo um tra­ba­lho teó­ri­co aju­dou alguém a se desen­vol­ver e a pen­sar; para mim é mui­to pra­ze­ro­so for­mar alu­nos de mes­tra­do. Ou mes­mo pales­trar para uma pla­teia (de alu­nos ou de cri­a­do­res) que se empol­ga com o conhe­ci­men­to que mui­tos acha­vam teó­ri­co, mas que pode ser tra­du­zi­do em resul­ta­dos práticos.

Há 30 anos, os car­gos de gerên­cia eram ocu­pa­dos essen­ci­al­men­te por homens. As dife­ren­ças vão dimi­nuin­do na medi­da em que o nível cul­tu­ral melho­ra e o nível de conhe­ci­men­to é exi­gi­do para o car­go que se ocupa”

BB – Como você vê a presença cada vez maior da mulher na atividade leiteira no geral e, especificamente, na sua área de atuação, no caso, a pesquisa? A mulher está mais empoderada?

LFZ - Acho que a mulher está con­quis­tan­do mui­to espa­ço nas mais diver­sas áre­as e espe­ci­al­men­te na ati­vi­da­de lei­tei­ra. E tam­bém na pes­qui­sa cien­tí­fi­ca. Quan­do ter­mi­nei o meu mes­tra­do, nós, mulhe­res, éra­mos mais tími­das, meio que rece­o­sas de con­quis­tar car­gos de mui­ta res­pon­sa­bi­li­da­de. Hoje em dia, tenho vis­to mui­tas alu­nas e ori­en­tan­das con­quis­ta­rem car­gos impor­tan­tes em empre­sas, em uni­ver­si­da­des, em ins­ti­tu­tos de pes­qui­sa, aqui no Bra­sil ou no exte­ri­or. Não há limi­te. Não é só ques­tão de com­pe­tên­cia, acho ain­da que a mulher é mais dedi­ca­da aos estu­dos e mais paciente.

BB – E nesse setor em que atua você já enfrentou alguma manifestação de preconceito por ser mulher? E como superou?

LFZ - Enfren­tei cer­to pre­con­cei­to no iní­cio da car­rei­ra, quan­do era recém-for­ma­da. Não era comum ver­mos uma mulher atu­an­do na pro­fis­são 30 anos atrás, tra­ba­lhan­do em fazen­das. Os car­gos de gerên­cia eram ocu­pa­dos essen­ci­al­men­te por homens. As dife­ren­ças vão dimi­nuin­do na medi­da em que o nível cul­tu­ral melho­ra e o nível de conhe­ci­men­to é exi­gi­do para o car­go que se ocu­pa. Acho que a supe­ra­ção veio com a ida­de, com a mater­ni­da­de, com o ama­du­re­ci­men­to profissional.

BB – Hoje as oportunidades estão mais fáceis para as mulheres? Como vê isso, até mesmo por estar na orientação de futuros especialistas, técnicos e produtores?

LFZ - Con­si­de­ro que as opor­tu­ni­da­des para as mulhe­res estão se equi­li­bran­do na área (zoo­tec­nis­tas, vete­ri­ná­ri­as, agrô­no­mas), sejam elas pes­qui­sa­do­ras ou não. Tal­vez a minha visão tenha de cer­ta for­ma um viés, pois atuo num gru­po em que homens e mulhe­res pos­su­em a mes­ma opor­tu­ni­da­de de car­rei­ra cien­tí­fi­ca. No IZ, tive­mos dire­to­ras mui­to com­pe­ten­tes e com uma visão estra­té­gi­ca de gerên­cia que trou­xe mui­tas con­quis­tas para as equi­pes. Mas acho que, em algu­mas empre­sas, a ques­tão da mater­ni­da­de seja con­si­de­ra­da ao se con­tra­tar uma mulher. Já tive cole­gas que foram demi­ti­das ao retor­nar da licen­ça mater­ni­da­de. Tal­vez esses desa­fi­os que a mulher ain­da enfren­ta no dia a dia (mater­ni­da­de, admi­nis­trar o lar, admi­nis­trar a car­rei­ra) a tor­nem mais for­te e dedicada.

BB – Na sua área de atuação, a característica mais acolhedora e visão mais abrangente da mulher favorece o trabalho? Poderia exemplificar com algum caso ou história?

LFZ - Acre­di­to sim, além de ser mais aco­lhe­do­ra e ter visão mais abran­gen­te, a mulher é mais paci­en­te. Tive um pro­je­to de pes­qui­sa finan­ci­a­do pela Fapesp que pro­pu­nha uma alte­ra­ção no mane­jo de vacas zebuí­nas lei­tei­ras, que ten­dem a ser mais rea­ti­vas se mane­ja­das ina­de­qua­da­men­te. Esse mane­jo, deno­mi­na­do estí­mu­lo tátil, era rea­li­za­do em pri­mí­pa­ras no pré-par­to, visan­do melho­rar seu com­por­ta­men­to na orde­nha e seu bem-estar, e con­sis­tia em afa­gá-las dias antes do par­to com uma vassoura/escova e con­du­zi-las aos pou­cos na sala de orde­nha, simu­lan­do os ruí­dos e mane­jos pelos quais elas pas­sa­ri­am duran­te a orde­nha. Aque­la pro­pri­e­da­de tinha orde­nha­do­res que eram mui­to brus­cos no mane­jo com as vacas e havia um his­tó­ri­co de ani­mais machu­ca­dos, cegos ou que mor­re­ram devi­do ao mau mane­jo. No decor­rer do pro­je­to fomos per­ce­ben­do que mui­tos pro­ble­mas que está­va­mos ten­do com os orde­nha­do­res se devia à fal­ta de conhe­ci­men­to deles (quan­to ao com­por­ta­men­to e à ori­gem da raça Gir Lei­tei­ro, no caso) e tam­bém a pro­ble­mas rela­ci­o­na­dos à sua auto­es­ti­ma. Na nos­sa equi­pe tinha uma pes­qui­sa­do­ra mui­to expe­ri­en­te, a dra. Maria Lucia Perei­ra Lima, que propôs fazer­mos umas pales­tras e cur­sos para os orde­nha­do­res, expli­can­do a impor­tân­cia do seu tra­ba­lho com os ani­mais e a rea­ção dos ani­mais ao mane­jo. Era um café com pro­sa, logo após a orde­nha da tar­de. Bin­go! Ela sal­vou o pro­je­to de pes­qui­sa. O aco­lhi­men­to, a visão e o reco­nhe­ci­men­to sur­ti­ram um efei­to mui­to posi­ti­vo na vida de todos (orde­nha­do­res, estu­dan­tes de mes­tra­do e pes­qui­sa­do­res) a tal pon­to que os pró­pri­os orde­nha­do­res pro­pu­se­ram ado­tar o mane­jo no dia a dia da fazen­da. Os ganhos para o bem-estar dos ani­mais foram imensos. 

BB – Quais seus objetivos profissionais atuais e futuros?

LFZ - Meus obje­ti­vos pro­fis­si­o­nais atu­ais são con­ti­nu­ar me dedi­can­do às ori­en­ta­ções dos alu­nos que se inte­res­sam pela área e às pes­qui­sas na área de melho­ra­men­to gené­ti­co de bovi­nos lei­tei­ros, mas com cer­ta ênfa­se em com­por­ta­men­to e fisi­o­lo­gia do tem­pe­ra­men­to do zebuí­no na orde­nha. Uma per­gun­ta que sem­pre me faço é por que a fêmea zebuí­na ou mes­mo as fême­as mes­ti­ças neces­si­tam da pre­sen­ça do bezer­ro para esti­mu­lar a des­ci­da do lei­te? As fême­as tau­ri­nas não neces­si­tam da pre­sen­ça do bezer­ro e isso foi con­sequên­cia da sele­ção gené­ti­ca de déca­das para o aumen­to da pro­du­ção, para o tem­pe­ra­men­to? Este é um gran­de desa­fio dos melho­ris­tas, cri­a­do­res e téc­ni­cos em geral. Hoje se sabe que mui­tos reba­nhos zebuí­nos (a mai­o­ria tal­vez) ado­tam a apli­ca­ção de oci­to­ci­na exó­ge­na como uma prá­ti­ca diá­ria para esti­mu­lar a des­ci­da do lei­te da fêmea zebuí­na, com a fina­li­da­de de faci­li­tar o mane­jo, reti­ran­do o bezer­ro da sala de orde­nha. O uso diá­rio da oci­to­ci­na pode cau­sar redu­ção da eje­ção espon­tâ­nea do lei­te devi­do a uma des­sen­si­bi­li­za­ção do úbe­re para esse hormô­nio e, con­se­quen­te­men­te, na menor con­tra­ção das célu­las mio­e­pi­te­li­ais da glân­du­la mamá­ria. Uma vez ado­ta­do esse mane­jo, os ani­mais sem­pre pre­ci­sa­rão das apli­ca­ções do hormô­nio, dia­ri­a­men­te. Assim, será que por meio de sele­ção de ani­mais com mai­or núme­ro de recep­to­res de oci­to­ci­na seria pos­sí­vel empre­gar infor­ma­ções genô­mi­cas nos estu­dos? Será que são mui­to genes os res­pon­sá­veis por essa heran­ça? Será que exis­te, entre os zebuí­nos, vari­a­bi­li­da­de gené­ti­ca popu­la­ci­o­nal para essas carac­te­rís­ti­cas, como a dosa­gem de oci­to­ci­na, para a faci­li­da­de de orde­nha? Os obje­ti­vos pro­fis­si­o­nais futu­ros? Os mes­mos do presente!

BB – Para as filhas de produtores, ou jovens acadêmicas ou técnicas que queiram chegar a sua posição, qual seria seu recado?

LFZ - MA cadeia do lei­te é mui­to desa­fi­a­do­ra para os pro­du­to­res e para os téc­ni­cos. O lei­te é um pro­du­to essen­ci­al para a popu­la­ção, mas tão sujei­to às osci­la­ções do mer­ca­do! Os pro­du­to­res são desa­fi­a­dos todos os dias e os sis­te­mas de pro­du­ção são tão hete­ro­gê­ne­os por este Bra­sil afo­ra. Raças puras tau­ri­nas ou zebuí­nas, ani­mais mes­ti­ços, cli­mas dis­tin­tos, mudan­ças cli­má­ti­cas, sis­te­mas de pro­du­ção em pas­to ou con­fi­na­dos ou semi­con­fi­na­dos, mão de obra pou­co qua­li­fi­ca­da, às vezes. E a remu­ne­ra­ção e os sis­te­mas de paga­men­to e boni­fi­ca­ção ado­ta­dos pela indús­tria? Um desa­fio com­pre­en­dê-los! Digo a elas que se dedi­quem por­que o desa­fio é mui­to gran­de. Entre­tan­to, é mui­to pra­ze­ro­so quan­do a gen­te alcan­ça bons resul­ta­dos com peque­nas ações.

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