Preço ao produtor atinge R$ 3,19/litro e é recorde da série do Cepea - Digital Balde Branco

COLUNA DO CEPEA

Natália Grigol

Pesquisadora do Cepea

O aumen­to dos pre­ços dos insu­mos agro­pe­cuá­ri­os tem ele­va­do con­si­de­ra­vel­men­te os cus­tos de pro­du­ção des­de 2019, pres­si­o­nan­do as mar­gens dos pro­du­to­res por mui­tos meses”

Preço ao produtor atinge R$ 3,19/litro e é recorde da série do Cepea 

O pre­ço do lei­te cap­ta­do em junho/22 e pago aos pro­du­to­res em julho/22 avan­çou 19,1% fren­te ao mês ante­ri­or, che­gan­do a R$ 3,1932/litro na “Média Bra­sil” líqui­da do Cepea (Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da), da Esalq/USP. Esse valor é recor­de real da série his­tó­ri­ca do Cepea, ini­ci­a­da em 2004 e está 24,7% aci­ma da média regis­tra­da no mes­mo perío­do do ano pas­sa­do. Com esta sex­ta alta men­sal con­se­cu­ti­va, o lei­te no cam­po acu­mu­la valo­ri­za­ção real de 42,7% des­de janei­ro (valo­res defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de junho/22).

Esse expres­si­vo aumen­to se expli­ca pela menor ofer­ta de lei­te no cam­po em junho e pela mai­or dis­pu­ta das indús­tri­as de lati­cí­ni­os pela com­pra da maté­ria-pri­ma para a pro­du­ção de lác­te­os, para ten­tar evi­tar capa­ci­da­de oci­o­sa de suas plan­tas. Segun­do pes­qui­sa do Cepea, o lei­te spot se valo­ri­zou 20,8% da pri­mei­ra para a segun­da quin­ze­na de junho, che­gan­do a R$ 4,16/litro. A média men­sal, de R$ 3,80/litro, ficou 26,2% mai­or que a regis­tra­da em maio. Dian­te do aumen­to no cus­to da maté­ria-pri­ma e com esto­ques bai­xos, os pre­ços dos deri­va­dos lác­te­os dis­pa­ra­ram em junho.

A dimi­nui­ção da pro­du­ção de lei­te no cam­po e, con­se­quen­te­men­te, a redu­ção dos esto­ques de lác­te­os no últi­mo mês está rela­ci­o­na­da ao avan­ço do perío­do de entres­sa­fra em um con­tex­to de redu­ção de inves­ti­men­tos na atividade.

O aumen­to dos pre­ços dos insu­mos agro­pe­cuá­ri­os tem ele­va­do con­si­de­ra­vel­men­te os cus­tos de pro­du­ção des­de 2019, pres­si­o­nan­do as mar­gens dos pro­du­to­res por mui­tos meses. Nes­se cená­rio, mui­tos pecu­a­ris­tas enxu­ga­ram inves­ti­men­tos ou saí­ram da ati­vi­da­de. Des­se modo, o poten­ci­al de ofer­ta já vem em retra­ção há algum tem­po. Con­tu­do, a res­tri­ção da pro­du­ção ficou mais inten­sa com o avan­ço da entres­sa­fra em junho. Sazo­nal­men­te, espe­ra-se que a pro­du­ção de lei­te se redu­za devi­do ao inver­no e ao cli­ma mais seco, que dimi­nu­em a qua­li­da­de e a dis­po­ni­bi­li­da­de das pas­ta­gens, pre­ju­di­can­do, assim, a ali­men­ta­ção do reba­nho. E é pre­ci­so des­ta­car que, nes­te ano, o fenô­me­no cli­má­ti­co La Niña tam­bém inten­si­fi­cou os efei­tos sazo­nais de dimi­nui­ção da oferta.

PERS­PEC­TI­VA – Cola­bo­ra­do­res con­sul­ta­dos pelo Cepea afir­mam que a deman­da por lác­te­os se enfra­que­ceu duran­te a segun­da quin­ze­na de julho, deses­ti­mu­la­da pelos altos pre­ços nas gôn­do­las. Isso tem pres­si­o­na­do as cota­ções dos lác­te­os e do lei­te spot, indi­can­do que o pico de pre­ços ao lon­go da cadeia pro­du­ti­va já pode ter sido atin­gi­do.
Do pon­to de vis­ta da sazo­na­li­da­de, a pro­du­ção só deve ser incen­ti­va­da com o retor­no das chu­vas da pri­ma­ve­ra, em setem­bro. Con­tu­do, des­de maio, os cus­tos de pro­du­ção têm aumen­ta­do menos do que em meses ante­ri­o­res. E, ape­sar de os cus­tos com as ope­ra­ções mecâ­ni­cas segui­rem em alta devi­do à valo­ri­za­ção dos com­bus­tí­veis, a que­da nas cota­ções do milho tem favo­re­ci­do a ati­vi­da­de – o que pode bene­fi­ci­ar a reto­ma­da de inves­ti­men­to e a recu­pe­ra­ção mais rápi­da da produção.