COLUNA DO CEPEA

Natália Grigol

Pesquisadora do Cepea

  Mes­mo com os pre­ços do lei­te ele­va­dos, a pro­du­ção tem cres­ci­do pou­co em rela­ção à deman­da e o Índi­ce de Cap­ta­ção de Lei­te do Cepea (ICAP‑L) regis­trou avan­ço de 3,9% de julho para agos­to

Preço ao produtor chega a R$ 2,13/litro e renova recorde histórico

O pre­ço do lei­te cap­ta­do em agos­to e pago ao pro­du­tor em setem­bro aumen­tou 9,7% fren­te ao mês ante­ri­or (ou 18 cen­ta­vos) e che­gou a R$ 2,1319/litro na “Média Bra­sil” líqui­da, reno­van­do, por­tan­to, o recor­de real da série his­tó­ri­ca do Cepea (Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da). Assim, o pre­ço médio des­te mês está 51,4% supe­ri­or ao regis­tra­do em setem­bro do ano pas­sa­do, em ter­mos reais (dados defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de agosto/20).

De acor­do com pes­qui­sas do Cepea, o pre­ço do lei­te no cam­po regis­tra alta acu­mu­la­da de 56,4% des­de o iní­cio des­te ano. Essa expres­si­va valo­ri­za­ção é expli­ca­da pela mai­or con­cor­rên­cia das indús­tri­as de lati­cí­ni­os pela com­pra de maté­ria- pri­ma, já que a pro­du­ção de lei­te segue limi­ta­da. Mes­mo com os pre­ços do lei­te ele­va­dos, a pro­du­ção tem cres­ci­do pou­co em rela­ção à deman­da e o Índi­ce de Cap­ta­ção de Lei­te do Cepea (ICAP‑L) regis­trou avan­ço de 3,9% de julho para agos­to.

O aumen­to das cota­ções ao pro­du­tor entre mar­ço e agos­to é um fator sazo­nal, já que a cap­ta­ção de lei­te é pre­ju­di­ca­da pela bai­xa dis­po­ni­bi­li­da­de de pas­ta­gens, em decor­rên­cia da dimi­nui­ção das chu­vas no Sudes­te e no Cen­tro-Oes­te. Mas, nes­te ano, a situ­a­ção foi agra­va­da.

Do lado da pro­du­ção, deve-se des­ta­car que as con­di­ções cli­má­ti­cas esti­ve­ram mais seve­ras em 2020, com des­ta­que para a esti­a­gem no Sul do País, que impac­tou nega­ti­va­men­te sobre a ati­vi­da­de lei­tei­ra. Tam­bém é pre­ci­so dizer que o aumen­to nos cus­tos de pro­du­ção em rela­ção ao ano ante­ri­or tem difi­cul­ta­do os inves­ti­men­tos na pro­du­ção. Soma­do a isso, a atí­pi­ca que­da de pre­ços ao pro­du­tor em maio (dian­te das incer­te­zas no mer­ca­do iní­cio da pan­de­mia) dei­xou os pecu­a­ris­tas mais cau­te­lo­sos – mui­tos seca­ram as vacas ou dimi­nuí­ram os inves­ti­men­tos. Essas ações no pas­sa­do difi­cul­ta­ram a reto­ma­da do cres­ci­men­to da pro­du­ção, já que a ati­vi­da­de lei­tei­ra é diá­ria e seu pla­ne­ja­men­to tem efei­tos tan­to ime­di­a­tos quan­to nos meses pos­te­ri­o­res.

Outro moti­vo é a redu­ção con­si­de­rá­vel dos esto­ques de deri­va­dos lác­te­os. Isso está atre­la­do à recu­pe­ra­ção do con­su­mo, anco­ra­do nos pro­gra­mas de auxí­lio emer­gen­ci­al. Há, tam­bém, que se des­ta­car que, no pri­mei­ro semes­tre, o volu­me de impor­ta­ções de lác­te­os foi enxu­to, devi­do à des­va­lo­ri­za­ção do Real fren­te a moe­das estran­ge­ri­as – o que con­tri­buiu para a deman­da supe­rar a ofer­ta e para a con­cor­rên­cia acir­ra­da das indús­tri­as de lati­cí­ni­os na com­pra de matéria-prima.

EXPEC­TA­TI­VA – De acor­do com agen­tes de mer­ca­do, o movi­men­to de alta no cam­po deve per­der for­ça nos pró­xi­mos meses. Isso por­que o final da entres­sa­fra se apro­xi­ma com o iní­cio da pri­ma­ve­ra e com con­di­ções cli­má­ti­cas mais favo­rá­veis para a pro­du­ção lei­tei­ra. Além dis­so, a indús­tria tem aumen­ta­do as impor­ta­ções de lác­te­os, visan­do dimi­nuir a dis­pu­ta pela com­pra de maté­ria-pri­ma. Como con­sequên­cia des­sa expec­ta­ti­va de mai­or dis­po­ni­bi­li­da­de de lei­te e deri­va­dos, pes­qui­sas do Cepea mos­tram que o pre­ço médio do lei­te spot em Minas Gerais se ele­vou ape­nas 0,2% na pri­mei­ra quin­ze­na de setem­bro e recu­ou 5,5% na segun­da quin­ze­na do mês, che­gan­do a R$ 2,61/litro.

O acom­pa­nha­men­to diá­rio das nego­ci­a­ções de deri­va­dos duran­te a pri­mei­ra quin­ze­na de setem­bro tam­bém indi­cou desa­ce­le­ra­ção dos pre­ços, devi­do à pres­são dos canais de dis­tri­bui­ção e ao endu­re­ci­men­to das nego­ci­a­ções. Na par­ci­al de setem­bro (con­si­de­ran­do-se pre­ços até o dia 29), as que­das nos valo­res médi­os da muça­re­la e do lei­te UHT nego­ci­a­dos no esta­do de São Pau­lo foram de res­pec­ti­vos 1,5% e de 3,3%. Assim, exis­te uma ten­dên­cia de esta­bi­li­da­de-que­da para o pre­ço do lei­te cap­ta­do em setem­bro e a ser pago em outubro.

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