COLUNA DO CEPEA

Natália Grigol

Pesquisadora do Cepea

  As pers­pec­ti­vas nega­ti­vas sobre o con­su­mo no médio e no lon­go pra­zos dian­te da pan­de­mia de covid-19 aumen­ta­ram o nível de incer­te­za em abril e dimi­nuí­ram o inves­ti­men­to das indús­tri­as em esto­ques

Preço ao produtor sobe 16% em julho e atinge recorde para o mês

O pre­ço do lei­te ao pro­du­tor em julho, refe­ren­te à cap­ta­ção de junho, atin­giu R$ 1,7573/litro na “Média Bra­sil” líqui­da do Cepea (Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da), da Esalq/USP, expres­si­vas altas de 16,1% em rela­ção ao mês ante­ri­or e de 25% fren­te a igual perío­do do ano pas­sa­do (a série foi defla­ci­o­na­da pelo IPCA de junho/2020). Esse é o mai­or valor regis­tra­do para um mês de julho e o segun­do mais alto de toda a série his­tó­ri­ca do Cepea (des­de 2004), atrás ape­nas da média de agosto/2016 (R$ 1,7751/litro).

A ele­va­ção nos pre­ços se deve à mai­or com­pe­ti­ção entre as indús­tri­as de lati­cí­ni­os para garan­tir a com­pra de maté­ria-pri­ma em junho. A con­cor­rên­cia acir­ra­da, por sua vez, este­ve atre­la­da à neces­si­da­de de se refa­ze­rem esto­ques de deri­va­dos lác­te­os. Tipi­ca­men­te, as indús­tri­as empe­nham esfor­ços nes­sa dire­ção antes de abril, pre­ven­do que a cap­ta­ção caia nos meses pos­te­ri­o­res. Con­tu­do, nes­te ano, as pers­pec­ti­vas nega­ti­vas sobre o con­su­mo no médio e no lon­go pra­zos dian­te da pan­de­mia de covid-19 aumen­ta­ram o nível de incer­te­za em abril e dimi­nuí­ram o inves­ti­men­to das indús­tri­as em estoques.

Com a rea­ção no con­su­mo (anco­ra­da nos pro­gra­mas de auxí­lio emer­gen­ci­al), as ven­das de lác­te­os se for­ta­le­ce­ram em maio e junho, redu­zin­do ain­da mais os esto­ques. Dian­te dis­so, hou­ve expres­si­vas altas nos pre­ços dos deri­va­dos lác­te­os em junho: de 17,7% no caso do UHT, de 23% para a muça­re­la e de 10,9% no lei­te em pó. No cam­po, a ofer­ta res­tri­ta em junho resul­tou em dis­pa­ra­da no valor do lei­te spot. Na média de junho, o pre­ço do lei­te spot em Minas Gerais ficou 45% aci­ma do de maio, em ter­mos nomi­nais, che­gan­do a R$ 2,28/litro.

É impor­tan­te res­sal­tar que exis­te uma ten­dên­cia típi­ca de aumen­to das cota­ções ao pro­du­tor entre mar­ço e agos­to, devi­do à sazo­na­li­da­de da pro­du­ção. Nes­te perío­do, a cap­ta­ção de lei­te é pre­ju­di­ca­da pela bai­xa dis­po­ni­bi­li­da­de de pas­ta­gens, em decor­rên­cia da dimi­nui­ção das chu­vas no Sudes­te e Cen­tro-Oes­te. No entan­to, o Índi­ce de Cap­ta­ção Lei­tei­ra (Icap‑L) do Cepea regis­trou alta de 4,5% fren­te a maio na “Média Bra­sil”, puxa­do pelos aumen­tos de 10% no volu­me cap­ta­do no Rio Gran­de do Sul, de 7% em San­ta Cata­ri­na e de 7,4% no Para­ná. A mai­or cap­ta­ção no Sul, por sua vez, este­ve rela­ci­o­na­da às melho­res con­di­ções cli­má­ti­cas e tam­bém à ampli­a­ção do for­ne­ci­men­to de con­cen­tra­do e sila­gem, esti­mu­la­dos pelos ele­va­dos pata­ma­res de pre­ços do leite.

Cus­tos tam­bém em alta - É impor­tan­te lem­brar que, com­pa­ra­do ao ano ante­ri­or, os cus­tos de pro­du­ção lei­tei­ra estão mai­o­res. Pes­qui­sas do Cepea mos­tram que, com o recuo nas cota­ções do milho em junho, o pecu­a­ris­ta lei­tei­ro regis­trou melhor rela­ção de tro­ca este ano fren­te ao cere­al, sen­do neces­sá­ri­os 35,2 litros de lei­te para a aqui­si­ção de uma saca de 60 kg de milho. Entre­tan­to, em junho de 2019, eram neces­sá­ri­os 24,9 litros por saca de 60 kg. Des­sa for­ma, o poder de com­pra do pro­du­tor de lei­te dimi­nuiu qua­se 30% na com­pa­ra­ção anual.