COLUNA DO CEPEA

Natália Grigol

Pesquisadora do Cepea

  Enquan­to em Goiás e Minas Gerais a valo­ri­za­ção de setem­bro para outu­bro se limi­tou a 0,1%, em São Pau­lo, Rio Gran­de do Sul, Para­ná e
San­ta Cata­ri­na, as altas esti­ve­ram entre 3% e 4,5%.”

Preço do leite captado em setembro e pago em outubro se mantém em alta

O pre­ço do lei­te cap­ta­do em setem­bro e pago ao pro­du­tor em outu­bro avan­çou por mais um mês, reno­van­do o recor­de real da série his­tó­ri­ca do Cepea (Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da), da Esalq- USP. De acor­do com pes­qui­sas do Cepea, a “Média Bra­sil” líqui­da de outu­bro teve alta de 1,25%, che­gan­do a R$ 2,1586/litro. O valor é 53,6% mai­or que o regis­tra­do em igual mês do ano pas­sa­do, em ter­mos reais. Com isso, o pre­ço do lei­te no cam­po regis­tra alta real acu­mu­la­da de 57,4% des­de o iní­cio des­te ano (os dados foram defla­ci­o­na­dos pelo IPCA de setembro/2020).

O aumen­to das cota­ções ocor­reu de for­ma dife­ren­ci­a­da den­tre os Esta­dos acom­pa­nha­dos pela pes­qui­sa do Cepea. Enquan­to em Goiás e Minas Gerais a valo­ri­za­ção de setem­bro para outu­bro se limi­tou a 0,1%, em São Pau­lo, Rio Gran­de do Sul, Para­ná e San­ta Cata­ri­na, as altas esti­ve­ram entre 3% e 4,5%. Já na Bahia, hou­ve for­te ele­va­ção de 6,4%.

O avan­ço no pre­ço do lei­te cap­ta­do em setem­bro é expli­ca­do pela mai­or con­cor­rên­cia das indús­tri­as de lati­cí­ni­os pela com­pra de maté­ria-pri­ma naque­le mês, já que a pro­du­ção de lei­te seguiu limi­ta­da e abai­xo das expec­ta­ti­vas dos agen­tes. Ao mes­mo tem­po, a deman­da por lác­te­os per­ma­ne­ceu ele­va­da.

Do lado da ofer­ta, é impor­tan­te res­sal­tar que setem­bro é, tra­di­ci­o­nal­men­te, um mês de tran­si­ção para a pro­du­ção lei­tei­ra no Sudes­te e Cen­tro-Oes­te, devi­do às alte­ra­ções cli­má­ti­cas des­se perío­do. Nes­te ano, o menor volu­me de chu­vas e a ele­va­da osci­la­ção das tem­pe­ra­tu­ras pre­ju­di­ca­ram a reto­ma­da da ati­vi­da­de nes­sa épo­ca de tran­si­ção. No Sul do País, por sua vez, a pro­du­ção de lei­te tam­bém não teve uma reto­ma­da tão inten­sa quan­to o espe­ra­do. Tam­bém é pre­ci­so dizer que o aumen­to nos cus­tos de pro­du­ção, em espe­ci­al por cau­sa da for­te valo­ri­za­ção dos grãos, tem difi­cul­ta­do os inves­ti­men­tos no cam­po.

De acor­do com o Índi­ce de Cap­ta­ção Lei­tei­ra do Cepea (Icap‑L), a cap­ta­ção das empre­sas aumen­tou 3,1% de agos­to para setem­bro.

O con­su­mo, por outro lado, seguiu fir­me, anco­ra­do nos pro­gra­mas de auxí­lio emer­gen­ci­al. Porém, em setem­bro, as nego­ci­a­ções das indús­tri­as com os canais de dis­tri­bui­ção foram mais difí­ceis do que em meses ante­ri­o­res, em razão dos altos pata­ma­res de pre­ços dos lác­te­os. Isso oca­si­o­nou con­se­cu­ti­vas des­va­lo­ri­za­ções dos deri­va­dos ao lon­go de setem­bro. Mes­mo assim, pes­qui­sas do Cepea mos­tram que, na média men­sal, o lei­te UHT, o quei­jo muça­re­la e o lei­te em pó ain­da tive­ram valo­ri­za­ções de 0,8%, 3,5% e 4,9%, res­pec­ti­va­men­te, fren­te a agos­to. No caso do lei­te spot nego­ci­a­do em Minas Gerais, os valo­res caí­ram na pri­mei­ra e segun­da quin­ze­nas de setem­bro, mas a média men­sal ain­da supe­rou em 1,1% a de agos­to. O desem­pe­nho des­ses mer­ca­dos pos­si­bi­li­tou a sus­ten­ta­ção do pre­ço do lei­te cap­ta­do em setem­bro e pago ao pro­du­tor em outubro.


Outu­bro – Con­tu­do, esse cená­rio de valo­ri­za­ção não deve se man­ter nos pró­xi­mos meses. De acor­do com pes­qui­sas do Cepea, as nego­ci­a­ções de deri­va­dos com os canais de dis­tri­bui­ção foram mais trun­ca­das e hou­ve mai­or pres­são para a redu­ção dos pre­ços em outu­bro. É impor­tan­te sali­en­tar que a valo­ri­za­ção inten­sa de alguns gêne­ros ali­men­tí­ci­os nos últi­mos meses tem pesa­do sobre a deci­são de con­su­mo do bra­si­lei­ro, o que tam­bém resul­ta em mai­or com­pe­ti­ção entre redes vare­jis­tas para atrair cli­en­tes com pre­ços bai­xos.

Con­si­de­ran­do-se as médi­as men­sais par­ci­ais de outu­bro (até 28/10), os pre­ços de UHT, muça­re­la e lei­te em pó (400 gra­mas) esti­ve­ram em R$ 3,21/litro, R$ 27,25/kg e R$ 24,15/kg, res­pec­ti­va­men­te, recu­os de 9,9%, 7,3% e 1,5% em rela­ção a setembro/2020.

É pre­ci­so lem­brar que, além da pres­são da deman­da, os pre­ços no cam­po devem ser nega­ti­va­men­te influ­en­ci­a­dos pela mai­or dis­po­ni­bi­li­da­de de lei­te e de lác­te­os em outu­bro, por cau­sa da ques­tão sazo­nal, no pri­mei­ro caso, e do aumen­to de impor­ta­ções, no segun­do.

Dados da Secex mos­tram aumen­to de qua­se 63% no volu­me de lác­te­os impor­ta­do no ter­cei­ro tri­mes­tre de 2020 em rela­ção a igual perío­do do ano pas­sa­do. As com­pras exter­nas de lác­te­os ocor­rem mes­mo com a rela­ção cam­bi­al des­van­ta­jo­sa para ten­tar con­ter a res­tri­ção de ofer­ta domés­ti­ca.

Como con­sequên­cia, já se obser­va que­da expres­si­va nos pre­ços do lei­te spot (nego­ci­a­do entre indús­tri­as). Na média de outu­bro, em Minas Gerais, o spot che­gou a R$ 2,23/litro, redu­ção de 16,8% em rela­ção à média de setembro.

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