Preço do leite longa vida bate recorde - Digital Balde Branco

MERCADO

Jéssica Olivier

Engenheira agrônoma, Scot Consultoria

Preço do leite longa vida bate recorde

Com a que­da da pro­du­ção, a cota­ção do lei­te ao pro­du­tor sobe e é repas­sa­da para o vare­jo. O pre­ço do lei­te lon­ga vida nas gôn­do­las dos super­mer­ca­dos bateu nos R$ 9,00 por litro. Os moti­vos para aumen­to tão expres­si­vo estão cla­ros. Nos últi­mos meses, as baci­as lei­tei­ras do Sul do Bra­sil sofre­ram seca inten­sa, devi­do ao fenô­me­no cli­má­ti­co La Niña, que pre­ju­di­cou a pro­du­ção de ali­men­tos – pas­ta­gens e grãos.

Além dis­so, os cus­tos de pro­du­ção aumen­ta­ram, com os pre­ços do milho e da soja – prin­ci­pais insu­mos uti­li­za­dos na ali­men­ta­ção de bovi­nos – subin­do, além do cus­to do fre­te, da alta dos pre­ços dos defen­si­vos, fer­ti­li­zan­tes, da valo­ri­za­ção do dólar, além da que­bra da pri­mei­ra safra no Bra­sil (2021/22).

Em fun­ção dis­so, mui­tos pro­du­to­res de lei­te desis­ti­ram da ati­vi­da­de, uma vez que as mar­gens, já aper­ta­das, fica­ram ain­da meno­res, resul­tan­do em pre­juí­zo para mui­tos. A pro­du­ção caiu. Com isso, os pre­ços vigen­tes no cam­po, paga­men­to ao pro­du­tor pela maté­ria-pri­ma, subi­ram e estão sen­do repas­sa­dos na comer­ci­a­li­za­ção do lei­te e seus deri­va­dos no atacado.

Quan­to ao lei­te no vare­jo, a fim de com­pa­ra­ção, trou­xe­mos os pre­ços nomi­nais e reais (figu­ra ao lado).

O pre­ço atu­al (junho) é recor­de, con­si­de­ran­do o pre­ço defla­ci­o­na­do do lei­te lon­ga vida. Os recor­des ante­ri­o­res foram regis­tra­dos em junho de 2009 e outu­bro de 2020.

Qual o hori­zon­te para o pre­ço do lei­te? No cur­to pra­zo, a dimi­nui­ção da cap­ta­ção de lei­te bra­si­lei­ra deve con­ti­nu­ar agin­do. Vemos uma pos­sí­vel dimi­nui­ção no pre­ço do milho, com o aumen­to da ofer­ta com o avan­ço da colhei­ta, entre­tan­to, não é espe­ra­do que seja um recuo expres­si­vo, devi­do à menor ofer­ta no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal. Tam­bém não se vê o fim da guer­ra no Les­te Euro­peu, a fim de nor­ma­li­zar o for­ne­ci­men­to de grãos e fertilizantes.

O perío­do seco do ano vai até outu­bro e, até lá, a qua­li­da­de das pas­ta­gens será bai­xa, assim como a quan­ti­da­de produzida.

Assim, a expec­ta­ti­va é de mais aumen­tos no pre­ço do lei­te pago ao pro­du­tor. Con­se­quen­te­men­te, os pre­ços no vare­jo devem acom­pa­nhar esse movi­men­to no cur­to e médio pra­zo até a rever­são do qua­dro pin­ta­do nes­se artigo.

SEGURO RURAL

A expec­ta­ti­va para o Pla­no Safra 2022/23 é atin­gir a mar­ca de R$ 2 bilhões de sub­ven­ções do prê­mio do segu­ro rural. O sub­sí­dio nas Regiões Nor­te e Nor­des­te será de 30% para a seme­a­du­ra com soja e 45% para as demais cul­tu­ras, man­ten­do os por­cen­tu­ais atu­ais para outras regiões. Estão pre­vis­tos tam­bém por­cen­tu­ais dife­ren­ci­a­dos para pro­du­to­res rurais que ado­ta­rem o Pro­gra­ma ABC+, em que 25% serão des­ti­na­dos para a cul­tu­ra da soja e 45% para outras culturas. 

Além dis­so, serão apli­ca­das novas meto­do­lo­gi­as no pro­gra­ma naci­o­nal de Zone­a­men­to Agrí­co­la de Ris­co Cli­má­ti­co (Zarc) em par­ce­ria com a Embra­pa e apoio do Ban­co Cen­tral, além de mai­or aper­fei­ço­a­men­to de cer­ti­fi­ca­ções dos pro­fis­si­o­nais do segu­ro rural rea­li­za­do pelo Minis­té­rio da Agricultura.

LANÇAMENTO DO PLANO SAFRA 2022/23

O volu­me de cré­di­to do Pla­no Safra 2022/2023, anun­ci­a­do em 29 de junho, foi de R$ 340,88 bilhões, aumen­to de 36% em rela­ção ao pla­no ante­ri­or. Os recur­sos e as novas taxas vale­rão até 30/6/2023 e entra­ram em vigor em 1º/7/2022.

Os peque­nos e médi­os pro­du­to­res per­ma­ne­cem sen­do pri­o­ri­da­de, não ape­nas pela mai­or dis­po­ni­bi­li­da­de de recur­sos, mas tam­bém pelas taxas de juros meno­res quan­do com­pa­ra­das às taxas livres no mercado.

O pla­no apos­ta tam­bém na diver­si­fi­ca­ção das fon­tes de finan­ci­a­men­to, prin­ci­pal­men­te na mai­or par­ti­ci­pa­ção de meca­nis­mos pri­va­dos de finan­ci­a­men­to da empre­sa agrícola.

Para isso, mais recur­sos serão ofer­ta­dos por meio das Letras de Cré­di­tos do Agro­ne­gó­cio (LCA), além do aumen­to do limi­te de uti­li­za­ção des­ses recur­sos para aqui­si­ção de direi­tos cre­di­tó­ri­os do agro­ne­gó­cio, poden­do gerar um aumen­to de outros títu­los, como Cédu­la de Pro­du­to Rural (CPR) e Cer­ti­fi­ca­do de Rece­bí­veis do Agro­ne­gó­cio (CRA).

Des­ta­ques
O mon­tan­te de recur­sos equa­li­za­dos aumen­tou 13%, com R$ 115,8 bilhões. Em rela­ção aos recur­sos com juros con­tro­la­dos, o valor nomi­nal subiu 18%, che­gan­do a R$ 195,7 bilhões. Com rela­ção aos recur­sos com juros livres de mer­ca­do, foram ofer­ta­dos R$ 145,18 bilhões, volu­me 69% mai­or em rela­ção ao últi­mo Pla­no Safra.
Dos recur­sos apre­sen­ta­dos, R$ 246,28 bilhões serão des­ti­na­dos ao cus­teio e comer­ci­a­li­za­ção, incre­men­to de 39% no com­pa­ra­ti­vo anu­al. Para inves­ti­men­tos, os recur­sos aumen­ta­ram 29% no mes­mo com­pa­ra­ti­vo, tota­li­zan­do R$ 94,6 bilhões.
Serão des­ti­na­dos R$ 53,61 bilhões ao Pro­naf, R$ 43,75 bilhões ao Pro­namp, sen­do 100% des­ses recur­sos de taxas de juros con­tro­la­dos, e R$ 243,52 bilhões aos demais pro­du­to­res e cooperativas.

PROGRAMA DE CONSTRUÇÃO E AMPLIAÇÃO DE ARMAZÉNS (PCA)

Os recur­sos para a cons­tru­ção e ampli­a­ção de arma­zéns tam­bém aumen­ta­ram, com uma das meno­res taxas de juros do pla­no para inves­ti­men­to, assim como o ABC+. Serão des­ti­na­dos R$ 5,13 bilhões, com limi­te de finan­ci­a­men­to de R$ 50 milhões para arma­ze­na­gem de grãos e R$ 25 milhões para o arma­ze­na­men­to de outros itens.

Con­si­de­ra­ções finais
O cré­di­to rural para a safra 2022/23 é mais impor­tan­te nes­te ano, dian­te do cená­rio inter­na­ci­o­nal con­tur­ba­do e do aumen­to da taxa bási­ca de juros (Selic) no País. A pro­mes­sa de um pla­no safra “robus­to” foi aten­di­da. Mas, ain­da assim, há pre­o­cu­pa­ções quan­to à capa­ci­da­de para aten­der às neces­si­da­des do mer­ca­do, olhan­do para o con­tex­to econô­mi­co mun­di­al vigente.

SUSTENTABILIDADE

O Pro­gra­ma para Redu­ção de Emis­são de Gases de Efei­to Estu­fa na Agri­cul­tu­ra (Pro­gra­ma ABC+), prin­ci­pal linha para finan­ci­a­men­to para téc­ni­cas sus­ten­tá­veis de pro­du­ção, tam­bém melho­rou e atin­giu o mai­or volu­me de recur­sos des­de seu lan­ça­men­to, com R$ 6,19 bilhões, e as meno­res taxas de juros do pla­no 2022/23.

Além dis­so, há tam­bém a pre­o­cu­pa­ção com uma menor depen­dên­cia da impor­ta­ção de fer­ti­li­zan­tes, por meio do finan­ci­a­men­to de remi­ne­ra­li­za­do­res de solo (pó de rocha) e incen­ti­vo à uti­li­za­ção de fon­tes de ener­gia renováveis.