COLUNA DO CEPEA

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Natália Grigol

Pesquisadora do CEPEA

PREÇO PAGO AO PRODUTOR SEGUE FIRME EM ABRIL

   Pesqui­sas do Cen­tro de Estu­dos Avan­ça­dos em Eco­no­mia Apli­ca­da (Cepea), da Esalq/USP, mos­tram que o pre­ço do lei­te pago ao pro­du­tor em abril (refe­ren­te ao volu­me cap­ta­do em mar­ço) regis­trou ligei­ra alta de 0,97% fren­te ao mês ante­ri­or, che­gan­do a R$ 1,4515/litro na “Média Bra­sil” líquida.

   Como o valor pago ao pro­du­tor é for­ma­do depois das nego­ci­a­ções quin­ze­nais do lei­te spot (comer­ci­a­li­za­ção de lei­te cru entre indús­tri­as) e das ven­das de deri­va­dos lác­te­os, as cota­ções no cam­po de abril refle­tem o cená­rio de mar­ço e, por isso, ain­da não foram for­te­men­te influ­en­ci­a­das pela cri­se do coro­na­ví­rus – que, vale lem­brar, come­çou a ganhar for­ça na segun­da quin­ze­na de mar­ço no Brasil.

   Assim, a manu­ten­ção do pre­ço no cam­po em pata­ma­res ele­va­dos este­ve atre­la­da à con­cor­rên­cia entre lati­cí­ni­os para garan­tir a com­pra de maté­ria-pri­ma em mar­ço, já que a ofer­ta de lei­te no cam­po seguiu limi­ta­da. O Índi­ce de Cap­ta­ção Lei­tei­ra (Icap‑L) do Cepea regis­trou nova que­da de feve­rei­ro para mar­ço, de 4,3% na “Média Bra­sil” e acu­mu­la bai­xa de 11,5% nes­te ano. O recuo na cap­ta­ção em mar­ço ocor­re em razão do cli­ma menos favo­rá­vel à ati­vi­da­de, com des­ta­que para a esti­a­gem no sul do País. Por cau­sa da dimi­nui­ção na ofer­ta no cam­po, o lei­te spot (nego­ci­a­do entre indús­tri­as) regis­trou alta nas duas quin­ze­nas de mar­ço, com a média sen­do 5% supe­ri­or à de feve­rei­ro em Minas Gerais.

   Quan­to ao con­su­mo de lác­te­os, os impac­tos do coro­na­ví­rus come­ça­ram a ser obser­va­dos a par­tir de 17 de mar­ço, quan­do a pes­qui­sa diá­ria do Cepea, rea­li­za­da com o apoio finan­cei­ro da OCB, regis­trou cho­que de deman­da para o lei­te UHT. Redes ata­ca­dis­tas e vare­jis­tas inten­si­fi­ca­ram a pro­cu­ra pelo deri­va­do, dian­te da for­te deman­da de cli­en­tes, que que­ri­am fazer esto­ques em razão das reco­men­da­ções de iso­la­men­to, con­sequên­cia da pan­de­mia de coro­na­ví­rus. Com a menor dis­po­ni­bi­li­da­de do pro­du­to, o pre­ço médio do UHT regis­trou for­te alta acu­mu­la­da de 24,8% no mês. A média men­sal de mar­ço, de R$ 2,66/litro, ficou 11,4% aci­ma da regis­tra­da em feve­rei­ro, em ter­mos reais (defla­ci­o­na­do pelo IPCA de março/2020).

   Por outro lado, com o fecha­men­to de redes de ser­vi­ço e ali­men­ta­ção, o con­su­mo de lác­te­os refri­ge­ra­dos, como quei­jos, foi mui­to pre­ju­di­ca­do. A pes­qui­sa diá­ria do Cepea mos­trou que o pre­ço médio da muça­re­la rece­bi­do pelas indús­tri­as em nego­ci­a­ções no esta­do de São Pau­lo teve que­da acu­mu­la­da de 0,97% em mar­ço. Porém, na com­pa­ra­ção entre as médi­as men­sais de feve­rei­ro e mar­ço, hou­ve alta de 1%, com o pre­ço che­gan­do a R$ 19,12/kg.

 

   MAIO - As difi­cul­da­des no esco­a­men­to de quei­jos leva­ram ao aumen­to do volu­me de lei­te dis­po­ní­vel no mer­ca­do spot em abril. Em Minas Gerais, o pre­ço médio do lei­te spot caiu 7,3% na pri­mei­ra e 11,7% na segun­da quin­ze­na des­te mês, res­pec­ti­va­men­te.

   Ao mes­mo tem­po, a dimi­nui­ção da frequên­cia das com­pras por par­te dos con­su­mi­do­res e a redu­ção da ren­da de mui­tas famí­li­as afe­ta­ram nega­ti­va­men­te o con­su­mo de diver­sos deri­va­dos em abril.

   A pes­qui­sa diá­ria do Cepea mos­trou que, de 1º a 29 de abril, os pre­ços médi­os do UHT e da muça­re­la regis­tra­ram que­das acu­mu­la­das de 15,8% e de 8,5%, res­pec­ti­va­men­te. A ele­va­da incer­te­za da atu­al con­jun­tu­ra tem influ­en­ci­a­do a deci­são dos agen­tes em recom­por esto­ques, dado o con­tex­to em que não há boas pers­pec­ti­vas para o con­su­mo de lon­go pra­zo, com a dimi­nui­ção da ren­da da popu­la­ção.

   As nego­ci­a­ções em que­da dos deri­va­dos e do spot no cor­rer de abril, por sua vez, indi­cam um cená­rio ruim para o pre­ço do lei­te que foi cap­ta­do nes­te mês e que será pago em maio. É pre­ci­so con­si­de­rar, con­tu­do, que a que­da na recei­ta dos pro­du­to­res num momen­to de alta nos cus­tos de pro­du­ção e pró­xi­mo ao perío­do típi­co de entres­sa­fra pode se refle­tir em aumen­to do aba­te de fême­as e na saí­da de pro­du­to­res da ati­vi­da­de lei­tei­ra. Assim, o momen­to é deli­ca­do, pois pri­vi­le­gia deci­sões foca­das no cur­to pra­zo, o que pode tra­zer con­sequên­ci­as nega­ti­vas para a ofer­ta no médio e no lon­go pra­zos – ain­da mais para uma ati­vi­da­de tão com­ple­xa quan­to a pro­du­ção de leite.