Produção de leite segue recuando, com piora na rentabilidade do produtor - Digital Balde Branco

LEITE EM NÚMEROS

Glauco Rodrigues Carvalho 

Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

“O desafio dos produtores de leite na gestão de custo nas fazendas tem sido gigante e a queda observada na oferta de leite ilustra bem isso”

Produção de leite segue recuando, com piora na rentabilidade do produtor

Na segun­da quin­ze­na de maio, o IBGE divul­gou o dado pre­li­mi­nar da Pes­qui­sa Tri­mes­tral do Lei­te, refe­ren­te à aqui­si­ção de lei­te pelos lati­cí­ni­os. O resul­ta­do sur­pre­en­deu, com uma que­da de 10,51% na com­pa­ra­ção com o pri­mei­ro tri­mes­tre de 2021. Essa foi a mai­or que­da em uma ava­li­a­ção tri­mes­tral des­de o iní­cio da pes­qui­sa, em 1997. O volu­me de lei­te adqui­ri­do foi equi­va­len­te ao obser­va­do em 2017, ou seja, cer­ca de cin­co anos atrás. Além dis­so, essa que­da no pri­mei­ro tri­mes­tre de 2022 é a quar­ta tri­mes­tral con­se­cu­ti­va, já que o volu­me de lei­te come­çou a recu­ar no segun­do tri­mes­tre de 2021 (Grá­fi­co).

Esse recuo da pro­du­ção este­ve asso­ci­a­do a uma pio­ra na ren­ta­bi­li­da­de dos pro­du­to­res, com a esca­la­da nos cus­tos de pro­du­ção a par­tir de mea­dos de 2020. O pre­ço médio do lei­te pago ao pro­du­tor, defla­ci­o­na­do pelo cus­to de pro­du­ção, recu­ou cer­ca de 9,37% no perío­do de janei­ro a abril de 2022 em rela­ção a igual perío­do de 2021. Como o pre­ço foi defla­ci­o­na­do pelo cus­to, pode­mos dizer que a mar­gem do pro­du­tor recu­ou essa mag­ni­tu­de no perío­do ana­li­sa­do. De fato, o incre­men­to de cus­to foi acen­tu­a­do, com ele­va­ção de 23,22% (Tabe­la).

Dos três com­po­nen­tes de ali­men­ta­ção do reba­nho que com­põem o ICPLeite/Embrapa, nes­sa com­pa­ra­ção entre o pri­mei­ro qua­dri­mes­tre de 2021 e o de 2022, o con­cen­tra­do foi o que menos subiu, até por­que sua ele­va­ção come­çou mais cedo, em mea­dos de 2020. Ain­da assim, o con­cen­tra­do regis­trou aumen­to de 15,25%. Já os mine­rais tive­ram alta de 51,91% no ano. Por fim, o volu­mo­so foi o que mais puxou, tan­to pela alta dos fer­ti­li­zan­tes quan­to dos com­bus­tí­veis, na estei­ra do aumen­to do petró­leo, do fre­te marí­ti­mo inter­na­ci­o­nal e da guer­ra entre Rús­sia e Ucrâ­nia. O gru­po de volu­mo­sos regis­trou ele­va­ção de 60,86% na com­pa­ra­ção anual. 

Uma outra manei­ra de se obser­var a evo­lu­ção rela­ti­va dos pre­ços e cus­tos é ana­li­sar a rela­ção de tro­ca, que é o quo­ci­en­te do pre­ço de uma cer­ta quan­ti­da­de uni­tá­ria do insu­mo pelo valor de um litro de lei­te. No caso do ali­men­to con­cen­tra­do, a rela­ção de tro­ca melho­rou para o pecu­a­ris­ta no perío­do ana­li­sa­do. Isso por­que milho e fare­lo de soja tive­ram valo­ri­za­ção infe­ri­or à do pre­ço do lei­te. No pri­mei­ro qua­dri­mes­tre de 2021 foram neces­sá­ri­os 1.467 litros de lei­te para com­prar 1 tone­la­da de fare­lo de soja. Um ano depois, essa quan­ti­da­de recu­ou para 1.324 litros de lei­te. O mes­mo ocor­reu com o milho. 

Des­sa for­ma, a quan­ti­da­de de lei­te neces­sá­ria para com­prar um saco de 60 kg de uma mis­tu­ra con­cen­tra­da com­pos­ta de 70% de milho e 30% de fare­lo de soja recu­ou em 6,56%, o que aju­dou o pro­du­tor de lei­te. Essa rela­ção tam­bém foi posi­ti­va quan­do se ana­li­sa o litro de lei­te com o salá­rio míni­mo, uma proxy para o cus­to da mão de obra. Nes­se perío­do, a quan­ti­da­de de lei­te para paga­men­to de um salá­rio míni­mo recu­ou 1,22%.

Por outro lado, pro­du­zir sila­gem e adu­bar as pas­ta­gens ficou bem mais com­pli­ca­do. Os fer­ti­li­zan­tes tive­ram valo­ri­za­ção expres­si­va no mer­ca­do inter­na­ci­o­nal e a guer­ra entre Rús­sia- Ucrâ­nia acen­tu­ou ain­da mais essa alta. A tone­la­da de ureia no mer­ca­do bra­si­lei­ro pas­sou de R$ 2.300 no iní­cio do ano pas­sa­do para cer­ca de R$ 5.800/tonelada em feve­rei­ro de 2022. O clo­re­to de potás­sio foi de R$ 2.000/tonelada para R$ 5.400/tonelada, che­gan­do a ser nego­ci­a­do a R$ 6.000/tonelada ao lon­go do últi­mo ano. 

Com isso, a rela­ção de tro­ca regis­trou pio­ra subs­tan­ci­al para esses insu­mos na pecuá­ria de lei­te. Em todos eles foi neces­sá­rio dobrar a quan­ti­da­de de lei­te para adqui­rir o mes­mo volu­me de insu­mos. Para com­ple­tar a lis­ta, hou­ve uma esca­la­da do pre­ço do die­sel, o que enca­re­ceu o tra­ba­lho com máqui­nas pró­pri­as, mas tam­bém a con­tra­ta­ção de horas-máqui­na de ter­cei­ros. Por­tan­to, o desa­fio dos pro­du­to­res de lei­te na ges­tão de cus­to nas fazen­das tem sido gigan­te e a que­da obser­va­da na ofer­ta de lei­te ilus­tra bem isso. No ras­tro des­se momen­to de adver­si­da­de tem ocor­ri­do um pro­ces­so mais ace­le­ra­do de con­so­li­da­ção no setor, com moder­ni­za­ção tec­no­ló­gi­ca da pro­du­ção, exi­gên­cia de mai­o­res inves­ti­men­tos e pres­são por eco­no­mia de escala.

Coau­tor: Jonas Car­va­lho Gomes Noguei­ra, gra­du­an­do em Eco­no­mia pela UFJF